A Odisseia Radicalíssima da Cat Vids

O que existe dentro de um disco? Reduzir a canções, temáticas, gêneros, ensaios e identidade pode na maioria das vezes soar no mínimo injusto. Achar que um músico quer criar todo um projeto para seguir um caminho carreirista dentro de uma indústria ou mirar num nicho como um “produto”, muitas vezes soa insano. Somos humanos e temos os mais diversos tipo de ambição e formas de se expressar. Às vezes pode ser um disco, um roteiro de websérie, um livro, um jogo de videogame, um stand up ou até mesmo produzir memes.

Cada projeto pode servir como válvula de escape para uma necessidade sua, feito um objeto de experimentação, de auto-descoberta e de testar seus próprios limites. Por mais humano que seja tentarmos rotular um projeto e todo o seu contexto por experiências que vimos anteriormente colocar em uma prateleira ou categorizar sonhos não é nenhum pouco justo.

Pude acompanhar parte do processo do que viria a se tornar o Radicalíssimo do Cat Vids e sinto que a liberdade, e tentar entender até onde poderia se estender, era bem mais importante do que rotular, encaixar dentro de um organograma ou fluxo de carreira para “construir” algo friamente calculado. Sabe quando o processo é mais gostoso que a linha de chegada? A chance de abrir novos horizontes sempre pareceu o espírito da coisa toda.

O que é digno de ir contra toda uma estrutura pré-concebida e idealizada por plataformas de marketing tentando mostrar que existe sim um caminho para mostrar mais sobre o poder das individualidades e de aproveitar aquele momento das mais distintas formas – e como eles aproveitaram.

Não digo que todo processo de criação seja sublime, porque nunca é. Mas pode testar nossos limites a abrir novas possibilidades.

A Emancipação do Cat Vids

Pedro Spadoni (voz e guitarra) se liberta de um projeto que nasceu solo em um primeiro registro e que ganhou a companhia de Tiago França (baixo), Aécio de Souza (bateria) e Paulo Senoni (guitarra), além da produção de Alejandra Luciani. O que sabemos como muda toda a dinâmica mas que também faz com que as trocas, e discordâncias, ajudem com que o projeto se desenvolva nas mais diversas frentes.

Das explícitas as mais profundas como seres humanos. Não é fácil uma parceria mas também é uma escolha…que ao meu ver mais contribuiu para o aprendizado do que gera dor de cabeça. Porém existe se libertar das individualidades como fatores decisivos e aprender a dividir tarefas e o microfone com os outros.

Fato que o trabalho não se encerra depois da produção do disco. No caso deles mais específico ainda teve a divertidíssima websérie “Como Gravar um Álbum de Sucesso“, que contou até mesmo com participações especiais de amigos, entre eles Bruna Guimarães (Brvnks), que participa de uma das 9 faixas do disco, e Popoto Martins (Raça).

E aí vem 2020…

Costumo dizer que esse ano durou 3 meses e depois disso foi um furacão para absolutamente todo mundo. Não quero me alongar sobre os infernos particulares que cada um passou pois disso acredito que todo mundo já está mais para lá do que para cá. Mas se focarmos no universos dos artistas, e quando me refiro a eles, vai desde a ambição por colher um lançamento do ano anterior e rodar ao Brasil, a quem tinha planos de circular com um novo.

Fato é que nossa percepção sobre tudo isso teve que mudar em questão de meses e se o processo de exposição já é por si só exaustivo, com todos os dilemas e problemas pelo caminho, todo soa como diria o título da biografia do Kurt Cobain, Heavier Than Heaven.

Embora todo o cenário caótico, encerrar um longo processo como este também é um novo começo. E se o processo de criar é mais delicioso a chance de catalisar os aprendizados em um novo projeto porque você passou por diversas situações, acertando ou errando, ou os dois ao mesmo tempo, também serve de combustível para arriscar – e assim nos desenvolvemos, nos conectamos e conseguimos ver um futuro.

Finais são difíceis mas a vida é um ciclo e talvez um disco ou um projeto entregue também materializa quem éramos naquele momento da vida – e isso fica eternizado. É bonito, simbólico e de certa forma, algo que você vai revisitar e se lembrar mais sobre a linha do tempo dos acontecimentos e menos sobre o resultado final.


Cat Vids Radicalíssimo

Cat VidsFoto: Divulgação


Cat Vids Radicalíssimo 

O álbum da Cat Vids, Radicalíssimo, foi gravado no Estúdio Aurora e está sendo lançado via Schwreables Records. Contendo 9 faixas, o disco conta com a participações de grandes amigos da banda, Bruna, da banda Brvnks, e Chrisley. A busca por entender o projeto, compor mais em português do que em inglês, ter um trato mais fino nos arranjos e entender melhor as essências estéticas do projeto contribuiu para os ganhos no processo. 

