Tem gente que acredita que, pelo fato da cidade de São Paulo ser uma mistura de várias culturas, ela não tem uma cultura própria. Mas na verdade é que todo lugar tem sua característica singular, nem que ela seja justamente a diversidade, ou então o fato de ser “uma cidade de pessoas comuns”, como diria o ex-membro da banda Os Mulheres Negras, Maurício Pereira.

O cantor, compositor e saxofonista paulistano está lançando uma edição especial em vinil do seu último disco, Outono no Sudeste (2018), que será lançado dia 25 de janeiro, dia do aniversário de 466 anos da maior cidade do país.

O disco está à venda no Catarse, que inclui como recompensas, além dos vinis 180g com autógrafo e dedicatória, camisetas e 30 artes originais assinadas pela artista plástica Biba Rigo, autora da capa do álbum.

O financiamento vai até a meia-noite de hoje, dia 21/01. O show de lançamento será no sábado, dia 25, na Casa de Francisca (Rua Quintino Bocaiúva, 22, Sé), às 20h. O ingresso custa 53 reais.

No bate-papo com Maurício Pereira, conversamos sobre sua relação profissional e pessoal com São Paulo e sobre como as novas (e velhas) tecnologias funcionam hoje em dia na indústria musical. Confira!


Maurício Pereira


O que você acha dessa volta do vinil?

Maurício Pereira: “Olha, eu não mistifico muito as coisas. Pra mim, o importante é a música. Se ela tá no vinil, no CD, no rádio de pilha ou na plataforma de streaming, pra mim tá tudo legal. Eu acho que é uma qualidade mínima que a gente entende a arte. Agora, eu fui criado no vinil.

Nasci em 1959. Eu fiz a minha cabeça, eu fiz a minha orelha, fui acostumado com essa sonoridade de vinil, que às vezes varia a rotação, que a agulha deixa tudo mais rouco, né. O vinil tem um som cremoso, vamos dizer assim. Então é gostoso de ouvir. Sendo um cara que lança discos, pra mim o mais legal do vinil é ele abaixar a bola do ouvinte – ele tem que sentar pra ouvir, não dá pra ficar botando o dedo pra mudar de faixa.

Tem que pôr o disco, sentar, ouvir – , e principalmente a arte grande. Porque desde o CD, a gente perdeu – claro que a gente tem muitos CDs com artes lindas – mas essa coisa grandona da capa do vinil é boa pro artista gráfico, eu acho que ele ajuda a criar um pouco a mística do que vai ser ouvido.

O Fetichismo do Vinil

Então eu acho que o vinil tem um sabor especial, ele é consumido mais devagar. Agora, é um momento de muito fetiche, acho que tem muito fetichismo. Mas a gente que é artista não é só artista, a gente é camelô também.

Então eu tenho que ter os produtos que o povo quer ouvir. Não apenas tenho que fazer a poesia pro povo, mas eu tenho que armar minha barraca e vender coisas. Fui criado pra ser músico pop, então eu também tenho que saber farejar o que o público quer.

Então eu acho que tem um pouco de tudo isso: alentar a opção de saborear mais, é uma opção diferente, tem a beleza da capa e tem um bocado de fetiche. Engraçado que seria uma coisa mais antiga, que tem mais de 100 anos, mas ele é bem a cara do século 21, hypado, sabe. É a coisa de saborear um troço mais gourmet e tem muito fetiche em cima. No fundo, eu acho interessante.”

Você falou dessa relação do vinil com a arte gráfica, e eu vi que uma das recompensas do seu Catarse é a confecção de 30 ilustrações originais a partir da capa do disco. Queria saber de onde veio essa ideia.

Maurício Pereira: “Quando eu resolvi fazer o vinil, foi antes de aparecer a turma que me levou pro Catarse, pra vendê-lo com as recompensas. Mas eu já tinha pensado em fazer uma edição pequenininha com a arte da Biba Rigo, que é uma super artista plástica de São Paulo, uma cara bem alternativa, bem crítica, bem inventiva.

