O trabalho que Valciãn Calixto desenvolve em prol da cultura tem o poder de conectar, diminuir distâncias geográficas, mobilizar mas principalmente transformar. O músico natural de Teresina, no Piauí, busca a cada lançamento mostrar como a superação, parcerias e tudo que o acerca pode correr junto aos seus sonhos. Esse espírito de coletividade, perseverança e independência que o ajuda a construir a sua própria jornada.

Depois de lançar Foda! (2016), e apresentar para o Brasil o seu axé punk, além de colher os frutos da sua caminhada ainda participou do tributo ao Pato Fu (O Mundo Ainda Não Está Pronto), da Coletânea Afroindie e lançou alguns singles, um deles, inclusive homenageando Jair Naves.

Valciãn Calixto Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível

A preparação para o lançamento do seu segundo álbum, Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível, se iniciou ainda em abril, no começo da pandemia, com o single “Deus é Bom (O Tempo Todo)”; um pagodão com influência de Psirico lançado em parceria com o baiano Jotaerre.

“No atual cenário de pandemia do novo Coronavírus, a canção vem para nos lembrar que Deus é bom o tempo todo e que mesmo diante da crise, devemos nos apegar à esperança divina e ao mundo espiritual para atravessarmos essa fase difícil para todos enquanto a Ciência não apresenta uma alternativa.”, contou Valciãn Calixto na época

A partir do segundo single “3R1K0N4”, uma homenagem a sua companheira de vida, ele já deu o tom do disco: muitas referências, sonoridades e temáticas. Na faixa, por exemplo, ele explora o funk, a swingueira e o axé.

A Sensibilidade de Valciãn Calixto para contar histórias

A mistura do que é o Brasil transparece no próximo lançamento, “Nya Akoma”, que carrega ritmos latinos e traz elementos da cultura africana. A canção participação especial do rapper carioca Jeza da Pedra que mostra sua versatilidade para cantar em outros estilos.

No dia mundial contra a homofobia Valciãn Calixto lançou o single “Faz Tanto Tempo” no qual conta a história de um quadrado amoroso bissexual. A faixa inclusive ganhou um clipe dirigido pelo próprio músico com colaboração no roteiro dos próprios atores.

Argumento para o vídeo

“O piauiense Wanderson está de volta a Teresina após uma jornada de nove anos morando no Rio de Janeiro, experiência importante na qual pôde se descobrir e se assumir bissexual longe dos olhares repressivos da família. Mal chegou, engatou um caso com o jornalista Geovane, com quem gastou toda sua lábia e falso carioquês.

Porém, as horas desse romance parecem estar contadas. Durante passeio pelo Centro, o casal vive situações desagradáveis e constrangedoras ao reencontrar suas ex-namoradas, mas nem tudo é término neste clipe, um acontecimento inesperado surge ao final do vídeo e traz novas revelações a todos.



A Cultura Pop e a Netflix

O último single revelado antes do lançamento do disco foi o spoken word “Korey Wise, Eu Te Amo”, homenagem aos “cinco do Central Park”, que virou série na Netflix sob o nome Olhos Que Condenam (na versão brasileira).

Segundo o artista, a faixa traz ainda um pouco do aprendizado e da reforma íntima vivida por ele desde que redescobriu a Umbanda há quatro anos, já que quando criança era levado a frequentar um terreiro próximo à casa de sua madrinha.

Entre reflexões e filosofias, do seu poema cantado, ele cita passagens bíblicas, entidades de Umbanda e a própria esposa. Tendo tema de fundo um ponto da capoeira ele faz referência ao Afrocentrismo.

O disco foi gravado no Calistúdio, mixado e masterizado no Zadok Estúdio, em Teresina, por Elimar Cunha. O registro ainda conta com parcerias de Julia Barth (Os Replicantes), Juliana D Passos, percussão de Marciano Calixto em “Deus É Bom (O Tempo Todo)” e o baixo de Marlúcio Calixto em “Ensinamentos da Preta Velha Vovó Maria Conga”, ambos irmãos de Valciãn.


