Produzir durante a quarentena tem sido um constante paradoxo para diversos artistas. Alguns conseguem focar…outros simplesmente não conseguem produzir algo do zero. Alguns lidam com acabamentos e preparam materiais de divulgação….já outros tentam lidar com a passagem do tempo. Fato é que Ga Setubal, ex-Pitanga em Pé de Amora, e que teve uma breve passagem por outros grupos como a Trupe Chá de Boldo, viu diversos amigos músicos se aventurando a produzir videoclipes e acabou se interessando pela proposta criativa.

A Trajetória de Ga Setubal

“Tocamos juntos por quase 8 anos e fizemos dois discos e um EP (Pitanga em Pé de Amora). Tivemos o prazer de dividir o palco com grandes artistas da música brasileira como Mônica Salmaso (que também chegou a gravar em dos nossos discos), Laércio de Freitas, Chico Pinheiro, Marcelo Pretto e Jair Rodrigues, com quem tocamos ‘Disparada’ no programa Som Brasil da Globo. Uma das coisas mais emocionantes da minha vida..

Antes da banda terminar pudemos participar do mítico programa Ensaio da Rede Cultura. Nesse meio tempo atuei como trompetista em projetos autorais como Trupe Chá de Boldo e Rafael Castro.”, lembra Ga Setubal que pouco antes da Quarentena iniciou seu voo solo

Apaixonado pela MPB as referências principais da sua primeira banda eram artistas como Tom Jobim, Chico Buarque, Rafael Rabello, Paulinho da Viola, Baden Powell entre outros grandes nomes.


Ga Setubal por Helena Wolfenson

Ga SetubalFoto Por: Helena Wolfenson


O Voo Solo

É completamente diferente conduzir um show sendo o único no centro do palco, defender praticamente só músicas suas e basicamente levar sozinho todo um projeto que demanda várias pessoas.

Mas creio que o maior desafio é entender quem você é e quem você quer ser. Ter clareza dessas coisas, por mais mutáveis que elas sejam, é pra mim um grande desafio e acredito que estou vivendo ele. Mas tendo prazer nisso.”, revela Ga Setubal sobre os desafios da carreira solo

Em detrimento da pandemia, assim como diversos artistas, viu nos primeiros meses um freio na divulgação dos trabalhos. Ele lançou o vídeo para “Artéria de Titã” e de “Canção de Partida“; este último que foi escolhido como um dos Favoritos do Hits Perdidos para o extinto programa Udigrudi, da antiga Play TV.



Ga Setubal “Monolito”

Entre uma enxurrada de lives, estudos, passatempos, ressignificação de experiências, negócios fechando as portas, crise política, milhares de infectados, especulações sobre um futuro incerto e muito trabalho, Ga Setubal nos apresenta hoje em Premiere no Hits Perdidos o videoclipe para “Monolito”.

A produção audiovisual é fruto de uma parceria com o diretor Deco Farkas que já produziu diversos vídeos para os projetos do músico. A canção de amor escrita em homenagem a sua companheira também ganha diversos significados durante esse momento de fragilidade em que estamos vivendo.

Memória, transformação, amor e futuro acabam sendo a mensagem central da canção que faz a ponte entre a MPB e o Pop. Entre as referências de seu projeto solo ele cita nomes como Gal Costa, Djavan, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Luiza Lian.

As mudanças, as transformações e a cumplicidade transparecem ao longo dos seus versos carinhosos e reluzem nas cordas do instrumento e na harmonia dos teclados. A produção musical é assinada por Lourenço Rebetz, Charles Tixier – responsável pela produção de VIA –  e o próprio Ga Setubal.

O Videoclipe

O vídeo por si só transforma a experiência ao ouvir a canção trazendo elementos de takes gravados em sua própria casa com traçados de técnicas que na tela soam como pinceladas (rotoscopia) e dialogam com nossos tempos de constante reflexão e resguardo.

O celular acabou servindo como ferramenta para a produção e o resultado impressiona não apenas pelo bom uso da tecnologia mas pela mensagem sensível que consegue transmitir tantos sentimentos mesmo com tão poucos elementos.

Como a canção fala das coisas que marcam e se eternizam na memória em uma relação amorosa, achamos que essa ideia visual do desenho que vai deixando sua marca no plano do vídeo até não sobrar mais imagens do vídeo original, tinha tudo a ver com a música. A partir disso vem toda a criatividade e experimentação visual do Deco.”, conta Ga Setubal



Entrevista: Ga Setubal

Conversamos com o Ga Setubal para saber mais sobre a Quarentena, Videoclipe, momento do Brasil e arte.

Primeiro gostaria que contasse como tem observado o momento entre pandemia, política, distanciamento e como tem feito para se manter são no meio disso tudo? Tem sido um momento que tem conseguido produzir o quanto gostaria ou varia bastante?

Ga Setubal: “O futuro vai acontecer mas ele foi roubado de nós. O governo Bolsonaro é o governo do desmanche, do desastre, é o desgoverno, né?

Além de todo retrocesso civilizatório que representa, me parece que não tem um projeto real. Por pior que seja, não tem projeto pra educação, pra saúde, pro trabalho. Só um desejo de destruir o que aí está. Se tanto, tem um projeto falido para a economia, projeto que mal começou e já deu errado.

A crise do Covid-19 por si só vai destruir tudo isso ai e eu me pergunto o que vai sobrar depois da pandemia e depois do Bolsonaro? Vai demorar muito tempo pra reconstruir as coisas e vão ficar marcas profundas na sociedade. E isso tem me deprimido bastante.

