Esse texto não começou ontem, nem hoje mas a muito tempo atrás. Conheci o Dija muito tempo antes dele comentar comigo sobre o que se tornaria o Loyal Gun (Confira post de 2015). Foi na grade de um show, jamais lembrarei qual, mas foi sem querer por intermédio de amigos. O papo não poderia ser outro: música.

Dija é conhecido por muitos como uma espécie de enciclopédia musical. Não é difícil depois de uma conversa de 5 minutos não anotar umas dez bandas para procurar saber mais. Aquela escola MTV do Gastão, do Massari, Kid Vinil e de tantos outros mestres parece viver fresca em seu cotidiano.

Sempre antenado, sempre pesquisando, incansável. Apaixonado por cada história por trás de cada lançamento, contexto que estava inserido, cenário, e principalmente em projetos paralelos.

Conversar com o Dija também sempre trouxe uma porção de discussões e questionamentos sobre o que é viável e o que é utópico. Ele não foge de perguntas e muitas vezes te traz um ângulo diferente. Sem ego, sem estrelismo e muitas vezes seguindo a cartilha que reverberou nos anos 90: Kill Your Idols, Kill All The Rockstars.


Loyal Gun Promo

Loyal Gun. Foto Por: Dani Ramos e Caroline Rodrigues


Loyal Gun – Faux Nostalgia (2019)

Ao ponto que resenhar este disco se torna um desafio à parte. Talvez até uma injustiça destrinchar sem trazer o peso de todo seu contexto por trás da obra. Esse registro não começou a ser pensado no ano passado, é o projeto de uma vida.

Em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos Dija deixa claro que a primeira ideia de música que viria a se tornar o Loyal Gun surgiu ainda em 2005. São tantos sentimentos aprisionados, angústias, transformações e até mesmo mudanças na formação da banda, que nada melhor do que ele mesmo contar esta história.

Entre suas influências eles deixam claro – e transparecem ao longo do registro – pinceladas de Superchunk, Sunny Day Real Estate, Dinosaur Jr., Superdrag, Hum e Swervedriver, além de bandas brasileiras que cantam em inglês como Pin Ups, Killing Chainsaw, Second Come, Valv, Shed e Mickey Junkies.

Um revival marcante para muitos que respiraram uma década em que a rádio começou a left of the dial, em que a Brasil 2000 revelava bandas, em que tínhamos verdadeiros gurus musicais na MTV, zines, trocas de correspondências via correio, o surgimento de vários festivais e um tal de Junta Tribo.

Tudo mudou mas a nostalgia é própria do ser humano. Ela volta para te buscar. Nem sempre ela te pega pelas lembranças mais puras, mais dóceis e mais fáceis de lidar. Muitas vezes ela vem no formato de se libertar de dores. De cicatrizes, de chagas e de medos intrínsecos ao ser.

O álbum sai pelo coletivo paulistano Howlin’ Records e reúne registros gravados oficialmente ao longo dos últimos 5 anos.

Dê o Play: Loyal Gun!



Feito um sopro o tempo passa, feito um sopro memórias se esvaem. Marcas ficam, pessoas entram e saem da sua vida. Conflitos tiram noites de sono, transformações vem para o bem – e para o mal – uma síntese do que é a vida.

Uma síntese do que é lidar com escolhas. Mesmo que estas propriamente não sejam suas mas que implicam na sua vida. Por meio de desconforto, traumas e momentos de insalubridade, o disco rema mas exorciza demônios para poder “Bring Back Your Beat”.

Um álbum que ora é experimenta, e traz a carga da ansiedade juvenil, e outrora é solar e contemplativo. É este choque que faz você pensar em situações e voltar a momentos que tenha vivido. É no desequilíbrio que ele te pega.

Entrevista

Conversamos com o Dija Dijones para saber mais sobre tudo que se passou neste período de 15 anos de sua jornada. Das primeiras bandas, passando pelo Loyal Gun e até mesmo o aprendizado de tocar ao lado de Odair José.

