Desde 1998 na estrada e não tem o que faça o Carbona parar. No ano passado inclusive os punk rockers da escola bubblegum lançaram seu décimo primeiro álbum, Vingue no Ringue.

Com metade da banda vivendo no Rio de Janeiro (Henrique e Melvin) e a outra metade no exterior (Pedro em Houston/EUA, Bjorn em Bergen/Noruega) para o Carbona colaborar, gravar e compor à distância não foi uma grande novidade durante a pandemia.

Os celulares, aplicativos e softwares facilitam bastante o processo, além da parceria de um bom tempo com o produtor Davi Pacote (Hill Valley Studio), de Porto Alegre (RS).


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CarbonaFoto: Divulgação


Carbona “Minha Cabeça”

No momento eles optaram, por questão estratégia digital, em lançar singles ao invés de um trabalho maior. “Minha Cabeça” é o primeiro single do Carbona a ser revelado em 2020.

A capa do single, inclusive, conta com arte de Victor Stephan que além de artista gráfico é vocalista da banda Os Estudantes.

A faixa flui no melhor estilo Carbona de progredir seus power chords. Joga fácil com o que consagrou Ramones, Screeching Weasel, Riverdales, Teen IdlesThe Queers e toda essa escola.

A instabilidade da nossa cabeça em tempos como os nossos acabam transparecendo nos versos que mostram como a música pode nos salvar até mesmo nos piores momentos. A musicoterapia como a alma da trupe carioca.

Videoclipe



A faixa também um ganhou videoclipe dirigido e editado por Sergio Caldas. No melhor estilo Quarentena, os cariocas aparecem diretamente de suas casas e mostram gostos, objetos, paixões e traços da sua personalidade através de divertidas ilustrações que refletem o que eles “tem na cabeça”.

Tudo isso no melhor estilo Meninas Super Poderosas, o que deixa tudo no mínimo hilário. Lembram do Macaco Louco? Tão anos 90 quanto a divertida personalidade impressa nas canções cartunescas do Carbona. Inclusive o desenho e a banda surgiram em 1998.

Entrevista: Carbona

Conversamos com o Carbona que deram diversas dicas sobre como aproveitar esses tempos estranhos para produzir e consumir muita cultura.

Primeiro queria que contassem como tá sendo a quarentena para cada um de vocês? 

Bjorn: “Quarentena não é fácil, né? Mas é e está sendo muito necessário pra poder conter o problema. O medo cresce e da até paranóia. Qualquer coisinha já pensa que tá doente. Mas nessas horas que a gente muda o foco e tenta ver algo de bom nisso tudo. Coisas novas surgiram e muitas ideias rolaram. Agora é não perder as esperanças e seguir em frente.”

Henrique: “Período difícil. De disciplina física e mental. Difícil olhar pro lado, ver que tem muita coisa acontecendo com muita gente e não se abalar. Venho tentando fazer a parte das recomendações e cuidados que nos cabem, a musica ajudando bastante e por isso tem sido um período musicalmente produtivo.

No meio de tudo a gente ainda tenta encontrar coisas positivas como as lives, programas de entrevistas, esta descentralização de programações que a pandemia trouxe. Ligar o insta e ver seus artistas favoritos entrevistando outras pessoas, bate papos na madrugada e etc.”

Como tem sido para movimentar projetos? O Henrique eu sei que lançou diversos singles, o Melvin colocou ainda mais força em sua newsletter mas contem mais sobre os desdobramentos e como fica o Carbona no meio disso tudo?  

O Carbona

Melvin: “O Henrique começou a lançar os singles solo e chamou a gente pra aparecer no clipe do “Tá Osso”. Daí o papo fluiu naturalmente pra fazer um single nosso, e um dia ele mandou a demo do “Minha Cabeça”.

Pra gente foi muito natural, porque o último disco já tinha sido um pouco assim (o Pedro tá nos EUA, o Bjorn na Noruega). O mais legal foi que funcionou pra gente, os quatro ficaram muito felizes com o resultado e com o processo, e a ideia é produzir singles com mais constância.

Os Desdobramentos e as Lives

O Henrique faz algumas lives, mais pelo perfil dele no instagram mesmo, e a gente nunca vai ter como fazer uma live com banda (a tecnologia ainda não existe pra isso) sem ser pré-gravado. Mas estamos felizes de seguir assim enquanto não conseguimos nos encontrar de novo. Produzir algo novo do Carbona é sempre uma grande alegria, a banda sempre teve como objetivo produzir bastante.

