Quem conheceu o trabalho e a figura musical Bruna Mendez de alguns anos atrás, olha agora e percebe uma grande diferença. A sua postura como profissional da música, sua musicalidade e a forma como se apresenta nos espaços artísticos que dão base pros lançamentos está cada vez mais elaborada e cuidadosa. Não que antes não fosse, é nítido o cuidado nas escolhas dos trabalhos antecedentes e muito do seu reconhecimento deve-se a isso, mas percebe-se hoje que a visão de carreira e o modo como colocar-se na cena musical é um tanto diferente e mais preparado.

Aos 30 anos e com mais maturidade e olhar crítico em relação ao mundo musical e tudo que o envolve, Bruna trafega nas mídias com olhar apurado e após lançar seu disco no fim de 2019, lançamento atravessado pela pandemia ao ponto de não conseguir difundir da forma que idealizou o álbum nos espaços de música independente, ela re-lança em 2021 uma série de singles e a versão Deluxe do álbum resultante da parceria com a Natura Musical.  Bruna Mendez revisita então seu segundo disco, Corpo Possível, simultaneamente a seu lançamento internacional.

Dando novos caminhos ao disco, lançado em 2019, Corpo Possível ganhou 03 músicas inéditas com a participação de June, Davi Sabbag, e Tiê respectivamente. A versão Deluxe acontece simultaneamente ao lançamento internacional do álbum com distribuição digital e em Vinil nos Estados Unidos, Europa e Japão. O lançamento também dá início ao processo de internacionalização da carreira da artista, que já figura na programação de conceituadas rádios norte-americanas como a KCRW de Los Angeles, e KRCL de Salt Lake City.


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Bruna MendezFoto Por: Junior Ribeiro


A pandemia impactou a vida de todos os artistas, Bruna está morando em Goiânia (GO) atualmente há um ano e trabalha de casa construindo as pautas de seus conteúdos de mídias sociais e gerindo seu trabalho de forma primorosa e meticulosa.

De família mineira que migrou para Goiás, Bruna sente que a população de Goiânia não possui muita consciência cultural e nem se apropria de seus artistas diversos que fogem do escopo do Sertanejo tão valorizado pelo mainstream.

A produtora musical, compositora e cantora confidenciou que a sua terra natal sempre representou até então uma memória afetiva de sua formação, mas que estava se preparando para viver em novos lugares e até mesmo viajar mais tocando com seu trabalho antes do Covid-19 chegar ao país.

“Depois do Corpo Possível passei a trabalhar muito mais pra mim. O Single novo tem toda a direção de arte de conteúdo, design, planejamento de conteúdo e postagens feito e coordenado por mim. Sou eu que edito as fotos, eu conduzo todo processo. A autogestão sempre esteve presente na minha decisão de gravar meus trabalhos”, diz a compositora.

Formada em Publicidade, trabalhou como diretora de arte, ficando 6 anos na mesma empresa antes de decidir parar tudo e focar no seu trabalho como artista da música.

“Sempre que tinha shows era eu que construía a ordem do repertório e a narrativa das músicas para construir a apresentação, sou um pouco rígida na construção do show e na questão visual. Todas as minhas fotos de trabalho, por exemplo, fui eu quem editei”, frisa Bruna Mendez

Primeira música inédita de Bruna Mendez desde o lançamento do álbum Corpo Possível, seu segundo disco, A vida segue, né?” dá início a uma série de três singles que antecedem o lançamento da versão Deluxe do álbum.

A canção adianta uma literalidade dentro dessa nova fase, ainda mais pop e contemporânea do que o proposto pela artista na primeira parte de “Corpo Possível”. A música conta uma história fluida, com vários momentos de uma relação apresentada tanto no arranjo como na divisão de vozes entre Bruna Mendez e June, que delicadamente dialogam sobre processos cotidianos de relacionamentos afetivos. A música trouxe um universo subjetivo, como se fosse um diálogo mental entre duas pessoas ou um pacto de honestidade quando as relações se desgastam.

A música é produzida por Janluska, produtor do álbum, e jovem produtor musical de destaque da cidade de Curitiba (PR) que também assina produções com artistas como Tuyo, Pabllo Vittar, Luccas CarlosTerno Rei, Jaloo, entre outros.