A naturalidade com ele toca em temas delicados é exemplar, e de certa forma este disco conta afetivamente sobre sua trajetória na música. Feito um choque com seus conflitos e lutas pessoais. Puro feito o nome da banda this world is a beautiful place and i am no longer afraid to die.

Desfrute do papo e leve dele algo consigo!


02 - Loyal Gun por Dani Ramos e Caroline Rodrigues

Dija abre o coração para falar sobre o tão esperado debut do Loyal Gun. – Foto Por: Dani Ramos e Caroline Rodrigues


Foi uma gestação bastante longa este disco (risos) mas ele começou até mesmo antes da banda existir, certo? Como foi materializar ele e ver ele finalizado após mais de 5 anos do lançamento do primeiro single? Qual parte do processo mais te marcou?

Dija: “Sim! A história da banda (Loyal Gun) foge um pouquinho da regra: eu fazia umas demos em casa, de maneira despropositada, desde 2005. Anos depois, em 2009, mostrei algumas ideias para o Dante Haibara (baterista do Lowjazz) na casa dele e acabamos escrevendo a letra de “Bring Back Your Beat”.Uns 2 anos depois, ele encontrou o Fabio Barbosa (ex-baterista de bandas como Gasolines, Modulares, The Charts, Fotograma, etc.) e contou sobre estas músicas, que a princípio teriam arranjos mais voltados para o shoegaze.

Acabamos entrando em contato e por conta do interesse do Fabio, resolvi entrar no famigerado tosembanda.com e procurar mais pessoas para formar a banda. O plano inicial era que a banda fosse um quinteto e a voz principal fosse feminina. No entanto, a cantora que eu havia convidado mudou para a Alemanha (eu já tava tomando 7×1 muito antes da Seleção) e eu não consegui encontrar alguém para o posto. Cansei de tentar achar uma pessoa e resolvi cantar eu mesmo.

Mudanças e Conflitos

Mudamos de baixista e baterista 1 vez, tivemos 2 guitarristas e permanecemos um tempo como trio até consolidar a atual formação com o Raffa Ap. (baixo), Bruno Duarte (bateria, também membro de Herod, O Apátrida, Penhasco e De Soslaio) e Marcelo Ment (guitarra/voz, também baterista do Ment). Estas mudanças todas foram altamente determinantes no período entre o primeiro single e a primavera de 2019.

Foram 2 anos tentando resolver mixagem e masterização até o disco ganhar vida na mão do Gustavo Simão (Choque dB Estúdio). Como integrante remanescente, para mim tudo foi muito intenso desde 2005 até o disco finalmente sair.

Inclusive, acho que o momento mais marcante do processo foi o dia em que o disco saiu. Depois que postei nas redes sociais sobre o lançamento, eu comecei a chorar compulsivamente. Eu não tinha me dado conta do quão pessoal é o disco, em diversos níveis.
Tem o divórcio dos meus pais, assédio moral, relacionamentos fracassados, lições dolorosas, frustrações e esperanças nestes pouco mais de 40 minutos. Em um contexto pessoal, ele é muito denso, mas eu sempre quis que ele soasse contemplativamente otimista, se é que isso é possível.”

As referências são extensas, como foi para vocês condensar e desapegar na hora de entrar para gravar?

Dija: “Eu pensei que seria mais difícil focar numa sonoridade que fizesse sentido para o disco como um todo, mas todo mundo na hora de gravar chegou com ideias muito claras, inclusive a Letty e a Ciça (Gomalakka), que convidamos para cantar no disco.

O Marcelo entrou na banda com o disco já em andamento, mas parecia que ele estava desde o começo do processo de tão pronto para gravar que ele estava. O Gustavo Simão, na hora de mixar e masterizar, rapidamente entendeu a proposta.