Além disso, eu tenho umas músicas dos Inoxidáveis prontas, inclusive uma ótima chamada “Remédios Falsos” que eu estava segurando pra não confundirem o tema com a pandemia, mas agora acho que já quero lançar e estou tentando editar um clipe sozinho.”

Aliás esse período acabou gerando diversas reflexões que acabaram ilustrando os versos do novo single. O legal é que a letra permite uma reflexão além desse período, foi um dilema isso na hora de compor? Teremos um EP ou álbum a caminho? Como tem sido as gravações à distância?

Melvin: “Acho que teremos mais singles, não sei se alguns com mais de uma música, e isso depois pode voltar em uma coleção, mas a ideia não é álbum ainda. Não tivemos nem shows ainda do Vingue no Ringue, eu acho que tem que ter clipe de “Tom Araya” e “Tão Distante”, tem muito o que trabalhar dele. A gente adora álbuns, mas a ideia por agora são singles.”

O Henrique também trabalha em uma gravadora. Gostaria de saber como está observando e planejando estratégias em meio às possibilidades de divulgação que atualmente se resumem ao mercado digital neste momento de incertezas em relação a quando será possível retornar os shows ao vivo.

Como observa o uso das ferramentas e como vê que é a melhor forma de se manter em contato com os fãs?

Henrique: “O período é de fato de muita dificuldade, de adversidade. Os palcos fecharam da noite pro dia e não há muita previsão de volta de shows no formato que conhecemos antes que tenha vacina. Mas o fato é que a musica é grande e maior do que tudo isso.

Estou em casa há 4 meses e sem dúvida a musica é o que mais tem ocupado meu tempo. Seja ouvindo serviços de streaming, seja vendo lives, seja vendo entrevistas do Brian Fallon por exemplo que fez seu próprio programa de entrevistas.

A Produção na Pandemia

Acho que mais importante que o meio e veículos, é a própria necessidade e vitalidade de querer fazer e ouvir música. O lado positivo de todo este período difícil foi justamente ver como a musica é forte e segue.

Uma coisa que aprendi, até mesmo com meus singles, foi de repensar a forma de produzir música. Quando a coisa aperta você faz com o que tem. E vi que com samsung s10 consigo gravar musica com uma banda espalhada pelo mundo produzida pelo Pacote em POA.”

Para você, Melvin, como tem sido planejar as newsletters? E o que vem chamando a atenção e gostaria de indicar para o pessoal para aproveitar este período de isolamento social e conhecer boas histórias? (valem discos, livros, documentários, filmes e tudo mais)

Melvin: “A newsletter começou como uma extensão do meu livro, pra seguir falando com um público que descobri que queria me ler. Chegou a incluir resenhas de show e quando a pandemia chegou me permiti um tempo pra repensá-la.

Ela é quinzenal, e nessa pausa não chegou a ficar um mês sem sair. Agora ela virou um jeito de repassar tudo o que tem chamado a minha atenção, e eu sigo consumido/absorvendo muita coisa, num ritmo acima das pessoas normais (risos).

Fases da Quarentena

Além disso, fui me permitindo “fases” nessa quarentena, pra finalmente revisitar algumas obras com mais dedicação. Comecei numa fase The Clash, depois veio uma fase Beastie Boys por causa do livro e do filme, Stooges, e agora tô numa fase HC anos 80. Sempre mergulhado em milhões de documentários e livros.

Documentários, Discos e Livros

O melhor documentário de música ainda é “Searching for SugarMan“. O do Beastie Boys é um show quase Ted Talk, e mesmo assim é imperdível. Eu assisti a essa série “Punk“, aí deu vontade de rever o Minutemen, o “American Hardcore” e o “Salad Days“. Tem um só de São Francisco, sobre a Lookout também, que é o “Turn it Around“, um pouco menos obrigatório. E o “Pick it up – Ska in the 90s“, porque gosto muito de ska.

De discos eu estou ouvindo cada single do novo do IDLES com muito afinco, doido pro disco sair. Também curti muito Disq e The Chats. E o Yamasasi, que conheci graças ao Hits Perdidos.

Li o “Get in the Van” do Henry Rollins, que procurava há anos. São os diários dele na estrada com o Black Flag – é pesado mas é muito interessante. Também acertei as contas com o “Só Garotos” da Patti Smith e é mesmo tudo o que dizem. Agora estou lendo o segundo livro do Dr Frank, do MrT Experience.

Teve o “Meet me in the Bathroom”, que me jogou novamente numa fase NYC anos 2000. E acabei a revisão da segunda edição do meu livro, “Estrada”, que tinha esgotado ano passado. Estou vendo se sai em e-book também.”

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