No dia 04/05 o músico Luiz Gabriel Lopes completou 34 primaveras e nos presenteou com um EP. O músico mineiro é conhecido por seus trabalhos ao lado da Graveola, suas parcerias como compositor que incluem a parceria com o capixaba André Prando, que tem EP programado para a sexta-feira (15), e mais recentemente o projeto Rosa Neon.

Presente foi quase todo produzido em formato caseiro, por conta da quarentena o músico que faria uma turnê europeia ficou “preso” em Portugal. O que acabou transformando o destino da viagem. Ao invés de realizar apresentações ao vivo, e ter a oportunidade de estabelecer novas conexões, ele acabou utilizando o momento com uma residência artística. Processo enriquecedor em que pode aprender e estudar sobre novos assuntos.

Pesquisador nato, o músico anteriormente já tinha lançado discos solo. São eles, Passando Portas (2010), O Fazedor de Rios (2015) e Mana (2017). São timbres, melodias, instrumentos e uma atenção delicada na hora de procurar referências para a estética de seu trabalho. Tudo isso aliado a composições que permeiam a intimidade. Sentimentos puros e tão humanos acabam adentrando sua arte.


Luis Gabriel Lopes

Luiz Gabriel LopesFoto: Divulgação


Luiz Gabriel Lopes Presente (2020)

Lançado pelo selo brasileiro Pequeno Imprevisto, o registro conta com 4 faixas. Sendo 3 inéditas e uma versão de sua ex-banda, a Graveola. O poder da voz e das cordas do violão acabam por sua vez se destacando no vazio do silêncio. Suas melodias permitem o relaxamento e servem como um abraço a distância mesmo em tempos onde chegar mais perto parece um desafio por si só.

Oficialmente inclusive, é seu primeiro álbum neste formato tão clássico e impactante. A crueza por si só acaba deixando aquela conversa ao pé do ouvido ainda mais potente e intimista. A simplicidade faz parte dos contornos e das curvas do registro. Entre as referências ele cita Gil e Caetano ao folk de Nick Drake.  A mixagem e a masterização são de Otávio Carvalho (3x indicado ao Grammy Latino).



Faixa a Faixa

Motivado pela distância e a saudade da irmã, ele canta com doçura em “Minha Irmã”. Uma faixa sensível, delicada com a simplicidade de acordes leves feito um abraço a distância. Carinho esse que transparece ao longo do registro. A canção fala sobre superar tempos nebulosos.

“Recomeçaria” também reforça nosso espírito de reconstrução. Os ciclos e o ressurgimento após as chamas, feito uma fênix ela resplandece no horizonte. Entre o céu e o inferno. Talvez a faixa que mais sentimos a influência de nomes como Nick Drake, Jeff Buckley e Jeff Beck.

Nas palavras de Luiz “Lembrete”

“É uma canção muito especial, que já tinha sido gravada pelo Graveola e ao longo dos últimos anos se tornou uma espécie de hino afetivo pra nossa geração. foi escrita com dois parceiros numa viagem que fizemos pelo litoral do Brasil, num final de ano onde passávamos por muitas transformações pessoais. é uma ode à esperança e ao reencontro com a própria essência. não esquecer do propósito que nos guia no planeta.”, relembra com nostalgia Luiz Gabriel Lopes

O EP se encerra com “Amigo”. Uma canção escrita por sua tia para seu pai e esse história ele conta na entrevista exclusiva para o Hits Perdidos com mais detalhes. Ele mesmo se emociona sempre que canta como relata justamente por este fator. É com leveza, pureza e enxergando a alegria dos encontros que o disco se encerra.

Entrevista

Em papo franco em sem papas na língua Luiz Gabriel Lopes falou mais sobre a sua carreira, EP acidental de Quarentena, visão sobre o desafio de fazer música no Brasil e trouxe ótimas histórias por trás das faixas.

Vale lembrar que o EP também está presente no Bandcamp. Quem compra o álbum recebe um livreto com as cifras e letras das canções, em arte criada pela artista Jojo Ziller (Confira).

Conta mais sobre essa história de ficar “preso” em Portugal no meio da pandemia? Como foi ver o lockdown em ação em um dos países que mais conseguiu controlar a coisa toda? E como está vendo que está sendo a retomada aos poucos do país ao “novo normal”?

Luiz Gabriel Lopes: “Nos últimos 10 anos tenho construído uma relação forte com Portugal, passando temporadas aqui, trabalhando e colaborando com artistas portugueses…então na real não é um contexto que me seja estranho.

Pelo contrário, é um lugar onde me sinto bem, tenho grandes amigos por perto e a sorte de, nesse momento, ter condições materiais pra criar, produzir coisas, como a gravação desse EP que foi feita mesmo na sala de casa, com equipamentos de um amigo – o Edgar Valente, um músico incrível com quem tenho um projeto chamado AIÊ.

