Nada como uma chance para o recomeço. Uma luz púrpura que reluz no horizonte, uma verve revival e a força da conexão entre mentes em sinergia. A morte iminente dá espaço para um respiro, um suspiro e o recalibrar de energias.

Energia essa que rejuvenesce e dá vida para sentimentos e sensações aprisionadas. Feito  uma bolha imaginária, feito facho de luz, feito um “rastro de pegada”. Se a vida te dá uma chance, pode ser porque o que parecia ser um ponto final, era apenas uma…vírgula.

Se a certeza é cega, a transformação é uma virtude. O ontem nunca morre mas muda de estado. Feito a fusão de uma partícula de água, evapora e volta para recarregar as nuvens.

Onde parecia apenas morar uma alma pesada e moribunda, por sua vez, ganha um refresco e uma segunda chance. Foi através de um edital, Fundo de Apoio à Cultura – FAC, da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, que o grupo juntou suas cinzas e renasceu no horizonte.

Se não era o fim da reta para os Rios Voadores, era desta curva que eles precisavam para exorcizar fantasmas de um passado cheio de memórias. Aquele retiro espiritual do “hiato” teve um doce – e alucinante – fim.

Nem por isso aquilo que poderia se tornar um disco triste, áspero e “seguro” se concretizou. Para nossa surpresa tudo aquilo se tornou uma obra alegre que consegue misturar o moderno, com a jovem guarda, espectros multicolores e uma alma jovem (por mais que quilometragem seja algo que não falta para estes “grogues”).


Rios

Gaivota Naves durante o Festival Bananada. – Foto Por: Pedro Margherito 


Gaivota Naves (vocal), Marcelo Moura (guitarra e vocal), Tarso Jones (vocal e teclados), Beto Ramos (baixo) e Hélio Miranda (bateria) não são os mesmos do álbum de estreia, lançado em 2016, e traçaram caminhadas pelo cenário independente nacional.

Produzindo à todo vapor eles continuam a percorrer as “BR’s da vida” à bordo das naves espaciais de seus outros projetos. Como por exemplo, a Joe Silhueta e Transquarto que já comentamos por aqui algumas vezes.

Impossível também desassociar os últimos anos e as perdas ao longo do caminho.

Gaivota renasceu em meio a tantos traumas, deu a volta por cima e optou por voar ainda mais alto. Sábia escolha, feito uma fênix.

Se no disco da Joe Silhueta ela mostra o luto, e respeito, em Rios Voadores na Era Sinistroyka, ela contribui de maneira colorida, e até faz um contra ponto com o lado sombrio do retrocesso e confusão do meio político.

A arte como teatro, como divertimento, como protesto sem perder a pose. A arte pela arte e as pequenas crônicas da vida ganhando novos capítulos. Sem amargura, sem perder o passo. Atravessa a avenida para agraciar que adentra o espetáculo e deixa todos clamando pelo bis.

Quem também cresce no novo trabalho é a figura do talentoso Tarso Jones, que vem para frente do palco e destila composições. Se sentindo bem a vontade nas faixas que assume como frontman.

As Gravações

O registro foi gravado entre fevereiro e março de 2019, em Brasília, na Sala Fumarte e na Casacajá. O álbum foi produzido e mixado por Gustavo Halfed e masterizado por Felipe Tichauer.

Ainda no campo dos dados mais técnicos, as contribuições no trabalho também passam pelos arranjos de metais compostos por Sombrio Muniz. Já Fernanda Azou assina a pintura da capa e o lettering e a diagramação são de Alyssa Volpini.

O Disco

São 10 faixas, 36 minutos e um sopro de fé a cada canção que já mostra o que quer com suas guitarras ácidas, teclado alegre de “Garganta Seca”. Canção que parece trazer a sensação de refresco e reconstruir de sua fundição.

Uma nova viagem pelos anos 70 dos Stones, indo de encontro com a jovem guarda, de Erasmo Carlos, e abraçando até mesmo a verve “indie” e empolgante de grupos como Khruangbin. Psicodelia deliciosa, colorida e ritmada para nossos estranhos tempos.



