Sentidor é o projeto de João Carvalho, conhecido por ser trabalho ao lado da El Toro Fuerte, e que recentemente adentrou ao projeto eletrônico NAUSEA. Além da Sentidor o mineiro também tem como projeto o Rio Sem Nome. A cada projeto ele mostra por sua vez uma veia artística diferente.

Se na El Toro Fuerte o emo e o lo-fi tem mais espaço, no Sentidor do Brasil ele viaja pelas ondas da música eletrônica, trazendo elementos de glitch, ambient e mais recentemente do pop. Por ter uma veia mais introspectiva, espiritual e de certa forma se conectar com a temática deste período de tempo, o músico resolveu disponibilizar as faixas que estavam guardadas.

“Todo esse EP foi produzido alguns meses antes da atual pandemia global do COVID-19. Decidi liberá-lo agora mesmo, porque carrega para mim uma aura presciente e espiritual.

As músicas lidam com uma espécie de revolução cosmológica e a necessidade de uma interdependência global que vincule ciência e conhecimento, entidades humanas e desumanas, o corpo da terra e os processos hipnóticos de poder e amor; em geral, fala de um processo profundo de desemaranhamento e da necessidade de se reunir novamente em novas formações.”, conta João


Sentidor_João_Carvalho_2020

João Carvalho (Sentidor, El Toro Fuerte, NAUSEA e Rio Sem Nome) – Foto: Divulgação


Sentidor Um Universo Brincando de ser gente (2020)

Um Universo Brincando de ser gente foi lançado no dia 08/05 via Sound and Colors e está disponível apenas pelo Bandcamp oficial do projeto.

O EP também revela um lado mais sensível e pop do artista que traz elementos distintos para a sua concepção. O jazz, os batuques frenéticos, a MPB e o experimental com diversas camadas em lo-fi, por exemplo, marcam presença na delicada faixa título. “Amiga” já tem aquela vibe cósmica de Frank Ocean que Giovani Cidreira pegou emprestado em sua mais recente Mixtape.

“Sem Tempo” também traz colagens do Trip Hop, eletrônica e o espírito lo-fi despojado. A tensão e a pressão acabam transparecendo em sua letra que explicita nossa relação com o tempo. Efeitos como auto-tune e reverbs acabam entrando com elemento. Assim como o Spoken Word ganha espaço em “Monolito”, em uma faixa completamente conceitual e experimental.  Já “Verão” em sua mensagem fecha de forma esperançosa o registro.

Entrevista

Conversamos com João Carvalho para saber mais sobre os detalhes e conceitos que rodeiam o novo lançamento da Sentidor. O lançamento conta também conta com as vendas revertidas para ações beneficentes.

Além do Sentidor você também toca na El Toro Fuerte, como é para você virar a chavinha na hora de criar? Aliás, a El Toro volta ou não volta?

João Carvalho: “O Sentidor sempre foi um projeto mais voltado pra músicas instrumentais, trilhas sonoras, que era o que eu vinha fazendo mais desde o hiato da El Toro Fuerte. A El Toro também sempre foi um processo de composição mais aberto e coletivo, e trabalhos como o Sentidor ou o Rio Sem Nome eram processos bem individuais.

Agora no meio da quarentena tudo tem ficado mais borrado. Eu nunca lancei nada com letras e canções como “Sentidor” até esse momento, por exemplo, mas acho que as prioridades mudaram e eu só senti a necessidade de extravasar e de participar de alguma forma no contexto da pandemia. Até uma semana atrás eu nem sabia se ia lançar o EP, foi tudo meio impulsivo e rápido.

Sobre a Toro, e sobre todos projetos coletivos no momento, acho que ninguém sabe. Tive shows cancelados, ninguém sabe quando as apresentações ao vivo vão retornar… mas temos mantido contato e conversado com alguma frequência. Ficamos muito felizes de saber que entramos numa playlist de referências emo do Spotify curada pelo Lucas da Fresno (Coleção Emo) e trocamos ideia sobre isso esses dias hahaha. Hiato é um bom termo por isso, não temos nenhuma porta fechada.”



Como funciona o processo de procura por referências e samples neste projeto?

João Carvalho: “As referências são mais próximas do que eu vinha trabalhando com o Sentidor, a música eletrônica, o experimental… e agora uma pegada mais pop, eu acho. É a primeira vez que canto em falsete (risos).

Tenho ouvido mais Björk (tem um sample dela em Amiga, por exemplo), James Blake, Rosalia… comecei a trabalhar com gente do pop também,a Lua Sanja, que me chamou pra produzir o primeiro single dela, a NAUSEA, banda que tenho agora com a Bruna Vilela e a Marcela Lopes (ex-Miêta) me influenciou muito (Ouça “Tarda Demais”). Acho que em algum nível, Pabllo Vittar, Frank Ocean… sinto que as influências tão menos divididas, e isso é bom.”

