Sem medo de soar pop, a Ginge é uma novíssima banda composta por Vitor Brauer (Bateria/Voz), Fernando Motta (Guitarra/Voz), Bruna Vilela (Guitarra/Voz) e Marcela Lopes (Baixo/Voz).

Praticamente um supergrupo do indie mineiro, os integrantes são conhecidos pelos projetos Lupe de Lupe, Xóõ, Desgraça Vitor Brauer, Fernando Motta, Miêta, NAUSEA, Polly Terror e Agreste.

Embora amigos de longa data, e de alguns terem tocado juntos algumas vezes, é a primeira vez que eles decidem realizar um projeto em parceria; algo que segundo eles mesmos foi um processo bastante divertido. Os músicos foram atrás de referências do pop dos anos 90, e nisso vem um pouco de tudo, do pop rock radiofônico ao sertanejo.


Ginge 2020

GingeFoto: Divulgação


Saindo da Zona de Conforto

Um exercício que não é dos mais fáceis ainda mais para quem está acostumado com projetos repletos de distorção, spoken word e muita reflexão em suas narrativas. Mas nem por isso deixa de ser interessante, muito pelo contrário, justamente por trabalhar sob uma nova perspectiva – e filosofia.

Vamo combinar: Quem não gosta de uma canção para cantar junto? Seja um brega, um funk, um sertanejo ou até mesmo um pop rock bem feito, existe todo um universo que explica o potencial de conseguir dialogar com multidões. Claro que existem técnicas e regras para isso, e testar isso, é de certa maneira sair da zona de conforto.

Ginge “Marília”

Em seu single de estreia, “Marília”, a Ginge brinca um pouco com isso. Dos amores selvagens as histórias complicadas, regadas a chá de climão e muita “sofrência”. Algo que tem tudo a ver com o sertanejo e que nos últimos anos tem se destacado em vozes como a da cantora Marília Mendonça, homenageada na faixa.

A dinâmica da canção é interessante também pelo fato dos 4 compartilharem os vocais e por não abrirem a mão das guitarras distorcidas.

O contexto de ir no analista, e o dilema das redes sociais, também mostra como ela é bastante contemporânea – ao mesmo tempo que conta com versos feitos para cantar junto. Algo que bandas como os cariocas da Biltre fazem com muito êxito.

É até divertido quando a guitarra insinua simular a batida do funk carioca. Ela é pop e alternativa ao mesmo tempo sendo uma eterna contradição que no final dá ginga, ou melhor dizer, Ginge.

O single conta com a mixagem realizada por Fernando Bones, masterização por Vitor Brauer e produção da própria banda.

O Videoclipe



A faixa integrará o EP Pré-Jogo que contará com 4 singles, cada um ganhará um videoclipe roteirizado e dirigido por um diretor diferente. O de “Marília”, por exemplo foi gravado em Nova Iorque por Gabriel Honzik.

Pré-Jogo, a estreia da Ginge, chegará as plataformas digitais no dia 23/07 via Geração Perdida de Minas Gerais.

Entrevista: Ginge

Conversamos com a Marcela, a Bruna e o Fernando para saber mais sobre o single e EP de estreia da Ginge.

Queria que vocês contassem um pouco sobre como surgiu a ideia para o projeto. Um pouco também das expectativas iniciais e como tem sido a interação e o momento de criar coletivamente?

Fernando: “A gente até criou uma série de postagens no Instagram (@gingebh) pra ir contando essas etapas. Pelo que eu me lembro, a primeira vez que esbarramos nessa ideia foi quando eu e o Vitor tínhamos acabado de voltar da turnê de 4 meses que fizemos em 2017.

A gente ouviu muita música no carro durante as viagens e vez ou outra a gente comentava que sentia falta de músicas pop boas, tanto no nosso nicho quanto de uma maneira mais geral mesmo do rock. Chamamos primeiro a Bruna, que compartilhou dessa impressão com a gente. Depois nós três chamamos a Marcela e ela também pilhou. Basicamente a gente já era grandes amigos de dar rolês em BH.”

Marcela: “Já havíamos tocado junto, mas nunca os quatro juntos. Foi um negócio muito curioso e diferente e divertido pra mim o processo de composição, de gravação, de criar letra junto.”

E na questão da sonoridade, sei que referências vocês tem muitas e isso naturalmente se manifesta nos outros projetos de vocês. Como foi entender essa proposta e deixar fluir? Como enxergam o norte do projeto neste sentido?

Fernando: “Não é fácil criar uma música pop boa, mas também não é muito difícil (risos). Acho que é um processo de tomar cuidado pra não ficar piegas. Como todo tipo de composição, acho que é uma curadoria de si mesmo e das músicas que ouvimos durante a vida toda perpassam nossa cabeça de alguma forma.”