“Lá Fora”, primeira que Tarso solta o vozeirão, poderia tranquilamente ecoar nas vitrolas e para não tirar o pó de cima dela – e trazer uma referência lá de trás – me faz pensar em quem sabe um dia vislumbrar uma parceria dele com Teago Oliveira, da Maglore. Aliás o disco do baiano está a caminho e seria uma escolha feliz.

Atemporal, com direito a uma generosa dose de “porrada” e viagem escapista. Grogue em busca de razão ecoa e traz uma ideia de nostalgia de tempos um pouco mais coloridos. Mas sem perder a compostura. Sem perder a gana por viver. Mostrando que muito tem a ser feito. Feito um mensageiro vindo dizer que tudo pode voltar a ficar tudo bem. Viver os fins para celebrar os recomeços que a vida permite com a mesma intensidade.

Que delícia é se deparar com “Asa no Céu” pelo caminho e sua alma jazz / funkeada. Hoje mesmo ouvindo uma playlist com BadBadNotGood, Glue Trip e Khruangbin que fiz para correr e fiquei imaginando como aquela sequência me permitia voar mais alto.

Horas depois estava aqui alucinando com esta composição que em seu instrumental faz esse mix do novo, e empolgante, mas sem esquecer d’Os Mutantes, Lula Côrtes, Ave Sangria e a força do rock’n’roll em sua essência mais pura.

Por águas mais calmas, em sua introdução, “Cinzas” traz o requinte da delicadeza e melancolia para o centro da roda. Gaivota traz seu lado teatral e poético para criar o momento do apagar das luzes e das mil reflexões ao pé da cama. Com versos cortantes, ela mostra a dor do recomeçar e feito um blues triste faz com que nos apaixonemos pelo caos. Nos perdamos na mesma escuridão e nos deixemos levar pela corrente.

Sombria ela também ajuda a elucidar novas ideias e feito “Trevas”, de Jards Macalé, em sua poesia, mostra como precisamos ter força para sacudir o pó e achar nosso próprio caminho.

“Dias de Cara (Quase Ok)” traz a alma do soul para reforçar o poder desta caminhada sinuosa até reencontrar seu próprio eixo. Talvez a que mais sintetize o conceito do disco. Esta chance para o recomeço.

A chance para ver a estrela d’alva reluzir no céu após um dia cansativo. A lua por sua vez libertando os lobisomens e fazendo com que o dia ressurja das cinzas. Toda ressaca tem seu fim.

“Miga Sua Louca” me lembrou algo como se Gal Costa e Rita Lee tivessem nascido em nossos dias. Que grata surpresa! Uma poesia escrita num rodapé de um diário.

Simples, entorpecido, belo, psicodélico e prezando pela liberdade de sua alma. Colocando na balança a rotina, os medos do futuro, nossas “redes”, nosso ódio e a guerra de ideias que ganha força nas atitudes mais nefastas. Música para tempos loucos.

A loucura de Walter Franco e Ronnie Von em seus bons tempos psicodélicos, se fundem com o tão brasileiro brega, a moda de viola e o sertanejo na “torta” “Caverna Moderna.

É política e mostra como o perigo vem sim deste conservadorismo. Parece criticar aquela corja sem citar nomes. Com delicadeza e respaldo da poesia. Inteligente crítica indireta.

“Plateia” faz aquele passeio pelos 70’s e coloca a mente para refletir. Nos convida para um passeio à bordo da nave e me lembra um pouco a bela poesia de Belchior na criação de seus cenários imaginários. Realismo Fantástico.

“Nave Nova” parece buscar por novos rumos. Ir além de nossa vida para compreender nosso estranho mundo. Sede por mais. Sede pelo viagem. Sede insaciável que nos faz correr atrás de nossos sonhos. Feito um andarilho que precisa estar em constante movimento. Feito nossa vontade de acordar todos os dias para viver novos recomeços.

O “Olhar Azul” encerra o disco. Sendo levado pelo vento e procurando por seu lugar ao sol. Lugar este que não nos é reservado e que nos puxa para dentro de nossa consciência. Nos faz refletir, sonhar, voar e perder o rumo. Um disco as vezes é como a vida, não tem ponto final e sim….mais uma vírgula. Uma nova estação, um novo mês, um novo amanhecer.