Não lembro muito bem quem comentou primeiro sobre a Blastfemme, se foi o Jairo Fajer (Autoramas / Sheila Cretina / Gabriel Thomaz Trio), o Gabriel Thomaz ou até mesmo o Carlão (Estúdio Aurora / Combover / Orange Disaster)…só sei que com tanta gente falando sobre a força dos shows do grupo carioca, ficou difícil não querer pesquisar um pouco mais.

Meu primeiro contato foi através da NCSSR Session, de Juiz de Fora (MG), que pude notar a intensidade e espírito avassalador do quarteto.

Por mais que tenham vindo algumas vezes para São Paulo ainda não tive a oportunidade de assistir mas quem sabe agora chegou a hora – já que estão a poucos dias de visitar e lançar seu disco de estreia na cidade que nunca dorme.

O álbum de estreia do grupo que em sua formação conta com Dani Vallejo nos vocais, Igor de Assis na guitarra, Jhou Rocha no baixo e Vladya Mendes na bateria, até mesmo já realizou uma turnê na China e em 2017 foi vencedora de uma das celebrações mais divertidas do rock alternativo nacional, o Prêmio Gabriel Thomaz.

“Desde a primeira vez que a gente se encontrou no estúdio, a gente sabia que aquilo ia render, tanto pela vontade de cada um em chegar nesse som, como pelo talento, todo mundo cascudo já.

Sempre compomos muito juntos e chegou um momento que, mesmo em separado, já se pensava no momento de criação: ‘Essa é da Blastfemme’. E aí as coisas foram rolando”, conta a vocalista Dani Vallejo


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Blastfemme lança hoje seu álbum de estreia. – Foto Por: Anne Godoneo


Love Kills!

Assim como os ingleses do Buzzcocks a temática dos romances, e relacionamentos, é a que mais ganha terreno no álbum. Do amor “quente” de uma paixão, ao amor de amigo.

“A gente já começa anunciando um fim em ‘I Don’t Love You Baby’. Essa é sobre aquele fim que demora para se estabelecer”, frisa a artista.

As gravações aconteceram em março de 2018, em apenas duas sessões e foi registrado por Gustavo Benjão, nos lendários estúdios do Audio Rebel e Do Amor.

A parceria entre o produtor e a banda nasceu casualmente após ele se encantar durante uma apresentação performática do conjunto. Tanto é que o resultado é bem raw, como lembra Benjão.

“Tentei chegar o mais perto possível da energia e potência que me impactou no show da banda. Gravamos ao vivo, sem click, a fim de captar a sinergia e interação que eles apresentam nos shows.

Não teve quase nenhum overdub a não ser alguns detalhes. As vozes gravamos depois no estúdio Do Amor, que também fica na Rebel. Na mix procurei dar apenas mais peso e drive em tudo pra deixar o som mais denso e nervoso, e procurei trabalhar de modo a deixar todos no mesmo plano e com o mesmo destaque”, relembra Benjão sobre quão orgânica foi a gravação.

A animação com o processo e resultado é tanta que eles já estão com a cabeça em um próximo lançamento .

“Já pensávamos que essas músicas precisavam ser gravadas mesmo porque a gente não para de produzir. Trabalhamos no som até chegarmos nesse resultado que acreditamos que está foda”, diz Dani. 

BLASTFEMME!



O álbum se inicia com um recado reto e direto, “I Don’t Love You Baby”, e com um espírito transgressor um tanto quanto The Cramps, arrepia até o último fio de cabelo. Adiar o fim de um relacionamento que não está dando certo entra em pauta e serve como combustível para aquecer os motores.

As guitarras barulhentas e o espírito do garage rock deixam ela ainda mais dançante. O deboche e a atitude rock’n’roll mostram o poder da composição que é ótima mesmo para dar aquele “gás” inicial.

“Não Seja” já traz uma veia retrô garageira, um tanto quanto The Gun Club, misturando o peso a técnica para criar uma atmosfera toda quebradiça – e pulsante – feito um som do Minutemen.

