A vida passa feito um sopro mas nem por isso as brevidades da vida não tem uma beleza peculiar. A velocidade das coisas muitas vezes faz com que os detalhes possam passar batido….mas eles jamais serão esquecidos. Em seu segundo álbum, a Luvbites faz uma verdadeira reviravolta nas memórias e resgata a discussão sobre o o paradoxo entre a essência e a aparência. 

O quinteto de Londrina (PR) formado por Júlia Dutra (voz e órgão), Leticia Blue (bateria e voz), Igor Diniz (guitarra e voz), André Felipe (baixo e voz) e Wiu (guitarra e voz) mostra uma significativa mudança em relação a sonoridade dos primeiros anos; quando por aqui nos remeteu a uma levada punk-folk-hippie de grupos como MGMT e The Moldy Peaches.

O novo lançamento passeia por uma era da música que engloba os 60’s, os 70’s e até mesmo os 80’s. O alternative rock do grupo se mistura a ritmos como Blues, Funk, Gospel, Disco, Power Pop, Psicodelia, Folk e até mesmo a energia da primeira geração do punk nova iorquino.

Se você gosta de Television, Patti Smith, The Who, Etta James, The Ronettes, The Byrds, The Supremes, Blondie, Suzy Quatro e Bee Gees talvez vá pegar as referências após uma breve audição. Quem acompanha as lives do Sylvain Sylvain (New York Dolls) vai se deliciar com as camadas, arranjos e detalhes da nova fase dos paranaense que até mesmo Os Mutantes resgata. 

O disco, sucessor de Hot Days Long Nights, Here Comes Luvbites (Fatiado Discos, 2019), Loud Fast Soul foi gravado no Estúdio Lamparina, em São Paulo, e produzido pelo guitarrista Igor e pelo produtor Guto Gonzalez. Já a masterização é assinada pelo inglês Nick Graham Smith, que já trabalhou com Malcom Mclaren, Sessa, Lurdez da Luz, Garotas Suecas, entre outros.


Luvbites

LuvbitesFoto Por: Stephanie Massarelli


Luvbites Loud Fast Soul (10/04/2020)

Se você já leu Mate-Me Por Favor, Larry “Legs” McNeil e Gilliam McCain (1996); acompanhou a evolução da Pop Art e artística do período dos 60 aos 80 talvez entenda mais a estética, narrativa e proposta de resgate do álbum.

A faixa “Youthquake, cujo nome se refere ao termo que foi criado por Diana Vreeland, quando ela estava a frente da edição da Vogue Americana, cargo que ocupou de 1963 a 1971. A canção inclusive abre o registro e tem como temática as inquietações da alma.

O nome do álbum faz referência ao tema da brevidade da vida e do espírito jovem, e é também uma homenagem a soul music e ao artista e fotógrafo Robert Mapplethorpe, um dos melhores amigos de Patti Smith, cuja história foi contada no livro Só Garotos.

Até mesmo o cinema cult acaba entrando em cena e colore os nuances e ambientações ao longo do álbum. Mas a música do sul e centro oeste dos EUA também ganha suspiros em seus traços que caminham pelo soul, blues, gospel, folk e funk. É da emoção e dor desses estilos que as passagens da vida acabam ganhando capítulos a parte ao longo da jornada dos paraenses. São 23 minutos entre delírios, sentimentos à flor da pele e reflexão.



A vida e suas finitudes

“Youthquake” é um power pop chiclete recheado com arranjos em slow-motion e referências do garage rock em seus vocais sussurrados. Me lembrando um pouco até o espírito do The Exploding Hearts, finada banda de Portland. Trazendo a luz para a brevidade da passagem do tempo e da vida; conceito do álbum. Feito um respiro rebelde, a faixa retrata a passagem da juventude e dos anos de ouro.

“Youthquake traz consigo todas as inquietudes do espírito livre que, diante da percepção de seu papel fugaz frente a este instante de tempo ao qual chamamos de vida, questiona a fluidez das pessoas, dos amores, das relações, e entende a mudança, o devir, como agente transformador em eterna construção e desconstrução; dialética do universo e  do ser”, conta Igor.



O clipe tem a direção assinada por Igor Diniz e  Gabriel Zambon e traz referências a Nouvelle Vague. 

