O duo paranaense Looa vem construindo a sua trajetória nas músicas aos poucos em um processo espaçado, repleto de descobertas e experimentações. Chemi e Gabs inclusive já apareceram por aqui no fim do ano passado onde pudemos entrevistá-los para falarem mais sobre os primeiros passos da banda.

Com uma sonoridade que passeia por estilos como o dream-pop, synth-pop e Bedroom pop, eles apresentam hoje em Premiere no Hits Perdidos seu primeiro single em português. “Temporal” se junta as outras faixas apresentadas até então e é a quinta faixa a integrar o EP Demotape.

Mas um pouco antes disso eles apresentaram um novo projeto de live sessions com direito a versão de uma versão à distância para “Sua Alegria Foi Cancelada” da banda gaúcha Fresno.



A guinada para o português foi um processo natural de experimentação e pelo resultado apresentado não vai ser surpresa se eles lançarem mais músicas em sua língua nativa.

Aliás no canal de Youtube eles também tem revezado entre versões e faixas autorais. Recentemente também disponibilizaram uma versão delicada para “AKASAKA SAD” do fenômeno pop Rina Sawayama e uma versão lo-fi para a canção autoral “I’m Not Here“.

Looa “Temporal”


Looa Temporal

Looa – Foto: Divulgação


“Temporal” é uma faixa que já traz o tom de imersão, melancolia e proporciona uma viagem por suas camadas eletrônicas desde a sua abertura.

Os vocais melódicos mostram todo a intensidade da música e segundo o duo “a letra que aborda ciclos, traumas e processos de cura”. A sensação de movimento e de estar saindo do fundo do poço vive em suas nuances e na intensidade em que a vocalista entoa os versos.



Entrevista: Looa

Conversamos com Chiemi (voz, synth e programações) e Gabs (voz, guitarra e programações), do Looa, para saber mais detalhes sobre o novo single e o momento do projeto paranaense.

Vocês já vem trabalhando as canções deste EP a algum tempo, tem planos de lançar um álbum, material maior ou a ideia é experimentar singles? Como tem observado essa forma de consumir música? Já conseguem entender o tipo de público que simpatiza?

Looa: “Esta forma de distribuir nosso trabalho tem feito sentido nesse momento, justamente pela liberdade de experimentação e criação ao qual a gente se propôs nessa primeira etapa enquanto banda. A Demotape é sobre ver até onde a gente vai enquanto compositores, músicos e produtores, pelo menos por agora. É também sobre nos permitir, nos conhecer, e compartilharmos isso com as pessoas. Acaba que não tem uma organização, sentido ou tema central, é tão confuso quanto nós mesmos, e simplesmente não caberia e nem funcionária de outro modo.

O Público

Quanto ao público, achamos que como artistas pequenos e em começo de carreira, optar por singles está sendo a forma ideal de trabalhar e interagir. A gente já entende que nosso público é majoritariamente jovem, lidando com um fluxo de informação absurdo, e que tem hábitos de consumo de música bem diferentes das décadas passadas. Por isso ainda optamos por lançamentos singulares, em fases, trazendo uma renovação de ares a cada etapa. Quem está acompanhando a gente desde agora, está assistindo “ao vivo” nosso desenvolvimento enquanto artistas e essa interação é muito legal e genuína.

Mas não para por aqui. A gente quer sim trabalhar com um formato como um álbum ou um EP num futuro próximo. Por hora, cabe dizer que a Demotape não está longe do seu fim.”

Das primeiras faixas para esta já consigo enxergar novas referências e um diálogo maior com artistas como Fresno, Tuyo, Vivian K., Mahmundi para citar alguns. Contem mais sobre as novas referências, estética e a composição.

Looa: “A gente acredita muito na arte como uma manifestação sinergética que engloba uma infinidade de estímulos aos quais a gente está exposto. Nesse sentido, é muito animador e inspirador observar essa nova leva de artistas brasileiros, e como a cena alternativa está evoluindo e se renovando. Sem dúvida nenhuma todos estes já citados e outros nomes como Terno Rei, Brvnks, Bruna Mendez, Raça, Marrakesh, YMA, entre outros, são grandes referências para nós, seja na estética, na sonoridade, e até ideologicamente.”

Aliás como foi esse desafio de compor pela primeira vez em português? Foi um exercício interno? Como veio esse desbloqueio?

Looa: “Nosso processo de composição é bastante orgânico, fluido e despretensioso até. A gente não se prende a um estilo, tema, e, naturalmente, nem a uma língua. Simplesmente acontece de sermos inspirados por algo, seja um acontecimento, uma reflexão, um filme, uma série, outras músicas, e que no fim damos um jeito de transformar numa canção.

Temporal mesmo foi uma música que demorou a virar “música”. O primeiro áudio em que ela apareceu organizada, com uma melodia e tal, data de 27/07/2019 numa troca de mensagens. Ela passou bastante tempo repousando no caderno antes disso.

Desde o início da banda queríamos fazer músicas em português e até já tínhamos composições na gaveta. Acho que no fundo levávamos muito a sério o mito de que é difícil compor em português e de que talvez nosso gênero de música não encaixaria bem. No fim, provamos pra nós mesmos que estávamos errados. “Temporal” abriu nossos olhos pra novos horizontes dentro do nosso próprio trabalho.”

Vocês trazem bastantes cores e uma estética bastante característica tanto nas fotos como na comunicação visual do projeto. Contem mais sobre este lado conceitual e como sentem que a música que vocês fazem tem reverberado com quem ouve?

Looa: “Pra gente a comunicação visual é tão importante quanto a música. Não conseguimos dissociar um coisa da outra pois pra nós, as duas se completam e fazem parte da nossa expressão enquanto artistas e de quem nós somos. Nos conhecemos na faculdade de design e trabalhamos juntos desde então com a linguagem visual.

Hoje, além da Looa, fazemos parte de uma produtora audiovisual onde trabalhamos com vários artistas e projetos na área da cultura. Por isso, fica claro pra nós a importância que uma boa direção artística, de refletir a identidade sonora na comunicação visual e como isso interfere diretamente na forma como o público recebe o artista e sua música.

Falando sobre a estética de “Temporal”, podemos dizer que ela se conecta com a proposta da Demotape, que foi explorar essa iconografia mais noventista, com umas pitadas de modernismo.

Neste single em específico, buscamos trabalhar com a translucidez e a refração da luz, numa referência aos sons de água usados no beat e à metáfora da música como um todo, que aborda a relação da passagem do tempo de como a gente se relaciona com nossos traumas e ciclos da vida.”