Jonnata Doll e os Garotos Solventes lançou no ano passado o aclamado Alienígena. O lançamento capitaneado pelo selo RISCO revelou uma nova fase estética dentro da trajetória dos cearenses e chamou a atenção justamente pelo amadurecimento e pela crítica social ainda mais aguçada.

Punks que trazem elementos do proto-punk e do punk oitentista, tendo o disco anterior produzido por Kassin e Yuri Kalil, Crocodilo (2017), mostraram uma versatilidade e uma nova visão neste trabalho. Sem perder, claro, o lado pulsante e visceral das catárticas apresentações do grupo.

São Paulo aparece nas curvas e avenidas do álbum de uma forma ainda mais rude. O centro que anteriormente já tinha sido ilustrado no vídeo para “Trabalho, Trabalho, Trabalho”, acaba sendo o plano de fundo para criticar o quão repulsiva e violenta esta cidade pode ser. Aquele mal invisível, o esgoto, a putrefação, o desdém e a ascensão do conservadorismo.

O Alienígena do Vale do Anhangabaú

Apesar do close ser em São Paulo o diálogo conversa com as principais megalópoles globais e não basta ver o clima de apreensão, desgaste e lutas sociais do mundo a nossa volta.

O clima de guerra é iminente mas nem por isso a poesia e as artes deixam de fazer sentido. Muito pelo contrário, elas se fazem ainda mais necessárias. Não podem, não conseguem e não irão nos calar. Se o fascismo abomina a arte, a ciência e o políticas de progressivas e de inclusão, é daí que temos que começar nossa virada.

As noites de inverno vividas no centro, local onde escolheu para viver, ganham contornos na obra que mostra como a cidade pode ser impiedosa e hostil com quem chega buscando por uma melhor qualidade de vida.

Isso se reflete ao longo das faixas que trazem diversos cenários ao imaginário do ouvinte. Como por exemplo, sobre uma noite de inverno no Vale do Anhangabaú enquanto esperava a menina trazer o chá, o “fantasmagórico” Edifício Joelma, sobre as pessoas que ele conheceu na sala de espera do centro de apoio psico-social (CAPS) da Sé e muito mais.


Jonnata Doll e Os Garotos Solventes

Jonnata DollFoto Por: Marcelo Mudou


O Volume Morto

A faixa conta com a participação do Clemente Tadeu, conhecido por seus trabalhos com Os Inocentes, Restos de Nada, Condutores de Cadáver e Plebe Rude. A paixão e idealização de São Paulo, proveniente daqueles discos que a banda ouviu tanto, acabou fazendo com que a participação catalisasse aquele sentimento crítico – e feroz – que ele tinha sobre São Paulo.

Jonnata Doll até mesmo conta que era a visão ilustrada por cartunistas como Angeli e Laerte que gostaria de se deparar. E não uma cidade, que pôde conhecer vivendo nos últimos 7 anos. Esta, por sua vez, imersa em uma espécie de American Way of Life bastante degradante.

A Gameficação

Fato é que “Volume Morto” é uma faixa relevante dentro do álbum justamente por servir como fio condutor para que o resto do registro fosse composto. Até por isso foi escolhida para ganhar um videoclipe que foi idealizado e concebido durante o período de isolamento.

“O clipe foi realizado em abril deste ano com o mínimo de recursos visuais possíveis: baixamos imagens em baixa resolução do youtube e ampliamos os quadros para distorcer ainda mais as imagens e exaltar ações dramáticas de jogos que sempre assistimos em planos abertos e fixos.

O clima dos jogos com as citações à década de 80 da letra foram uma escolha óbvia e ainda mais divertida com a participação do nosso amigo Clemente Tadeu”; pontua Loro Sujo.



Como Nasceu Som e Imagem de Volume Morto

“Até 2014, a rua sempre foi o lugar de manifestação política progressista, pelo menos em meu imaginário. Era nas ruas que se pedia diretas já, que se combatia a ditadura, que se lutava por direitos civis, pelos direitos das mulheres, negros, minorias de gênero, legalização da maconha, contra a guerra…

Chego em São Paulo em 2013, esperando encontrar a cidade que me foi apresentada através do trabalho de cartunistas como Angeli e Laerte, esperava encontrar, ainda, de alguma forma, a cidade que os punks cantavam.

Hoje está claro para mim, que estes outsiders eram uma minoria, que de alguma forma conseguiu voz através da juventude brasileira, mas São Paulo sempre foi uma cidade conservadora e aí me deparei com manifestações na avenida Paulista; um mar de gente branca, cheio de ódio pedindo militarização da sociedade, volta a ditadura, sufocamento das minorias, exaltando ditadores, torturadores, americam way of life e declarando inimigo a quem desse povo discorda e ainda para meu desgosto maior, muitos roqueiros apoiando essa onda careta.”, conta Jonnata Doll

A Canção e o Videoclipe

“A canção “Volume morto” nasceu da raiva que tive dessa onda de pós verdade e deu o tom do restante do disco Alienígena (2019), o terceiro disco do Garotos Solventes produzido por Fernando Catatau e co-produzido pelo Loro Sujo nosso baixista. Convidamos o Clemente do Inocentes, para fazer um dueto em “Volume morto”, afinal, ele simboliza essa São Paulo “angeliana” para nós.

Agora, nesta pandemia, a rua deve ser evitada, quem se isola socialmente está pensando no bem coletivo e quem a ocupa, ou não pode se dar ao luxo de ficar em casa por que precisa sobreviver, ou não liga para milhares de mortos, como se dissesse “farinha pouca meu pirão primeiro” e da lhe protesto pró governo em frente a hospital.”, se revolta Jonnata Doll

O Plano de Fundo

“O videoclipe de “volume morto” foi feito para dizer: “podemos fazer um vídeo em casa com coisas que se faz em casa num momento que não devemos ir a rua” numa atitude e feitura que evoca o sonho de liberdade e de autoria coletiva que se imaginava que a internet nos traria antes das grandes corporações a tomarem.”

Loro Sujo, o pirata solvente que fez o vídeo explica aqui a vibe:

“Volume Morto’’ foi composto em abril desse ano com o mínimo de recursos visuais possíveis. Baixamos imagens em baixa resolução do youtube e ampliamos os quadros para distorcer ainda mais as imagens e exaltar ações dramáticas de jogos que sempre assistimos em planos abertos e fixos. O clima dos jogos com as citações à década de 80 da letra foram uma escolha óbvia e ainda mais divertida com a participação do nosso amigo Clemente Tadeu.

As imagens dos jogos de Atari vg 9000, com a produção musical da canção que evoca os anos 80 e a participação de um ícone marginal desta década, faz com que “volume morto” use este ethos outsider para criticar os rumos que a necrocropolítica destes governos nos leva, não só no Brasil, como em boa parte do mundo.”