Reflexões sobre Pretos e Música Independente

Fazer música é uma eterna luta!

É um processo gigantesco de auto conhecimento, estabilidade psicológica e financeira. A música é ciumenta, ocupa um lugar gigantesca de quem a cria. Principalmente para o que chamamos hoje de cena independente.

Um fenômeno na música que não podemos deixar de notar nessa última década, são as pautas sociais assumindo uma nova forma e ampliando debate sobre inserção das minorias de direito: comunidade negra, LGBTQIA+ e mulheres. Mas aqui quero falar um pouco da posição da comunidade negra perante a cena musical que vemos hoje em 2020.

Esse ano foi super conturbado devido a crise do Covid-19 que atingiu a todos dessa indústria mas que marcou mais gravemente ao lado mais fraco dessa corda. Inclusive, inviabilizou as atividades de muitos artistas pretos que muita das vezes não tem acesso a tecnologia ou uma simples conexão de internet para manter um fluxo de produção online como a onda de lives que tivemos nos últimos meses.

Pretos e Música Independente

A pergunta principal que quero levantar é: o que define o músico negro brasileiro na cena independente? Quem são os artistas que procuram sonoridades mais alternativas, experimentais ou simplesmente fora dos parâmetros da grande industria. E como podemos criar cada vez mais espaço para a atuação desses artistas?

Ainda existe um grande abismo social entre o povo preto e a produção artística. Onde se torna cada vez mais invisível quando não se faz música encaixotada. Já perdi as contas de quantos artistas pretos tiveram obras geniais, mas que foram visto só como mais um doidão.

Lembro de ver entrevistas do Itamar Assumpção falando que estava cansado do público só consumir os medalhões e muita das vezes, apenas as branquitudes.


Mateus Fazeno Rock Pretos e Música Independente

Mateus Fazeno RockFoto: Divulgação


O Racismo

Essa arma sofisticada que é o racismo, vem sendo investigada. As feridas vem sendo cada vez mais abertas em diversas esferas da existência. E na música, não é diferente. Para se combater o racismo na cena musical é necessário termos mais pretos no mercado. Não só nos palcos, mas na curadoria dos festivais, na produção de mídia, nas playlists, nas listas dos prêmios, nos selos, nas agências de booking e etc.

Nessa visão de inserir o preto no mercado da música, o selo carioca Mondé iniciou um movimento chamado #blackmusicbusiness, com essa nobre e nada simples missão, iniciou as atividades criando um podcast para discutir o tema com diversos agentes pretos entre artistas, designers, produtores e etc. Além de um grupo no facebook para trocar informações, vagas de emprego e outras movimentações.

Música Preta Brasileira e Diferente

Numa inquietude de investigar uma cena musical preta que foge dos padrões da grande industria musical, montei a playlist “Música Preta Brasileira e Diferente“. Nela você encontra alguns artistas que se encontram num entre lugar entre gêneros musicais, misturando referências globais com regionais, super antenados com a música contemporânea e usando dela para criar a sua própria linguagem.

Artistas como o paraense Reiner que mistura dream pop, MPB e trip hop em letras sobre amores. Mateus Fazeno Rock misturando maculelê, samples e guitarras no seu chamado rock de favela em letras ácidas cheias de críticas sociais. Jup do Bairro misturando música de pista com riffs de guitarra e temas conectados a vivência preta, gorda, travesti e periférica. Saskia trazendo uma sagacidade e sarcasmo em beats digitais picotados de atmosfera pesadíssima. E muitos outros nomes.

Precisamos montar nossos próprios movimentos e protagonizá-los em busca de algum destaque que vá além do mês da consciência negra.