Foi numa sexta-feira de lua nova que Rita Oliva decidiu lançar seu primeiro disco. Com um universo onde cruza universos místicos, astrologia, cartas e uma infinidade de passagens mágicas, nascia Fenda.

Um disco inspirado na investigação do universo. Que vai fundo ao investigar os mistérios do invisível, descobrindo-se parte dos ciclos de morte e renascimento. Tudo isso através de um olhar belo, contemplativo e respeituoso.

“Há cinco anos, presenciei o momento da morte do meu avô e isso me tocou profundamente.

Enquanto escrevia o disco, fui tocada por outras mortes, literais e simbólicas e isso reabriu algumas feridas, possibilitou que outras fossem se curando”,
continua Papisa.


Fenda Papisa Capa Um


“Para mim, um dos significados de Fenda é uma suspensão no tempo-espaço, quando algo termina, mas a próxima fase não começou.

É relativo ao mistério e à investigação dele por caminhos de introspecção e de contato com outros planos de percepção.

Os shows trazem uma atmosfera ritualística criada para fazer uma alusão a esse estado de espírito”, conclui.

As Chaves de “Fenda”

São nove faixas que compõe o registro que escolhe narrar sobre a morte & os mistérios mais obscuros da vida de forma – e perspectiva – muito acolhedora. Manifestando respeito com a memória e nosso legado. Seja ele neste plano, como para o universo. A mãe terra sendo a grande maestra deste ritual de passagem.

Com gravação e processo um tanto quanto caseiro, a beleza da obra e suas expansões vivem em cada detalhe e desejo por permitir essa conexão com o eu. Rita expande seus horizontes e também se reconstrói como artista nesta nova etapa da carreira. Conseguindo estabelecer parcerias de maneira prática, intensa e colaborativa.

Um dos mais belos registros do ano ressignifica sua trajetória e abre os portais para seus próximos passos. E claro que queríamos saber mais sobre toda essa magia.

Por isso hoje ela nos trás com exclusividade para o Hits Perdidos: curiosidades, processos e um rico diário de bordo de toda essa viagem. Do autoconhecimento aos improvisos para captar o melhor dos recursos, passando pelas parcerias, mixagens, efeitos e pós-produção.


Papisa um Making Of

PapisaFoto: Divulgação


Ouça o Disco enquanto lê
o Diário de Bordo da Rita Oliva 🌚



Texto Por: Rita Oliva, a Papisa
Data: 24/09/2019
São Paulo

Lua: Minguante (mas este post será postado em plena Lua Nova – assim como estava no momento em que o disco foi Lançado)

Pós-lançamento: um balanço

O disco que surgiu desse processo agora tem um nome: Fenda. Foi lançado no dia 2 de agosto desse ano e já foi escutado por muitas pessoas. Que loucura isso.

No meio do caminho, descobri que gravar voz em uma cabana de colchões se mostrou muito mais eficiente do que no vão em baixo da escada, que descrevi minuciosamente no diário de gravação.

Diria que muita coisa mudou durante esse tempo. Instrumentos foram regravados, outros foram mantidos exatamente como surgiram na primeira captação, como nunca imaginei.

Enquanto organizo os textos (são muitos, aqui seleciono alguns deles), faço um balanço do que vivi durante esse processo. Poderia falar sobre isso, mas prefiro abrir as impressões e deixar o momento fluir. A seguir, abro os registros do processo criativo de Fenda.

Sobre o processo criativo e autoconhecimento

Os Caminhos

Há três anos adotei o codinome Papisa para encabeçar minhas aventuras musicais em meio a uma intensa jornada de autoconhecimento, pesquisa espiritual e exploração do universo interior, de onde nunca saí.

Mais do que qualquer resposta pronta, esse caminho só aumentou a certeza de que a música e a arte me permitem dar vazão para o que, muitas vezes, é incomunicável de outras formas.

Mais do que isso, fui percebendo o quanto o ato da criação em si é um campo de exploração muito propício para eu me entender melhor e portanto me tornar mais perceptiva a respeito do que me rodeia.

Ao enxergar a produção artística desta forma, tenho aprendido cada vez mais a valorizar o processo – o durante, e não só o resultado. De acordo com esse pensamento, o modo como as coisas são feitas é tão importante quanto o que vai surgir, e a experiência deixa de ser um detalhe e passa a ocupar o papel central.

