Brisa Flow utiliza a voz como mais um instrumento no quarteto experimental formado por, Francisco Schuller, no saxofone, Phil Santos Lima no baixo e o baterista Vitor Ciosaki, unindo o Hip Hop com Jazz.

As temáticas das improvisações pautam um reencontro das células poéticas de luta da compositora, como em suas músicas “Dias e Noites de Amor e Guerra” e “Fique Viva” do seu último álbum Selvagem Como o Vento de 2018 (Confira Entrevista).

Na cultura hip hop, o freestyle é a criação de versos espontâneos, de improviso, ou de fluxo – “flow” do “fluir pela batida” – uma modalidade que vem das batalhas de MCs, frequentadas por Brisa Flow desde o início de sua carreira.

Abordando a resistência e herança dos povos nativos e, seus afetos que os protegem ainda hoje, o trabalho ficou poeticamente rico, palavras fortes que utilizaram do freestyle de forma generosa mas muito centrada na expressão da artista.


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Brisa FlowFoto Por: Laryssa Machada


Brisa Flow Free Abya Yala (2020)

Gravado antes da pandemia, Brisa Flow se encontrou com o trio de jazz  e improvisou ao vivo, sons e versos sobre a América Latina original. A obra propõe a fluidez de palavras de um encontro amigo, preservando a dança de sons da palavra com o ritmo como em tradicionais rituais de espontaneidade e cura.



Free Abya Yala tem 24 minutos de duração, com canções criadas para celebrar  a quebra das fronteiras visíveis e invisíveis que fazem os brasileiros muitas vezes não se sentirem latino americanos.

“As canções são uma provocação ao histórico da invasão, chamada com engano de descobrimento do Brasil. As letras improvisadas estão carregadas de força para nos fazer refletir sobre o abril indígena”, comenta Brisa.

As músicas foram criadas antes da pandemia causada pelo Covid-19, vírus que somado a postura do atual governo podem dizimar diversas comunidades indígenas em todo o país. Segue entrevista que fiz com a compositora por e-mail falando sobre o EP, sobre seus processos e sobre seu olhar diante da atualidade vulnerável.

Entrevista: Brisa Flow

Nesta experiência você assumiu um risco e gravou em freestyle toda sua voz. Como você norteia teu fluxo de improviso junto aos músicos? 

Brisa Flow: “Todo o disco foi feito de forma improvisada. Não só a voz. Formamos um quarteto para gravar e pensamos a voz como um instrumento. Construí as melodias junto ao Kiko Schuller no sax.

Eu seguia ele e ele me seguia como uma dança. O Victor dividiu o ritmo na bateria de uma forma muito linda que o digital não poderia fazer, tão livre e ao mesmo tempo muito inspirador de criar melodias em cima.

O que facilitou muito além dessa alquimia musical foi o Phil como um elemento essencial no quarteto. Ele toca baixo comigo na banda que me acompanha e sabe que o baixo é o que dá a liga ao rap com o jazz.

A forma como ele uniu eu e Kiko ao Victor deu essa liga no instrumental que me inspirou a liberar o fluxo de palavras como um rio cruzando as matas.  As vezes nos encontramos, às vezes não, e quando nos encontramos é muito bonito, essa é a magia do improviso.  Assim foi construída a sessão “Free Abya Yala.”

O que significa a palavra “risco” pra você?

Brisa Flow: “Ainda estou descobrindo o que significa a palavra risco. Na verdade estou ressignificando nesses tempos estamos que vivendo. Antes pra mim risco era viver e viver implica estar correndo risco de morrer a todo tempo.

Porém o nível deste risco está sendo evidenciado agora em quarentena. Uns correm mais outros menos. E para cada sentido ele se torna um significado diferente. E agora estou refletindo.”

Como tem sido a construção da sua carreira? Quais são sua parcerias de produção e gerenciamento de carreira?

Brisa Flow: “Penso que minha carreira é um sonho de infância. Fazer arte e poder me alimentar com ela nesse mundo capitalista que te obriga a trabalhar pra comer. Eu já nasci no contexto urbano apesar de ter sido criada em Sabará (MG) ao lado de uma montanha. 

Eu tenho construído essa carreira a mão. De forma artesanal. É uma forma artística também de gerenciar o trabalho. Sempre fui independente e contei com alguns amigos no caminho que produziram o som, me gravaram quando eu não tinha nem computador nem celular e também não sabia fazer beats. Tive parceiras também que me ajudaram a vender shows, mas sempre foi sobre autogestão. No início por falta de grana e de acessos e depois porque peguei o jeito e prefiro assim.”

Como tem sido a sua quarentena? Na sua opinião, qual maior perigo para as mulheres e especificamente as mulheres indígenas nessa pandemia?

Brisa Flow: “Minha quarentena tem me feito refletir muito sobre o tempo, a inquietação da mente, a saudade, os vínculos , a internet, a publicidade que se alimenta das redes e por aí vai. Em meio a tudo isso procuro ter calma e respirar fundo, nem sempre dá certo. 

