Uma banda em momento de transição. Feito o encontro entre rios, o desenvolvimento da sonoridade e perspectivas com o rumo do projeto vem sempre acompanhado das vivências. Entre turnês, ensaios, shows, convivência e muita pesquisa de campo. Com a Sick não foi muito diferente e depois de lançar Para Uso Recreativo (2017), pela Sinewave Label, a banda apresenta sua nova fase.

O Sonho e a Escada (Quadrado Mágico, 2020) ainda carrega elementos de post-rock, emo e math rock mas já traz nas nuances, e espirais, influências diretas e indiretas de outras estéticas musicais. Afinal, o tempo deu quilometragem e experiência para o grupo que neste período se apresentou em festivais como Picnik, Mineiro Beat, Bananada, Timbre e Locomotiva.

Conexões estas que possibilitaram e ajudaram a pavimentar novos degraus da escada que se formaria. Quando falamos sobre construção, falamos disso. Algo que passa pela estética, sonoridade, desenvolvimento de conexões, leitura do mercado e estabelecimento de parcerias nos mais diversos âmbitos.


Sick - Foto Por Felipe Vianna

SickFoto Por: Felipe Vianna


Movimento em Espiral

Os primeiros singles do trabalho vieram um pouco antes do período de Quarentena. O que fez com a banda repensasse toda sua estratégia de comunicação e timing, afinal o mercado todo está estudando as possibilidades do que pode ser feito. São muitos desafios e movimentos, como o próprio disco acaba deixando claro.

“Ao mesmo tempo que trazem uma sensação de nostalgia, as canções levam ao ouvinte a descoberta de uma experiência moderna e atual.”, conta o quinteto Sick

Movimento” e “O Tempo e a Memória” são duas das 8 faixas que compõe O Sonho e a Escada e deixam bem claro as possibilidades, e caminhos, do novo registro. O Brasil e o mundo acabam por sua vez refletindo no disco de diversas formas. Até mesmo por ser um disco de natureza experimental, o campo da imaginação para o ouvinte é um território fértil.

O som tem o poder de criar em nossa mente paisagens musicais através de texturas, padrões, loops e reverbs. O movimento não é puramente circular e seus desdobramentos trazem à tona diversas emoções e experiências.

Os Degraus da Escada

As mudanças também fizeram parte do processo. O EP Light Switch e o disco Para Uso Recreativo, foram gravados em respectivamente em 2014 e 2017, nos formatos de trio e quarteto. Com a entrada do Jordok eles se tornaram oficialmente um quinteto, o que dá naturalmente novas possibilidades para a sonoridade.



Sick: A Subida da Escada

A subida da escada, ou entrando de cabeça a bordo da nave Sick, se inicia com a delicada “Cosmorigem” e através dos seus acordes suaves que aos poucos vão ganhando seu espaço no horizonte.

Sua progressão de acordes, aos poucos, cria em nosso imaginário imagens que ilustram a expansão do universo. Através do choque, da reverberacão e multiplicação das ambiências, surge uma nova galáxia.

“Movimento” já acelera as conjunções e cruzamentos astrais, sua progressão de acordes matemáticos deixa o espírito da jam ainda mais libertino e pulsante. Os elementos vão entrando aos poucos conforme seu embalo.

Melódica, ela brinca justamente com as possibilidades que seus riffs soltos permitem. Uma infinitude de sentidos – e sentimentos – em colisão despertam a emoção ao longo da jornada.

“Jornada” já mostra um lado mais sensível e emocional. Se você gosta de Pinback e toe provavelmente vai se identificar com sua melodia mais sensorial. O plano dos sonhos, das memórias e das longas viagens entra em sintonia; e já não é mais possível dizer o que é real e o que é apenas um sonho. Em certo momento ela me lembra até mesmo trilha de videogame, de jogos como, por exemplo, Zelda.



As Idas e Vindas

“O Sonho e a Escada” mostra como a MPB, e a paixão pelos synths, acabou abraçando a nova fase da Sick. Melodias que bebem da bossa, da música mineira, do math-rock e do revival do emo.

Depois dessa longa viagem “Manifestação de Self” vem para equilibrar a mente. Passeando por frequências mais baixas e trazendo para si uma carga espiritual introspectiva.

“O Tempo e a Memória” tira o pé do freio, a nave pousa para abastecer. A guitarra soa como um piano, a delicadeza e as soluções ganham novos contornos e ela se divide em duas partes. Algo como se a introdução levasse cerca de metade da duração da canção. Se você gosta de Battles e CHON, essa é para você.

