Em 7 de julho de 1981 era formada uma das bandas mais importantes do punk rock brasiliense e nacional. Data essa que foi escolhida não só para celebrar seus 40 anos de existência, seus 7 álbuns de estúdio e 3 ao vivo, mas também para lançar um novo single. A Plebe Rude comemora essa data com “68“, o primeiro single do disco Evolução – Vol. II. O disco que da continuidade ao projeto conceitual “Evolução” de 2019, produzida pelo vocalista Philippe Seabra.

O projeto totaliza 28 músicas narrando a trajetória do ser humano na terra atráves de uma ampla análise do homem, do seu desenvolvimento e sua vivência em sociedade. O lyric vídeo do single “68” você pode conferir aqui.

A segunda parte do projeto havia sido finalizada antes do início da pandemia de covid-19, mas acabou sofrendo um atraso. Momento esse que serviu para atualização de uma faixa ainda inédita, chamada “A Hora de Parar”, abordando um momento bem atual nas palavras de Seabra:

“O ‘Volume 2’ começa na revolução industrial e segue a história desse curioso rebanho que tende a autodestruição. Mas durante o caminho quem sabe aprenda alguma coisa para reverter esse futuro sombrio.” 

Conversamos com o baixista e membro original da banda André x, explicando melhor o processo de produção dos novos trabalhos, o passado, presente e futuro.

Plebe Rude completa 40 anos

Plebe Rude completa 40
Anos de estrada. – Foto Por: Caru Leão

Entrevista Plebe Rude

A Turma da Colina é o conjunto de bandas de rock do fim dos anos 70 e início dos 80, que deu origem a Plebe Rude e a cena do rock brasiliense. Como funcionava a organização dos músicos? Havia colaborações?

André x (Plebe Rude):“Éramos um bando de amigos, tendo os músicos como núcleo. Chegamos juntos por nosso interesse pelo punk inglês, que estava ocorrendo no mesmo ano, 1977.

Víamos no punk, no faça você mesmo, uma saída para o tédio e falta de opções da cidade. Lembra que, naquela época, para obtermos informações era por meio de revistas e jornais. Íamos atrás na biblioteca da Cultura Inglesa, pedindo para professores ou diplomatas que iam para fora trazer para a gente discos, fitas ou jornais.

Tudo era compartilhado com todos. A turma foi crescendo, novas pessoas se agregando. Havia disputas com o status-quo da cidade, mais precisamente, os playboys do lago sul e outros reaça, que viam seu espaço ser tomado por pessoas mais divertidas, bem-humoradas e bonitas.

Mas, ao mesmo tempo, estranhas, com roupas e cabelos esquisitos. Tinha a repressão oficial também. Muito baculejo da polícia. Mas íamos em frente. O interessante é que havia muitas bandas. As que ganharam destaque, até pelos seus esforços próprios, foram o trio Legião-Plebe-Capital. E talvez se estes não tivessem gravado, dentro de 6 meses já seriam outras bandas, porque era comum um músico tocar em mais de uma.

Tiveram Arte no Escuro, Escola de Escândalo, Diamante Cor-de-Rosa, Mantenha Distância, Dentes Kentes, entre outras. Importante lembrar que não eram só músicos. Tinham os fotógrafos, os que faziam serigrafia, os artistas, os dançarinos etc. era um turbilhão de arte que bebia direto das primeiras mensagens punks.

O Renato uma vez chegou a mapear a Turma. Parecia um sistema solar turbinado, com as bandas no centro (o sol) e quanto mais para a periferia alguém se encontrava, mais outsider era para os demais. Assim, logo se criou o termo “satélite”. Ninguém queria ser um satélite, queria estar no centro das ações.” 

O homenageado na faixa “Minha Renda” do primeiro disco “O Concreto Já Rachou”, acabou produzindo o seu segundo álbum “Nunca Fomos Tão Brasileiros”. Como aconteceu essa amizade com Herbert Vianna e a produção desse disco? Quem teve a ideia dos instrumentos de cordas em “Bravo Mundo Novo”?

André x (Plebe Rude):“A Plebe foi levada à gravadora EMI graças ao esforço sobre-humano de duas pessoas: Renato Russo e Hermano Vianna (irmão do Herbert).

Tocamos no Circo Voador e o Herbert foi ver, acabou se entusiasmando, quis produzir. E fez um trabalho maravilho, não se produziam discos de rock com aquele punch, aquele peso, no Brasil. As ideias das cordas e dos sopros foram dele, mas no meio de um toró de ideias coletivo. E o Herbert acabou se tornando nosso padrinho. Graças a ele que voltamos em 2000 e gravamos o disco ao vivo. Seu esforço.”

No início da banda vocês também produziam fanzines além do merchandising padrão. Como funcionava a cultura do fanzine na época?

André x (Plebe Rude):“Papel, cola, tesoura, caneta preta e xerox. Fazíamos muito. Mais precisamente, o Philippe era o rei dos fanzines da Plebe. Tinha um cuidado enorme. Só errou quando foi escrever o nome do Jander Bilaphra, há há há. Fora esse erro, saíam muito bem-feitas. O mundo digital nunca terá um substituto para os fanzines. Sou fã.”