Então eu conversei com ela: “Pô, Biba, a gente podia fazer 30 capas assinadas manualmente” – Até pra deixar o disco com mais cara de obra de arte mesmo, que nem gravura, né. Quando pintou essa história do Catarse, eu pensei: “pô, por que já não incluir nas recompensas?”. Eu acho que é uma coisa que tem a ver com os meus discos depois d’Os Mulheres (Negras). Os discos são muito artesanais, são feitos à mão.

De garagem.

É verdade. Eu acho até que o Outono no Sudeste deu muitos passos à frente no universo de garagem. Eu acho que a mão do Gustavo Ruiz (produtor do disco) refinou muito ele. Eu já tava buscando isso no disco passado (Pra Onde que Eu Tava Indo, 2014), que já é um disco diferente de sonoridade, porque ele foi gravado naquele estúdio do Roy Cicala que tem aqui em São Paulo (S.A Plant Studio).

Acabei caindo naquela sala, então já tive um disco que soou melhor. Então, eu que era um cara de garagem, hoje sou um cara da “oficina do artesão”, sabe? Antes eu tava mais cheio de graxa, trocando pneu, e agora eu acho que tá um troço mais… sabe comida italiana? Lá no Sul tem um jeito que faz o churrasco que demora o dia inteiro, né? Que vai comendo depois de mil horas.

Aqui em São Paulo tem uma coisa que você coloca o bicho na grelha e já quer comê-lo depois de dez minutos. E eu acho que com o tempo – Não é por acaso que eu cheguei onde tô chegando -, tornei o processo mais pra dentro, mais artesanal, mais “slow food”. Outono é bem slow food, tem tudo a ver com ser o meu primeiro vinil solo.”

Por que você mudou a ordem das músicas?

Maurício Pereira: “Eu fui criado no vinil, então eu tô acostumado a pensar discos com dois lados, cresci ouvindo discos com dois lados. E é diferente do CD. Você tem música que abre o disco todo, você precisa de uma música que abre o lado B, você precisa fechar o lado A…

Então tem um monte de momentos dramáticos, vamos dizer assim, que cê tem que ter, né. O começo do CD – as primeiras quatro músicas – é muito forte. Desta forma eu conservei mais ou menos isso. Eu tive que tirar duas músicas, pra qualidade do áudio não cair, já que o vinil não comporta tanto tempo de música que nem o CD.

Então eu abri com “A mais”, que ela é boa de abrir – Ela dá muito clima de disco. E aí eu fui achando os momentos de clímax e de relaxamento pra poder encerrar o lado A. Então a peleja é essa: é como se tivesse uma peça de teatro com um intervalo. Cê precisa ter um final do primeiro ato e abrir o segundo.

Então eu mexi mesmo na ordem, acho que, embora as músicas sejam as mesmas, acho que o clima da audição é um pouquinho diferente. Mas pode reparar que o disco começa e termina igual.”

Você tem uma relação forte com a internet. Ela teve um papel importante na sua carreira, afinal, você fez o primeiro show transmitido pela internet do Brasil, em 1996. Pra você, qual é o papel da internet hoje pra música?

Maurício Pereira: “Olha, se eu fosse ser muito resumido, eu diria: internet é mídia. Que nem o rádio, a televisão. É mídia. Cada mídia tem sua pegada. Pra mim, música tinha muito a ver com rádio. Tanto que eu nem ligo muito pra videoclipe, eu acho que a música é muito pra ser ouvida.

É legal quando se tem clipe, mas eu escrevo música mais pra ser ouvida do que vista. O lance do rádio que eu gostava muito – o mesmo que o disco, antigamente – é que cê tinha uma dúzia de artistas mundiais, né. Poucos artistas que congregavam, agregavam, davam pro mundo uma noção de comunidade.

