Gabriel Vendramini experimenta bastante no álbum Phanton Pain. Traz referências distintas, reúne participações especiais e na bagagem cria de certa forma um álbum conceitual. Tem espaço para o blues, para o post-punk, stoner rock, grunge, college rock e rock alternativo.

A construção dele inclusive acaba se destacando, o registro começa soturno e suas faixas vão se conectando feito o emaranhado de uma história. As parcerias inclusive aumentando ainda mais as possibilidades e desfechos da faixas.

É um álbum de rock’n’roll e permite por sua vez uma viagem que passa pelos anos 70 e 90. O lado dark acaba sendo incorporado dentro da sua narrativa, ele até cita como referência a Síndrome do Membro Fantasma. Com espaço para referências nítidas de Black Sabbath e Nirvana.

O terceiro disco do paulista conta participações espaciais de Elisa Monasterio (Dois Barcos), Marisa Brito, Guilherme Wolf (no qual lançou EP em parceria recentemente – Ouça), Pavel Iakovlev e da banda gaúcha Asilo Magdalena. O momento do lançamento claro, gera diversos questionamentos que o músico deixa claro em sua fala.

“Este é o meu terceiro disco criado e lançado sob o conceito 100% DIY. Do primeiro trabalho (“Brick By Brick”, 2016) até aqui, a minha base de ouvintes e seguidores vem crescendo organicamente através da internet, do engajamento com o público (dos shows e das redes sociais) e com as bandas que partilham dos mesmos ideais que os meus.

Em tempos de isolamento social, espero que este álbum faça companhia aos sedentos por novas músicas, atinja um novo público e inspire todos que acompanham a minha música.”, conta Gabriel.


Gabriel Vendramini

Gabriel VendraminiFoto Por: Giovana Favaro


A Premonição

Poucas semanas antes do lançamento do álbum, Gabriel Vendramini foi diagnosticado com uma neurite óptica, ainda em tratamento, que restringiu a visão no olho esquerdo. Ter lançado o single “Phantom Pain” na mesma época acaba por sua vez ressignificando toda a experiência.

“De forma completamente natural, desta vez o instrumental foi melhor trabalhado. Por ter sido um disco concebido sem pressa, me senti livre para estudar e criar linhas mais complexas do que as de costume.

Explorei bastante a utilização de teclados e sintetizadores, valorizei bastante o poder dos riffs de guitarra e dos grooves de baixo. Em certos momentos o “Phantom Pain” é uma grande ode ao rock’n’roll baseado em guitarra dos anos 70 e 80.”, explica Gabriel Vendramini.

A Ficha Técnica

Gabriel Vendramini assina a maior parte do processo D.I.Y. do processo (vozes, guitarras, baixo, teclados, programações de bateria, mixagem e masterização).

As Participações

Marisa Brito (backing vocals em “Lie”), Pavel Iakovlev (backing vocals e guitarras adicionais em “Casper”, Guilherme Wolf (backing vocals em “Freckles”), Elisa Monasterio (backing vocals em “Alone”), e ainda, a banda Asilo Magdalena (backing vocals em “PLS”). Também participaram Bruno Philippsen (teclados e sintetizadores em “Grindhouse”) e Roger Mattos (arte da capa).

Faixa a Faixa por Gabriel Vendramini

Com exclusividade para o Hits Perdidos Gabriel Vendramini preparou um faixa a faixa contando mais detalhes sobre a construção do álbum, detalhou referências e suas impressões.

SUNK

O barulho das ondas em meio a sintetizadores e lamentos representa um naufrágio, o fim do ciclo “Lighthouse”. Tomei como inspiração, não só para esta faixa mas para grande parte das inserções de teclas do disco, as ambiências criadas pelos sintetizadores do The Alan Parsons Project, principalmente no disco Eye In The Sky (um dos meus discos favoritos de todos os tempos).

LIE

Na sequência, “Lie”, que conta com a participação da cantora Marisa Brito, é um blues-rock que introduz o ouvinte à atmosfera do “Phantom Pain”. A canção é dividida em duas partes: sofrimento e canto de guerra.

A parte que classifico como “sofrimento” tem a estrutura de uma jam session. Uma progressão de acordes simples atravessada por licks de guitarra blues, uma singela homenagem a outro ídolo e influência: Gary Moore (especialmente o álbum Still Got The Blues).

Do fim repentino e misterioso da primeira parte, emerge o “canto de guerra”. Um riff de guitarra com a intenção de rock de arena longo e agressivo que, a cada repetição, acrescenta novas cores: overdubs de guitarra, vozes, teclados, enfim, uma bagunça organizada.