Você fala sobre abrir o coração neste novo EP e de ser o mais translúcido da sua carreira até aqui. O que te motivou a isso? Quais diálogos e temáticas achou que eram importantes para levar para o mundo? Como é para você estar lançando este material neste momento?

João Carvalho: “Foi um processo impulsivo. As músicas tavam em gestação durante muito tempo, mas em uma semana eu decidi que precisava lançar elas o mais rápido possível, conversei com o pessoal da Sounds and Colours pra organizar os uploads, e soltei na sexta-feira.

“Um universo brincando de ser gente” é um título baseado numa lenda hindu que sugere que o mundo é uma entidade repartida em diversos pedaços, em processo de comunicação, conhecimento, encontro. É uma ideia ingênua, mas que simultaneamente eu acho que diz de uma necessidade de coletivização da nossa existência, de estabelecimento de redes de solidariedade, de ajuda mutua.

As letras tem umas questões sobre poder (um spoken word em “Monolito” que é um texto do Adorno sobre a relação entre o progresso e o fascismo que eu acho que resume alguns aspectos do que a gente tem vivido com esse governo genocida no país), acho que um pouco da energia intensa que é perceber que a gente tá vivendo um momento histórico, possivelmente o maior da nossa geração. Num momento de tanta dor, como eu imagino que seja toda guerra, eu senti que precisava de músicas que ajudassem a condensar essa energia em ação, por um lado, e por outro, ajudassem a reconfortar, a relembrar a amizade, o calor.

A Rede de Solidariedade

Meu alcance é muito pequeno, mas senti que era um pouco a minha obrigação usar ele de alguma forma. Tenho colaborado com o MTST (Colabore!) , com a rede solidária do MLB (Movimento de Luta dos Bairros, Vilas e Favelas) (Ajude) que tão arrecadando doações pras periferias e ocupações urbanas das cidades.

Acho que é isso, é um disco sobre perceber que nós que estamos vivos hoje somos a “ponta da história do mundo”, sobre a interdependência das coletividades, sobre um acordar para as relações de dominação. Ainda que a gente não teja vendo isso acontecer, eu gostaria que funcionasse como uma espécie de chamado.

Talvez a gente possa fazer mais. Conseguir alimento pra 3000 famílias que seriam deixadas pra morrer pelo governo, isso é enorme, é heróico. Foda-se o Bolsonaro, foda-se o governo.Tem muita gente fazendo. Se eu puder pelo menos cantar sobre isso, me usar como um veículo pra que essa informação chegue pra um numero maior de pessoas, acho que é isso aí.”

“Sem Tempo” passa justamente a sensação de claustrofobia e dialoga em certa forma com a correria do dia-a-dia e a esperança por dias melhores. E agora que estamos enclausurados em casa e temos tempo ironicamente nos sentimos sufocados e muitos desesperançosos.

Como observa isso? Nunca estamos satisfeitos? Para você quais reflexões e dilemas neste momento mediante a pandemia – e a insanidade dos nossos tempos – tem vindo à tona?

João Carvalho: “O Ailton Krenak lançou um livro recentemente que se chama “Ideias para adiar o fim do mundo“, né. Acho que toda canção é um pouco isso, uma ideia, uma imagem, e a cada imagem ou ideia nova é uma chance de mudar alguma coisa na realidade.

Ao mesmo tempo, a gente já se viciou tanto em precisar produzir novas imagens, novos mundos o tempo inteiro… acho que a música é um pouco sobre essa dicotomia. O nosso vício em sempre produzir mais tempo, talvez a dificuldade de olhar na cara da crise que a gente vive. E cá estou eu fazendo a mesma coisa, produzindo mais músicas (risos).”

O registro também conta com lucros sendo doados para uma rede de solidariedade. Como vai funcionar isso?

João Carvalho: “Os coletivos de arte independente com os quais eu já me envolvi por aqui estão fazendo doações e redirecionamento de lucros pra varias iniciativas.

A Geração Perdida tá doando os lucros da coletânea de covers que lançaram pro MLB (Saiba Mais). O La Petite Chambre Records vai arrecadar doações pro Teatro Espanca!, pra oficinas de tipografia e outras iniciativas (Saiba Mais).

Eu tenho apoiado a rede do MLB… esse site tem uma série de iniciativas interessantes, por exemplo (Saiba Mais). Infelizmente o meu alcance é pequeno, como eu disse ali em cima, mas vou divulgar as ideias como conseguir. O lucro que vier das vendas do bandcamp (que tende a não ser tão grande, pelo alcance), eu vou dividir entre essas iniciativas. Vamo que vamo, né?”

Sentidor Um Universo Brincando de ser Gente (2020)