Os Amanticidas que atualmente é um dos principais expoentes pós Vanguarda Paulista…nos 45 do segundo tempo (de janeiro) lançou na plataformas digitais seu terceiro disco de estúdio. Teto conta com a produção de Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e tem participações de gala de nomes como Alzira E. e Juçara Marçal. Entre as influências principais estão artistas como Itamar Assumpção, Tom Zé e Ná Ozzetti (os dois últimos assinam parcerias com a banda).

Um disco grandioso apesar de ter apenas 9 músicas e 30 minutos de duração – mas isso são coisas de nossas tempos. Aliás outro dia enviaram um disco duplo, e de fato, isso sim parece ir na contramão.

Na contramão é justamente para onde o álbum não vai. Não pela falta de autenticidade ou qualidade, muito pelo contrário, mas pelo fato de trazer para si temas urgentes, introspectivos e com uma temática bastante apropriada para tempos nebulosos. Crônicas, e conversas, do dia-a-dia musicadas que de tão íntimas, por si só, acabam se tornando universais.


Os Amanticidas - foto por Rafael Salim

Os AmanticidasFoto Por: Rafael Salim


As novas Janelas

E mesmo sem ter como saber que 45 dias depois a gente se comunicaria pelas janelas, sejam elas a das casas e edifícios, ou pelas janelas virtuais de um aparelho celular ou multi-telas eles discutiram entre outros temas a solidão versus a solitude.

Aquele futebol cantarolado em “Corneta” virou realidade apenas via VT na TV e gritaríamos apenas gols que aconteceram a muitos anos. Definitivamente a ficção parece ditar a realidade em uma sociedade que parece viver um feat. entre Black Mirror, Mr. Robot e Tropa de Elite.

Mas o disco se encerra com “Parado Deitado Travado” que em nossos tempos tende a ressoar como a maioria dos dias iguais de quarentena, onde não faz tanta diferença se faz calor ou frio, onde pequenos acontecimentos, e mudanças de rotina, ganham novas importâncias. Onde o aprendizado em conviver consigo mesmo ganha novas perspectivas. A reflexão, as descobertas e lidar com as emoções acaba se tornando um capítulo à parte.

Mas como lançar qualquer coisa agora?

Tem sido difícil pensar em lançar qualquer tipo de material sem considerar o mundo externo.
Sem ter empatia, sem pensar como vai reverberar, sem planejar. E até por isso tem muitos bons lançamentos que outrora teriam mais destaque passando em branco em meio a tantos novos materiais.

Até por isso eles optaram em lançar o videoclipe para uma faixa que por si só foi ressignificada para nossos dias. Mesmo não tendo sido originalmente pensada para esses tempos, ela acaba incorporando personagens e vivências dessa nova realidade. De maneira sutil e com sensibilidade. Até por isso eles resolveram não segurar mais.

Em conversas com eles combinamos uma pequena ação no instagram onde eles produziram uma pequena websérie, de 3 episódios, no fim de semana que antecedeu a Premiere no Hits Perdidos.

Eles resolveram brincar até mesmo com os versos da música na narrativa que converge com a temática da canção que fecha o álbum. As “conversas com o teto” acabaram se tornando o principal argumento da prosa audiovisual. O resultado pode ser visto no vídeo logo abaixo.



A Saga d’Os Amanticidas

Depois do capítulo final que foi exibido simultaneamente nas contas de instagram do Hits Perdidos (@hitsperdidos) e d’Os Amanticidas (@osamanticidas) nesta segunda-feira (11/05) fazemos a Premiere do videoclipe.

A ideia da data também não é mera coincidência, visto que na semana passada foi anunciada a extensão da quarentena na cidade de São Paulo antes prevista para o dia 10/05. Não sabemos até quando ela será estendida, se teremos ou não um lockdown (famoso “tranca rua”) nos próximos dias mas de fato o videoclipe soa como um abraço virtual coletivo em tempos onde abraços estão definitivamente proibidos. Os próprios feriados, e datas comemorativas, foram diferentes para quem respeita este momento da forma correta.

A Surpresa

Segundo a banda a faixa de contornos niilistas “é um olhar de dentro pra fora, da solidão do quarto para o mundo, expressa através de um diálogo absurdo, angustiado e bem- humorado entre uma pessoa e o teto de seu próprio quarto, costurado por convenções e interlúdios.”

“Fui ouvir ‘Teto’ e levei um puta susto. Me pegou de fazer chorar. Não é arrogância não, é a mais pura coincidência: a gente, meio que sem querer, acertou em cheio numas coisas. Fizemos um disco sobre estar em casa, dentro do próprio quarto, olhando pra fora e pensando pra dentro.

Sobre conversar com o teto, enrolar pra levantar da cama, se preocupar com a família, sobre angústia, amores distantes e vingança”, reflexiona João Sampaio (guitarra e voz).

“São faixas que já tinham seus sentidos mais ou menos explícitos e intencionais, mas que de repente nessa conjuntura mostram vários outros que eu nunca poderia imaginar. ‘Teto’ é bonito e estranhamente apropriado”.

A ideia do clipe definida, executada e finalizada antes da quarentena, era traduzir sua atmosfera tanto sufocante, outro tanto cômica. O resultado caiu como uma luva, ou uma bomba, em tempos de pandemia.