Valciãn Calixto - Foto Por Yago Araújo

Valciãn CalixtoFoto Por: Yago Araújo


Ouça Agora!

Ao todo são 10 faixas mas como nosso papo com Valciãn Calixto foi uma boa prosa é hora de deixar com que a música toque enquanto você lê a entrevista e descobre mais nuances da obra com direito a histórias e vieses do seu criador.

Youtube | Deezer | Bandcamp



Entrevista: Valciãn Calixto

Conversamos com o Valciãn Calixto par saber mais nuances, detalhes, histórias e conexões do seu segundo disco.

Psirico, Àttøøxxá, Brega, Salsa, Xote, Capoeira, Axé, Rock, Forró, Funk, Pop, a meu ver, o teu disco tem um pouco de tudo isso e muitas vezes soa como uma mixtape. De certo modo mostra uma outra forma de você contar suas histórias e origens, mas sem ter a obrigação de ser linear ou querer ser conceitual demais. Conte mais sobre as nuances e o amadurecimento do projeto dentro da sua concepção.

Valciãn Calixto: “Primeiro agradeço a oportunidade e o espaço que o Hits Perdidos está dando ao Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível, meu segundo disco.

Segundo agradeço a liberdade que você me deu e aproveitei para falar de coisas até além do disco, o álbum ele já está no mundão, as pessoas só precisam pescá-lo.

Terceiro, falar do prazer que foi o processo de construção desse álbum. Algumas músicas eu já tinha prontas desde 2017, outras foram compostas ano passado e acredito que uma fiz esse ano ainda. O disco foi gravado de 2019 a 2020, o que me possibilitou ouvir, reouvir, fazer e desfazer, testar, acertar arranjos, timbres, versos que eu sentia que ainda podiam ser melhorados.

O Processo

Acredito que ter paciência para com seu próprio trabalho, buscar entregar o melhor sempre, mesmo sem a estrutura de um grande estúdio por trás, sem uma grande equipe por trás, e, ainda assim sentir que ter um bom resultado é possível, esse foi um dos grandes aprendizados do processo.

Estudar, pesquisar, investigar sonoridades sabendo que “toda música brasileira é afro-brasileira”, como disse o Letieres Leite ao El Cabong, foram balizadores desse trabalho, sem, de fato, forçar para parecer conceitual ou coisa que o valha, e, acredito que deixei isso muito claro quando digo na penúltima faixa que “não posso abraçar o mundo”.

O meu mundo já é diverso suficiente, o disco tem Afrocentrismo, tem Umbanda, tem Bíblia, tem Netflix (risos), tem Adinkra, tem Os Cinco do Central Park, tanta coisa e todas elas falam por si só, assim como também convergem e dialogam entre si, o que é o mais gostoso.

A soma de tudo isso vem no bojo do meu amadurecimento recente e ainda (eternamente) em construção. São essas as histórias que trago.”

Amor, religião, mudanças, contratempos, família, amizades, rotina, sexualidade, violência, poesia, perseverança, superação e desabafos são contornos do lançamento. Comente mais sobre os temas e mensagens que queria passar para os ouvintes.

Valciãn Calixto: “Toda e qualquer mensagem nesse disco tem um único desejo, o de que o NTSFTI consiga transmitir força e luz a quem tiver contato com as faixas. Se esse trabalho servir para amenizar qualquer tipo de conflito que alguém esteja vivendo, eu já me sinto realizado, pois produzir todas essas canções também tiveram essa função comigo, as minhas músicas me mostraram onde eu podia encontrar forças para seguir em frente, mesmo em tempos tão tempestuosos e imprevisíveis como esse nosso.

São cinco meses vivendo uma pandemia, com pouquíssima informação sobre essa nova doença, incerteza quanto à vacina, quanto ao novo normal, paralisação das atividades, retomada com protocolos que ninguém vai obedecer, quebra da rotina, do cotidiano, afastamento, isolamento, familiares em grupo de risco, tudo isso somado à problemas que já tínhamos antes como o acirramento e a polarização da disputa política no Brasil, a falta de um líder responsável que o país vive há mais de dois anos, sabe. Então não posso querer outra coisa, além de abraçar as pessoas e dizer mesmo que eu sei, que nós sabemos: nada tem sido fácil, mas tão pouco impossível e é por isso que vamos sair dessa ou que ao menos ainda temos a deusa Música para aliviar nossas tensões.