PLS

Em “PLS”, a soma das vozes da banda gaúcha Asilo Magdalena nos versos, é a minha singela homenagem à “Twist Of Cain”, de Danzig. A canção narra os estigmas causados pela síndrome do membro fantasma, condição experienciada por vítimas de amputação.

A faixa segue com linhas de cordas agressivas, homenageando o rock gótico dos anos 70 e 80 (e o primeiro disco da banda sueca Ghost B.C.). No desenvolvimento da música, a voz principal é acompanhada por um eco distante, como se fosse uma voz da consciência lembrando e refletindo tudo o que o ator gostaria de esquecer. O bumbo duplo ao longo de toda a faixa é como uma taquicardia incessante, causada pela ansiedade de se viver sob uma condição difícil de aceitar e compreender.

CASPER

“Casper” traz a objetividade de uma balada post-punk, um encontro do Joy Division com o The Cure. O músico russo radicado em São Paulo, Pavel Iakovlev, agregou à faixa com sua voz (nos  refrões e ponte final) e com um enérgico solo de guitarra.

O nome da música não é por acaso, “Casper” fala sobre se sentir (ou querer ser) invisível para fugir de discussões sem sentido. A faixa é propositalmente curta e intencionalmente radiofônica, visando atrair o repeat do ouvinte.

ECHO

“Echo” foi composta influenciada por um exame de ecocardiograma que realizei em Janeiro deste ano. Saí assombrado do apontamento médico e decidido a documentar a experiência. Eu nunca tinha visto e ouvido o meu coração com tanta clareza e, logo que cheguei em casa do exame, peguei a guitarra e comecei a trabalhar na música. Tanto o riff de guitarra quanto o solo do final foram inspirados nas bandas UFO e Kansas.

DESERT

É uma faixa com estrutura complexa, completamente fora da zona de conforto. As diversas mudanças de andamento forçam a imersão do ouvinte à (dificuldade da) passagem do tempo quando estamos perdidos. Ela soa como um dia interminável, com pouca ou quase nenhuma resolução.

Desta vez, deixei a minha influência pelo Seattle Sound (Soundgarden, Screaming Trees) dirigir a composição. As guitarras não seguem uma linha fixa e foram completamente improvisadas durante a gravação. O groove do baixo é repetido em um mantra frenético enquanto a bateria vai mantendo e pautando a ordem pelos cinco minutos de música.

PRIZELESS

“Prizeless” canta sobre a inutilidade da validação de terceiros quando se é feliz e satisfeito com seu próprio trabalho. É um pop rock que, apesar da progressão de acordes otimista, tem uma letra ácida. Nos versos, a linha de voz vai acompanhando acorde por acorde, inspirada na maneira que Kurt Cobain cantava.

No refrão, o exagero das camadas de voz ressalta o desconforto de um introvertido sendo o centro das atenções. A resolução da música se dá em um solo de guitarra melódico. Para escrevê-lo imaginei um personagem subindo em um palco recebendo um prêmio que ele nunca quis receber. Para quem ouvir de fones, tente notar a orquestração sutil que se manifesta nos compassos finais.

FRECKLES

“Freckles” é um rock de garagem romântico, curto e visceral. Os vocais adicionais no refrão final são do músico e também embaixador do DIY, Guillherme Wolf. Já é de praxe eu homenagear minha esposa nas minhas composições e esta é mais uma. Apesar do tom, afrontoso e desenfreado, esta é uma música de amor inspirada no Lo-fi de Lou Barlow, da banda Sebadoh.

ALONE

Colocando a dinâmica do disco completamente do avesso, começa a eletrônica “Alone”. O arranjo é uma homenagem à onda new romantic dos anos 80. A linha de baixo é uma ode ao baixista do Duran Duran, John Taylor. As guitarras em tom menor ecoam distantes, retomando o tom lamentador do início do álbum. Participa na faixa a cantora Elisa Monasterio que, na realidade, é a grande protagonista da composição. Entregue ao arranjo, a voz de Elisa passeia pela canção através de harmonias complexas, numa interpretação que exalta a angústia de se passar (por opção própria ou não) por momentos difíceis sozinho.

GRINDHOUSE

A “barber shop” pós apocalíptica, “Grindhouse”, encerra o disco em tom de créditos finais. A virtuose no arranjo de teclas ragtime à lá Scott Joplin ficou por conta do engenheiro de som e palavras, Bruno Philippsen, que não economizou nas notas e leva o ouvinte a se sentar no balcão de um saloon do Velho Oeste no século 19.

A música narra sobre um encontro romântico acontecendo durante um apocalipse zumbi, onde os amantes se divertem salvando o mundo enquanto estraçalham hordas de mortos-vivos. Ao final da música, uma locução inspirada nos filmes de terror B dos anos 60 se despede do ouvinte.

Gabriel Vendramini Phantom Pain (2020)