“Apesar de manter a essência estética de Radical, há mais variação de timbres, utilização de synths e arranjos em geral. Isso se deve tanto ao fato de as músicas já estarem sendo tocadas ao vivo há um tempo, como ao direcionamento de produção de pensar cada faixa individualmente, buscando timbres, efeitos e mexendo até nas peças de bateria faixa a faixa”, conta Pedro.

Sobre a produção e o desenho do projeto ele ainda comenta.

“A participação da Alejandra foi essencial também para ajudar a viabilizar as ideias sonoras que tivémos para cada música. Ela acabou co-produzindo o disco com a gente, indo além de ser técnica de som. O Paulinho cuida da mix desde o Radical, e fomos bem detalhistas na mix do disco, fazendo diversas reuniões “mão-na-massa” presenciais e até gravando complementos pro arranjo na casa dele em cima das novas versões das mixes”, relembra Spadoni



“Mayday”

“Mayday” me diverte porque me leva para algum lugar próximo das trilhas sonoras de desenhos como Hey Arnold!, CatDog e Rocket Power. 90’s kids irão entender. É surf, é punk, é melódica, não se leva a sério pois se constrói por si só, até mesmo sad boy.

“Ela tem cara de trilha sonora mesmo, por mais que sempre tenham me falado que no geral as músicas da Cat Vids tenha cara de trilha de filme (risos). Ela abre o disco também por apresentar a nova proposta de letras em português, misturado com inglês em alguns momentos…

A letra de Mayday fala basicamente de relacionamentos atuais que começam no virtual e podem gerar muita frustração quando passam pro ao vivo. No contato pelo “celular” muitas vezes são duas personas construídas se conhecendo, que podem muitas vezes não são materializadas como em nossas expectativas. E a gente cria umas expectativas muito loucas, né?

Não que eu já tenha passado por isso…. (sim, demais)”. Já o instrumental soa como um indie 2000, mesmo que tenha surgido a partir de referências mais modernas, como No Vacation e Hockey Dad.”, conta o vocalista

“Cingarro”

Jogando tudo no liquidificar e experimentando de uma forma que estranhamente o resultado é pop – e radiofônico – mas sem se levar a sério. Com direito a ironias, trocadilhos – e rir de si mesmo. Acho que condensa um pouco o espírito do disco de uma forma mais Cat Vids do que eles até imaginam.

“Basicamente porque eu tinha passado por uma frustração (risos), e queria escrever em pt pra que ficasse bem claro que eu estava muito triste com a situação. Aí achamos legal e trocamos tudo o que tinha antes para português. É uma música bem surf-rock, com bases meio White Stripes misturadas a um baixo “forró-surf” (rs) – o Tiago usou linhas de forró como base de fato, riffs do Paulinho puxando pro 8-bit e uma bateria bem surf do Aécio”, diz. Já a estética de video game acaba sempre aparecendo em alguns timbres de guitarra e synth, principalmente.

“Bebe Demais”

O videogame acaba de certa forma interligando as faixas em uma faixa com uma temática adolescente, e tão surf-punk, que se você gosta de Wavves e punk rock australiano vai se divertir. A diferença é que em inglês a gente não repara tanto nas letras (risos).

“Mantendo a onda surf-rock do disco, “Bebe Demais” puxa um pouco mais para referências como Fidlar e Bleached, com a adição de diferente tipos de synths aos arranjos. Ela surgiu de uma brincadeira com minha amada amiga Mari, que reclamou (seu hobby é reclamar) que não tinha uma música pra ela, e eu fiz essa pra ela ali na hora (risos).

A ideia da letra é desmistificar essa cultura popular de incentivo ao consumo alcoólico, sabe? Dá pra se divertir com responsabilidade. Às vezes acontece, tudo bem… mas não precisa. É que eu tenho uns amigos que, tá louco, não param nunca (rs). A Mari hoje é mais responsável eu acho. Mas tem ótimas histórias”, conta Pedro

“Ash Ketchum”

O lavar a louça (ou a pilha roupa suja) como analogia finalmente saiu do Twitter em “Ash Ketchum” do jeito todo louco de contar as histórias que só o Pedro mesmo comentando para ficarmos: “Ah, beleza então”. A faixa ainda tem a participação da Bruna.

“Então, essa música foi o motivo da Mari ter reclamado de não ter uma música pra ela, porque eu tinha feito essa antes pra Thamara, outra amiga querida. Ash Ketchum surgiu de um dia que a Thata chegou me contando muito brava que o namorado dela enchia o saco pra ela jogar os mesmos jogos que ele mas era super competitivo não deixando ela se divertir. Concordo! Thata é uma rainha e deve ser tratada como tal.