Nesse sentido é que eu canto e rogo “que Deus nos livre de todo mal entendido/cubra de paz quem possa ter se ofendido/com uma palavra mal colocada que possamos ter dito”. ‘We Don’t Need No More Trouble’.

Você acredita que neste disco encontrou sua identidade como artista? Quais foram os maiores aprendizados em relação ao Foda!?

Valciãn Calixto: “Eu acredito no seguinte, o Piauí é um estado de meio, de passagem, os bandeirantes vinham do Sul e Sudeste matar índio no Norte/Nordeste do Brasil quando ainda tínhamos sesmarias e capitanias hereditárias. Nesse movimento sul X norte, de ida e vinda muita gente foi ficando por aqui, a costa litorânea do Nordeste: Recife, Salvador, São Luís também receberam muitos dos meus antepassados, então variadas culturas e manifestações foram formando o Piauí, logo a identidade do músico piauiense é versátil, o músico piauiense possui facilidade para tocar qualquer ritmo e tocar muito bem.

Tipo, a pegada do baixista nordestino no Forró é única no Brasil e no mundo. Não tem outro lugar, outro país nesse planeta fazendo sonoridade como a do forró ou do brega funk, por exemplo. Não é todo baixista brasileiro que toca as ghosts notes do Forró, o ‘caqueado’, como a gente chama, sabe. Quando se escuta um Luka Bass fica mais fácil entender.

A Identidade Plural

Tou falando isso tudo para tentar explicar que se eu tenho uma identidade, uma marca artística, qualquer coisa nesse sentido, ela é plural e diversa por natureza e eu agradeço por isso, de verdade. Hoje eu sei disso de uma maneira consciente e busco explorar quanto posso. Meu segundo disco é uma mostra disso.

Às vezes me preocupa apenas o fato de que a imprensa musical/cultural no Brasil não tenha repertório para esse tipo de abordagem, então é muito fácil um jornalista deixar meu disco na prateleira, por preguiça, por achar que não tem obrigação nenhuma de conhecer a Cultura produzida nos quatro cantos de seu país. E aí quando isso acontece é que a gente vê uns apagamentos históricos, umas barbaridades como a que rolou sobre o Moreno usar prato e faca na live do Caetano e colocarem como se o instrumento fosse algo improvisado, minimizando a história de quem veio antes de mim e possibilitou eu gravar uma swingueira com distorção e subgrave hoje.

Esse é o risco de eu gravar um disco onde cada música traz um ritmo diferente e a imprensa umbiguista brasileira não dar conta. Só que aí também não é um problema meu, né?. ‘Sigo o meu caminho, tranquilo e sozinho, eu mato a cobra e ainda dou bico no ninho’.”

O disco também faz conexões com artistas de outros estados. Conte mais sobre como foram as conexões e o desenvolvimento das parcerias. Como foi juntar o Brasil e suas diferenças para cantar sobre as suas diferenças e conexões?

Valciãn Calixto: “Tem uma coisa que eu acho muito linda falando das participações do Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível, é que todos os convidados são artistas que está há mais de dez anos trabalhando profissionalmente com música e nenhum deles botou banca para gravar, nem atrasou os prazos, nada nesse sentido que, talvez, se fosse uma galera da “cena” poderia ter rolado (risos), mas pelo contrário, todos curtiram os convites e desafios, porque, por exemplo, foi isso que disse para a Julia: “ó Julia, tenho essa faixa aqui e acho que ficaria foda cantarmos juntos como se tivéssemos brigando um contra o outro, tem rock, mas também pagodão, é Axé Punk, minha investigação e experimento sonoro desde o primeiro disco. Cê topa?” Ela simplesmente se jogou e o resultado está aí para quem quiser conferir.