A História da Turnê

Mas a história é: eu vinha pra uma turnê de 3 meses que passaria também pela Alemanha, Holanda e Itália, mas acabei parando aqui porque todos os shows foram cancelados assim que cheguei. Daí acabou virando meio que uma residência artística, um mergulho de pesquisa pra vários assuntos, práticos e filosóficos, sobre estar no mundo, sobre fazer arte, sobre tudo. Essa suspensão tem me dado a oportunidade de reavaliar muita coisa, me dedicar mais ao trabalho interno, observar mais profundamente questões às quais geralmente eu não dava tanta bola.

E sim, especificamente sobre a crise, de fato, Portugal tem hoje um governo bastante sério, comprometido com o combate ao vírus e com medidas muito sensíveis às camadas mais desfavorecidas da sociedade. Um exemplo é tipo, num ato extraordinário recente, o governo regularizou todos os imigrantes que estão no país em situação irregular, levando em conta o contexto da pandemia. Então é um choque de realidade, quando a gente compara com o Brasil. É muito triste ver a política de morte desse governo genocida, que não tem responsabilidade nenhuma para dirigir um país tão rico como o nosso.”

Como surgiu esse EP pelo caminho? Como foi a experiência de pela primeira vez lançar um registro apenas como voz e violão?

Luiz Gabriel Lopes: “Eu gosto muito do formato voz e violão. Acho uma coisa muito potente, que além de ter possibilidades expressivas bastante amplas, acessa um lugar muito especial da nossa memória afetiva. Eu, particularmente, amo gravações que exploram essa linguagem, aqueles discos ao vivo super crus e viscerais, tipo o Gil na Politécnica da USP, ou os dois LP’s do Cantoria, o Aos Vivos do Chico César… Essa sonoridade me formou muito no ofício de cantautor, me mostrou a força que tem essa presença, da pessoa sozinha, cantando, com o próprio instrumento.

A Discografia Paralela

No meu caso, tem a história de que muita gente conheceu meu trabalho dessa forma, porque eu tenho uma espécie de discografia-paralela-não-oficial-publicada-por-mim-mesmo no youtube…(risos). Vários vídeos que eu fui gravando pelos lugares onde ia passando nas turnês mundo afora, apresentando canções inéditas, ou releituras de canções de amigos. E também pelos shows que tenho feito por aí, muito nesse formato solo.

Então eu sempre recebi mensagens de pessoas pedindo pra que eu lançasse uma coisa assim, um álbum onde a canção tivesse mais despida, mais crua, mas por diversos motivos sempre fui adiando a idéia, porque chegava na hora de gravar um disco eu queria fazer arranjo, testar mil sonoridades, pirar no laboratório que é o estúdio…

A Logística da Quarentena

Mas aí veio esse momento, a quarentena, e me bateu a vontade de fazer alguma coisa bem nesse sentido do serviço mesmo, de oferecer a música como um carinho pras pessoas, e me pareceu adequado que fosse nesse formato. E pela questão logística também, obviamente, né.

Tipo, era o que dava pra fazer, gravar na sala de casa, então foi bastante sincrônico. Mas aí eu resolvi amarrar conceitualmente desse jeito de ser bem minimalista mesmo, não pirar em outros elementos. Porque tem a coisa da gente se sentir mais próximo, quando é menos informação no arranjo, parece que a música chega mais perto, respira mais.

E aí montei o repertório também nesse sentido, canções que de alguma maneira tratassem desse sentimento maluco que estamos todos vivendo agora, solidão-saudade-distância e os mergulhos espirituais que isso proporciona. Eu tenho dito que é um álbum pra acalentar esse momento de apocalipse-revelação-desafio, pra trazer aconchego pros processos. Tô bastante feliz com o resultado.”

Como acredita que o lançamento capta o momento e porque resgatar uma música antiga?

Luiz Gabriel Lopes: “Eu sinto que as músicas boas são atemporais, e têm a tendência a fazer cada vez mais sentido, dando várias voltas em torno da própria ressignificação.

“Lembrete” é uma dessas músicas. Foi um presente da vida, ter escrito essa canção com dois parceiros queridos e perceber que a nossa experiência, aquilo de que falávamos ali, foi pro mundo e se tornou matéria sensível da vida de outras pessoas, criando contornos de memória e sentido pra coisas que a gente nem imagina.

A Música como Presente

Outro dia eu vi uma entrevista do José Mário Branco, que é um cantautor português que eu gosto muito, e ele dizia que sempre que alguém parava ele na rua dizendo “gosto muito da sua música”, ele respondia “pois, talvez já sejam mais suas do que minhas”. Acho que é essa a chave.

De alguma forma, quando a gente escreve algo especial, é como se a gente se tornasse veículo de uma sensibilidade maior, traduzisse visões de uma época, que fazem sentido pra um grupo de pessoas.