A sequência “Bioluminescência” e “Descompondo” é a mais progressiva do álbum e logo na introdução da primeira, isso fica claro. Entre quebras, viagens e distorções.

Ambas poderiam compor até mesmo um compacto à parte, já que contam com diversas passagens. Somadas são quase 10 minutos de epifania e um final com a energia do Sonic Youth. Feito a poeira interestelar, o disco se despede e a nave pousa em órbita.

Entrevista: Sick

Entrevistamos o quinteto que gentilmente optou por responder as perguntas de maneira coletiva e explicando mais as nuances e contornos do disco. A viagem é longa mas o papo foi ótimo. Confira!

Você falam que a palavra “Movimento”, por sempre beberem de diversas fontes e ritmos, define bastante a proposta musical da Sick ao longo dos anos.

Sendo assim, em que momento está? O que andou passando pelos headphones que acabou ganhando maior atenção neste novo trabalho? E o que resgataram do passado? 

Levi

“A Sick bebeu muito da fonte do instrumental post-rock japonês e o emo americano no começo, além das nossas influências da infância que iremos carregar para o resto da vida.

Com a entrada do Lucas Vidal e do Flávio Jordok muita coisa foi adicionada e com o tempo, foi natural que a gente começasse a ter mais referências como a música brasileira e o próprio instrumental do Brasil. Nossos amigos viraram nossas referências.”

Douglas

“A gente tá sempre se desdobrando pra atender o que as músicas exigem da gente. Cada um de nós traz uma bagagem e um tempero bem específico. Atualmente tenho me aprofundado bastante em músicas regionais, dos povos originários, música do povo das matas.

No passado estive bem envolvido com post-rock, math-rock, música experimental e música mineira. Essas influências estão bem refletidas nas composições da Sick até o momento.”

Jordok

Acho que a Sick hoje está como a palavra movimento é para o fluxo dum riacho. O estado presente vai embora e dá espaço a um novo a cada instante. Estamos sempre compartilhando novidades e cada membro possui influências muito singulares.

Acho que estamos sempre com a orelha, buscando onde o riacho vai parar, mas sem deixar de ouvir suas nascentes.

A Sick já esteve mais próxima do post rock em um momento anterior, mas hoje, cada dia que passa, ela está mais mista com as novidades que cada um traz pra mente um do outro.”

Lucas 

“É difícil explicar o momento atual e o disco traduz bem isso. O mais bonito é a fusão da bagagem de cada um. Eu tenho escutado muitos bedroom producers, música eletrônica e galera do instrumental do mundo todo, mas revisitando.de vez em sempre a música mineira e MPB, algumas coisas dos anos 80, entre outros.”

Além da música o que costuma inspirar as criações e universos por trás da música instrumental que produzem?

Douglas:  “Filosofia, transcendência e fumaça!”

Lucas: “Eu gosto de dar voltas pelos lugares, observar as diferentes regiões da cidade. Às vezes eu pego o carro a noite e gosto de dirigir prum lugar que eu nunca fui.

Quando eu tinha bicicleta era o que eu mais gostava também. Pequenas coisas do cotidiano, essa coisa de se surpreender com o que parece trivial. Filmes e ficções, é muita coisa na verdade.

Jordok: “Experiências pessoais vão além do próprio corpo e a convivência com ideias sensacionais do ambiente fazer as ideias suarem pra fora. Quem morre é a preguiça e quem nasce vira floresta.”


Sick Foto Por: Felipe_Vianna

SickFoto Por: Felipe Vianna


Como enxergam o momento de amadurecimento após Para Uso Recreativo (2017) e como acreditam que a estrada contribuiu para o processo? 

Douglas: Em Para Uso Recreativo tínhamos temas mais soltos e muita experimentação. Agora decidimos explorar temas mais definidos e coesos. Com começo, desenvolvimento e fim. Uma viagem mais guiada em um certo sentido. 

A estrada, junto com a entrada do Lucas (guitarra) e do Flávio (piano elétrico) com certeza contribuíram muito pro nosso amadurecimento.”

A música de vocês cria, e recria, paisagens feito telas de arte no imaginário do ouvinte. Se pudessem definir um cenário para cada uma das 7 novas composições, quais seriam eles?

Douglas

“Cosmorigem”: organismo vivo em evolução, células, organelas, complexo de golge, ribossomos.

“Movimento”: Um nigeriano treinando para a São Silvestre.

“Bioluminescência”: cardume de sardinha encurralado por uma baleia.

“O Tempo e a Memória”: Um bixo que não existe andando de bicicleta para espairecer e visualiza uma janela. 