O convite a June veio pela admiração e pela identificação vocal. As duas artistas se conheceram em Curitiba, enquanto Bruna grava “Corpo Possível”

“…Achei incrível como a voz dela soava tão suave e tão certeira, e mesmo habitando universos tão diferentes, nossas vozes poderiam fazer sentido juntas.”

Ficha Técnica

Música: A vida segue, né? feat. June
(Bruna Mendez, Michelly Jardim e Janluska)
Produção: Janluska
Co-produção: Lucs Romero
Captação voz: Braz Neme, Julia Sicone
Baixo: Rayssa, Janluska
Synths: Gustavo Schirmer
Edição: Janluska
Mix/Master: Guigo Berger


O lançamento acontece hoje, e já está disponível em todas as plataformas digitais. As faixas inéditas apresentam além de novos caminhos estéticos,  a versatilidade de Bruna Mendez como compositora, arranjadora e produtora.



Entrevista: Bruna Mendez

Tive oportunidade de conversar um pouco pela internet com Bruna Mendez, falamos um pouco sobre seus processos musicais de criação, sobre seu momento atual e sobre a dificuldade em ser reconhecida como uma mulher que se expressa além da voz.

Como você conheceu o produtor do disco?

Bruna Mendez: “Através da Liu, Machado e Tuyo. Ele veio no combo, e percebi que ele tocava muito e tínhamos algumas coisas em comum na questão de experimentação sonora de eletrônicos. Ele é meio geniozinho e tem uma sensibilidade que me trouxe confiança pra propor o projeto do Corpo…

Corpo Possível, gravei em Curitiba (PR) no mesmo processo que eu faço em casa. Foi bem natural. Jean também e por isso a gente se entendeu nos modos de produção.

Estúdios eram usados pontualmente para termos um resultado específico, uma voz gravada ou um instrumento que precisava de mais cuidado pra captar.”

Você foi gravar seu projeto longe de casa em Corpo Possível. Porque gravar em Curitiba?

Bruna Mendez: “Escolhi gravar em Curitiba para que não houvesse afetação por coisas externas familiares, tendências e estética na concepção do projeto. Busquei intencionalmente algo mais original e novo pra esse projeto e, colaboradores que pudessem trazer seu olhar diante das composições de uma forma mais livre”

Via uma certa semelhança de Goiânia e Curitiba com a relação de proximidade, as cidades embora capitais possuem uma coisa mais provinciana, de cidade pequena, as pessoas se conhecem e se acompanham, percebi que essa consciência das coisas envolvia a criatividade e a forma de compor.”

Como aconteceu sua aproximação com a banda Tuyo?

Bruna Mendez: “Machado era amigo de facebook e eu já tinha ouvido o primeiro disco do grupo e gostado muito. Sempre me liguei nas coisas que estavam acontecendo pelo facebook, e um dia me liguei na Liu (Tuyo) e nas músicas dela, nos conhecemos por rede social antes de nos encontrarmos ao vivo e percebemos uma sintonia criativa que acabou virando uma ótima desculpa pra fazer show junto no Festival Bananada.

Eu era colaboradora na administração de uma casa de show em Goiânia chamada Cafofo, então sugerimos ao Fabrício Nobre (produtor Festival Bananada/Ex-Construtora) e ele topou ajudar a realizar esse encontro dentro do Festival.”

Você sente que o fato de ter um produtor musical homem fez ser mais fácil se inserir no gosto dos críticos de música e do mercado?

Bruna Mendez: “Não foi uma coisa pensada. Sinto que isso acabou acontecendo não intencionalmente, mas com o tempo percebi que fez diferença sim. Sou produtora musical, componho, canto, sou instrumentista mas a cena e parte do mercado insiste em só me apresentar como cantora, isso me incomoda um tanto.

Entendo e não entendo que tá nos créditos de que a mulher é mais que uma cantora.

Quando me apresentam, eu nunca sou instrumentista, eu nunca sou produtora musical. Se um homem está no crédito como produtor e co-autor ele vai ser mais relevante e mais citado que a mulher. Sendo que se a crítica do show for ruim sou eu que vou responder por isso, o projeto tem meu nome ali.”