Julia Barth (Os Replicantes)

E a Julia, ela tem gás demais, além de estar à frente de uma banda punk histórica como Os Replicantes, tendo contribuído para renovar e aproximar o público feminino da banda, ela produz diversos eventos lá no Sul, encampa o Girls Rock Camp, que coloca meninas em contato com produção musical desde cedo na cidade dela, sem contar que ela e a banda foram contra e barraram o Lobão de regravar Surfista Calhorda (risos).

Jotaerre e Jeza de Pedra

O Jotaerre usa viola em beat de trap, vem ressignificando o lugar da guitarra na swingueira, é uma experiência tudo a ver com minha própria busca sonora. O Jeza, como cantor de rap é super afinadíssimo e não se prende a um só estilo, ele canta samba, forró nos trabalhos dele e a Juliana tem versões de pontos de terreiros arranjados para banda completa. Ela leva o terreiro pro palco.

Todos dialogam muito bem com a minha proposta, todos estão no caldeirão sonoro que o Brasil precisa conhecer e se apropriar mais. É sobre isso.”

Conte mais sobre a inspiração em Korey Wise e sobre teu lema de vida “Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível”. Como tem sido encarar nossos tempos?

Valciãn Calixto: “Eu passei uma semana num limbo muito grande depois que assisti Olhos Que Condenam, da Ava DuVernay, quando tive contato com a história dos Cinco do Central Park, por ver o tamanho da injustiça que as leis norte-americanas praticaram contra cinco jovens negros e latinos. Mais do que isso, a violência vivida pelas cinco famílias, a violência do sistema carcerário, as violências…

A série da Netflix deixa muito claro, algo que eu conheço, minha família conhece, vivemos na pele, como o modelo judiciário já nasce viciado e foi criado para prender quando quer e a quem deseja, que tem um alvo específico que somos nós, corpos negros.

Depois de uns meses eu criei coragem e revi a série, dessa vez, com meu pai e meus irmãos, todos negros e falei sobre a importância de nos mantermos unidos, fortes, sãos e dos cuidados que precisamos ter, apesar de tudo.

As Vivências

Esse spoken word, que era um texto bem maior e eu tive de enxugar um bocado, tem tudo isso e tem ainda mais uma mensagem para a 3R1K0N4, minha companheira de vida. Acho que é a faixa com mais referências implícitas e explícitas das minhas pesquisas e vivências recentes.

Ele poderia se chamar facilmente Neusa Santos, Eu Te Amo; Abdias do Nascimento, Eu Te Amo; Malcolm X, Eu Te Amo; Júlio Romão, Eu Te Amo que a mensagem final em nada seria prejudicada, pois é o que é, uma saudação à toda produção negra.”

A capa também eu sei que tem uma história muito boa e várias simbologias em sua identidade, fale um pouco sobre suas nuances e desenvolvimento. Aliás até mesmo a data do seu lançamento foi uma homenagem.

Valciãn Calixto: “A história da capa não pode faltar mesmo (risos). Aquela é minha moto desde 2017. Ela foi roubada um ano atrás numa noite em que havia ido levar a Eryka na faculdade. Graças à Zâmbi àquela noite a gente tinha algum dinheiro e conseguimos voltar pra casa de ônibus e dali uns quinze dias policiais a encontraram numa região totalmente extrema e longe da nossa quando faziam rondas em busca de outra moto roubada.

Acabou que quando a viatura adentrou um bairro lá, um cara tava empurrando minha moto, parece que a gasolina tinha acabado e ele estava usando a moto para praticar furtos lá na região. Ao avistar os policiais, ele largou a moto na rua e correu para um matagal conseguindo fugir. Foi assim que recuperei a moto. O mais curioso é que uns dias antes eu havia sonhado com alguém a pilotando numa estrada de terra e mato sem os retrovisores. Foi como encontraram a “Popzinha”, sem os retrovisores.

O Roubo e a Capa

Então decidi que ressignificaria esse trauma e usaria a foto como capa do disco. A foto havia sido feita antes do roubo, numa vez que passei na casa do meu pai para buscar essa caixa de som. Eu a levei para ensaiarmos, a gente ligava uns três instrumentos nela: a voz, o controlador e o baixo, se não me engano hahah. Isso antes de começar a gravar o disco.

