No dia 15 de Julho de 2018, após inúmeras manifestações e protestos contra o governo de Vladimir Putin com repercussão midiática, a Pussy Riot realizou sua maior ação.

“O grupo punk feminista Pussy Riot assumiu a responsabilidade pela invasão de campo que paralisou a final da Copa do Mundo entre França e Croácia neste domingo (15).

A banda de punk russa teve suas integrantes presas em 2012 por realizarem um protesto contra Putin em uma igreja. Desde então, as três mulheres que foram levadas a julgamento se separaram, e duas delas – Nadezhda Tolokonnikova e Maria Alyokhina – ainda usam o nome Pussy Riot.

Aos sete minutos do segundo tempo da partida, quando o jogo ainda estava em 2 x 1 para a França, quatro pessoas usando camisetas brancas e calças pretas invadiram o gramado a partir da área atrás do gol francês.

Vladimir Putin acompanhava a partida ao lado do presidente francês Emmanuel Macron e da presidente croata Kolinda Grabar-Kitarovic .

As pessoas que invadiram o campo conseguiram correr aproximadamente 50 metros, dispersando-se em diferentes direções antes de serem derrubadas por fiscais e arrastadas para fora do gramado. A partida foi paralisada, mas acabou retomada momentos depois.

Uma das mulheres conseguiu se aproximar de Mbappé, astro do time francês, e o cumprimentou com as mãos. Gesto retribuído pelo jogador. Já o zagueiro croata Lovren, empurrou um dos invasores e ajudou os seguranças a segurá-lo. 

Após a invasão, uma das participantes do grupo, Olga Kurachyova, disse à Reuters que ela foi uma das pessoas que entraram em campo. Ela disse que estava sendo detida em uma delegacia de Moscou.”, como foi descrito em matéria do Portal G1 no dia


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Pussy Riot protesta durante jogo da Copa da Rússia. – Foto: Reprodução TV


Apesar de assumir a ação e pegar 15 dias de cadeia (como você pode ler em matéria da Capricho), a repercussão midiática levou a banda de punk rock, que se confunde com movimento social de engajamento, a outro patamar.

A “jogada” serviu como produto de marketing e fez a banda que era apenas conhecida no leste europeu, ganhar os holofotes mundiais dentro do maior evento esportivo do mundo.

Na época foram mensurados milhões de views no youtube e plays nas mais diversas plataformas digitais após o ocorrido. Praticamente colocando a banda no mapa apesar da música ser apenas mais um tentáculo de atuação do grupo russo.

Suas influências passeiam pelo street punk, o crust, e até mesmo o punk rock 77. E isso fica claro nas suas influências que elas citam, dentre elas Angelic UpstartsCockney RejectsSham 69, EraThe 4-Skins.

Quando comparadas ao Bikini Kill elas argumentam:

“O que temos em comum é a imprudência, letras politicamente carregadas, a importância do discurso feminista e uma imagem feminina fora do padrão”.

Elas desembarcam no Brasil neste sábado (20/04) para show inédito e único em São Paulo. A apresentação será dentro do Festival Multimídia Garotas à Frente organizado pela Agência Powerline.

O evento que acontece no Fabrique Club, na Barra Funda (Zona Oeste de São Paulo), além de show do grupo russo e de bandas feministas do cenário independente brasileiro, também abriga o lançamento de livros, workshop, exposições e oficinas D.I.Y.

Aliás uma das intenções do festival é justamente mostrar a participação ativa das mulheres em todos os âmbitos da sociedade. Seja na política, como nas artes, no mercado de trabalho entre outras conquistas sociais que mesmo com séculos de atraso vem ganhando força. Na música mesmo vemos como o ambiente ainda infelizmente é bastante sexista nas suas diversas frentes.

Uma das atividades do evento é justamente o workshop de produção de lambe e stêncil ministrado pelas garotas do Girls Rock Camp Brazil. Acampamento de férias musical para meninas de 7 a 17 anos, de Sorocaba (SP), nascido há 6 anos, e que ao longo do tempo foi ganhando edições em outras localidades do país.