“É um tapa de luva na cara dessas pessoas que diminuem a luta feminista. Tem gente que ainda não entendeu que o lance é somar e não subtrair. Ela é uma das nossas músicas que tem a veia disco mais latente, dançante, a guitarra super suingada e o baixo marcado junto da bateria disco encaixam muito bem no sarcasmo da letra e na melodia vocal.”, enfatiza Dani 

Talvez a música com mais potencial de hit radiofônico caso ainda tivéssemos a saudosa MTV da Abril, “Obrigada Pela Parte Que Me Tocas”, tem todos elementos clássicos de uma boa música de rock, entre eles o deboche e a intensidade.

“Uma música simples e potente que brinca com a métrica das palavras ditando o ritmo pulsante. Quase um mantra… do Kama Sutra (risos gerais).”, relembra a banda



Já “Devora-me” coloca o lado carnal em foco e pega fogo! Toda torta a canção consegue captar toda essa urgência e a tensão do tesão. Rápida, punk e stoogiana. Divertida até o último riff.

Não perca o fôlego, o álbum é eletrizante e já chegamos a sua metade em “Punk Violento”. Num ritmo intenso feito um som do Circle Jerks, ela é rápida, ríspida e libertina. Se desprender de algo que era mais um peso do que algo sadio.

Feito uma cozinha punk e barulhenta, o temperamento e a explosão equalizam em “Ela Não Quer” que carrega aquele espírito das Mercenárias.

“Um término, situação onde uma das partes não se encaixa e tudo fica entediante, cansativo e a parte que saiu perdendo terá apenas que aceitar essa condição.”, relembram

A impaciência, o pavor e a passividade ganham terreno em “Vá Logo”, uma faixa intensa e quebradiça que nos lembram até mesmo bandas que frequentavam a lendária casa de show Madame Satan nos anos 80.

A sacanagem e os hormônios à todo vapor despertam em fúria na sexy e potente “Hey Baby”. Entre solos simples e distorcidos, vocais sagazes e uma categórica descrição da noitada. A canção tem um aspecto todo teatral e explosivo.

Chegamos na reta final com “Puta Comigo” que me lembrou um pouco o jeito de cantar de Poly Styrene (X-Ray Spex), misturada com a garagem dos anos 50, baixo marcante, bateria ritmada e guitarra cheia de distorção, e quebras.

“Briga de casal. Quando se repetem os mesmos erros em uma relação, não que realmente alguém esteja errado, mas desencontrado um do outro, e, sim, rolam umas babaquices – às vezes a gente é idiota mesmo, faz estupidez. Ela é uma música mais punk, mas tem seu lado dançante também.

Ao final a gente tenta concertar esses erros pedindo perdão, implorando até o vocal se perder e o instrumental fechar em catarse o drama. O perdão quem dá nesse caso é a plateia mesmo.”, explica a Blastfemme

Talvez uma das mais diferentes do disco seja “Tão Longe Daqui”, que começa de um jeito e vai ficando cada vez mais errática ao longo de seu andamento. Transgressora e fazendo aquela fusão entre o blues, o protopunk e o rock de garagem. Sua estética é crua e a sobreposição dos instrumentos da gravação ao vivo acaba servindo como um charme a parte.

“Fala de saudade. Sobre passar por cima de pessoas e sentimentos pra chegar num lugar que às vezes, nem sabemos se é nosso… E da vontade que dá de voltar – ou pra um lugar ou pra uma pessoa.”, relembra Vallejo


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Capa por Luitz Terra


O álbum de estreia da Blastfemme é intenso, confessional, apaixonado, barulhento e distorcido como um bom álbum com referências de protopunk, blues, bubblegum, post-punk e punk rock deve ser. Sob a temática de amor em diversos sentidos, ele é rápido e voraz no que se propõe e acaba por si só pelo caminho devorando alguns corações e deixando outros em chamas. Black & Blue, Black Hearts & Rock’n’Roll Baby!

Blastfemme em SP


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BLASTFEMME em SP
Com Gabriel Thomaz Trio e Molho Negro
Data: 8 de agosto, às 21h
Local: Z – Largo da Batata (Av. Brigadeiro Faria Lima, 724, Pinheiros)
Entrada: R$ 20 (antecipado) | R$ 30 (na porta)
Evento