Marcela: “Sinto que a gente sintonizou legal no negócio de querer criar um trampo legal e se divertir, no sentido de não botar grandes fritações estéticas e essas coisas, só revisitar clássicos perdidos do pop rock né, ouvir música junto e trocar ideia sobre esses sons que meio que moldaram parte do que a gente ouvia nas rádios e essas coisas, quando mais novos.”

Bruna: “Fazer música pop, música “normal” e boa, que pega todo mundo e é boa, é algo bem difícil de acertar. Mas é um processo delicioso pra experimentar e entender como funcionam diferentes dinâmicas de comunicação.

Enquanto a gente ia pensando letras e riffs que nos fizessem sentido e que, ao mesmo tempo, entrassem em um pouco de toda essa bagagem que a gente tem das músicas massivas, a gente conversava sobre umas bandas que conseguiam fazer sons que a gente admirava muito. Desde The Killers, até Pato Fu, passando por Skank e Marília Mendonça e outros ícones pop.

Acho que somos quatro pessoas que gostam absurdamente de música, sem preciosismos com nicho ou gênero, e que gostam de pensar sobre música, falar sobre e entender. Então, o norte inicial é a roupagem pop, mas acho que nos propusemos de forma bem leve a traçar os caminhos de curiosidade, experimentação e prazer dentro disso.”

Aliás eu adorei a homenagem a Marília Mendonça na faixa. Vocês curtem uma sofrência? Como veem essa fase da música pop e como surgiu a composição?

Marcela: “Escrevemos a letra juntos partindo de umas imagens simbólicas e recorrentes pra mim – a coisa da isca, da falta de ar, do afobamento/afogamento por emoções essas coisas bem sofridas. Aí percebemos que a voz e letra tavam bem honrando a sofrência, falando de relacionamento truncado, safadeza e tretas… a melodia levando pra picos dramáticos e dando aquela sensação de querer cantar e chorar junto.

Eu sou fã de Marília, eu e Bruna nessa época estávamos ouvindo demais, cantando, recitando Marília (risos) aí os quatro quisemos assumir essa admiração pelo trabalho dela nesta singela homenagem (risos).”

Bruna: “Foi uma delícia porque acho que conseguimos colocar um tanto de expressão cotidiana que todo mundo um dia já disse nessa música, além de imagens específicas que a Maice trouxe, como ela disse acima. É algo que nos pega e pega mais um tanto de gente. Marília é a rainha de fazer isso.

A música pop brasileira atual tem muita coisa subestimada. Claro que tem muita coisa que é hype sem sentido. Mas tem umas que fazem escola mesmo e dão versos pra gente “dar nome” pra uma série de experiências da nossa vida. E isso é bem potente em termos de cultura pop.

O videoclipe foi filmado em Nova Iorque, qual a história por trás tanto do roteiro como a sua relação com a faixa?

Fernando: “As quatro faixas do EP vão ter clipes, cada uma de um diretor diferente. A gente deu total liberdade pra eles criarem a partir da interpretação deles.”

Bruna: “E todos os diretores tiveram que criar e produzir o material em contexto de quarentena.”

Como resumiriam o conceito deste primeiro EP e como observam que podem trabalhar ele neste momento tão delicado?

Fernando: “O conceito é “Pop-rock e música normal”. A gente vai trabalhando ele na internet enquanto tiver rolando isso né. Espero que as pessoas curtam e fiquem ansiosas pra, quando rolar um show, ser um show foda.”

Aliás, como observam a importância da internet neste momento, o fechamento de casas de show, estúdios e tudo que temos vivido? Como veem que o mercado da música terá que mudar?

Fernando: “Graças a deus que tem a internet, né? Não só pela música. Mas imagina essa parada há, sei lá, 20 anos… A gente ia surtar. Vai ser foda essa questão das casas de show. Estamos vendo muitos lugares fechando, tanto os que a gente frequentava, quanto os que nos recebiam pra tocar. É muito triste.”

Bruna: “Particularmente, até consigo vislumbrar algumas possíveis mudanças estruturais nesse nosso meio, mas ainda tô tentando entender tudo e não sei se superei bem o “luto” de algumas perdas ou das possibilidades delas.

A gente segue fazendo música da forma que consegue em casa e tentando ajudar os profissionais da área e outras pessoas que mais precisam. Mas tudo é imprevisível demais. Então é um dia de cada vez, entendendo os passos com calma.”

Já que falamos mais sobre o momento, gostaria que comentassem sobre a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus” entre outras iniciativas que tem rolado nos últimos meses. E também contassem sobre como o pessoal pode ajudar.

Fernando: “A coletânea foi uma ideia de reunir artistas que tinham condição de gravar diretamente de casa. É basicamente a ideia de que “música dá pra continuar fazendo”, então é o que temos no momento, né? Vamos usar isso pra tentar mobilizar uma galera e ajudar quem tá precisando.”

Saiba mais Sobre a Coletânea