Sendo a criação um campo de aprendizado e transformação constantes, ficar atenta a todas as etapas do processo, investigando motivações e determinando intenções de forma consciente me ajuda a compreender que o resultado é tanto a música (ou o que estiver sendo criado) quanto o que se aprende e apreende na vivência durante o caminho traçado.

O processo criativo desafia a buscar novas perspectivas, sair da zona de conforto, reconhecer apegos, valorizar detalhes escondidos, rever ideias que pareciam perdidas. Se considerarmos levar esse desafio para outras áreas da vida, pode funcionar como um bom exercício para transformar ações e opiniões (as convicções são cárceres! já dizia o filósofo Nietzsche), e também possibilita o aprofundamento na nossa natureza íntima e na investigação das emoções, sentimentos, pensamentos, sensações e segredos mais escondidos (inclusive da gente mesmo).

O Mistério é a Maneira de Sentir Passar

Enquanto crio e gravo meu disco em casa, sozinha com meus gatos e equipamentos, a criação caminha de mãos dadas com a jornada pelo mundo interior – aquilo que percebemos dentro de nós, mais secretamente.

Para essa viagem, não precisamos de outras substâncias que não estejam no ar (embora eu defume o ambiente com ervas e resinas para criar meus rituais particulares, mas não precisa de nada disso), e o veículo é o corpo, então o bilhete é gratuito.

O combustível, pra mim, está na própria música e na investigação do ser, da nossa relação com os fenômenos naturais, da natureza da mente, das subjetividades. Práticas contemplativas, dinâmicas particulares e em grupo, oráculos, astrologia e sonhos me trazem vislumbres do que é invisível e muitas vezes indizível, me ajudando a criar uma relação mais honesta comigo mesma. Relação essa que nem sempre é fácil, mas muito importante para transformar as intuições em algo mais perceptível, como o som, por exemplo.

O desenrolar do processo tem muitas etapas e realidades e a única forma de permear pelas camadas é passando por ele. Nesse contexto, gosto de pensar que a intenção é a chave para a jornada, o mistério se reflete na maneira de sentir passar.

Diário de Gravação
Inverno de 2018


Papisa Sala Um

A Sala de Casa como “casulo” de “Fenda” – Foto: Arquivo Pessoal


Gravando em casa

O inverno parece ser um convite pra eu me recolher na toca e mergulhar na produção de sons novos. Há dois anos atrás eu gravava o EP Papisa nessa mesma mesa em que escrevo agora, construída com dois cavaletes e um pedaço de madeira, em casa, no quarto que virou técnica.

Na época, em 2016, fiz a pré-produção por aqui, fui pro Mono Mono Estúdio gravar bateria, voz e dar reamp nas guitarras, depois continuei a saga solitária de edição até mandar pra mixagem. A diferença é que agora estou captando a maioria das coisas sozinha, no que eu chamo de casa-templo-estúdio.

Amo a possibilidade de criar em um ambiente em que me sinto segura e aconchegante, e por isso, gravar em casa é um privilégio gigante, apesar de todo o trabalho extra.

Pra isso, uso uma interface de áudio, microfones que fui juntando ao longo dos anos, monitores de referência, fone e uma boa dose de experimentação. Resolvi deixar esse processo registrado porque, independente do resultado, estou aprendendo muito enquanto me aventuro nessa empreitada criativo-sonora. Então vou por partes, porque além de escrever preciso continuar o disco.

Equipamentos que uso:

Software Ableton Live

Interface de Áudio Firewire Motu Ultralight

Monitores KRK Rokit 5

Mic Blue – Bluebird, Mic SM57, Mic Santo Angelo 58, Mic Shure SM58, Mic Audiotecnica ST2010 e Mic Sennheiser E902.


Papisa Mics

Mics e o balanceamento das energias – Foto: Arquivo Pessoal


Etapas da produção

Não é sempre que consigo separar composição, pré-produção e gravação no meu processo, porque muitas vezes registro as ideias já captando instrumentos, montando os arranjos e produzindo ao mesmo tempo.

Às vezes as letras vêm junto, às vezes surgiram antes, ou então só ficam prontas quando a música já está toda gravada. Então não vejo essas etapas como uma receita de bolo, mas acho importante ter um caminho traçado, para não se perder e ficar eternamente pré-produzindo, por exemplo (eu e quem?).