“Jornada”: Uma escada que acaba onde ela começa adornada com pássaros e plantas.

“Descompondo”: Ruína pós apocalipse.

Lucas 

Dá pra imaginar muitas coisas mas isso aqui me passou pela cabeça agora:

“Cosmorigem”: a primeira vez que você viaja de avião.

“Movimento”: busão e você acabou de conseguir um emprego, tá testando essa linha pela primeira vez. 

“Bioluminescência”: rochedo à noite, mar quebrando violentamente, começa a chover. Você vai voltar pra casa todo molhado. 

“O Tempo e a Memória”: classe da escolinha na terceira série, ela/ele deixou cair o lápis e vocês conversaram pela primeira vez .

“Jornada”: uma volta de carro de noite, as estradas são infinitas e todos os discos serão contemplados. 

“O Sonho e a Escada”: você foi transferido por 6 meses para um cidade pequena do interior e da pra ver a serra pela janela.

“Manifestação do Self”: perdido em São Paulo no bairro da Liberdade, venta muito forte, o céu tá nublado.

“Descompondo”: alguém acabou de pegar algo muito importante seu e você corre atrás muito rápido.”

Jordok

“Muito do que foi criado nesse disco passou por um longo processo de ressignificação. As faixas foram elaboradas sempre com elementos chave que permeiam o disco como um todo.

Cenas do outro lado, paisagens vivas e naturais. Usamos uma estrutura de timbre em todo o disco, além de uma coesão harmônica que traz para a obra, uma forma de cena que pode se abrir em diversas imagens diferentes.”

Qual o conceito central que queriam passar com o novo álbum? E porque optaram por nomeá-lo “O Sonho e a Escada”? Seria um nome um tanto positivista e encorajador para ajudar a viver em nossos dias atuais?

Lucas

Depois da gravação eu tive um sonho, no qual a gente chegava dum show numa espécie de casa, parecida com o estúdio Casa Verde, que tem sido nosso quartel general esse tempo todo.

Só dava pra entrar por uma janela no segundo piso, e por coincidência tinha uma escada de mão na parede. Eu lembro de subir a escada e os outros também, e quando tava entrando na janela o sonho acabou. O curioso é que eu tenho um pouco de vertigem de altura e escada, mas no sonho a sensação era muito boa.

A Simbologia

Na época a gente tava tentando escolher o nome do disco e quando eu contei do sonho a banda falou: é isso, achamos o nome.

O que pegou mais foi a simbologia da coisa, que apesar de tudo continua sempre aberta: escada pode ser sinônimo de frio na barriga pra alguns, mas também é uma passagem que leva a gente pra outros planos e universos, assim como as músicas desse disco.

Talvez a escada seja o próprio disco, que no fim da jornada nos transformou em outras pessoas. Pra mim o mais legal é que toda aventura sempre vai ser um misto de empolgação e frio na barriga, e espero que o disco traga essas sensações pros ouvintes também. E verdade que as músicas contém verdadeiras batalhas épicas, tipo a última vez que eu subi no telhado (tremendo as pernas).”

Jordok

“Em termos de conceito, no começo, começamos a notar que certas harmonias e certos temas podiam ser reorganizados entre as faixas e isso ajudou a unificar a sensação e o timbre das músicas.

Assim começamos a criar ideias de significados para as músicas. Viajamos muito nisso (risos), e cada vez que olhávamos mais, novos símbolos surgiam. Imaginamos a orientação das constelações, ciclos lunares, ciclos do corpo e muito mais.

O Sonho e a Escada foi o resultado que mais harmonizou com o que cada um concebe sobre o disco. Foi praticamente um ano inteiro, depois da produção do disco, pra gente entender o seu lugar.”

Quais outras bandas da nova safra brasileira mais tem chamado a atenção de vocês? E quais acreditam que mais dialogam com o som que andam desenvolvendo nos últimos anos?

Levi:  Tem muita banda boa no Brasil que vem dessa linha do post-rock, math rock, emo. Hoje em dia somos amigos dos caras que somos fãs.

A banda SLVDR, do Rio, por exemplo. Foi uma honra conhecer o Hugo, o Bruno e o Barbosa, a banda é uma grande inspiração. Tem a Confeitaria de BH, dos amigos Gabriel Murilo e Lucas Mortimer, que acreditaram demais na Sick no começo da carreira, nos apresentaram muita gente. Hurtmold, EATNMPTD. Ter conhecido e tocado com essa galera na estrada sempre foi uma experiência maravilhosa.”