A Plebe Rude está completando 40 anos de existência e parece que nada mudou de lá pra cá. Como vocês enxergam o Brasil de 1981 e o Brasil de 2021? Qual o segredo para a longevidade da banda?

André x (Plebe Rude): “Isso dá um tratado, comparar o Brasil de 1981 e o de hoje. Mas mudou muito, só não ver, quem não quer. Não temos mais tortura, censura (oficial) e repressão. Muitos querem isso de volta, são loucos, não sabem o mal que faz. Principalmente para as artes.

Hoje, somos um país mais urbano, com mais oportunidades. Pioramos na distribuição de renda, não conseguimos avançar em dar cidadania e respeito a todos. Muitos têm pouco; pouco têm muito. São problemas constantes, mas que mudam conforme o cenário político e social. Um passo pra frente, dois para trás, em muitos temas. O segredo da longevidade da banda é levar um dia a cada vez, manter o humor e o objetivo de levar arte de qualidade, com contexto social.”

Vocês estão lançando o primeiro single do novo disco “Evolução, Volume 2” intitulado “68”, sobre o histórico ano de 1968. Por que a escolha desse ano como tema agora? Poderia dar mais detalhes sobre a produção?

André x (Plebe Rude): “O projeto Evolução é um musical onde contamos a trajetória do ser humano na terra, desde que ele virou bípede, até o final dos tempos. Por meio de 28 músicas, mostramos como ele evoluiu, com os pontos positivos e negativos. O objetivo final era para isso ser transformado num musical encenado no palco, com cantores, dançarinos e a gente tocando. Era para ter cenário, rodar o Brasil, contar essa história, sob o ponto de vista crítico da Plebe, para todos. Quase um projeto educativo. Lançamos o primeiro volume, que ia até o início do século XX. Estávamos conversando com Jarbas Homem de Melo, que estava cuidando do espetáculo. Veio a pandemia e foi tudo parado. Mas tínhamos as outras músicas! Era preciso lançar!

Então agora estamos lançando, para o fã ter o trabalho todo, toda a história de Evolução contada. O ano 1968 foi um dos mais fortes do século XX. No globo todo, em diversos países, o povo, mais precisamente, os jovens, foram às ruas lutar por direitos, por liberdade. Achamos um assunto muito presente, muito cabível para nossa época, onde o conservadorismo e fascismo vêm ganhando terreno. Importante ver como ameaças dessa espécie foram lidadas no passado. E é uma música linda, letra bacana e tocante. Foi uma ótima escolha para apresentar o volume 2 para todos.

Importante mencionar que as músicas devem ser ouvidas, tendo em mente que foram escritas para um espetáculo, para serem interpretadas no palco, por atores e cantores, com cenário e efeitos. Já ouvi pessoas falando “parece muito teatral, muito harmônico, etc.” Claro, né? Esse era o projeto.”

Com a pandemia do coronavírus muitos projetos foram adiados, assim como Evolução vol. 2. Quais são os planos para divulgação do novo álbum? É possível visualizar 2022 como um retorno seguro dos shows?

André x (Plebe Rude): “Sou um otimista. Apesar de tudo, acho que vamos vacinar, vamos resolver esse imbróglio todo. Depois, virão os shows. Sentimos falta, a Plebe é uma banda de estrada.”

Qual a visão de vocês sobre o movimento punk hoje? Quais bandas novas vocês estão ouvindo?

André x (Plebe Rude): “O legado punk está na atitude. Podemos ver isso em vários lugares, em especial no underground. Pessoas que fazem arte sem pensar nos holofotes, isso é punk. Basta ouvir o programa do Clemente, Filhos da Pátria, que verá que temos ótimas bandas. O problema é que o grande público hoje quer só open bar e diversão vazia. O rock não se encaixa nesses closed minds, que sempre acompanham esses open bars.”

A Plebe Rude vivenciou diversas mudanças no mercado fonográfico e avanços tecnológicos, e hoje uma das principais formas de consumo musical se dá pelas plataformas de streaming. Como vocês lidam com as novas tecnologias e o diálogo com as novas gerações?

André x (Plebe Rude): “Vamos na onda, impossível nadar contra a maré. Mas que seria legal ter Evolução lançada como um álbum vinil duplo, seria.”

“Nunca Fomos Tão Brasileiros” é um dos discos mais politizados dos anos 80. Com os retrocessos que vivemos – a tentativa do atual mandatário do país censurar os meios de comunicação, a volta da inflação, um governo federal militarizado -, caberia um volume 2 desse disco?

André x (Plebe Rude): “Acho que todos nossos discos são tão politizados quanto. É nossa forma de nos expressar. Como disse o Joe Strummer: tudo que tinha que ser cantando sobre o amor já foi feito, vamos fazer músicas que falam de coisas sérias?”

Para finalizar, deixem um recado para seus fãs e as novas gerações.

André x (Plebe Rude): “A Plebe só funciona com a energia de vocês. Reparo em shows, que quando o público está a mil, a gente no palco recebe, como em simbiose, uma energia que torna tudo uma troca divertida e marcante. Parece meio óbvio, mas no caso da Plebe é algo real. Venham aos shows, vamos trocar uma ideia e nos divertir. Música para os pés e a cabeça.”