Pouco mais de um mês depois de lançarem um clipe, Orijàh lança ArtesaNow!, o primeiro disco do quarteto. Filosofino, Amaro Mann, Big Jesi e Rieg são os comandantes do soundsystem que começou fevereiro entregando oito faixas densas de som e ideia. O título diz muito sobre como o disco foi produzido na pequena porém agitada salinha do estúdio BBS.

Comandado desde 2013 por Rieg e Daniel (Big) Jesi, o BBS tem funcionado como uma espécie de ponto de encontro de artistas e produtores de toda natureza. Os encontros viram colaborações e assim o estúdio não para de dar frutos. Caetano foi um dos que encontraram no BBS uma plataforma fértil pra produzir. O ilustrador e tatuador tinha pouca aproximação com a música, mas sempre foi íntimo da poesia – especialmente a poesia de rua, marginal e periférica como seu bairro natal de Mangabeira.


Orijàh

OrijàhFoto Por: Roan Nascimento


O Flow de Orijàh

Ao ser apresentado ao núcleo do BBS, não demorou para que suas poesias ganhassem ritmo e lançou em 2018 o EP Invasão, produzido por Big Jesi e pelo compositor e produtor Bravo, lançando a alcunha Filosofino no mundo da música.

As bases eletrônicas, o flow seguro e o texto direto de Caetano resultaram num disco com a marca clara do rap feito no litoral urbano nordestino, com influências tanto do dub e do ragga quanto do coco e da embolada. Esse foi o início da parceria que daria origem a Orijàh.​



O ingrediente final para a mistura veio na pessoa de Leo Marinho, guitarrista da Cabruêra e que já havia sido parceiro de Daniel Jesi na banda de afrobeat instrumental Burro Morto.

Leo desenvolve desde 2016 seu projeto solo como Amaro Mann, fruto de uma imersão profunda no mundo da música eletrônica jamaicana. Seu disco de 2018, Mo’Faya Kombo, teve a capa desenhada por Caetano, que também cantou em uma das faixas. A partir do encontro das bases de Leo com a poesia de Caetano, o time ficou completo.



As Referências

A quantidade de referências em comum entre os quatro e a convivência no ambiente do BBS fez com que a junção fosse questão de tempo.

Em formato de soundsystem, adotaram o nome Orijàh e começaram a se apresentar nos mais diversos espaços da cidade e redondezas: bailes, slams, batalhas de rap, praças e casas de show.

O nome é denso de significados. Orì e Jà são palavras do iorubá, “cabeça” e “luta”, respectivamente, e a junção ainda faz referência a Jah aos orixás. Big Jesi, Amaro Mann e Rieg dividem o set eletrônico repleto de synths, baterias eletrônicas, samplers e sequenciadores, Rieg se desdobra nas projeções e demais efeitos visuais enquanto Filosofino comanda o microfone com seus textos.

Reggae Digital

O grupo resume seu som como um “reggae digital”, e os shows lembram de fato uma versão cyberpunk dos paredões jamaicanos dos anos 70.

Apesar de serem um quarteto, raramente sobem sozinhos ao palco. Dançarinos, poetas e instrumentistas da constelação BBS acompanham Orijàh transformando cada show num pequeno espetáculo. Esse senso de comunidade também pode ser sentido no ArtesaNow!, que traz diversos convidados ao longo de suas faixas.

Na faixa que dá nome ao disco, Camila Rocha, da Sinta a Liga Crew, canta a filosofia handmade modo on que caracteriza o disco inteiro. Além dela, também participam Yakuza, rapper ligado à Batalha do Coqueiral que ocorre em Mangabeira, além dos vocais da cantora e compositora Mebiah e a guitarra de Phil Gouveia, ex-Glue Trip, no ragga “É Pouca Loombra”.

Dentre os convidados, chama a atenção a voz potente de Bixarte, que canta na faixa “Cuba” acompanhada do parceiro Gabrunca nos vocais. Dona de um estilo violento, cru e extremamente seguro, sua aparição no disco é uma verdadeira pancada. Bixarte também tem um trabalho produzido e lançado pela BBS, a mixtape Faces de 2019.



Essa rede forte de parceiros e a produção meticulosa do quarteto resultou num disco que dá uma nova cara à cena reggae paraibana. Muito menos praieira e muito mais urbana, menos positividade e mais verdade nas letras.

Um reggae que conversa mais com as outras manifestações artísticas que de alguma forma derivaram da música eletrônica jamaicana: do ragga ao rap à poesia urbana. Digital, porém artesanal: “melhor que os enlatados que não valem de um real”.