Mas acho que tenho sentido esse desânimo muito por conta do distanciamento. Ficar em casa não tem sido fácil pra ninguém. Dá uma sensação de impotência e desarticulação muito grande.

Criar na Pandemia

Do ponto de vista de criação também não tem sido muito frutífero. Ter mais tempo pra criar, pra mim pessoalmente, não implica em criar mais. Percebi que sim, é preciso o tempo para processar a criação, mas esse tempo serve para processar as experiências, os encontros, as vivências, que por sua vez não tem acontecido como aconteciam e eu não tenho lidado muito bem com isso. Os dias são muito parecidos… Por outro lado tenho aliviado essa tensão tentando aprender coisas novas, estudar o violão, ler, coisas assim.

Mas pra não ficar só numa visão dura, acho que quando os encontros voltarem, teremos muito o que pensar em conjunto, tanto o que escrever, cantar, idealizar. Tem sido dito ao limite como o mundo vai mudar.

Não acho que vai mudar tanto assim agora quando acabar a pandemia, mas acho que as pessoas vão estar muito mais dispostas a imaginar e se mobilizar por um mundo completamente diferente, baseado e outras coisas, outros valores. acho que estamos chegando num limite que não dá mais pra voltar.”

“Monolito” em sua letra fala bastante sobre os conflitos sentimentos confusos deste momento. Entre o temor pelo futuro, como tudo se transforma, as memórias, os traumas mas de uma forma leve e até mesmo esperançosa. Além disso você cita Caetano, “Samurai” do Djavan e brinca faz uso de metáforas. Conte mais sobre a composição e todo o seu entorno.

Ga Setubal: “Memória, transformação e futuro são palavras perfeitas para descrever a música. Essa é uma canção de amor muito pessoal, o que dá margem à muitas interpretações e adoro isso nela.

A letra descreve imagens e coisas da casa e da vida cotidiana que levo com minha parceira. Ela fala sobre a solidez das memórias diante da possível finitude do amor, da transformação deste e das coisas que o cercam com o passar do tempo, da incerteza do futuro. Pensei que essas coisas se relacionam com o momento na medida em que estamos passando por uma onda que vai deixar marcas profundas.

Marcas que vão transformar a realidade e ditar as coisas no futuro. Futuro que não sabemos qual será. Pensei também que diante de tantas vidas perdidas, frustrações e ódios, uma música bonita e esperançosa faria bem pras pessoas.”

Uma marca dos seus videoclipes é o esmero e sempre tentar surpreender no próximo vídeo tendo até mesmo vídeo premiado.

Gostaria de saber mais sobre a concepção, brainstorm e até mesmo a preocupação de mostrar ele sendo gravado em casa, com diversas simbologias como a dança da vida, as bagagens entre outros símbolos. Como foi esse processo todo, as escolhas artísticas e o desenvolvimento da parceria com Deco Farkas?

Ga Setubal: “O Deco é um parceiro das antigas, nossa amizade vem lá da adolescência. Temos muita história, moramos juntos por quatro anos e isso permite um diálogo muito aberto e profundo. a gente se conhece muito bem.

Quando eu dei o toque nele para fazer o clipe, tinha uma ideia muito clara na cabeça por conta de um clipe que fizemos juntos para a minha ex banda Pitanga em Pé de Amora, no qual gravamos com celular no metrô de São Paulo e ele fez a rotoscopia depois. Eu pensei que com essa técnica conseguiríamos fazer o clipe na situação de isolamento e basicamente sem recurso nenhum, só um celular e o Deco! (risos)

A Técnica

Ele logo propôs usar a técnica do artista Jack Fried na qual o desenho vai passando por cima de si mesmo deixando seu rastro, o que eu achei perfeito com a letra da música, a ideia de que as coisas vão se transformando e deixando suas marcas.
Confesso que o brainstorm acaba meio que por aqui. O Deco me pediu pra gravar uns vídeos pra ele fazer uns testes na casa dele e tal mas, ao contrário do clipe de “Canção de Partida” que foi inteiro “storyboard zado”, neste o deco foi inventando os planos na hora, vendo o que funcionava e o que não.

Adorei a interpretação da dança da vida! Acho que é isso que imprime mesmo. Esses movimentos são as memórias soltas a correr. mas pra falar a verdade eu e o Deco não conversamos sobre isso, estou pensando agora!”



A tecnologia também faz parte da narrativa, você cita até mesmo como o celular ajudou no processo. Gostaria que comentasse mais sobre isso e como esse lado D.I.Y. e uma boa ideia podem ajudar a construir um videoclipe instigante mesmo sem sair de casa.

Ga Setubal: “Durante esse período da quarentena vi vários colegas músicos lançando clipes muito legais feitos com celular, foi uma limitação que se impôs. Até pelo fato de que nós queríamos produzir uma vez que não podíamos tocar. No meu caso, sinto que foi pura sorte ter alguém como o Deco pro clipe não se limitar ao vídeo e ter a animação também. (inclusive dando uma aliviada na imagem do celular).

Mas penso que o processo de fazer clipes é complicado e muitas vezes caro. Você precisa de gente, equipamento, locação, ideias. Claro que dá pra contornar isso de várias maneiras mas não é nada simples.

No fim o clipe é uma peça muito importante para difusão do artista mas muito difícil de ser viável financeiramente. Então acho que explorar clipes com uma técnica muito limitada e ir fundo nessa estética, encontrando soluções legais e retorcendo elas pode ser bom.”