Braulio Almeida pode ser considerado um multiartista, e logo aos 16 anos começou a escrever a música. Mais de 20 anos se passaram e além de ter criado a banda Devilish Dear, ele ainda é videografista, ou seja, faz animações 2D e 3D, filmes publicitários para TV, curtas, etc.

O músico também tem um estúdio de áudio focado na produção de trilhas pra jogos, trilhas sonoras para filmes e TV e sound design. Ou seja, a música guia sua vida. Os primeiros dias da banda também aconteceram por acaso do destino.

“Foi um desdobramento de outra banda minha, a Montecarlo Jive, com Shelly Modesto (vocalista) e o Rômulo Collopy (baixo). Um material dessa época estava pronto mas ficamos sem tempo de botar a coisa toda pra frente.

Peguei vocais e baixos que já estavam prontos, gravei o restante, coloquei outras faixas minhas e amarrei tudo nessa sonoridade do DD. A Shelly fez todas as letras; Collopy, a maioria dos baixos”, explica Almeida 


Devilish Dear

Devilish Dear. – Foto: Divulgação


O nome inclusive veio da letra de “Mercury” da banda Processory. Na página oficial do selo Midsummer Madness eles descrevem o som do lançamento de 2015 da banda como “My Bloody Valentine, Medicine e alguma coisa de Cocteau Twins”.
O que já explica muito os dois pés no shoegaze e a paixão iminente pelas distorções.

“A banda é meu hobby, minha contribuição pras pessoas continuarem ouvindo esse som. Um email de gente falando que se identificou pra mim já é um grande retorno, não bota dindin no meu bolso, mas outras coisas botam. Nem tudo precisa voltar em dinheiro, afinal”, comenta o músico

Com poucas pretensões o trio carioca se reúne esporadicamente e praticamente não faz shows. Lançaram o primeiro disco, These Sunny Days, em 2015 e na época teve uma repercussão tímida.

Até que por acaso, sem investir muito em divulgação, eles começaram a pipocar nas listas de bandas favoritas da equipe editorial do Bandcamp. Isso aconteceu devido ao relançamento do álbum de estreia em 2017.

Todos envolvidos com a banda foram pegos de surpresa. Assim, por sua vez mesmo que por acidente, se tornando uma banda relevante no campo dos downloads na plataforma (em tempos de centavinhos suados em streaming).

Sucesso no Exterior e pouco reconhecimento no Brasil

Essa reviravolta dentro da plataforma e alguns convites para tocar no exterior motivaram com que eles voltassem a gravar novos registros. A primeira parte deles sai nesta sexta-feira (05/04), o EP Appalish que traz 3 músicas: 2 novas e 1 remix.

As duas novas inclusive estarão no novo álbum do trio, ainda sem nome. Braulio atualmente também produz bandas nacionais, entre elas o Macintushie – que teve seu material lançado pelo selo independente midsummer madness.

A primeira que vamos conhecer é justamente “Glass React” que está hoje sendo lançada em Premiere no Hits Perdidos.

O videoclipe traz imagens que nos lembram CPU’s entrando em colapso enquanto cores explodem na tela e mensagens subliminares aparecem de plano de fundo. Entre imagens “secretas” e “pane geral”, o vídeo esquizofrênico e alucinante, é um pouco do reflexo da intensidade da canção.

Esta que por sua vez traz guitarras derretidas em meio a samples disruptivos. Como se estivéssemos à bordo de uma nave espacial chegando ao ano de 2049.



Entrevista

Para entender mais sobre este momento ímpar vivido pela Devilish Dear conversamos com Braulio.

[Hits Perdidos] São mais de 10 anos de banda e discos sendo lançados esporadicamente.
Surpreendeu o destaque do Editorial do Bandcamp através dos podcasts? Como souberam disso?

Braulio: “Surpreendeu, sinceramente. Hoje em dia nós fazemos as músicas do Devilish só pelo som mesmo, pela estética. Nós não fazemos shows e isso é um impeditivo pra que mais pessoas cheguem a nós, ou se interessem pela banda. Então saber que as pessoas continuam ouvindo é realmente gratificante.”

[Hits Perdidos] Com esta demanda internacional, já cogitaram uma turnê no exterior?

Braulio: “Os convites de fato aparecem, mas nós somos complicados: adultos demais pra comprar o rolê, jovens demais pra parar.”

[Hits Perdidos] Para o novo álbum quais referências trarão e que sons tem inspirado as composições?

Braulio: “O álbum novo tem influências diversas, na verdade. Nós estamos tentando diversificar o que se entende por shoegaze, também. A gente tenta empurrar um pouco o limite do que se considera “aceitável”: rola muito sampler, existe uma preocupação com o peso da bateria (se ela está agressiva o suficiente em relação a rítmica marcante, ao timbre), existe distorção mas ela não é prioridade, etc.

A parte rítmica/harmônica é uma preocupação grande na Devilish. Gosto de pensar que a gente está tentando diversificar um pouco pra manter o rock interessante.”

[Hits Perdidos] Como tem sido o processo de criação de arranjos e de onde veio a ideia do remix?

Braulio: “O processo é bastante caótico, na realidade. Faço recortes de tudo que ouço e guardo numa pasta, depois junto dois ou três e vejo se eles combinam e se relacionam bem, daí tento fazer um “protótipo” de qualidade ruim mesmo e vou ouvindo essa macarronada no metrô todo dia.

Depois de alguns meses, se não me desinteressei pela música, tomo vergonha e decido se aquilo vira alguma faixa ou não. Descarto pouca coisa, na real; minha criatividade não é lá essas coisas.”