A Data do Lançamento

Já sobre a data e a homenagem é simples: eu sou Umbandista. O disco foi lançado em agosto, mês no qual homenageamos o orixá Obaluaê, o Senhor da Terra, da Evolução e da Doença, que vem para mostrar que o corpo precisa de cuidado e prevenção. Ele é cultuado durante todo o mês, mas a data principal é dia 16.

O disco saiu dia 17, uma segunda-feira que é o dia da semana em que muitos terreiros de Umbanda e Candomblé cultuam as entidades Exus e Pombagiras. O Exu (entidade) que me acompanha e aparece sugestivamente na capa é falangeiro de Obaluaê, ou seja, atua na força e na vibração de Obaluaê.

Dessa maneira aproveitei a energia dessas duas datas para o lançamento e para dedicar o disco a eles, uma vez que não pude ir até o ponto de força deles na natureza que é o cemitério, por conta da pandemia, realizar a obrigação que tenho para com eles.

Assim, na capa eu peço proteção no caminho que vou trilhar com minha música. É o que tá lá simbolizado.”

Além de músico você também tem a conexão com teu pai que, por muito tempo se dedicou a melhorar as políticas para músicos da região, conte mais sobre essa luta da família Calixto. Recentemente você também protestou em razão de um edital local que foi contra suas próprias regras e lisura do processo, sua voz foi ouvida e multiplicada e assim o resultado foi revertido. Conte mais sobre essa história e sobre seu envolvimento com a cultura do Piauí para quem ainda não conhece.

Valciãn Calixto: “Vou tentar resumir o máximo possível. Foi muito bom você tocar nesses dois pontos. O meu pai, seu Calixto, fez-se músico muito cedo e a contragosto da vó dele, minha bisavó. Ele conseguiu o respeito dela quando começou a ganhar algum dinheiro tocando em banda de baile e quando terminou o colégio. Isso tem 40 anos, pelo menos.

Então ele passou por diversas bandas do Piauí, acompanhou diversos cantores nacionais como Reginaldo Rossi, Noite Ilustrada, Jessé, eu tenho uma lembrança do Odair José ensaiando no terraço da minha casa quando eu era criança. Acho que ele passou umas duas semanas ensaiando lá com a banda do meu pai para um show.

Essa época, depois de tocar como guitarrista e baixista nas principais bandas do Piauí, o seu Calixto montou a própria banda chamada Kura Musical, que chegou a gravar um disco. Por sinal, upei o álbum no meu canal do youtube. Se você ouvir vai ver que não é muito diferente do Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível, cada faixa é um ritmo diferente.



Ordem dos Músicos do Piauí

No início dos anos 2000 teve um processo de reestruturação da Ordem dos Músicos aqui no Estado e indicaram meu pai para ser presidente. Ele passou cinco anos à frente da instituição. Praticamente a recomeçou do zero e conseguiu respeito e respaldo. Realizou diversas ações em prol da categoria, além de conscientizar sobre a importância da filiação e de ter a carteira de músico, uma vez que se um músico sofresse qualquer ilegalidade nos bares e bailes da noite, poderia recorrer à Ordem, que teria um advogado à disposição.

Esse é um pouco da luta do meu pai. Ele ensinou e formou muita gente que hoje ganha a vida como músico dentro e fora do Piauí. Ele criou a mim e meus irmãos apenas com o dinheiro da Música, então você pode imaginar a barra que foi, mas hoje nosso orgulho é maior, pois é uma história vitoriosa, estamos vivos e produzindo.

Projeto Boca da Noite

Aí você citou o problema que tivemos há poucos dias aqui em Teresina. Foi sobre o projeto Boca da Noite, que todo ano seleciona cerca de 15 artistas para se apresentarem toda quarta-feira em um palco da cidade. Esse ano os shows serão transmitidos ao vivo. Pandemia. É um projeto que tem mais de 15 anos, precisa ser reformulado totalmente, o público mudou, o cenário mudou, os artistas também e a maneira como é feito ficou engessada.