Reunindo artistas, musicistas, comunicadoras, em uma semana de total imersão e aprendizado. Ministrando e trocando conhecimentos tanto para jovens garotas, como para mulheres, terem experiências de fortalecimento e empoderamento feminino.

Mathiza e Simone Siss vão orientar as participantes no processo criativo e produção e as obras feitas no dia serão expostas no local. A oficina é gratuita, acontece das 15 às 17 horas, e não dá acesso aos shows do festival. Todas as vagas (infelizmente) já estão preenchidas.



Literatura

O festival leva o nome do livro que será lançado pela Powerline, Garotas à Frente, tradução do livro Girls To The Front de Sara Marcus que conta a cena riot girl americana encabeçada pelo Bikini Kill. No dia também rolará o lançamento do livro Read and Riot, da Nadya Tolokonnikova, umas das fundadoras do Pussy Riot.

Garotas à Frente (2008) – Sara Marcus

Escrito pela jornalista Sara Marcus, ela própria parte da brigada de riot grrrls que se espalhou pelos EUA nos anos 90, o livro Garotas à Frente: Como realmente aconteceu a revolução Riot Grrl conta, com riqueza de pesquisa e entrevistas, a história do movimento criado por Kathleen Hannah e Tobi Vail, do Bikini Kill, durante a terceira onda do feminismo, batizada de “revolução ao estilo das garotas” ou Riot Grrrl.

Estão lá também outras bandas como o Bratmobile, o Heavens to Betsy, o embrião do Sleater Kinney, a relação das Bikini Kill com o Nirvana, a admiração do Ian MacKaye por elas, além de trazer um recorte das algumas dezenas de milhares de zines que circularam pelos EUA nos anos 90. O livro é sincero, e além de relatar uma trajetória de sucesso se aprofunda nas dificuldades encontradas pelas meninas, as discordâncias internas e eventualmente, em como o Girl Power foi cooptado pela mídia e pela indústria, ao mesmo tempo amplificando e abalando o ethos original.

O relato dinâmico de um movimento criado por garotas com paciência zero para o sexismo e nenhuma intenção de manter o silêncio.

“Garotas à frente não é apenas um documento histórico do movimento Riot Grrrl, que deu início à cena punk feminista e DIY, mas também uma inspiração tremenda para uma nova geração de garotas rebeldes e empoderadas.”
— Vanity Fair

“O feminismo parece mudar a cada cinco anos. É difícil compreender o movimento. Mas você não precisa de todo o tempo do mundo para capturar a ideia e a energia dele, e o livro de Sara Marcus canaliza aquilo que você precisa para o transformar em algo seu. Garotas à frente não funciona apenas para manter a chama acesa: ele desperta o fogo em você.”
 Kim Gordon

Exposições

A exposição contará com ilustrações, lambes, tirinhas, grafites e levará artistas como Atóxico/ Renata Nolasco, Solar Shana Precária e Jane Herkenhoff.

A Renata Nolasco (Atóxico / Renata Nolasco) será uma das participantes. Coincidentemente, sua primeira publicação foi o fanzine “Grrrls to The Front: Manifesto Riot Girl Ilustrado” no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) em 2015.

O coletivo Guerrilla Girls, fundado em 1985 e uma das principais vozes contra o preconceito no cenário artístico. Elas repensam o lugar da mulher na arte questionando a presença de artistas mulheres em grandes instituições de arte e museus pelo mundo.

Em 2017, ganhou uma exposição individual no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP).

O Indie Brasileiro marcando presença!

Representando a nova cena independente brasileira o quarteto paulistano Sapataria levarão canções do seu debut (2018) para o palco do Fabrique. O grupo busca abordar temas referentes à lesbiandade e feminismo.



Onde Comprar?