Senti isso de ter um produtor mais no Corpo Possível, é o que o mercado vê como primeiro, galera acha que cheguei ontem por conta do disco novo ter tido mais projeção.

Meu primeiro álbum Mesmo Mar teve produção do Adriano Cintra, embora ele seja homem, só de ele não ser heteronormativo já me trazia mais conforto pra me colocar.  

Ouvi muito CSS (Cansei de Ser Sexy) e o disco do Adriano, ele já era uma influência, e ele tem muito forte essa noção de riff, refrão, forma…foi bom ver minhas composições ficarem mais elaboradas e ao mesmo tempo sonoramente mais simples para serem ouvidas. O primeiro disco tem mais instrumentos orgânicos que o último.

Aprendi a abrir mão e ceder com Adriano como produtor, foi fluido, ele é bem generoso e me ensinou muito.Eu estava bem aberta a aprender, porque desconhecia o universo. Foi uma escola.

Adriano já habitava um ambiente bem feminino, já sabia lidar com as inseguranças e surpreendeu, não esperava que ele fosse tão aberto a compreender minha onda e qual era meu momento.

Tive muita sorte de ter a parceria do Fabrício pra me aproximar do Adriano e dos amigos de Goiânia na produção do meu primeiro disco. Mesmo Mar, meu primeiro disco, foi gravado com o Estudio Rock Lab que se mudou temporariamente pra uma casa em Pirinópolis. Fizemos uma imersão, o que trouxe uma vivência mais Roots e um ambiente familiar pra gravar o projeto.

Para gravar Corpo Possível eu já sabia que não seria a mesma coisa como o Mesmo Mar, tive que exercitar a aceitação das músicas em seus processos, costumo lapidar demais cada música. 

Um exemplo é quando fomos produzir a faixa Bem, eu já tinha ela bem pronta. Aí ouvi Jai Paul (produtor e compositor inglês), e pensei “essa música pode ser referência”.

Machado tava de bobeira no estudio, mostrei a referência e surgiu uma outra música  a partir do sampler do que já havia feito. Partimos do sampler da produção e de repente haviam possibilidades infinitas.

Corpo Possível é mais eletrônico, mais tratado, quase que todo feito no computador.

Sinto que convido o outro para me estabelecer limite. A presença e a importância dos produtores parceiros tá por aí.

Do meu EP até aqui sinto uma insegurança de lançar uma parada 100% feita por mim, vivo um processo muito solitário.”

Como tem sido seu trabalho no confinamento?

Bruna Mendez: “A pandemia me abriu possibilidades de ser mais compositora para outros intérpretes. A minha editora é BMG atualmente, e tem vindo essas demandas bem legais pra compartilhar minhas canções para outros artistas gravarem.”

Que legal. E como tem sido?

Bruna Mendez: “Surpreendente. Eu via a composição como muito preciosa e intocável. Hoje vejo que “composição é exercício e trabalho”.

Existe uma identidade, uma parada que é minha de construção. Estou feliz pela descoberta.”

Como tem sido os convites de shows online? 

Bruna Mendez: “Com o esquema de metrificar alcance, fica bem difícil construir público nesse momento. Quem construiu bem antes da pandemia ainda tem chances. Pois não temos mais festivais e palcos pequenos pras pessoas descobrirem novos artistas e fazer essa construção aos poucos e com propriedade.

Fui convidada pouquíssimas vezes, não me sinto dentro do hype embora algumas pessoas queiram dizer ao contrário. Eu não tenho números suficientes. Se estava difícil antes, imagina agora. Os espaços estão mais reduzidos a quem garante play e audiência.

Mas continuarei lançando minhas coisas. Oferecendo o melhor que posso.

A gente só foi entender que isso vai durar muito agora.

2020 estávamos vivendo o resquício do que plantamos em 2019, eram festivais se adaptando pro online, projetos que precisavam ser entregues e os artistas também fizeram suas adaptações possíveis. Mas 2021 a gente teria o resultado de 2020… qual resultado? Se não houve muito o que plantar e nem perspectiva.”

Como tem sido essa adaptação pra você?

