Prestes a lançar um novo disco o músico mineiro Siso disponibilizou recentemente o videoclipe para “A Onda“, faixa com a participação da conterrânea Julia Branco.

Os feats inclusive não são novidade para o músico que mistura em seu som pop, música eletrônica e experimentalismo. No EP Terceiro Molar teve a oportunidade de dividir o palco com Thiago Pethit, contou com participações da paulista Paula Cavalciuk, e da carioca Letrux no álbum “Saturno Casa 4, colaborou com Letrux novamente em um remix para “Amoruim” e também com o duo Cais no single “Bad Astral”.

A parceria com a cantora, compositora e atriz começou a se desenhar ainda no fim de 2019 e uma das ideias enviadas por Siso acabou se tornando “A Onda”. Julia escreveu inspirada pelo mar da Bahia, onde ela abriu seu ano de 2020, e claro, não podia nem prever o ano que teríamos. O resultado parece até prever as dificuldades que o ano de 2000 impôs sobre todos nós.

“Uma sensação de dissolução, de comunhão com o mar, e de um estado de não-resistência. Um aceitar que leva à transformação da perspectiva. O mar como esse elemento que lava toda impureza”, revela Siso sobre a faixa. 


Siso - Foto Por Doma

SisoFoto Por: Doma


Siso e Julia Branco “A Onda”

Assim como a faixa, o videoclipe foi gravado remotamente. A direção e montagem ficaram sob a responsabilidade de Fabio Lamounier que já assinou, ao lado de Rodrigo Ladeira, os clipe para “Pedrinho” (Tulipa Ruiz) e “Paixão de Rua” (Carlinhos Brown).

O processo de transformação interna ganha imagens no videoclipe através de imagens e cenas complementares, como copos que transbordam, espelhos quebrados e plantas, e dando ainda mais profundidade para a letra da música em sua produção audiovisual.

Feito uma onda de emoções, a canção abraça e incentiva o ouvinte a enfrentar os desafios que a vida impõe. A metáfora e a transparência letra se apresentando através dos cristais presentes no vídeo.



Siso “Pop Antigo”

Dando continuidade a série de lançamentos, Siso lança hoje em Premiere no Hits Perdidos o single “Pop Antigo” que também estará presente em seu disco homônimo que será lançado em novembro.

Um pop eletrônico cintilante, dançante, confessional, melancólico, pegajoso e com a cara de brilhar nas rádios de outrora. Até mesmo o synthpop, technopop e new wave dos anos 80 se refletem no prisma da pista de dança para a qual somos teletransportados.

Nomes como Depeche Mode, Gary Numan e Pet Shop Boys vem a mente ouvindo a canção. Fica até fácil de imaginar, em um eventual videoclipe, pessoas bem vestidas com muitas cores em uma pista de dança.

De certa forma a faixa referencia sua trajetória na música eletrônica, Siso ainda em 2009 produziu e integrou a banda Spooler e em 2013 iniciou o voo solo através do EP SDDS FUTURO.

“É uma canção sobre apego e incompatibilidade dentro de um relacionamento. Sobre a coragem de encarar a ruína anunciada, reconhecendo o desejo e aprendendo qual é o momento de se afastar. Um passado que não desaparece é um futuro que não chega”, comenta Siso



Entrevista

Para falar sobre o single “A Onda” e os processos criativos da parceria Siso entrevistou Julia Branco e vice-versa com exclusividade para o Hits Perdidos. Confira!

SISO PERGUNTA, JULIA RESPONDE

“A Onda” foi criada à distância, principalmente a partir de ideias que trocamos por e-mail. Numa live que fizemos, você disse que a maioria das suas parcerias de composição é à distância. Você prefere? E nesses casos, o que funciona mais pra você: e-mail, chamada de vídeo, áudio de WhatsApp…?

Julia Branco: “É engraçado. As minhas parcerias foram acontecendo todas de forma natural e a maioria até hoje acabou sendo assim, à distância. Não sei exatamente se prefiro, mas gosto de ter um tempo sozinha com a canção, com a ideia. Fico imaginando que é como mandar uma carta, acho que devia ser gostoso compôr dessa forma, receber a letra da pessoa, o papel, escrever, enviar de volta, ficar nessa troca.

Eu também tenho uma coisa que nem sempre é tão boa, risos, preciso de tempo. E de um tempo de maturação. Então às vezes quando estou compondo pessoalmente e existe a urgência de daquele encontro sair uma canção, acho difícil, me travo um pouco, embora esse seja um exercício interessante, também. A escrita à distância permite um tempo mais singular mesmo quando estamos em parceria, acho isso muito bom.

Pensando assim, acho que a maneira não importa tanto. Recomendo apenas ir salvando as parcerias por e-mail. Já perdi muita música no whatsapp, uma tristeza.”