Com a internet, quebrou essa coisa centralizada. É bom quando você quebra o poder econômico, né. Então é bom ter quebrado o monopólio das gravadoras grandes. Isso é maravilhoso, a parte política.

A parte espiritual é: eu acho um pouco triste ter quebrado artistas que falavam pra alma da comunidade inteira. Isso era do tempo do rádio e da TV, essa coisa centralizada, fosse do poder econômico, fosse do poder da poesia, do espírito da arte.

Então a internet esfacelou as coisas. Eu acho que nós estamos ainda numa época de transição. Acho que as coisas ainda vão mudar. Não sei o que vai acontecer com esse 5g. Acho que tudo vai ficar mais rápido, o armazenamento vai ficar maior e menor e mais barato. Então o que eu acho importante da internet é ela ter dado voz pra muita gente. Porque ela chega em mil lugares e tem plataformas de distribuição muito simples e baratas. Então ela dá voz, ela permite você produzir e se divulgar.

O Problema da Internet

O problema da internet, especialmente agora que ela tem vinte e poucos anos, é que ela gerou tanta informação que fica difícil você ter tempo, espaço e você escolher o que vai ouvir.

Hoje, uma curadoria é um troço fundamental. E o algoritmo te dirige muito a cabeça. Então o que ela tem de bom é isso: deu a liberdade de todo mundo gravar bons trabalhos e mostrar.

Por outro lado, essa velocidade incrível e o excesso de coisas tá virando uma surdez virtual, né. Agora, não tem como negar que ela é uma super ferramenta de difusão de ideia. A gente tá aprendendo a lidar com ela, eu acho que a própria ética da internet não tá pronta. Mas é uma ferramentaça.”

Mudando de assunto: você vai fazer o show de lançamento dia 25 de janeiro, dia do aniversário de São Paulo, e você mesmo diz que o Outono no Sudeste é um disco que fala muito sobre a cidade.

Quais são as características paulistanas mais presentes nesse álbum, pra você?

Maurício Pereira: “Eu acho que a minha escrita de canção sempre teve a ver um pouco com São Paulo, porque sempre escrevi mais ou menos como eu falo, embora eu saiba escrever “em português”. Mas essa coisa de eu escrever como eu falo me bota perto do meu dialeto, do meu sotaque. E me bota perto do que acontece na calçada. Eu sou muito encanado com São Paulo.

São Paulo é um lugar feio, bruto, apressado, é um Brasil esquisito – Ela não tem essa brejeirice do país, essa coisa mestiça, essa coisa tropical. E eu acho que foi justamente isso que me fez querer escrever sobre São Paulo e escrever como um paulistano, como se eu fosse um gringo, sabe.

Hoje, o Brasil assumiu São Paulo. De uns 15, 20 anos pra cá, São Paulo virou Brasil, mas não era. Nos anos 1990, São Paulo não era Brasil. Então, por exemplo, lá no Mulheres Negras escrevi uma canção que se chamava “Eu vi”, que era uma cena de racismo na Rua Augusta. Eu acho que eu retrato um pouco o que tem na calçada de São Paulo.

Se em 1982 eu escrevi uma música como “Eu vi”, agora em 2018/2019 tô cantando uma música como “Mulheres de bengalas”, que também se passa na calçada. “Trovoa”, que é uma música pela qual as pessoas me conhecem, tem cenas de calçada. Eu acho que São Paulo acontece muito na rua, sabe. Eu tenho uma música que fala muito da cidade que tá no meu disco “Pra marte”, que ela fala assim:

Eu tenho minha musa na calçada / Andar por São Paulo / Horas e minutos me prensam.



A Insanidade Urbana

Então eu acho que não é nem tanto uma cena da São Paulo, mas é essa pressão que a gente toma do tempo, da quantidade de coisas pra fazer, desse ritmo da cidade que prensa a gente, um tipo de feiura, de uma falta de raíz que tem aqui que acaba aproximando as pessoas umas das outras.