Bruna Mendez: “Não viemos do audiovisual, estamos tendo que aprender mas é muito injusto pra quem não domina as linguagens e nem tem acesso aos meios de produzir. Gravar um clipe é caro, alugar equipamento ou chegar até eles não é fácil.”

Quem colabora na gestão da sua carreira hoje?

Bruna Mendez: “Conheço Edimar (Edimar Filho, ex-ConstrutoraBananada / atual 1155 Talent Agency) de Goiânia desde meu início, hoje ele é meu colaborador mais direto, tá comigo como agente desde o início do Corpo Possível, faz contato com marcas, é meu manager. Quem cavou a parceria com a BMG foi ele. Desde quando surgi na cena conheço Edimar, tanto em banda, tocando como produzindo e agilizando pros shows acontecerem.

Se não fosse ele nem sei o que eu estaria fazendo, ele que atua como meu provocador e mobilizador. Ele é um inquieto. Dá ideias, bota pilha, me respeita. É fundamental ter pessoas assim por perto.”

Como está sendo essa experiência de lançar single novo sem poder fazer show pra promover? O que sente que mudou no planejamento dentro da esfera digital? Conta pra gente suas impressões. 

Bruna Mendez: É um pouco frustrante, mas nada que abale o lance de ter esperança de que em algum momento vou poder tocar as músicas novas ao vivo, porque é ao vivo que as coisas se transformam/aprimoram e surgem novas possibilidades de arranjo à medida que existe o contato com público.

Acho que no geral, os trabalhos ficam velhos mais rápidos então a gente acaba pensando em lançar coisas logo, no caso, eu não pretendia lançar single  ou uma versão deluxe do álbum, se estivéssemos em uma situação normal, eu trabalharia por 2 anos fazendo show, indo em tudo quanto é cidade que me chamassem pra depois pensar em um novo trabalho, então eu sinto que muda nesse sentido, o tempo dos trabalhos é curto, a gente precisa viver num outro tempo.”

Quais artistas têm sido suas referências dentro da sua busca estética autoral? Quais bandas, artistas você ouve com frequência e gostaria de indicar pras pessoas?

Bruna Mendez: Acho que não tenho uma referência específica, mas tem uma série de coisas que ouço de gêneros variados e acabo gostando do timbre de um, da métrica de outra, de como soa a mix, de como é a construção da música/estética, mas os discos/artistas que mais ouvi nos últimos tempos foi Rico Dalasam, o disco novo da Flora Matos (Do Lado de Flora), Kali Uchis, Yendry e Ritual do Davi Sabbag.” 

Qual a primeira coisa que você deseja fazer quando acabar a pandemia?

Bruna Mendez: Acho que são tantas coisas, acho que o que me conforta é que exista possibilidades de fazer, acho que o que eu mais quero é poder trabalhar; fazer show, ir construir meu público, porque acho que o meu caminho é o da construção, não do hit.” 

Qual artista você gostaria de dividir palco tocando junto? Porque?

Bruna Mendez: Acho que no momento eu gostaria de fazer um super show de lançamento do deluxe, tocando com todos os artistas e músicos que participaram, tipo um grande encontro da ficha técnica do meu disco (risos).

Porque no fim, foi muito trabalho e tempo investido e não tivemos tempo de tocar e mostrar pra mais pessoas.”

Qual expectativa você tem com seu trabalho sendo lançado fora do Brasil com as novas parcerias? Era uma coisa que você já imaginava? 

Bruna Mendez: Pensando no momento atual que o Brasil tá, eu vejo realmente como possibilidade de trabalhar, a gente não sabe quando isso vai ser possível aqui.

Pensando em um mercado fora a gente expande não só esse mercado, como novas dinâmicas de funcionamento pra carreira, no Japão, por exemplo, existe um outro tipo de consumo de música, uma outra forma de circular e é um mundo novo a se explorar mesmo; existe uma curiosidade e uma percepção diferente da minha música e isso pode servir como um respiro pra continuar andando com as coisas. Enquanto aqui no Brasil a gente não sabe o que fazer e eu não sei onde me encaixo (risos). Tudo isso era impensável pra mim porque eu não sabia exatamente como poderia me encaixar lá fora, como não sei aqui ainda.”