Quem vai tocar e se gravar, como foi meu caso, precisa pensar que, durante a gravação, já vai ter que dividir a atenção entre a performance e a técnica. Se tiver que pensar nisso e também no arranjo, vai ser uma bela rodada de lâmpada na hora de captar. Dedicação e organização na pré-produção minimiza isso.

Abaixo listo etapas da produção com meus pitacos sobre elas:

Pré-produção

Processo de organizar as composições, definindo mapas das músicas, arranjos, timbres, andamento, tom, se tem voz, onde entra, fechar as letras.

Tudo o que é possível planejar antes de começar as gravações, incluindo o que vai ser gravado, quando, onde (em estúdio, em casa), quem vai gravar, caso esteja produzindo sem banda. No meu caso, estou produzindo e gravando grande parte dos instrumentos sozinha, mas não precisa ser assim.

Gravação

Resumindo, transformar os sons dos instrumentos e voz em arquivo de áudio com um software de gravação. Eu uso o Ableton, porque estou acostumada com ele, mas tem outros, como o Pro Tools, Logic, Reaper, etc.

Nessa etapa, é preciso definir se o instrumento vai ser gravado em linha (normalmente sintetizador e baixo), o que vai ser captado com microfone (voz, violão, instrumentos acústicos), incluindo os instrumentos elétricos que vão ser amplificados (normalmente guitarra, às vezes sintetizador).

Aqui também se define qual microfone vamos usar, qual sala, posição. Em estúdio vejo as pessoas colocando equalizador e compressor nessa etapa. Como não tenho esses equipamentos, conto com o pré da minha própria interface, onde regulo o ganho (pro som não ficar nem baixo e sem peso, nem alto estourando).

Percebi que às vezes é interessante já gravar algumas coisas com equalizador, como a bateria, por exemplo. Mas dá pra gravar tudo flat e ir pondo os plugins depois.

Edição e Overdub

Depois de gravar, é o momento em que edito o que foi gravado. Com a voz, tiro o espaço entre uma parte cantada e outra. Overdubs são repetições e camadas que colocamos em cima de algumas partes ou da faixa toda, duplicando e criando novas linhas de instrumento.



Mixagem

Normalmente abreviado pra mix, é literalmente a mistura dos instrumentos dentro da faixa, que vai transformar as mil tracks que você gravou compulsivamente (eu) em um único arquivo estéreo.

É aqui que se colocam efeitos, equalizador para ajustar as frequências, acertam-se volumes, pan pra colocar cada coisa no seu lugar.

É também o momento em que sabemos se será possível tirar ruído, compensar possíveis falhas na gravação. Existe um pensamento perigoso que surge durante a gravação que é “não tá muito bom mas na mix a gente arruma”. É sempre bom lembrar que mix não faz milagre, então melhor dar o máximo na gravação pra não ter dor de cabeça depois.

Masterização

É a finalização da faixa, a última etapa pós-produção, como o último polimento para o que foi feito na mixagem. Aqui já não há possibilidade de mexer em cada elemento separadamente, porque já está tudo condensado em uma faixa estéreo..

Nesse momento, é hora de se certificar que não existe nada estourando, como um grave muito acentuado por exemplo. É a masterização que garante que os elementos da mixagem estão equilibrados e soando bem em qualquer dispositivo, por isso é importante ouvir a master em vários lugares diferentes antes de aprová-la.

Reamp

Consiste em mandar um sinal gravado em linha para um amplificador e captá-lo de novo com um microfone. A indicação é passar por um DI antes e depois, mas confesso que nem sempre eu faço isso.

Bateria na sala

Depois de muitas tentativas gravando a bateria de Retrato Infinito, finalmente cheguei em um arranjo e som da sala que gostei. Gravar em casa, e sozinha, pode ser uma faca de dois gumes.

Ter toda a liberdade do mundo para desenvolver as ideias é incrível, pode ser muito frutífero, mas também pode virar um espiral sem fim de aperfeiçoamento e mudança que só atrasa tudo.

Então estou realmente buscando o equilíbrio entre o que pode melhorar e o que já está pronto (não é esse um dos grandes desafios da criação musical? – acho que sim).

Em resumo, passei a tarde gravando a bateria (foram mais de 150 takes, dos quais eu realmente gravei cerca de 10), e recheando a sala de colcha, colchões, sofá, etc.

