Trazer bandas novas para as pautas é uma missão desde o começo do Hits Perdidos e ao longo dos 5 anos conseguimos conversar com bandas de praticamente todos os estados brasileiros.

Muitas delas com histórias peculiares, outras divertidas e algumas que começam com apenas um membro e acabam ganhando lastro.

Este é o caso dos soteropolitanos da Tangolo Mangos, quinteto que em sua cumbuca traz o calor da música nordestina, misturado com o derretido da neo-psicodelia, muita experimentação e lo-fi.

Muito disso segundo eles pelas condições das gravações mas são destes pequenos, e incríveis, “defeitos” que vem a graça da produção de diversos álbuns contemporâneos, não é mesmo?


Tangolo Mangos. – Foto Por: Natalia Domiciano


O projeto iniciado em 2016 por Felipe Vaqueiro como um projeto virtual de gravações caseiras que publicava no Soundcloud acabou ganhando corpo em 2017 quando se viu disposto a apresentar aquelas composições para o mundo.

Juntaram-se a Vaqueiro, Brian Dumont, João Antônio Dourado, João Denovaro e Pedro Viana. Com processo bastante orgânico, em março eles lançaram o primeiro EP, Mangas a Caminho da Feira Nº1 que conta com seis canções e de certa forma abriu algumas portas para eles no cenário local.

A canção “Hiato (241 Motivos)” inclusive acabou entrando no bolo da compilação Burger Records LATAM vol.3 que foi lançada em Agosto de 2018.

Coisa do Destino

Eles contam em entrevista para o Hits Perdidos que a mesma música foi enviada para um concurso local e não teve a mesma sorte.

O Primeiro Clipe

Nesta quinta-feira em Premiere no Hits Perdidos o quinteto baiano lança seu primeiro videoclipe. Parte de um trabalho de conclusão de curso, o processo de produção contou com a ajuda de amigos e foi feito de maneira bastante D.I.Y.

O resultado ficou divertido justamente por isso, por carregar uma identidade lo-fi ao mesmo tempo que deixa imortalizado o momento de construção da banda. A faixa em questão é a good vibes “Gosto de Sol” que conforme derrete: leva o ouvinte junto.

A escolha dela se dá justamente por ser a mais ouvida do grupo de Salvador (BA) nas plataformas digitais. Sua gravação foi em agosto de 2018 e sua conclusão foi apenas neste mês.

O roteiro mostra o calor do sol “derretendo” a tela, entre filtros e imagens da banda, e seus amigos, curtindo a praia literalmente num dia de mormaço.



Entrevista

Conversamos com Felipe Vaqueiro para saber mais sobre os primeiros dias, a fase pulsante da música baiana, e os bastidores do clipe feito de maneira D.I.Y.

[Hits Perdidos] Contem mais sobre os primeiros dias da banda, o conceito e abordagem do EP, a coletânea da Burger Records e como observam a efervescência da cena musical baiana.

Felipe Vaqueiro: “O projeto começou a partir das minhas gravações caseiras, em 2016, mas só tomou corpo como banda em abril de 2017. A primeira fase do grupo foi marcada pela construção do que veio a se tornar nosso primeiro EP, Mangas a Caminho da Feira nº1.

Tínhamos a convicção de que precisávamos de algum registro para nos inserir no mercado, e, então começamos a idealizar o que seria e como seria feito nosso primeiro disco. Enquanto isso, realizamos alguns shows e apresentações em eventos de amigos, e nos jogamos em alguns concursos locais e virtuais com algumas gravações mais prototípicas.

No caso, a inclusão de uma faixa nossa na coletânea Burger Records LATAM vol.3 veio de uma convocatória online realizada pelo selo pelas redes sociais, aberta pra bandas de toda América Latina (inclusive, a convocatória desse ano está aberta).

Enviamos “Hiato (241 Motivos)” e a Burger nos inseriu no álbum – o que foi bem curioso e engraçado porque, com essa mesma faixa, não nos classificamos no festival universitário da cidade que aconteceu semanas antes do anúncio da nossa participação no compilado.

Em fevereiro de 2018, já com os arranjos um pouco mais maturados, viajamos pra um sítio em Euclides da Cunha, no interior da Bahia, terra natal de parte da família de João Antônio (bateria), no intuito de gravar a maior parte do EP.

A gravação foi por nossa conta, com uma placa de áudio de 2 canais e muito armengue. O disco não carrega um conceito super delimitado que ligue as canções ou algo do tipo, mas tem certos elementos comuns a todas as faixas.