Houve apenas dificuldade neste sentido no período em que o André Luiz (atual FITA, ex-Ronca) estava na banda, porém, neste caso, era porque ele vivia um momento pessoal muito difícil e isso influenciou na hora de gravar. Ainda sim, no fim das contas, a ideia pré-concebida para a sonoridade do disco está lá: um disco dos anos 90, gravado nos anos 2010.”

Como descreveria o lançamento para alguém que não estivesse tão submerso ao universo do rock alternativo e não fosse viciado na produção do college rock, emo, grunge, math rock e outras preciosidades que vivem debaixo dos seus headphones?

Dija: “A ideia por trás do nome Faux Nostalgia é justamente a intenção da apresentação: algo que te passe a impressão de que você já ouviu antes, mas não sabe onde e nem como.

Ao meu ver, a estética sonora dos anos 90 é muito marcante, se consolidou com a MTV e está presente até hoje nas rádios rock, podcasts e webradios. Neste aspecto, nos primeiros dias de vida do disco, recebi uns feedbacks bem interessantes onde as pessoas mencionam coisas do tipo “Foo Fighters, antes de virar som de tiozão”, “Nada Surf dos primeiros discos”, “Rival Schools com vocal mais melódico” e por aí vai.

Não chegamos a pensar exatamente nestas bandas como as grandes referências para o que queríamos fazer, mas, como compositor, eu sou um produto daquela época e ver as pessoas utilizarem elementos do período para tentar identificar o som desta maneira me soa como missão cumprida.

O disco é recheado de participações especiais e vem num momento, que ao meu ver converge, do lançamento do Guitar Days que conta com vocês – foi construído no mesmo tempo do disco – e ao mesmo tempo foi finalmente lançado, contando com bandas que saíram da curva da possibilidade do sucesso massificado e partiram para cantar em inglês.

Como vê tudo isso agora?

Dija: “O Guitar Days é um recorte importante da produção nacional neste nicho. Ao meu ver, ele poderia ser uma série de 20 temporadas, porque muitas outras bandas são dignas de terem suas histórias contadas como o documentário fez.É uma imensa honra ter participado disso e eu vejo o Loyal Gun como parte de uma geração que tem o intuito de manter o legado de Pin Ups, Mickey Junkies, Wry, Killing Chainsaw, The Charts, Dash, Automatics, The Biggs, brincando de deus, The Cigarettes, PELVs, Wee, The Concept, Dominatrix, Maybees, Twinpine(s), Grenade, Thee Butchers Orchestra e todas estas bandas que já estavam por aí fazendo este tipo de som antes da gente sequer aprender a manipular um instrumento.

Fazer este tipo de música, totalmente à margem do mercado, ainda faz sentido e é importante que existam bandas que continuem produzindo trabalhos assim. Afinal, público interessado ou que venha a se interessar nisso também continua existindo.”



Você inclusive escreveu as músicas do Loyal Gun em períodos diferentes, com perspectivas e vivências que foram se somando, como vê que tudo se encaixou?

Quais foram suas inspirações na hora de pegar o papel e a caneta? E na parte instrumental, quais foram as maiores referências, timbres e efeitos que escolheram para transportar o ouvinte?

Dija: “Um episódio para mim é a chave para ver o elo entre todas as canções que estão no disco. No período de produção do disco, eu tive crises de ansiedade, ataques de pânico, flertei com depressão e vivi à base de medicamentos durante 6 meses. Foi um período de muita revisão e análise pessoal.

Quando definimos o repertório, tínhamos 30 canções e o critério para definir 10 para o disco era apenas as favoritas de cada integrante à época. Mas depois eu vi que aquelas canções não foram escolhidas por acaso. Tem uma história ali. É a jornada de um adolescente rumo à vida adulta. E é um período confuso, de grande decisões, sensações e aprendizado.

As Composições

Eu escrevi as músicas entre os intervalos das aulas na faculdade, enquanto dava migué no trabalho (quem não faz isso, que atire a primeira pedra!), em fila de banco, em banco de ônibus ou vendo futebol em casa (tem música no disco inspirada em zagueiro, mas que eu fiz pensando no pessoal da limpeza do escritório onde eu trabalhava).

