Lapso: “substantivo masculino: decurso de tempo, espaço, intervalo.”

A vida passa num piscar de olhos. O que era novo instantaneamente fica velho, o que era tendência antes vira retrô, um disco em poucos meses é considerado por muitos como antigo. Uma meme do mês passado já vira démodé.

Brincando exatamente com isso Fernando Motta ao lado dos amigos paulistas – de longa data – do eliminadorzinho resolveu gravar não apenas um single mas logo um EP cheio.

O mineiro queria desbravar um lado mais experimental e a oportunidade de tocar junto de uma banda com referências próximas ajudou para que aquele registro ao mesmo tempo que trouxesse leveza, transgredisse.

É dessa mistura caótica e com uma temática de faixas que abordam a memória e a contradição que eles nos apresentam lapso. Além disso em uma das faixas, “memória”, eles contam com a participação de Luden Viana da banda E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante.

São quatro faixas captadas de maneira crua e visceral no Estúdio Cavalo (Campo Belo / São Paulo) por Gabriel Olivieri (O Grande Babaca). Gravado (quase inteiro) ao vivo eles trazem como referências gêneros como shoegaze, alternative rock, post-rock e até mesmo post-hardcore.

Entre as influências citadas eles reúnem bandas como Title Fight, My Bloody Valentine, Cap’n Jazz, Dinosaur Jr. e Cloud Nothings. Ou seja, entre a sutileza e a “pancadaria”.


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eliminadorzinho e Fernando Motta durante as gravações no Estúdio Cavalo. – Foto: Divulgação


Pedimos para eles contaram mais sobre esta experiência de gravar o EP em tão pouco tempo e eles comentaram sobre laços de amizade e a maneira como o trabalho foi ganhando forma.

IMPRESSÕES

Fernando: “Eu estava com a ideia de fazer esse EP mais de rock mesmo. Eu sempre gostei muito desse tipo de energia e sentia que eu deveria explorar mais isso, diferentemente do tom mais contemplativo dos outros dois trabalhos que lancei.

Depois que fui compondo as músicas, eu percebi que não dava pra lançar sozinho. Eu precisava de uma banda que me ajudasse a traduzir toda a carga que essas faixas mereciam. Foi aí que pensei na eliminadorzinho, que é minha banda preferida do rolê. Via eles ao vivo e falava: “é assim que eu quero fazer um show”.”

Eliott: “A gente conhece o Nando desde 2016 – ele lançou o primeiro disco dele na época em que estávamos gravando o nosso primeiro EP – mas só fomos virar amigos mesmo mais pra 2017. Desde então a gente tem a ideia de fazer algo colaborativo, com o Nando na segunda guitarra e fazendo harmonia vocal, mas que nunca tinha saído do papel.

Há alguns meses o Nando me abordou dizendo que queria que a gente participasse do single principal do novo EP dele, que seria um EP “de rock” (nas palavras dele) colaborativo, cada faixa com um convidado diferente.

Quando ele me mandou a música (que eventualmente virou “paranoia”, que saiu com clipe recentemente) a gente começou a pirar em cima e ele decidiu fazer o EP inteiro com a gente. Avisei os meninos (Hadd e Tiago) e compramos muito a ideia.

Logo nas primeiras demos só de voz e violão do Nando já dava pra sentir uma energia caótica, pesada e marcante. Quando fomos ensaiar as primeiras vezes juntos, as músicas tomaram uma forma menos abstrata e mais porrada mesmo e foi essa abordagem que guiou o disco e o processo – a gente pegou o nosso lado mais punk rock e barulhento e misturou com as composições do Nando que eram ao mesmo tempo shoegaze e pop.

E a gente se dá muito bem, temos influências em comum – como o Dinosaur Jr, Sonic Youth, Minutemen, até bandas mais recentes, Cloud Nothings, Title Fight… -, mas o interessante é que o disco fluiu quase sem precisar evocar essas influências. O som é muito nosso, de nós 4, e não de nenhuma das bandas em específico.

Hadd: “Nós três da eliminadorzinho tocamos juntos ja faz muito tempo, compomos juntos faz muito tempo, e nos conhecemos faz mais tempo ainda; acho que por conta disso gravar esse ep com o Nando foi uma experiência maluca e excelente.

A gente nunca tinha de fato arranjado uma música do zero com outra pessoa, e nesse processo acabou aparecendo exatamente qual o input de cada um nas composições.

O resultado, não surpreendentemente, foi esse EP que é bem uma soma do que é a música do Nando com o que é a nossa, e isso, pra mim em particular, foi muito gostoso porque ilustrou que a gente tem um estilo nosso coeso o suficiente pra funcionar coordenado com o de outro artista (uma noção que as vezes a gente perde tendo tocado tanto tempo junto).

