Pode conhecer o trabalho da canadense Julie Neff de uma forma um tanto quanto inusitada. Foi durante minha pesquisa por live sessions envolvendo artistas brasileiros. Aproveitando sua passagem pelo Canadá os brasilienses da Scalene gravaram uma session + entrevista para o projeto Eclectic Expression do canal da Eclectic Comfort.

Depois deles foi a vez de diversos artistas brasileiros que passavam por Toronto registrarem. Entre eles a Far From Alaska (RN), Trampa (DF) e Augusta (DF).

Fui procurar saber mais a respeito da Eclectic Comfort. Eles definem como um coletivo de profissionais de audiovisual de Toronto, com raízes na comunidade local e na criatividade.

Por lá eles convocam artistas novos e de diversos gêneros para shows acústicos, estes onde são filmadas as lives e acontecem as entrevistas. O coletivo inclusive encoraja a participação de novos artistas e estão dispostos a receber músicos do mundo todo. Tendo já tido colaborações de artistas da Argentina e Suécia.


Julie Neff

Julie NeffFoto Por: Valentina Caballero


Instagram + Indie Week + Brasil = <3

Durante a divulgação da lista de nossas live sessions (Confira nossas Listas) Julie Neff, que é co-fundadora do coletivo, mostrou via instagram seu projeto solo e começou a acompanhar alguns dos materiais que íamos postando sobre o cenário de música brasileira.

O interesse pela música nacional foi amadurecendo após alguns encontros. Após o primeiro contato com a Scalene, ainda em 2018 durante a Indie Week ela conheceu a Trampa que também gravou para uma session para o projeto. Esta foi a primeira vez que ela se aventurou a cantar em português.



Conexão criada! Julie Neff e a equipe da Ecletic Comfort foram convidados para o festival CoMA. Ela para apresentar sua carreira musical e a equipe como jurada de um pitch para novos artistas. Além disso o time registrou alguns vídeos.

Depois da experiência ela definitivamente se apaixonou pelo público brasileiro e sua receptividade. Não tinha mais volta, ela sentiu que queria voltar, então decidiu planejar uma turnê para cá para conhecer mais sobre o Brasil e estreitar ainda mais conexões com artistas e criadores locais.

Novos Voos

Em novembro inclusive ela filmou um vídeo ao lado da banda Ellefante (DF) de uma canção composta ao lado dos brasilienses. Eles inclusive irão para a próxima edição do Indie Week e ela se apresenta ao lado dos candangos no dia 11/12 no Criolina.

Ela está confirmada na SIM São Paulo 2019 onde se apresentará na Noite Eclectic Comfort Apresenta: Poder Feminino que acontecerá no Presidenta Bar e reunirá também AIZA (Canadá) e os potiguares da Far From Alaska.

Inclusive a Far From Alaska será também sua banda base, que também emprestará seus integrantes para a conterrânea AIZA.

Seu videoclipe mais recente “Pick Up My Pieces” dirigido por Emily O’Quinn foi lançado em julho. A canção presente no álbum Catharsis (Ouça no Spotify) mostra um pouco mais sobre sua aura pop e potência vocálica.

Como referências ela cita artistas como Florence Welch (Florence & The Machine), Nina Simone e a ótima – e também canadense – Feist. Em 2019, ela lançou o EP Growing Plans (Ouça no Spotify), com duas faixas inéditas, além do single “Nothing New” (Ouça no Spotify).

Sobre sua entrega de corpo e alma nos projetos e processo criativo ela comenta:

“Quando estou vivendo, trabalhando duro e adquirindo novas experiências, estou fazendo com que melodias fluam de mim. Muitas vezes, é uma maneira de lidar com as dificuldades.

Algumas pessoas dizem que é “música para consertar a vida”, e eu gosto disso. Definitivamente é isso que estou tentando fazer!”, diz Julie Neff



Transbordando Arte

Para imergir ainda mais na experiência Brasil Julie contratou artistas gráficos brasileiros para desenvolver os pôsteres de seus shows.


Julie Neff


“Esta é uma grande prioridade para mim: trabalhar com artistas locais nas comunidades em que estou entrando. Sonho ainda com MUITAS colaborações musicais, mas em especial, adoraria poder cantar com a Xênia França e a Tuyo. São vozes tão incríveis e com muita potência de harmonia”, comenta sobre a imersão

Em sua playlist Julie Neff conta que artistas como Supercombo, Aguaceiro, Far From Alaska entre outros tem aparecido com certa constância.

“Os músicos brasileiros são tão incríveis, possuem um imenso talento, mas sempre o conduzem com muita humildade”, exalta Neff

Entrevista

Conversamos com a canadense para saber mais sobre seu planos, projetos, expectativas, processo criativo, colaborações e momento de sua carreira.