“O vídeo foi  filmado no fim do ano passado e, naquela altura, eu estava  pesquisando linguagens de moda com o amigo e diretor de arte  Thiago Batista, revisitando todos os filmes da Nouvelle Vague, que assisti  na adolescência, então, por isso, a linguagem estética me pareceu adequada. Eu assino a direção de arte e  figurino também, tarefa não tão simples quando se trata de um projeto de banda independente como a Luvbites.

Ser um grupo  independente, em início de carreira, significa não ter orçamento, e, por isso, usei cenários a partir de reciclagem de material e  montei o figurino com roupas de brechós e acervo pessoal. No vídeo também vesti a vocalista Júlia Dutra com acessórios Jana Favoretto e um chapéu clássico da NEON,  criação do Dudu Bertholini e Rita Comparato. Inclusive, optei por usar esse chapéu como homenagem a esses dois grandes estilistas que me influenciaram e marcaram época com  a Neon”, relembra Igor

Preso no Tempo

A sensação de estagnação, medo e insegurança transparece em “Sha La La”; e gira a chave do disco da Luvbites em direção aos anos 60. André Felipe e Júlia Dutra duelam nos vocais e nos versos cantarolam até mesmo sobre os Beatles John e George. Pop, doce e energética a canção delira com direito a reverbs e muita nostalgia. 

Ainda mais adocicada e parecendo até mesmo trilha de filme, “Anyway You Do” faz o flerte com os anos 70 mas sem deixar os anos 60 de lado. Trazendo homenagens ao The Who e The Ronettes e um pouco de poeira espacial. A plenitude, as quedas, e os balanços da vida reverberam na canção.

Soul, Funk e Groove

“Loud Fast Soul” faz homenagem à Etta James, cantora que dedicou 48 anos da sua vida ao blues, R&B, jazz e música gospel; conhecida como Miss Peaches. Até por isso o ritmo mais lento, backing vocals com coral orquestrados ao fundo e amores intensos.

A faixa traz elementos da música americana, incorporada mais tarde ao country, folk e ao hard rock dos anos 80. Uma das mais belas do disco, a emoção pode ser sentida à for da pele.

Outra musa homenageada é Suzy Quatro em canção composta por Júlia. “Do lado de lá” mistura português, inglês, francês e tem a alma do power pop. Bebendo do R&B, rock’n’roll e do pop de outrora, ela é energética e pulsante.

A pista se aquece com a potência do Funk e da Dance Music apresentada em “Smash”. O groove nos lembra nomes como Nile Rodgers indo de encontro com o espírito de liberdade de artistas como Blondie e Madonna.

Até por isso a canção fala sobre uma mulher poderosa que se prepara para sair a noite e dançar numa atmosfera de liberdade e empoderamento; e Letícia e Júlia assumem os vocais. 

O Otimismo e o Fechamento

O álbum da Luvbites se encerra com a balada “Beside Good Things” que tem como norte o amor e o otimismo. Com synths, fuzz, reverbs, feito “Some Candy Talking”, do Jesus & Mary Chain, a faixa passeia por uma frequência distinta mas sem perder o caráter espacial e a doce do disco.

PS: A faixa de encerramento também conta com um detalhe fofinho. “Beside Good Things” é uma carta de amor de Júlia para seu companheiro André, baixista da banda.

A Arte da Capa


Luvbites Loud Fast Soul (2020)


A capa do disco é assinada por quatro artistas amigos da banda: Thiago Batista responde pelo conceito, Artur Carvalho o lettering, Stephanie Massarelli a fotografia e Fernando Dalvi fechou a arte final. Loud Fast Soul é uma releitura de Loud Fast Rules, frase que estampa uma das fotos registradas por Mapplethorpe, escrita em uma jaqueta de couro. 

Sobre o Disco

“Em tempos de fluidez de informação, catástrofes biológicas,  modernidade líquida, descaso com a natureza, momento no qual o ter e o consumir se sobrepuseram à essência dos indivíduos e do planeta, apresentamos um disco propositalmente  com sete músicas, álbum breve, que além de trazer a carga mística de transformação do número sete (sete são os dias da semana, sete são os principais chakras, mosaico de cores arco íris, sete virtudes cardeais, sete pecados capitais), ainda aponta aspectos da dualidade em que estamos inseridos, vivendo neste mundo efêmero”, comenta Igor.

E completa: “o álbum é um apanhado de rock’n’roll, power pop com a música independente atual. Reverbs e guitarras altas são somados, pela primeira vez na banda, aos coros de vozes de todos integrantes em quase todas as faixas, referência clara aos anos  50 e 60, à soul music e gravadoras como STAX”.