Pussy Riot no Festival
Garotas à Frente

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Serviço:

Data: 20 de abril de 2019
Horário: a partir das 16 horas
Local: Fabrique Club 
Endereço: Rua Barra Funda, 1071 (Barra Funda / SP)
Ingressos online: R$ 80,00 (1º lote – promocional e estudante), R$ 100,00 (2º lote – promocional e estudante)
Censura: 12 anos

Entrevista

Conversamos com a Raquel Francese, sócia da Powerline, sobre toda mobilização realizada para a vinda das russas para o país e todo o entorno do festival multimídia que agitará o feriado de Páscoa em São Paulo.

[Hits Perdidos] O festival por si só envolve diferentes áreas artísticas mas com um discurso muito forte alinhado. A partir de que momento veio a ideia? Ela foi se transformando ao longo do caminho?

Raquel: “A ideia veio de o Pussy Riot não ser uma banda, e sim um coletivo ativista, como elas mesmas se definem. Qualquer pessoa sabe citar um protesto que elas fizeram, mas não sei exatamente quantas sabem cantar uma música delas.

Então entendemos que nesse caso as pessoas estariam muito mais interessadas em uma ideia do que em um som específico, e tentamos deixar essa experiência mais completa para quem fosse ao fest. Desde o começo essa foi a proposta, e fomos anunciando as atrações conforme as fechávamos.”

[Hits Perdidos] Aliás além dos shows, exposições, oficinas com o Girl Rock Camp ainda tem o lançamento do livro em português. Sei que também é formada em jornalismo. Como têm sido este trabalho à frente da editora da Powerline, e a partir de que momento essa oportunidade surgiu na vida de vocês?

Raquel: “Sim, realmente vai ter bastante coisa legal ali. Sou muito fã das meninas do Girls Rock Camp Brasil, acompanho as bandas delas desde que éramos adolescente e acho que elas são um exemplo maravilhoso do que é realmente o “faça você mesmo”.

A editora não foi exatamente uma oportunidade, foi mais um salto sobre um abismo torcendo para chegar do outro lado. Tínhamos a ideia há tempos, uma lista de livros para lançar (muitos foram lançados por outras editoras enquanto pensávamos no assunto (risos) ) e quando fechamos a tour do Against Me! eu tinha acabado de ler o livro da Laura, a história dela é muito incrível, queríamos muito traduzir, então corremos com tudo – abrir empresa, comprar direitos, aprender o básico sobre editoração – para o lançamento poder casar com o show. Foi uma estreia muito especial, tenho muito orgulho dela e só boas lembranças.”

[Hits Perdidos] A partir do anuncio do show da Pussy Riot no Brasil pude observar uma grande euforia nas redes sociais e diversos coletivos se envolvendo. Acredita que depois desta edição possam surgir outros desdobramentos e parcerias? A ideia é ter mais edições?

Raquel: “Sim, trabalhamos com bandas mais underground, então de repente ter a Globo ligando todo dia desesperada para fazer uma entrevista por exemplo foi uma coisa muito louca. Sobre as parcerias, ficamos muito felizes de conseguir fazer algo com o Rock Camp, e a montar exposição e conversar com todas as artistas também tem sido um prazer. Esperamos sim daqui para a frente poder fazer coisas assim mais vezes.”


Charlotte Béja Pussy Lima 2

Pussy Riot vem pela primeira vez ao país. – Foto Por: Charlotte Béja Pussy Lima 2


[Hits Perdidos] Um fato que não pude deixar passar batido é a censura ser de apenas 12 anos. O que acho muito legal pois incentiva os pais levarem as crianças para ter esta vivência de respeito, cidadania e empoderamento logo cedo. Foi algo que fizeram questão? Como será a dinâmica de atividades no dia?

Raquel: “A casa abre às 15h para a entrada dos inscritos na oficina (as vagas já estão esgotadas e eram gratuitas). Depois abre normalmente às 18h para os shows, e aí é preciso ter ingresso para permanecer lá dentro.

