Formado no Ceará por Allan Dias, Roberto Borges, Yuri Costa, Gabriel de Sousa e Ricardo Guilherme Lins, o maquinas lançou seu primeiro EP em 2014. Já apresentava seu rock experimental/post rock delicado com produção totalmente independente.

Alguns anos mais tarde e um elogiadíssimo disco de estreia, maquinas vive uma nova fase – sublime, plural e inquieto são palavras que podem definir o segundo disco da banda cearense.

O sucessor de Lado Turvo, Lugares Inquietos (2016), intitulado O Cão de Toda Noite (2019, Mercúrio Música), pode soar agressivo e acolhedor, pesado e virtuoso. A obra tem variações instrumentais ricas, dos metais jazzísticos ao bom e velho post-rock.

A versatilidade nos arranjos contém uma maturidade que mantém a obra coesa, integrando diversas colaborações especiais, como Clau Aniz, Breno Baptista, Ayla Lemos, Eros Augustus, Y.A.O. e Felipe Couto, que dão o toque final necessário para este êxtase criativo.


Maquinas por Tais Monteiro_3

MaquinasFoto Por: Tais Monteiro


O Cão de Toda Noite

A faixa “O Silêncio é Vermelho” abre o disco nos apresentando logo de cara o que vem pela frente: 9 minutos de uma estrutura minuciosa que cresce e diminui a cada momento em uma sensação de imersão completa.

As letras acompanham o ritmo do álbum, relatando conflitos existenciais, relacionamentos fracassados e algumas alusões interpretativas como em “Prepara-se Para o Pior”. São 50 minutos de um lançamento que provam o poder de fogo que o maquinas têm de se reinventar no estúdio; motivados pela urgência de nunca manter-se no mesmo lugar.



Entrevista

Confira a entrevista com Allan e Roberto detalhando o novo disco, processo de produção, shows e muito mais sobre as intimidades e peculiaridades do lançamento dos cearenses.

Já faz 3 anos desde “Lado Turvo, Lugares Inquietos.” Como foi a produção do novo disco, “O Cão de Toda Noite” para vocês?

Allan: “Parando para pensar nesse tempo todo, posso dizer que fiquei bem surpreso com o processo de gravação. Foi uma produção em que todos os envolvidos pareciam estar em sintonia com o estava sendo feito e com as ideias propostas.

Contextualizando um pouco, viemos de 3 anos fazendo shows e mais shows pelo país, passando por diversas cidades, com a formação da banda ainda da época do Lado Turvo. Então o ritmo intenso de shows meio que não nos dava liberdade para sentar e focar 100% em composições novas.  Então a gente tinha decidido que de fato pararíamos de fazer show em 2019 para focar nas gravações do novo álbum.

Mudanças

Lá para o final de 2018 a formação acabou mudando, o Samuel Carvalho saiu da banda, não foi nos melhores climas, mas vida que segue, e nisso o Yuri Costa rapidamente assumiu as guitarras. Ele já estava assumindo a posição de ser o produtor da gente para esse álbum mas com a mudança ele acabou entrando definitivamente na banda. Sequer conseguimos pensar em outra pessoa além dele porque ele é um grande amigo nosso, e sempre admiramos o trabalho dele, além de termos afinidades musicais e artísticas.

E nisso entramos em 2019 com apenas três músicas do álbum, “Corpo Frágil”, “Maus Hábitos” e uma parte de “O Silêncio é Vermelho” meio que pré-moldadas. Tiramos de Janeiro até Julho para compor todo o álbum em um processo bem intensivo e a maior surpresa foi justamente a produção ter sido muito positiva, sem quase nenhum atrito entre os membros no processo criativo. Era como se nos entendêssemos muito bem e cada um confiava no que o outro podia fazer.

Nisso também entra o trabalho do Felipe Couto que gravou, mixou e co-produziu os discos. Nesses últimos dias vi muita gente elogiando a mixagem do álbum e realmente o trabalho do Felipe deu o brilho e a cor que esse álbum precisava. Ele foi muito pontual e cirúrgico nos detalhes que ele trabalhou, desde os timbres até mesmo alguns arranjos das músicas e entendeu bem a ideia do álbum.”