Você poderia nos contar um pouco mais sobre o Ecletic Comfort? Como funcionam essas sessions? Quais tipos de artistas costumam participar? Você é uma das idealizadoras do projeto?

Julie Neff: “Sim, claro! Eu comecei a Ecletic Comfort com um amigo meu. Começou como um simples show caseiro. Eu queria juntar pessoas para ouvir música e se sentirem acolhidas no início do inverno canadense. Toronto é uma cidade incrível mas pode nos isolar as vezes. O primeiro show foi um sucesso e após isso começamos a realizar eventos mensalmente.

Depois tivemos a oportunidade de filmar um documentário musical na Dinamarca e decidimos começar a filmar sessions. Nós gostamos de showcases de artistas de todos os gêneros – especialmente aqueles que não costumam tocar acústicos.

Sessions como Oportunidade

Nós acreditamos que estas sessions são ótimas oportunidades para ouvir detalhes da música que geralmente não costumamos ouvir durante apresentações em grandes casas de shows. Mas mais do que isso nós percebemos que tanto para artistas como para o público, esses eventos e sessions nos ajudam a nos reconectar a paixão pela música.”



Falando a respeito da relação entre artistas canadenses e brasileiros, você acredita que o Canadá é aberto para parcerias e intercâmbios culturais com bandas brasileiras e com eventos como por exemplo festivais de música?

Você tem alguma proposta ou sonho para estreitar ainda mais a relação dos dois países na indústria (da música)?

Julie Neff: “Definitivamente eu acho que o Canadá está aberto para este tipo de intercâmbio cultural. Eu acho que isso já está acontecendo em muitos festivais. Toronto é uma das cidades mais multiculturais do mundo, temos noites brasileiras em diversas casas de shows. Estas que focam mais em estilos tradicionais, possivelmente, em festivais como Indie Week trazem muitos talentos brasileiros também.

Eu definitivamente amaria que os laços entre Brasil e Canadá se estreitassem. A musicalidade no Brasil é tão forte e acredito que podemos aprender muito com isso! Eu não tenho nenhuma proposta específica no momento mas agora que você mencionou eu acho que minha imaginação já começou a girar!”

Você poderia falar mais sobre a importância da Indie Week? E quais os destaques você vê atualmente na cena canadense?

Julie Neff: “Eu acho que como em todo festival com showcases é uma ótima oportunidade para conhecer pessoas do mercado e outros artistas. No caso da Indie Week, eles trazem bandas de todo o mundo. É uma oportunidade gigante de conhecer pessoas com que você possa potencialmente colaborar com ou agendar shows quando você estiver em turnê. A cena canadense tem muitos talentos no momento. O trabalho que os jovens artistas estão criando é super genuíno e sincero.”

Como funciona seu processo criativo? A música brasileira impactou de alguma forma suas composições?

Julie Neff: “Meu processo de criação é bastante livre. Eu costumo criar melodias enquanto estou em movimento – tenho tantas gravações em que estou tentando cantar secretamente no meu telefone enquanto caminhava pela rua!

Eu gosto de capturar estes imediatamente, então eles costumam sentar comigo por um tempo. Muitas vezes eles voltam para mim e então eu vou começar a montar acordes e letras baseados nessa melodia inicial. Se eu não consigo tirar a música da minha cabeça, então é porque eu sei que ela será uma boa.

Eu acho que a música brasileira impactou minhas músicas – talvez não de maneira aberta, mas de maneira sutil. Este novo EP que acabei de gravar tem muitas novas vibrações baseadas em muitos tipos de música que eu tenho explorado e na vida experiências que tive recentemente.

Eu acho que essas experiências são frequentemente acompanhadas por o que você está ouvindo na época e eu certamente tenho ouvido muita música brasileira nos últimos dois anos!”

Conte sobre seus últimos lançamentos. Quais estilos ou sonoridades você tem se interessado? Conte mais sobre tons e arranjos.

Julie Neff: “Meus últimos lançamentos são músicas que eu tenho guardadas em um cofre há um bom tempo. Foi bom voltar para ele para ouvir o que eu estava explorando quando os escrevi.

No caso do EP Growing Pains, essas foram algumas das primeiras músicas que eu escrevi e foram muito emocionantes para mim. O tom dessas duas músicas reflete essa emoção – vulnerável, mas decidida a se mudar a partir dessa situação dolorosa.

A formação de vocais em camadas em “Promises”, por exemplo, expressa essa frustração – que precisa seguir em frente. Para a versão eletrônica de “Nothing New”, que foi divertido de se trabalhar. Eu amo o quão escura ela é. Trazendo o sintetizador sons de drones e instrumentação misteriosa realmente dramatizam o tema da música, dando a ela um espaço totalmente novo para se viver.”

Eclectic Comfort @ Brasília
Julie Neff + Rafael Maranhão (Trampa)