A famosa conta da maternidade, que toda mãe tenta dar, mas que nunca fechava antes da pandemia, agora nos deixa muito mais ansiosas e traz frustração seguida de culpa. E assim vamos lidando com o dia, tentando trabalhar em casa.

A Quarentena em Casa

No início tinha pensado em usar o tempo em casa sem shows para produzir o disco novo e não ficar pessimista diante do cenário dos artistas. Mas já entendi que  não é assim que vai funcionar.  Pessoas estão morrendo, não é um tempo livre. E por mais que o instinto de sobrevivência clique na ansiedade sempre dizendo que eu não posso parar de trampar, é necessário desacelerar.

Não somos máquinas e se formos fazer algo agora que não seja pra nós. Até porque não dá pra fazer um trabalho que ignore o que tem acontecido. Isso é ser insensível e arte é sobre sentir. Então tenho parado de me cobrar em relação a isso. 

Viver o Presente

Tento viver o presente como um presente de estar viva.  Sigo no canto como uma reza,  pra pedir que o espírito da doença não seja tão cruel principalmente com quem é mais vulnerável, como as populações periféricas e indígenas. Esse momento evidencia mais a desigualdade social. Quem pode parar ou não. Penso, como continuar usando meu trabalho como a ferramenta?

Povos indígenas contam com nós artistas para ajudarmos na causa, motivando as pessoas a ajudarem. Precisam que respeitem a quarentena em suas comunidades. Muitos fecharam as entradas pois visitantes acharam que quarentena era pra viajar e acabam levando o vírus até essas populações. Além de estarem em situação de risco por não terem máscaras nem álcool em gel, eles também precisam de mantimentos. 

Live Solidária

Essa semana fiz uma live pra arrecadar ajuda na vaquinha dos Fulni-ô e eles contaram durante a conversa que pessoas estão sendo mais racistas com eles e, culpabilizando a comunidade que já teve um parente morto pelo vírus. O isolamento não é igual para todos e as comunidades indígenas na América enfrentam epidemias há mais de 500 anos.  No livro Dias e noites de amor e guerra, o autor Eduardo Galeano conta que mais da metade da população dos povos nativos morreu de epidemias na colonização.

Precisamos aprender a olhar pra Terra e pros guardiões da floresta com prioridade e não pensar em produzir para consumir. A Terra está dizendo isso – dando seu recado. Que possamos ouvir.”

Fale um pouco sobre esses músicos que gravaram com você, como os conheceu? Qual a história deles?

Brisa Flow: “Conheci Vitor Ciosaki em um seminário do MASP de arte indígena. Nos sentamos ao lado um do outro e, gritamos juntos ao ver a performance muito foda do artista  Denilson Baniwa. Depois disso começamos a nos falar e ele me chamou pra ver um show de improvisação dele em uma casa coletiva no Butantã.

Lá eu conheci o Kiko Schuller o saxofonista que também faz improvisação e toca muito! Como o Vitor é de Ribeirão Preto, eu quis aproveitar a vinda dele e convidei ele e Kiko pra gente fazer uma session de improvisação com freestyle. Eu queria unir os dois improvisos e ver no que dava.

Eu já tocava com o Phil e convidei ele pra chegar com o baixo. Ele é um amigo especial que anos atrás me incentivou a montar uma banda pra me acompanhar nos shows grandes. Ele tinha ficado doente ano passado e foi internado, quando entramos em estúdio para gravar o Free Abya Yala era só a segunda vez que todos tocavam juntos.

Pra mim esse encontro é especial, no momento em que vivemos,  criar esse som  improvisando com esse tema Free Abya Yala (América Latina Livre,  entre quatro pessoas racializadas de forma independente me fez voltar a acreditar na música de fluxo, como a originária, como cura.

Sobre Brisa Flow 

Criada no Brasil a cantora e compositora mineira Brisa Flow radicada em SP, é filha de artesãos chilenos que deram o nome de Brisa de La Cordillera para a artista e a influenciaram com músicas e cultura ameríndia. Iniciou sua carreira no Hip Hop em Belo Horizonte frequentando batalhas de rap.

Seu primeiro disco Newen lançado em 2016 significa força na língua nativa do povo mapuche. A obra musical esteve entre os 20 melhores discos do ano selecionados pelo Estadão. Brisa também foi a artista “aposta” da Folha de São Paulo em 2017. Recebeu prêmio Olga Mulheres Inspiradoras.

Em 2018 lançou seu segundo disco Selvagem Como o Vento (Confira Entrevista Exclusiva) e aparecendo em listas como os melhores 50 discos da música brasileira em 2019. A artista lançou seu disco no Instituto Tomie Ohtake e se apresentou em festivais pelo Brasil.

Ficha técnica do EP Free Abya Yala

Músicos: Brisa Flow, Francisco Schuller, Vitor Ciosaki e Phil Santos Lima.
Gravado em: Estúdio Mitra
Gravação Edição e Mixagem: Vitor Ciosaki e Rafael Posnik
Fotos: Laryssa Machada
Videofoto: Ana Clara Schüller