Abaixamos a idade exatamente por conta da oficina, não faria sentido ser somente para maiores de idade, e logicamente estendemos para os shows. Conversamos com os donos da casa, consultamos legislação e chegamos nesse formato, de que – desde que acompanhados por um responsável – possam entrar pessoas a partir de 12 anos.

A expo ficará montada o tempo todo e tanto quem for mais cedo como quem chegar só para o headliner vai conseguir ver.”

[Hits Perdidos] Gostaria de perguntar também sobre o impacto da leitura do livro (“Garotas à Frente”) em sua vida e como vê a importância de trabalhos como este para as novas gerações.

Raquel: “Quando era adolescente fiz volume ao esquadrão de riots brasileiras, ouvia muito Bratmobile e Bikini Kill e ter aqueles “role models” femininos foi muito importante para mim, certamente mudou muita coisa na minha forma de pensar.

Mas li o livro não muito tempo atrás – portanto já adulta – e enxerguei ali coisas que a “eu” adolescente não enxergaria. É um relato muito honesto e muito bem pesquisado, que mostra tanto a força daquele movimento – os zines, as amizades, as bandas, o encorajamento que deu a tantas meninas – quanto sua fragilidade, que foi criar um estereótipo ao tentar combater outro, o que acabou enfraquecendo o “empoderamento” real.

Isso fica muito evidente por exemplo na dificuldade das riots originais em lidar com as críticas de que os grupos só tinham meninas brancas de classe média, ou na história de uma garota que trabalhava como stripper no mesmo lugar que a Kathleen Hanna tinha trabalhado, assim como fizeram muitas das riot grrrls até que chegou lá um cara da classe dela para ver o show e ela surtou.

Porque aquela convicção de que era ok trabalhar ali não era dela, era de outra pessoa, ela estava só seguindo um padrão. O livro me fez pensar muito, e é fantástico exatamente por não esconder o que não deu certo.

Ele é inspirador para que as meninas montem suas bandas, contem suas histórias, façam seus zines, criem seus coletivos, tenham coragem de se expôr de formas não convencionais, mas não coloca o peso do “dar certo”, do sucesso nos ombros delas, mostra que é normal chegar num resultado diferente do planejado e que aquela experiência é válida mesmo assim.”

[Hits Perdidos] Quando penso em Pussy Riot a música, ao menos para mim, é também uma das formas de expressão do grupo, mas engloba uma série de outras correntes de pensamento e ativismo que extrapolam o que seria “apenas mais uma banda”. Assim como foi o Bikini Kill.

Sendo realmente um movimento social de engajamento conectado não só com a Rússia mas também com toda a região e momento de choque entre a Rússia atual e o fim da União Soviética (que ainda deixa marcas). Aliás toda aquelas região é um pouco confusa por diversos motivos.

Como enxerga toda a importância delas, e contexto que estão inseridas, num âmbito geral entre política social, luta pela democracia, feminismo e até mesmo o uso de métodos combativos?

Raquel: “Sim, o Bikini Kill é uma banda que levantava certas bandeiras, o Pussy Riot é ativismo puro, e uma das formas que elas fazem isso é com músicas. Acho elas muito inteligentes dentro de seu objetivo principal, que é chamar a atenção do mundo todo para questões que as atingem.

Elas tem uma noção de marketing que poucas bandas punks têm, e essa visibilidade, num país de governo extremamente opressor, funciona como forma de proteção a elas também. Eu adoraria dar uma aula de história e política Russa nessa resposta, mas sei o mesmo tanto que uma pessoa que lê jornal todo dia sabe, e mesmo se eu pesquisasse muito para responder não me sentiria confortável dizendo como é ou como não é a vida na Rússia uma vez que nunca estive lá.

Acho que a questão principal ali, ou em qualquer lugar, é que o protesto possa existir quando alguém não está satisfeito. Que as pessoas possam falar sobre questões que incomodam o governo, que possam (tentar pelo menos) chamar a atenção umas das outras para causas que as movem, que possam se articular para propor mudanças, que tenham voz. E que não sejam reprimidas com violência por discordar.”

Conheça o som
da Pussy Riot