Como eu e Bruna (Brvnks) somos muito amigos, já havíamos combinado dela participar de alguma faixa, e nessa faltava uma graça na melodia dos vocais. A Bruna fez na hora ali as melodias dos backings e já ficou bem legal! Ah, o nome… é porque o jogo que eles jogavam era Pokémon (rs). E tem uma brincadeira com spider-man no meio porque a batida da guitarra simplesmente pedia, por conta da música do Ramones, e o Paulinho sempre fazia isso na voz ou na guitarra. Aí gravamos essa “homenagem” (rs)”.”, tenta explicar Spadoni

“Dress Code”

Quando ouvi a faixa pela primeira vez pensei em algo na energia das bandas filhas de Pixies, são tantas, né? Mas também levantando as mazelas sobre sair da casa dos pais e enfrentar o mundão, aliás os dilemas do disco circundam esse universo e a cada faixa essa situação acaba reverberando – e expresso – em alguma situação ou outra.

“Quando eu escrevi “Dress Code”, andava ouvindo bandas como Pope e Modern Baseball, então ela acabou carregando esse tipo de referência sonora. Mas no fundo sempre existem referências de clássicos do indie como Pavement e Pixies, e creio que nessa isso fique mais evidente”.

E continua: “A letra foi inspirada em situações que passei com o Tiago (baixista). Quando canto ‘olha o meu amigo, tá todo esburacado, o seu tênis tá furado (…)’, é dele que eu falo. Trabalhávamos juntos e, mesmo em reuniões, ele sempre estava com uma camiseta furada, pois nunca ligou muito para isso. Como não sou muito diferente, já passei por momentos do mais puro desleixo também, e a letra de “Dress Code”, apesar de fictícia, resume essa nossa incapacidade de sermos muito formais”. Quem assistiu a web série pode agora finalmente entender as piadas como Oz City.

“Kundera”

Lo-fi-surf-punk-robótico esse é o espírito das experimentações de “Kundera”, algo entre o surf, o punk e o DEVO. Califórnia demais, No Aloha!

“Algumas faixas do disco, como essa, já tocávamos desde o primeiro show, pois o EP é bem curtinho e não completaria uma apresentação sozinha. A Kundera aborda um grande drama de leitores de livros: o empréstimo de livros que nunca são devolvidos. É triste. Um dos meus preferidos nunca mais voltou…. “a Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera. Baita livro, puta merda. Daí o nome da faixa”, conta Pedro.

Calabokitos“, “Já Chorei”

Chrisley participa na “vinheta”, “Calabokitos”. Com uma levada que até destoa um pouco do disco, “Já Chorei” traz uma veia melancólica, lo-fi. 

“Por mais que o álbum e o estilo da gravação sejam mais hi-fi, essa nova música é uma canção lo-fi, uma vertente que gosto muito”, conta Pedro. Inclusive, ele revela que a criação foi bem mais experimental e tem referências em bandas como Good Morning e Alex G, “os arranjos foram montados já dentro do estúdio mesmo, e algumas decisões tomadas depois. Experimentamos alguns tratamentos para voz na mix, por exemplo, e o Paulinho achou esse ponto que gostei muito, mais sequinho e com distorção, meio crooner, enfim, combinou demais, deu um equilíbrio em contraponto aos arranjos que são bem ‘molhados’”.

E continua: “Gravamos Já Chorei com uma guitarra velha e toda desafinada, que ressuscitei pra gravar tudo que tem alavanca no disco. As desafinações funcionam como bends que chegam nas notas sustentadas pelo baixo e pela base, dando essa sensação de inconstância do tema central da música, já que ato de chorar compulsivamente vem de um desequilíbrio emocional. Tem uma metáfora aí que a música soa “frágil” pelas guitarras e falta de estrutura, mas segue em frente, até se estabilizar”, conta Pedro, da Cat Vids

“TV Shows (Bônus Trick)”

O espírito lazy day “de boa” no sofá assistindo Reality Shows, como por exemplo, De Férias com o Ex, aparece de forma mais direta em “TV Shows (Bônus Trick)” que podemos dizer assim ser uma trilha sonora – e convite – para o isolamento social.

De certa forma ela encerra o disco com cara de soundtrack temática da mesma forma que ele se iniciou. A cultura pop em geral ganha diversas homenagens ao longo da faixa de encerramento.

“Podemos ficar assistindo por horas antes que surja a força de vontade pra sair de casa (rs). Na real, a gente já estava nessa de ficar em casa muito antes da pandemia (rs), e a TV Shows trata dessa incapacidade de levantar do sofá”.

A Série: Como Gravar um Álbum de Sucesso?