Tenho um espelho grande que também foi embrulhado em um edredom para servir de rebatedor. Tudo isso para diminuir a ressonância (como diria Taian, amigo e conselheiro nessas horas, é sempre mais fácil colocar reverb depois do que tirar o que foi gravado).

Depois que fiquei feliz com o som, editei a bateria junto com os beats e cheguei em um resultado melhor do que todos os anteriores. Feliz por isso. Mas sei que ainda tem bastante trabalho pela frente. Hoje chove desde cedo e vou ter que lidar com esse som, já que a casa não tem nenhum isolamento acústico.


Bateria no meio da sala Papisa

A bateria no meio da sala e seus mais de 100 takes. – Foto: Arquivo Pessoal


Em qual ordem devo gravar?

Passei os últimos dias editando os vocais e enviando a primeira track para a mix, que é o Taian que vai fazer. Ele que também mixou o EP. A ordem das gravações desse disco está um pouco louca e por isso já entendi que é melhor abraçar a realidade da espiral do tempo.

Isso porque normalmente, ou então, como vivi em outras gravações, captamos bateria, depois baixo, depois harmonias, depois voz, falando a grosso modo. Mas no primeiro single, a bateria foi gravada por último. A voz no meio. Tô gostando de experimentar nisso também. Não tem regra, a ideia é ir sendo guiada pelo que a música pede, e até agora senti que funcionou.

Hoje gravei mais três baterias na sala, o que rendeu um ouvido cansado (ou dois, ou mais, pobres vizinhos), o que me deixa só com uma faltando. Acho que o planejamento vai bem. E falando nele, apesar de abraçar a espiral, e principalmente por estar viajando por ela, acho bem importante organizar bem o que vai ser feito, em etapas, com planejamento semanal e mensal. Nesse sentido, quadros brancos e papel espalhados pelo ambiente já dão conta do recado.

Hoje os gatos ficaram na sala pela primeira vez enquanto eu gravava bateria. Ou eu estou melhorando a dinâmica, ou eles estão ficando surdos.

Voz

Achei o ponto ideal pra gravar os vocais: embaixo da escada.

Como lá é onde normalmente fica a areia dos gatos, rolou uma faxina antes, não só a limpeza energética com defumação, posicionando cristais (que adoro e faço sempre) mas também com pano e rodo (que aliás também é ótimo pra levantar o astral do lugar).

Pra mim, é essencial gravar voz em um lugar aconchegante onde eu me sinta segura, inspirada e fluindo. Por isso nunca é legal gravar vocais correndo (aprendi com o mestre Fontanetti a respeitar o limite de uma ou duas por dia) e sempre ter alguém em quem você confia na técnica.

No lado acústico da coisa, é bom que a sala seja seca, sem nenhuma reverberação, porque depois dá pra colocar reverb, mas não dá pra tirar do que foi gravado (não de um jeito que não prejudique o som).

Já participei de muitas aventuras em gravações dentro do armário, em cabana de cobertor, mas dessa vez achei esse cantinho e forrei com colchões, almofadas, até sentir que tava o som tava bem seco lá dentro.

Os gatos piraram tanto na bagunça que ficaram entrando atrás do colchão, fuçando nos vãos, querendo sair. Bem fofo e caótico.


Energias, Sinergias e Conexões

Energias, Sinergias e Conexões. – Foto: Acervo Pessoal


Luna Vibes

Depois de alguns dias de sofrência com algumas questões criativas e emocionais (revelando uma Lua em Peixes que às vezes mergulha no mar de sentimentos e fica lá por uns dias), aconteceu a primeira participação do disco.

A Luna (França) veio gravar sintetizadores e dar seu toque em “Terra” e “Retrato Infinito”.

Gosto muito como uma outra percepção já ilumina alguns pontos que passam despercebidos. Aumentei o fim de “Terra”, ficou mais parecido com o que fazemos no show. Tenho mania de resumir as músicas em estúdio, o que não acho ruim porque ao vivo tem toda a energia dos corpos e isso dá uma outra noção de tempo, mas nesse caso ficou bom o tempo que duplicamos, ficou mais natural.

Também foi bom dividir o espaço de criação com alguém, ter outros ouvidos, outras opiniões, troca, essa coisa toda. Deu um boost no meu ânimo e as linhas de synth da Luna também deram um tempero diferente para as músicas.

Solitude é bom, colaboração é ótimo.