História de Família

“Amigo” também é uma canção antiga, é um hit particular da minha família, que foi escrita como uma carta da minha tia pro meu pai, nos anos 80, sem nunca ter tido uma gravação… e eu senti o chamado de trazer ela pro repertório, porque sinto que ela acessa um lugar muito especial, de afetividade, simplicidade e clareza. É algo que eu tenho buscado bastante como compositor.

“Recomeçaria”, por sua vez, é outro resgate, de recontextualizar uma música que eu fiz pra Juliana Perdigão gravar no primeiro disco dela, mas que eu próprio não tinha gravado ainda. E achei bastante forte como síntese de um sentimento de esperança, a fé nos ciclos naturais de vida, morte e renascimento. Por fim, a primeira música do EP, “Minha Irmã”, foi escrita durante a quarentena, é uma carta minha pra Flora, minha irmã, também orbitando em torno desse mesmo feeling.”

São 34 anos recém-completados e projetos bastantes distintos mas ao mesmo tempo relevantes na bagagem, além de diversas parcerias como compositor. Qual o balanço que você faz sobre a sua trajetória na música? Como observa as mudanças no independente brasileiro ao longo dos anos?

Luiz Gabriel Lopes: “A música sempre esteve presente na minha vida, como elemento mediador dos afetos, das memórias, da sensibilidade. Mas de fato eu não imaginava que iria trilhar um caminho profissional nela.

Foi, portanto, algo que me atravessou, e pelo qual me deixei ser guiado nesses últimos 15 anos, com muita alegria. Não tenho artistas profissionais na família, venho de uma classe média que passou e ainda passa por milhares de perrengues financeiros e a verdade é que nunca foi fácil bancar essa escolha, porque a gente passa por muita dificuldade sendo artista no Brasil.

A Música no Brasil

Não só pelas dificuldades estruturais, a falta de solidez nas políticas públicas de apoio à produção e à distribuição – atualmente agravadas num nível inimaginável, pela completa incapacidade de compreensão do valor da cultura por parte desses pulhas que estão no poder. Mas também por um estado geral das coisas, um mercado nivelado apenas por números de alcance e não pela diversidade e pela pertinência estética dos trabalhos.
Sinto o debate em torno da música no Brasil hoje muito pouco qualificado, infelizmente. Em geral a preocupação passa quase que exclusivamente por outros lugares e parâmetros, deixado o trabalho em si como uma mera alegoria de tendências e modas da última semana.

O Poder da Pesquisa

Felizmente há muita coisa incrível sendo produzida, tenho muito orgulho dos meus contemporâneos, e sou um ouvinte atento ao nosso tempo. Mas é importante viajar não só pela superfície do algoritmo, mas também às outras camadas, que exigem uma escuta mais atenta e ativa. Pesquisar, efetivamente.

Eu, pessoalmente, pela possibilidade que me foi dada de, vindo de onde eu vim, conhecer tantos lugares no mundo, realizar tantos projetos e desenvolver a singularidade do meu trabalho como artista, me sinto abençoado. É um privilégio que busco honrar diariamente, e que me faz crer que faz sentido seguir fazendo o que eu faço.”

De certa forma no EP você traz um pouco dos amigos e da família nas canções. É uma forma carinhosa de falar sobre saudade?

Luiz Gabriel Lopes: “A cartografia desses afetos já é uma característica visível na minha obra, nomear os amigos, a família, fazer música pra essas pessoas, brincar com os nomes próprios.

É uma forma de trazer esses personagens pra dentro da minha narrativa numa perspectiva cosmológica, fundadora. O lugar de onde eu venho. Quem eu sou, como fui criado e com quem. Pessoas anônimas, que têm vidas “normais”, mas que são minhas referências de sensibilidade e caráter.”

O que sente mais falta de fazer? Como é para você ver que retomar shows ainda será uma realidade distante por um tempo?

Luiz Gabriel Lopes: “Sinto falta de viajar solto pelo mundo, fazendo shows, conhecendo pessoas e lugares através da música. É a atividade à qual mais me dediquei nos últimos anos, e nesse momento não dá pra saber quando será possível de novo. Mas sinto que há uma grande transformação em curso, onde somos chamados a rever todos os modelos conhecidos, reavaliar a prioridade das coisas na nossa vida e redefinir os rumos da nossa ação.

Tenho pensado bastante, ainda não tenho conclusões muito claras mas me parece que se temos algo de positivo nessa crise é a oportunidade pra finalmente tomar coragem e reestruturar nosso modo de vida, ou pelo menos dar os primeiros passos nessa direção. O mundo novo que queremos construir depende da nossa ação de agora, e observar isso atentamente, sem romantismo nem desespero, é um bom começo.”