O deboche e a ironia acabaram por sua vez virando elementos do clipe que parece nos levar de encontro a uma rotina extenuante. Uma rotina onde os dias parecem monótonos mesmo entre as diversas tarefas milimetricamente executadas a exaustão. As projeções na parede acabam visualmente ilustrando esses diálogos com o Teto e trazendo à tona o conceito central do álbum.

Acaba caindo feito uma luva e convergindo a toda nova narrativa em cena. É a arte imitando a vida, ou melhor dizendo, a vida imitando a arte.

Ficha Técnica

O roteiro e direção do clipe são assinados por Caio Guerra e Pedro Zylbersztajn. Completam a ficha técnica direção de fotografia e cor de Leandro Neves; produção de Irmãos Guerra e Páginas; assistência de fotografia de Rafaela Rosa; assistência de direção de Helena Guerra e Julia Andrade Rantigueri; direção de arte de Páginas, edição de Caio Guerra e atuação de João Marcos Costa.

Entrevista: Os Amanticidas

Conversamos com Os Amanticidas que divagaram sobre o recém-lançado álbum Teto, a vida na quarentena e até mesmo o quanto a canção “Parado Deitado Travado” ganhou de certa forma acidentalmente novos significados e reflexões no momento de seu lançamento.

Os Amanticidas: O Lançamento de Teto (2020)

“Quando nós músicos (e possivelmente artistas em geral) lançamos um trabalho novo, costuma passar um tempo até que consigamos encarar esse trabalho com algum distanciamento. No caso de um disco, por exemplo: a gente escuta aquelas faixas quinhentas mil vezes ensaiando, seiscentas mil gravando, dois milhões e meio mixando e masterizando, mais uma meia dúzia em entrevistas e afins e aí o negócio satura e você não aguenta mais a sua própria voz (especialmente ali aos 3:27 da faixa 6, eu FALEI que tinha que ter passado um afinador naquela nota).

Lançamos o disco TETO faz pouco mais de dois meses. A gente gravou esse troço no começo de 2019. Passou o ano inteiro mixando, preparando, resolvendo arte, figurino, prensagem e ouvindo o disco sem parar. Depois do show de lançamento (que foi dia 13/02 mas parece que foi em 1997) não queríamos mais saber de colocar aquelas músicas pra tocar por um tempinho, ainda mais com a perspectiva de outros shows num futuro próximo, para os quais teríamos que ensaiá-las mais umas duas mil vezes. Precisávamos de um respiro, um período de quarentena, com a permissão de uma analogia apropriada porém de gosto duvidoso.”

O Efeito Quarentena

Só que aí aconteceu tudo isso que está acontecendo e o tempo parece que anda funcionando de um outro jeito. Dissemos ali que parece que o show foi em 1997, mas é porque daquele dia pra cá o mundo é tão outro que podia mesmo ser verdade. Não é quantidade, é intensidade: o mundo provavelmente mudou mais desde que a gente lançou TETO do que em todo o intervalo do primeiro disco, que foi lançado em 2016, pra esse.

Por isso quando fomos ouvir nosso próprio trabalho agora, antes do tempo recomendado, em preparação pra esse lançamento do clipe de “Parado Deitado Travado”, levamos um puta susto. Porque o negócio pegou fundo, emocionou. Não é arrogância nem pretensão, mesmo, é a mais pura coincidência, mas cara: a gente meio que sem querer acertou em cheio numas coisas.

O Conceito do Disco

“A gente fez um disco sobre estar em casa, dentro do próprio quarto, olhando pra fora e pensando pra dentro. Sobre enrolar pra levantar da cama, se preocupar com a família, sobre angústia, amores distantes e vingança. Sobre futebol também, que saudades.

Tem uma canção que fala de alguém olhando pela janela e vendo o mundo desmontar, sabe?! Meio apocalíptica, com a Juçara cantado e tudo. São canções que já tinham aí seus sentidos mais ou menos explícitos, mais ou menos intencionais, mas que de repente nessa conjuntura ganharam vários outros que a gente sinceramente nunca podia imaginar.”

O Timing e o Significado

“Mas provavelmente nenhuma canção ganhou mais novos e estranhos significados que aquela que a gente tinha escolhido lá atrás como música de trabalho, na qual baseamos todo o conceito visual, que foi lançada como single e ganhou o clipe que agora lançamos: “Parado Deitado Travado” é uma canção do Alex que fala sobre conversar com o próprio teto num delírio insone de angústia em relação à vida, ao universo e tudo o mais.

Sobre a sensação de impotência e insignificância frente a essas grandes questões. Sobre a imobilidade inquieta que essa sensação traz.

Também sobre várias coisas, enfim, que sempre estiveram presentes, mas que de uns meses pra cá ganharam uma outra dimensão nas vidas de todos nós.

É muito estranhamente apropriado. Temos muito orgulho desse trabalho desde o começo, sabemos melhor que ninguém a quantidade de amor e dedicação contida nele. Mas agora soma-se a isso um pouquinho de assombro também, por causa desses novos contornos que a conjuntura resolveu oferecer pra ele.”

Os Amanticidas Teto (2020)