A arte conectou Felipe Antunes (Brasil), conhecido por sua banda Vitrola Sintética, e Nástio Mosquito (Angola) em Lisboa (Portugal) no início de 2018; e desde lá eles começaram a co-criar juntos em um processo imersivo. Assim surgiu o Visão Noturna um projeto colaborativo e com diversas narrativas.

“A arte é talvez hoje em dia uma das maneiras mais importantes de resistência, num momento em que a gente está vivendo um ataque ao pensamento, à intelectualidade, à arte também no geral, a gente pode responder com elaboração”, afirmou Felipe durante as gravações do disco, em 2019.

A poesia inclusive é o ponto de partida para dialogar com o mundo a sua volta, cruzando oceanos e permitindo diversas interpretações em relação ao cenário de colapso em que vivemos. A expansão de pontos de vista acabou consequentemente criando uma narrativa transmidiática dividida em quatro atos, com direito a livro e a projeções.

Sob a direção de produção de Felipe Antunes e Jackeline Stefanski Bernardes, até o momento, 38 profissionais atuaram e atuam em diversas áreas para a criação e realização deste projeto interdisciplinar. O lançamento foi contemplado pelo edital da Natura Musical.


Visão Noturna

Visão NoturnaFoto Por: Camila Pastorelli


Visão Noturna: O Primeiro Ato

O primeiro ato do Visão Noturna  é um EP com as canções: “Labirinto”, “Ultimato-me” e “Visão Noturna. O álbum foi desenvolvido a partir da pesquisa e de imersões na Fazenda Serrinha e no Estúdio Canto da Coruja (Bragança Paulista e Piracaia|Brasil), com produção musical e composições de Felipe e Nástio e arranjos criados, colaborativamente, pelos artistas e Kika; Guilherme Kastrup, Fábio Sá, Leonardo Mendes e Ricardo Prado, beats de Chilala Moco e trombones de Allan Abbadia.

O álbum que será lançado em breve virá acompanhado de um livro que mescla as letras das canções, textos de Nástio, fotografias analógicas e um breve romance de Felipe. O lançamento ao vivo ainda contará com direção artística e terá música combinada artes cênicas e audiovisuais.

“Podia não existir álbum nenhum, podia não haver mais nada, que isso seria um projeto para olhar. Eu acho que isso também é algo que nós temos que lembrar ao mundo: estar à favor do processo, isso quer dizer, haver disponibilidade para errar”, aponta Nástio, sublinhando o tipo de experiência que Visão Noturna pretende instaurar ao abrir diálogos com nosso tempo para criar outros futuros.

Visão Noturna em Ação



As faixas fazem uma mistura de colagens, timbres, referências, estilos e visões. Trazem uma sinergia entre batuques, provocações e metáforas. O swing da vida acaba ganhando contornos na reflexiva “Labirinto”, com direito a sopros e percussão elaborada que permite sensações.

Eletrificada “Ultimato-me” é performática em um universo onde a poesia se mistura com a música e o imaginário. Com uma levada apocalíptica, ela cria toda uma atmosfera sombria para narrar causos do dia-a-dia.

Quem fecha o primeiro ato é “Visão Noturna” que soa como um berimbau metalizado que se funde com outros ritmos; provocando por sua vez conflitos em meio a distopia da realidade. Morte, castração, exploração, política, vida…tudo parece se misturar dentro do sofrimento dos versos.

Entrevista

Comentem mais sobre o surgimento do projeto, a proposta musical, a conexão cultural que o projeto traduz e como a música pode nos unir em momentos de distanciamento coletivo.

Felipe:”De um jeito mais amplo, mas também de certa forma “curto”, porque vem de perto, do corpo, é legal pensar na música como algo imaginado, sentido, desdobrado da nossa própria percepção em relação ao que a natureza já tem. A música, a arte, ou qualquer outra atitude humana é a simples ou intencionalmente complexa consequência de nós.

A diferença é que algumas ações são mais primitivas e selvagens (no melhor dos sentidos) do que outras, elas são de antes da gente racionalizar tudo e com isso instrumentalizar poder e segregação; a música tem muito dessa primitividade boa. Compartilhá-la e provocar o sentimento coletivo é de onde o projeto parte e pra onde ele vai.”

Nástio: “Tudo o que o Felipe disse, e mais o facto que, sem a teimosia dele, eu jamais teria sido arrastado por esta descoberta maravilhosa. Para mim é só importante dizer que a música não une coisa alguma… entendo o romantismo da pergunta, mas no fim é o gesto concreto de aproximação entre humanos que deve ser nutrida, e se rolar com música melhor ainda…”

A partir de que momento optaram por realizar o projeto transmidiático? Porque a escolha em dividir em atos? O que podemos esperar do livro?

Nástio: “Não sei se decidimos os se apenas reconhecemos o que tínhamos em mãos e fomos o mais obedientes possível… talvez minha resposta venha do cansaço de ter na opção, ou na escolha, a confirmação de um caminho de descoberta… todo este processo para mim tem sido um processo de reconhecimento e obediência.”

Felipe: “Nástio e eu deixamos o processo caminhar na melhor das confianças. Porque são muitas as confianças necessárias aqui. E esse cara, além de mergulhar nessa história de um jeito meio kamikaze, sem saber direito onde ia dar, provocou, muito, algumas das minhas pontas, até então, pouco frequentadas.

Nossa permissividade transmidiática vem, também, da intenção direta em confluir essa obra de forma e essência transatlânticas. No fim, acho que só o começo da resposta do Nástio era suficiente: não optamos, reconhecemos. Sobre ser em Atos, sem detalhar muito, pra que a obra se expresse, o disco foi gravado assim, sequencialmente – convido, também, às definições de “Ato”, dos dicionários mesmo, como replicadas na primeira postagem da rede social do projeto.”

Como definiram Visão Noturna e como acham que os choques de realidade contribuíram para o resultado final?

Felipe: “Nástio trouxe essa provocação lá no começo (pra um outro projeto, mas achei forte demais pra deixar restrito): enxergarmos as pessoas a partir de um mesmo ponto de partida visual. A realidade já sempre foi o choque. Isso nós sempre convergimos.

Hoje, inclusive, falamos disso. A realidade, sobretudo nesse agora, é muito mais fantástica do que as obras em geral se permitem. Não sei se por dúvida, medo, dor, enfim… A simples reprodução da realidade é a transposição do absurdo. Um exemplo: a Necropolítica, há um bom tempo observada, tem sido celebrada, principalmente aqui no Brasil.”

Qual acreditam que o maior ponto de convergência no projeto?

Nástio: “O fato de estarmos destinados a morrer, e esse fato deve nos ligar à qualidade do viver?!?

Felipe: “É isso. Celebramos muita convergência justamente na diferença, vivemos o processo como sendo ele o fim. Estamos vivendo, na verdade.”

Contem também sobre o processo imersivo das pesquisas, colagens e gravações.

Felipe: “Talvez o melhor agora – retomando da primeira pergunta, num recurso cíclico como nossa intenção – seja deixar as sensações primitivas responderem à obra… Fatiar e detalhar o processo vai alcançar a razão.”

Nástio: “Gostam?”