As ideias sempre surgiam aleatoriamente. Na hora de pensar no instrumental, eu seguia o que a música parecia pedir. Neste sentido, tem muito da minha teoria dos 3Ss (Superdrag + Swervedriver + Sunny Day Real Estate), onde a resposta que eu estava procurando estaria num limbo entre as referências do termo.

Na hora de gravar, o Bruno já tinha recebido a ideia de bateria meio que pronta, ele aperfeiçoou e ajustou a intensidade da performance. O Raffa vinha em casa para combinarmos as partes de baixo. O Marcelo já tinha uma ideia bem clara do que fazer na guitarra e colocou a personalidade dele no que ele gravou.

Neste compasso, creio que em relação a efeitos, a preocupação sempre foi um bom som de overdrive e distorção, assim como guitarras limpas sutis, mas com personalidade para criar um contraste. Tem um tremolo aqui, um chorus ali, um delay acolá, fuzz e outros efeitos até no baixo, mas o resumo da ópera é guitarra limpa com pé pronto para pisar no overdrive e um cuidado com a dinâmica.”

O álbum faz um passeio e revival do fim dos 80 e 90, e ao mesmo tempo estamos num período de transição de bandas revival que já parte para a década seguinte.

Como vê essa transformação? No fim as bandas que cresceu ouvindo – e descobrindo – acabam ficando no subconsciente?

Dija: “Creio que sim. Sabe quando você está na rua, surge aquela música espetacular na cabeça, mas você não sabe de quem é? Acontece comigo com frequência. E acho que é isso, uma manifestação do subconsciente.
Os gêneros e subgêneros vão e voltam porque eles ficam, de fato, na cabeça das pessoas. E em um determinado momento, eles irão sair de lá. Ligado a isso, você vai ter uma nostalgia e por conta dela, ritmos e até costumes podem ser retomados.

Acho curioso que o termo “revival” era pouquíssimo empregado nos anos 90. Acho que minha única lembrança dele era quando se referiam ao Black Crowes. Do Strokes para cá, já tivemos o novo rock (com eles, The Hives, White Stripes, The Vines), o revival pós-punk (Interpol, Franz Ferdinand, Editors), electro (Peaches, Ladytron, Fischerspooner) e mais uma série de tendências que para mim nada mais são que um ciclo histórico artístico natural.

Por mais que houvesse frescor nestes ditos movimentos, não havia nada de original neles. Estou aqui esperando ávido pelo início do “revival do revival”, o surgimento e ascensão das bandas com som inspirado nestas bandas dos anos 2000 que se inspiraram nos 70, 80 e 90. Aliás, já tá rolando, né?

Do começo da banda até aqui, sua trajetória passa por um monte de projetos, cursos, D.I.Y. e aprendizados. O que sente que mais aprendeu que poderia deixar de mensagem para artistas que irão ler nosso bate-papo?

Dija: “Eu poderia levar este tema para os mais diferentes direcionamentos, mas tentarei ser pragmático: descubra o melhor jeito de pagar as contas (de preferência, sem custar sua saúde mental) e se você produz ou quer produzir sua música e ela, por sua vez, tem um significado real, trate-a como seu trabalho, ainda que ela não o seja.
O que nós que vivemos aqui abaixo do midstream precisamos entender é que se queremos que as condições melhorem para todos nós, para que tenhamos melhores ferramentas para difundir nossa música, é que temos que  tratar o que fazemos como trabalho.

Quer que sua música seja levada a sério? Então, seja você a primeira pessoa a fazer isso. Está vendo outras pessoas fazendo isso? Ouça a música delas, veja os shows delas, preste atenção no que elas têm a dizer.

Produzir música no Brasil, sobretudo à margem do mercado, é árduo, é moroso, é adverso e de alcance limitado, mas se você sabe porque está fazendo isso, não há motivo para não fazer.”