Como você vê a importância de “A Onda” nesse ano atípico, que pede pra gente olhar pra dentro e criar uma conexão mais forte com nós mesmos?

Julia Branco: “Compusemos grande parte de “A Onda” no comecinho de 2020, quando a gente nem podia imaginar o que aconteceria esse ano. Quando escuto a canção hoje, me emociono pensando que parece que a gente já sabia o que viria pela frente.

Gosto muito da mensagem que “A Onda” traz, de aprendermos a fluir pela vida mas de, ao mesmo tempo, nos apropriarmos da nossa própria história. Tem um tanto que a gente escolhe, tem um tanto que a gente acolhe, tem um tanto que a gente resiste, tem um tanto que a gente solta. Nesse ano estamos todos sendo convidados a olhar pra dentro e acho que “A Onda” tem muito a ver com isso. Além de ser, a meu ver, também, uma reverência ao mar.”

Seu primeiro álbum solo, “Soltar os Cavalos”, é um disco que se debruça muito sobre uma colocação de si no mundo, uma coisa de expressar a própria natureza e verdade. O que você gostaria de comunicar num próximo trabalho?

Julia Branco: “O meu processo de criação é um grande revirar de gavetas. É sempre meio autobiográfico, mas também não é. Também tem muita ficção. Busco ter honestidade, acho super difícil fazer algo que não acredito muito. Parece que tem que existir uma conexão emocional real ali, ou não rola.

Pensando assim, estou naquele momento delicado que é de começar a ter pistas do meu próximo trabalho mas, ao mesmo tempo, tendo o cuidado de não perder o que há de mais valioso pela ansiedade de “meu próximo disco tem que ser assim, ou assado”.

Mas, falando dos desejos, tenho vontade de que meu próximo trabalho seja mais para fora (sinto “Soltar os cavalos” um disco muito íntimo e essa é uma grande beleza dele), mais aberto e mais dançante. Mas, se vai ser por aí mesmo, ainda tô descobrindo.”

JULIA PERGUNTA, SISO RESPONDE

Percebo a nossa parceria, “A Onda”, como uma canção que fala sobre sermos capazes de soltar o controle sobre as coisas e de saber fluir pela vida, entendendo que estamos sempre inseridos em um contexto maior do que nós. Ao mesmo tempo, acho que a letra também fala sobre termos auto-responsabilidade, principalmente na frase que veio de você “e se a onda te levar, lembra que você é a onda”. Pensando nisso, como é a sua relação com o controle? Você sente que o ano de 2020 te fez aprender ou mudar a sua visão sobre isso? De que maneira?

Siso: “Tenho uma tendência grande a querer exercer controle sobre minha vida e o que me afeta diretamente. Ascendente em Virgem, aquela coisa, sabemos (risos). Já fui muito de querer represar as coisas quando o fluxo fica muito intenso. Forçar uma pausa, um ritmo mais leve de vida. O grande aprendizado de 2020 é entender, ou lembrar do quanto isso é inútil em muitas situações. E também aprender como fluir melhor em meio a circunstâncias turbulentas.”

Sei que ambos temos em comum uma conexão forte com a astrologia e seu álbum anterior se chama “Saturno casa 4”. Pensando nos astros, como você relaciona o lançamento do seu próximo álbum com o seu momento de vida / mapa astral? O que mudou, dentro de você, em relação ao seu álbum interior?

Siso: “O “Saturno Casa 4” lancei no auge do meu retorno de Saturno, e ele é um retrato de tudo o que ruía na minha vida naquele momento. O passado que ficava cada vez mais distante, o agora que era insustentável, o passado que lançava sombra sobre o agora, enfim.

Quando as coisas não estão certas, Saturno chega demolindo tudo, e certamente foi isso o que aconteceu. Até por isso esse disco novo diz muito de um processo de reconstrução e aprendizado, de não cair pelas mesmas falhas mais uma vez.

Engraçado que esse álbum foi gravado e produzido muito rapidamente, logo que começou uma conjunção de Netuno no céu com meu nodo norte. E marquei a data de lançamento dele no dia de um posicionamento astrológico específico que tem a ver com a temática toda do trabalho.”

Se você pudesse se apresentar com uma única palavra, qual palavra seria essa? E como você enxerga uma conexão dessa palavra com o seu trabalho hoje?

Siso: “Diria que “ampliação” – gosto dessa coisa de vastidões crescentes, de ser mais extenso, mais amplo em visão de mundo e em visão de mim mesmo. Desenvolver, ser mais completo, ser mais.

Meu trabalho artístico tem total a ver com isso – sempre busco um lugar que me parece novo ou pouco desvendado em mim ou no mundo pra me debruçar, relacionando com outras coisas pra tentar chegar a um resultado que não estava no mapa.”