Com o disco novo, vocês ganharam novos rumos. As músicas tem fortes influências de jazz, também vejo influências de música africana e agora possui metais. Quais foram as referências e mudanças na banda para atingir esses caminhos?

Allan: “Acho que as referências foram surgindo naturalmente até mesmo durante o processo do Lado Turvo. A grande diferença mesmo é o fato de, além de contarmos com o Yuri na banda, é também o primeiro álbum com o Gabriel de Sousa oficialmente no sax alto. Ele tinha participado apenas da música Contramão do Lado Turvo, mas posteriormente ainda em 2016 ele passou a ser membro efetivo.

Com isso a gente tinha mais um elemento na banda, que é o Gabriel e o seu sax, e as composições foram ganhando novos caminhos naturalmente, com as referências e as inspirações dele.E de fato concordo que tem forte influência de jazz, mesmo que no fim ainda vejo o Cão como um álbum de rock essencialmente.

Os Caminhos

Mas acho que fizemos de uma forma bem nossa mesmo. Não saberia explicar quais caminhos tomamos para chegar a esse álbum pelo menos em quesito de método de criação porque trabalhamos da mesma forma em que fizemos o Lado Turvo: compondo todo mundo junto, em ensaios, fazendo jams, moldando as músicas a partir do que a gente conseguia criar ali no processo todo mundo junto; mas certamente estávamos escutando muitas coisas, rock talvez tenha sido o que menos escutamos hahaha!

Mas se for para falar em referências, acho que estávamos muito focados em artistas como Laurel Halo, Beak>, Lounge Lizards, Arrigo Barnabé, Frank Zappa, King Crimson, Christoph de Babalon, Juçara Marçal, Kraftwerk, Yellow Magic Orchestra, Cassiber, Soft Machine, Zs, Fred Frith… eita a lista vai parar longe se eu continuar! (risos).


maquinas

maquinasFoto Por: Tais Monteiro


Falando em referências, o que inspira vocês fora da música para criação de arranjos em seus discos?

Allan: “Acho que a minha maior referência foi as obras de Mark Fisher, principalmente os livros “Ghosts of My Life” e “Capitalist Realism”. Muito das letras e das ambiências sonoras que quis fazer no álbum vem muito da inspiração dos ensaios teóricos do Mark Fisher sobre a apropriação social que o capitalismo em nossas vidas e os dilemas atuais com relação à nossa saúde mental e física no dia a dia.

Também me inspirei muito nos filmes do Ken Loach, principalmente o Eu, Daniel Blake e em leituras sobre arquiteturas brutalistas. Não sei, lia e absorvia tudo isso dentro de uma sintonia urbana negativista que permeou minhas ideias para esse álbum. Mas nem sempre inspiração vem com outras referências artísticas, vem muito mais de momentos da vida mesmo que dá aquele “estalo” na sua mente.

Roberto: “Praticamente tudo. Relacionamentos, dias bons, dias ruins, sonhos, conversas memoráveis, o clima.”

O disco novo ainda conta com diversas participações especiais, como Clau Aniz, Ayla Lemos, Eros Augustus, Breno Baptista, Issac Omar (Y.a.o) e Felipe Couto (Astronauta Marinho) . Como rolou a química dessas parcerias nas gravações?

Allan: “Todos que participaram do álbum são pessoas que admiramos muitos e temos amizades em diversos níveis. Para esse álbum tinhamos a ideia desde o começo de chamar pessoas que a gente gostava para a gente sentir uma vibe nova nas músicas, um elemento novo porém “não-estranho” pelo menos para a gente.

Todos que participaram foram as pessoas que sempre vinham em mente quando refletíamos isso e simplesmente chamamos e todas toparam, o que deixou a gente muito feliz por contar com eles. Acho que essas participações também significam algo mais para o Cão.

Os Conceitos

O Lado Turvo, refletindo um pouco, foi um álbum mais individualista em sua essência, sabe. As letras, a introspectividade do álbum, tinha todo esse contorno. Com o Cão queríamos expandir isso, tornar algo mais social, compartilhado, queríamos conectar a banda com pessoas que nós admiramos e nos inspiramos com a companhia, a amizade e o trabalho deles. Então essas participações tem um sentimento muito bom para mim.