Então eu acho que eu sou UM tipo de paulistano. Tem muitos tipos de paulistanos. Ou poucos, mas eu sou um deles. Sou um paulistano da zona oeste, que fica olhando pro feio e tenta torná-lo sublime. Eu uso as palavras daqui da cidade como Adoniran usou ou como o Mano Brown usou, como o pessoal do rock and roll usou. Então eu sou muito parente desses caras aí. Sou um autor paulistano.

O Outono

Então no Outono, especificamente, eu acho que tem esse pôr do Sol de outono de São Paulo que é enfumaçado, demorado, o Sol demora pra se pôr, o ambiente é embaçado, as emoções são embaçadas lá na minha canção. “Mulheres de bengalas” tem muito isso, uma volta maluca por um pedaço da Avenida Paulista, um pedaço moderno na minha cabeça. Eu vejo um filme quando eu canto isso.

“Piquenique no Horto” tem a ver com São Paulo, porque no tempo da minha mãe, que é descendente de italiano, lá no meio do século 20, a italianada saía dos bairros italianos – o Brás, a Mooca -, tomava uma estrada de ferro que tinha, e ia fazer um piquenique de domingo no Horto Florestal, e tinha os namoricos, os jogos, as seduções, os erotismos, a brincadeira, o prazer. Então eu acho que esse disco, sim, tem muita coisa paulistana e paulista.

Agora, eu quis falar do Sudeste também, não ouço muita gente falar no Sudeste. A gente ouve nego falar no Nordeste, no Sul, nos estados – Minas, Bahia, Pernambuco – , e nem sempre se canta o Sudeste. Sudeste é um lugar interessante.

Eu ainda vou fazer um disco sobre isso, sobre esse interior da região, que é um lugar que tem um afeto muito grande mas que ao mesmo tempo tem o rodeio, votou no Collor, votou no Bolsonaro, é um lugar que pensa muito no dinheiro. É muito interessante o Sudeste, é muito contraditório. Então é isso, eu sou um cronista mesmo desse pedaço do país onde eu moro.”


Maurício Pereira


Qual é a sensação de homenagear sua cidade tocando no dia do aniversário dela?

Maurício Pereira: “Tem um lado que faz a gente parecer se sentir importante, né. Tipo, sou um autor paulistano tocando no dia do aniversário de São Paulo, num lugar importante da cena independente, que é a Casa de Francisca.

Por outro lado, eu ser um autor paulistano tocando no dia do aniversário da minha cidade quer dizer que a gente sabe que são os vira-latas que tão andando na calçada, fazendo canções e traduzindo a cidade a partir da calçada. Então, pra minha vaidade, eu diria que tocar no aniversário de São Paulo na Casa de Francisca faz eu me sentir um pouquinho herói e um pouquinho vira-lata.”

O que é São Paulo pra você?

Maurício Pereira: “Eu acho que São Paulo, porque é um lugar muito grande, cresceu muito depressa, é uma mistura muito grande de gente, pobre e rico, do Norte e do Sul, que vem da Itália, do Líbano, do Japão, da Bolívia. É uma mistura. Foi construída muito depressa.

A gente não teve barroco aqui. A gente caiu aqui de paraquedas. Então, São Paulo é a cidade do cidadão comum, da pessoa comum, da pessoa que tem inseguranças, falhas, que é boa ou ruim. Que é banguela, tem caspa, ao mesmo tempo ela ama, ela cria. É uma cidade de pessoas comuns. Eu acho que essa é a grande característica de São Paulo.

Agora há pouco eu falei que era herói e vira-lata. Mentira! Aqui em São Paulo a gente é tudo vira-lata. Nós somos os caras mais comuns do mundo. É uma cidade de pessoas. Tem lugares que são legais, míticos, que têm deuses, uma história, uma paisagem, mil anos de tradição. São Paulo não. É um lugar de gente comum, gente muito comum.”

Ouça Maurício Pereira:
Outono no Sudeste (2018)