As condições de gravação de baixo custo trouxeram uma carga meio lo-fi a sonoridade do EP, perceptível em toda obra. A influência da neopsicodelia nos timbres e recursos de áudio usados é bem clara também. Tem um certo teor meio “tropicalista” de tentar misturar rock com gêneros brasileiros que atravessa algumas faixas – tem algo de samba, algo de música regional nordestina.

As letras abordam assuntos diversificados, e, também por isso, as canções são bem distintas entre si. O nome do disco surgiu de Pedro (guitarra e vocal), inicialmente como uma brincadeira.

Acabamos nos identificando com o nome, muito por termos gravado o disco no interior (de onde costumam vir as frutas), mas também por ele trazer a ideia de um “chegar até a feira” que associamos com nossa chegada ao igualmente confuso mercado fonográfico. O “nº1” no final do título acaba por apontar uma possível sequência.

A Bahia tem revelado grandes artistas nos últimos anos, principalmente no mercado independente e na música alternativa. Grandes artistas daqui, que na verdade já estão na pista há um tempo, recentemente vem se destacando no Brasil e no mundo.

Luedji Luna, Xênia França, BaianaSystem, Hiran, Majur e Baco são alguns exemplos notáveis. Sinto que isso é muito positivo por acabar gerando um efeito em cadeia, de modo com que cada vez mais artistas baianos tem protagonizado a música brasileira contemporânea. Gera muita esperança pra gente daqui.

Por outro lado, é notável, também, que muitos desses destaques baianos não integram mais a cena local – falando da perspectiva da cidade de Salvador, onde vivemos. Não sei se é só achismo, mas parece clássica e, aparentemente, iminente a necessidade dos artistas de se mudarem daqui pra São Paulo ou Rio de Janeiro (muito pelas condições de trabalho, disponibilidade de equipamentos culturais e quantidade de público) para que, então, estourem. Isso denuncia às difíceis condições de trabalhar com música independente em Salvador, que leva a alcunha de “Cidade da Música””

[Hits Perdidos] O que andam ouvindo que tem tanto influenciado? Além disso, quais lançamentos nacionais tem despertado o interesse de vocês?

Felipe Vaqueiro: “Naturalmente, nós cinco nem sempre ouvimos as mesmas coisas, mas, atualmente, da pra citar King Gizzard and The Lizard Wizard, Funkadelic, Potsu e Crumb como figuras cativas dos nossos “tocados recentemente” nos últimos tempos.

Se tratando dos lançamentos nacionais, destacamos o single “Fria Demais”, do nosso amigo Colibri (compacto de um álbum cheio, que sairá muito em breve), “Sombrou Dúvida”, do Boogarins, “Erro e Volto”, da Taco de Golfe, e “Cavala”, da Maria Beraldo (esse último é do ano passado mas vale a citação). Além do disco de Colibri, estamos no aguardo do próximo álbum dos Selvagens a Procura de Lei, “Paraíso Portátil”.”

[Hits Perdidos]O processo do videoclipe foi bastante orgânico e D.I.Y. contem para a gente como foi esse processo e o brainstorm.

Felipe Vaqueiro: “O faça-você-mesmo foi algo bem inerente a esse primeiro EP como um todo, então já esperávamos encarar essa abordagem. A realização do videoclipe, na verdade, foi estimulada inicialmente por um trabalho de uma matéria de comunicação, que estava sendo cursada por Peu e João Antônio.

O trabalho final da disciplina consistia num clipe, e caiu como uma luva pra gente. Ainda estávamos gravando vocais e começando a mixar o disco, as músicas não estavam nem prontas, então usamos uma versão inacabada na época.

Optamos por não seguir uma linha narrativa – achamos que seria mais complicado de se filmar, além de exigir um roteiro mais complexo. Assim, nosso vídeo se baseou em cortes rápidos e rítmicos. Nos reunimos em duas ocasiões em diferentes praias daqui, para captar o máximo de imagens possível.

Muita coisa no produto final foi fruto do empirismo desses takes filmados por nós e nossos amigos. Tudo isso se somou ao nosso acervo de vídeos filmados durante as gravações em Euclides, de modo que as imagens praianas pudessem ser intercaladas com os registros sertanejos.

A montagem foi feita, majoritariamente, por mim, ainda no ano passado, e foi nela que o videoclipe passou a tomar forma. Tínhamos algumas referências visuais para o que queríamos como produto final, no entanto, filmamos e conceituamos o videoclipe sem qualquer roteiro de base. Acabou que o processo de montagem que norteou a “narrativa” e o fluxo do clipe.

Os refrões, no entanto, só foram finalizados no último mês. João (Denovaro, baixo e vocal) vinha aprendendo a fazer datamoshing em vídeos e achamos que isso seria a cereja do bolo pro “Gosto de Sol”. Fizemos alguns ajustes aqui e ali, e deu no que deu.”

Ouça o EP