E sinto também que a experiência me deu uma grande vontade de levar a outros patamares futuras participações ou colaborações em próximos materiais do maquinas. A gente já fez álbum de live improv com o Eric Barbosa, fizemos turnês ano passado com o projeto Astronauta Marinho e maquinas, então a questão de colaborar está ficando cada vez mais natural para nós! (risos)”

Ano passado vocês tocaram com o Astronauta Marinho em São Paulo, outra grande banda cearense. Vocês consideram que hoje o Ceará tem uma cena musical frutífera? Quais artistas acreditam que poderiam ter maior visibilidade?

Demais! Arrisco dizer que o Ceará é o estado onde se faz o melhor da música no underground brasileiro atualmente. Bato nessa tecla tem tempo!

De uns anos para cá o estado vem mostrando cada vez mais grandes artistas e também nomes novos com muito talento e potencial. Temos Clau Aniz, Glamourings, Jonnata Doll, Nego Gallo, Jack the Joker, Damn Youth, Vitor Colares, Vacilant, George Belasco, Voidtripper, a lista segue.

É muito massa estar do lado dessa galera na música nesse momento e sempre fico feliz quando vejo eles indo longe. Acho que eles merecem muito mais atenção e visibilidade, mas é difícil as vezes fazer o pessoal olhar para o Ceará.

Não diria que é um desdém mas certamente não enxergam a música daqui com atenção, como enxergam em outras regiões. Ou a gente tem que fazer o famoso “êxodo” para ser visto (risos). Mas ai fica o teste: procura os grandes festivais nacionais desse ano e vê quantos artistas cearenses tem no line up! (risos)

Voltando ao disco, a faixa “Prepara-se para o Pior” já começa com um riff cortante como uma navalha como o título e a letra pedem. Seria uma alusão ao Brasil atual?

Roberto: “Mais ou menos. Cheguei com essa frase na guitarra tentando canalizar a repulsa que sinto com o Brasil atual. E aí chamamos o Breno Baptista, (realizador cinematográfico daqui de Fortaleza e um dos nossos melhores amigos) pra fazer uma letra e cantar nessa música.

A gente não chegou a conversar muito sobre um norte específico pra essa música, mas acho que dava pra sentir. E o Breno sempre dá uma característica muito forte e pessoal na produção dele. E aí a letra é um desabafo/relato super íntimo de um relacionamento.

Mas eu não acho que deixa de ser sobre uma insatisfação/sentimento de ódio com toda essa onda conservadora. Acredito que o texto que o Breno escreveu atravessa essas esferas, e apenas existir enquanto pessoa LGBTQI já é foda pra caralho. Ele com certeza poderia falar muito melhor do que eu tô tentando falar haha, mas ele nesse momento está circulando com o novo filme dele “O Bando Sagrado”.

Fazer música sobre política partidária é sempre uma linha tênue. Você pode ter a melhor das intenções, mas a chance de você acabar fazendo um desserviço é muito grande.

Já temos datas de shows para divulgação de “O Cão de Toda Noite”?

Allan: “Dia 20 de outubro teremos nosso primeiro show e vai ser no Theatro José de Alencar, patrimônio histórico da cidade. Vai ser um dia muito especial para todos nós e o fato de tocar nesse teatro é uma felicidade imensa para mim tanto como artista e também cidadão de Fortaleza!

A ideia é voltar a fazer shows para conseguir circular em mais cantos do país, já que praticamente todas as finanças da banda foram embora com o álbum! (risos). Mas queremos muito que esse álbum nos dê oportunidade para tocar em lugares que não fomos. Recebemos muitos fãs chamando para regiões sul e centro oeste a tantos anos que já está mais do que na hora de chegarmos por lá!”



Quais são os próximos passos para o maquinas?

Allan: “Estamos nos planejando para fazer diversos shows ainda esse ano e 2020, só que é tudo incerto nesse mundo de música né! (risos).

Mas garanto que estamos fazendo de tudo para que a gente volte aos palcos e passe um bom tempo fazendo shows, procurar novos lugares para tocar e, quem sabe, figurar em algum festival importante. Acho que agora com 6 anos de banda, a hora para tudo isso acontecer é agora!

ou não, né HAHHAHA!”