Toda a experiência de ir num estúdio, montar uma música, arranjar e rearranjar as composições foi incrível, principalmente com o amigo e artista que é o Nando. Ver o resultado e saber que é fruto desse esforço conjunto é uma satisfação imensa.”

Tiago: “Esse ano tem sido muito importante pra gente, desde janeiro estamos nos preparando pra novos projetos e ensaiando mais do que nunca, e uma das coisas mais legais é perceber que esse ritmo doido de trabalho tá valendo a pena.

Tocar com o Nando no estúdio Cavalo também fez a gente sentir isso na pele. Além disso de ser chamado pra gravar junto de um amigo e músico que a gente admira muito, ainda vimos um pessoal que é uma baita influência nossa curtindo o nosso som, que foi o caso dos caras do Raça, que estavam no estúdio alguns dias, e o próprio Gabriel Olivieri, produtor do EP.”

CAPA

Fernando: “A foto da capa, do Tiago Baccarin, é um registro do reflexo do meu rosto semi-submerso em uma piscina. Depois tive a ideia de botar ela num design diferente. Chamei o Bruno Queiroz e ele fez a identidade visual.

Usou o scanner pra fazer essas loucuras aí. Acho muito foda porque tanto o reflexo na piscina quanto a ideia do scanner reforçam a ideia do “registro do efêmero”, que tem muito a ver com o conceito todo do disco.”


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CONCEITO

Fernando: “É um disco que fala de memória e contradição, principalmente. Ele tem umas voltas. É dinâmico e contraditório, assim como nossa própria cabeça.

Parte da ideia de que a gente pode fazer alguma coisa da nossa própria confusão. Mas o negócio é fazer, contestar você mesmo e os outros. Seguir em frente, ora com as memórias “em riste”, ora tentando deixar elas de lado, com propósito de renovação.”

O EP: lapso

Ouça o EP enquanto lê as impressões tanto dos integrantes da eliminadorzinho quanto do músico mineiro Fernando Motta a respeito do efêmero EP.

São 4 canções em 13 minutos de duração mas cada detalhe se faz cirúrgico dentro da proposta do registro.



“memória”

Fernando: “É uma música curta. Provocativa. O Luden fez uns arranjos pra ela que deram uma cara bem experimental, bem na onda de post-rock. É uma música nostálgica.”

Eliott: “Foi a única que não participamos no disco, e acho que justamente por isso é uma música bem interessante de ouvir no contexto dele todo – uma vinheta que abre e dá o tom temático do restante do EP, ainda que seja bem distante musicalmente. E tem o Luden, nosso padrinho que tá sempre com a gente.”

“nostalgia”

Fernando: “Aí depois vem a Nostalgia, que é uma música de negação, que fala muito sobre a necessidade de seguir em frente e deixar saudosismos gratuitos de lado. É a mais shoegaze do disco.”

Eliott: “Essa passou da música que eu menos gostava pra que eu mais gosto do disco, além de ter sido a mais demorada. Ficamos quase 10 horas direto no estúdio compondo e gravando, do começo da noite até quase o nascer do sol, e no final parecia que a gente tinha levado uma surra. Às vezes eu falo que ela tem gosto de madrugada.”

“paranoia”

Fernando: “A música mais intensa, mais agressiva. Uma descarga de energia pra conseguir lidar com toda a raiva e com as voltas na nossa cabeça.

Eliott: “Foi a primeira que a gente ouviu e a que tivemos mais tempo pra fazer, foram três dias de ensaio e gravação. Ela também é a única que gravamos faixa a faixa, as outras foram ao vivo.

Até por isso a energia dela é bem diferente, apesar de ser tão caótica quanto as outras ela também é mais polida, e pra mim é a mais “eliminadorzinho” do disco. É minha música favorita do ano, modéstia a parte.”



“contraditória”

Fernando: “Uma música longa. Um alívio de conseguir extrair algo de momentos difíceis e de confusão. Lembro que tive a ideia da letra quando eu tava delirando de febre e, no meio da loucura, consegui lembrar de uma coisa que resolvia um problema que eu tava tentando resolver há dias. A música vai crescendo, até chegar num ápice de caos, depois “vira do avesso” e terminar do mesmo jeito que começou.”

Eliott: “Eu lembro que quando ouvi a demo dessa a primeira vez eu tomei um susto, achei que a gente não ia conseguir tirar o mapa dela a tempo de gravar. Não só tiramos como foi a que saiu mais rápida do disco, tivemos um ensaio rápido no dia anterior e depois demoramos umas três ou quatro horas pra gravar no estúdio.

Gosto de como ela sintetiza o disco todo, e é um dos momentos mais brilhantes do Nando como compositor – ela é lenta e melodiosa e ao mesmo tempo rápida e barulhenta, noise e pop. O riff do “refrão” dela é uma das minhas frases favoritas de tocar na guitarra.”