A prova é que alguns músicos e bandas mais antigas, mesmo sem lançar nada há mais de cinco anos, sem trabalho recente, sem nem fazer shows sempre são selecionadas, parece que possuem cadeira cativa. Enfim, um processo super viciado. E esses artistas contaminam os novatos. Um dos problemas do edital desse ano é que ele exigia música autoral e quando fomos olhar a lista dos selecionados havia pelo menos três bandas sem nenhuma música lançada. Aí nós compramos briga.

O Jairo, amigo e vocalista da banda Kandover, entrou com um recurso contra a seleção e eu levei o caso todo para as redes sociais. A pressão foi tanta que isso repercutiu dentro do prédio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), pois quando estávamos nos articulando para pedir o cancelamento do edital, a própria secretaria nos comunicou que iam cancelar a seleção, convocar novos curadores e refazer do zero. Foi a primeira vez em mais de 15 anos que algo do tipo aconteceu, que os músicos tiveram coragem de protestar contra a principal pasta de Cultura do Piauí. Aqueles pique: RESPEITA OU PEITA (risos).

Em sua opinião quais são as maiores dificuldades da música produzida no Piauí se difundir para outros centros?

Valciãn Calixto: “Essa pergunta tem muitas respostas. Tantas respostas que eu vou ter de escolher só uma pra poder direcionar aqui e diria que uma das dificuldades é a má vontade estrutural e a facilidade de se cooptar uma panelinha de artistas pra ficar gravitando em torno ali dos gestores, tendo seus projetos aprovados todo ano nos mesmos editais, comprometendo a oxigenação da cena. Mas eu vou tentar exemplificar.

Você sabe, nós sabemos, que hoje a internet, a tecnologia, as redes de contato, o acesso a equipamentos, entre outros fatores, facilitou bastante para que o artista possa produzir de onde estiver. O Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível foi gravado com uma M-Áudio de dois canais, por exemplo, e está no mundo. Então se o artista não viraliza com um vídeo, um meme, uma estratégia ou o que for, ele vai precisar de um mínimo de apoio das iniciativas privadas e públicas.

A Falta de Apoio

Historicamente isso nunca houve no Piauí. Frank Aguiar saiu do interior do Estado e se fez em São Paulo, até vice-prefeito de São Bernardo do Campo ele foi, e tudo esforço dele. Stefhany Absoluta viralizou com os clipes dela, Whindersson Nunes com o canal dele no Youtube, Getúlio Abelha, nenhum nunca teve apoio das estruturas públicas do Estado.

Outro dia faleceu dona Maria da Inglaterra, uma mulher com mais de duas mil músicas, mas que só gravou um disco em vida, se não me engano. E nas últimas semanas precisou de uma campanha nas redes sociais para ajudar no tratamento dela. É isso o que a máquina cultural do Piauí faz com os artistas daqui. Depois, infelizmente, a pessoa morre, vai todo mundo surfar no luto, postar foto, dizer que era referência, resgatar a história, uma semana depois vira nome de rua e fim.

Nada Tem Sido Fácil Tampouco Impossível

Falando assim, parece que eu vivo esperando o Governo me pegar no colo, mas não, né?. Eu gravei meu disco aqui dentro do meu quarto. Sem eles. De dentro do meu quarto fiz contatos com pessoas de outros estados que toparam gravar participações especiais, estou dando essa entrevista pro Hits Perdidos, então ninguém pode dizer que eu vivo esperando um edital da Secretaria de Cultura, certo?

Na ausência de propostas, de ações, de uma gestão que olhe para o artista, eu estou produzindo, lançando clipe, lançando single, lançando disco, tudo isso no meio de uma pandemia mundial. Não vi outro artista fazer isso aqui.

E acho que esse é o caminho, respondendo sua pergunta, o artista só tem que seguir em frente, é essa a perspectiva da capa do meu disco, a placa do Piauí pro mundo. Sem esperar, afinal de contas, a gente sabe que nada tem sido fácil, tampouco impossível.”