Em 2012 a banda paulistana Bazar Pamplona lançava seu último disco, Todo Futuro É Fabuloso. O grupo formado por Estêvão Bertoni (letras, vocal e guitarra), João Victor dos Santos (guitarra), Rodrigo Caldas (bateria), Rafael Capanema (baixo e teclado) e Pinguim Miranda (teclado e baixo) chegou a tocar em palcos de respeito, como o Sesc Pompeia, e na primeira edição do festival paraense Se Rasgum.

Os deveres da vida adulta, e crescimento profissional, dos integrantes fez com que as atividades da Bazar fossem aos poucos se reduzindo a ensaios e pequenos shows anuais. Diversão esta que sempre encararam com grande satisfação. Até que pelo caminho eles tiveram em 2015 um convite no mínimo inusitado.


por Dani Capuano

Bazar Pamplona. – Foto Por: Dani Capuano


“Em 2015, recebi um e-mail de uma produtora alemã dizendo que Helene queria usar a música do Bazar Pamplona”, relatou Estêvão Bertoni no Facebook.

“Mas como uma escritora alemã conhece Bazar Pamplona? Me explicaram que ela tinha vindo ao Brasil em 2014 para falar do livro que escrevera e que ganhara tradução para o português (“Axolotle Atropelado”, Editora Intrínseca). Em Búzios, onde passeava, ouviu uma música no rádio e descobriu o nome usando um aplicativo no celular.

Nunca ouvi Bazar Pamplona no rádio. Ninguém ouve, porque Bazar Pamplona não toca nas rádios. Pelo menos não nas de São Paulo. Mas Helene ouviu. E por isso eu fui ouvir minha banda num cinema em Berlim”, conta o vocalista e guitarrista da Bazar

Acabou que “É Tão Cafona o Que Eu Sinto por Você”, do segundo álbum da banda, acabou entrando na trilha de sonora do filme “Axolotl Overkill”, premiado no Festival Sundance, nos Estados Unidos, em 2017.

Confira a trilha do filme



Após essa injeção de ânimo que o convite proporcionou eles decidiram que era hora de voltar aos estúdios para gravar um novo álbum. Junto dele veio uma campanha de financiamento coletivo para a produção do que viria a se tornar o Banda Vende Tudo.

Seu título da margem a uma série de interpretações. Tanto literal remetendo a “família vende tudo” como de “fazer tudo pelo sucesso”. Mas no fim o registro leva essa nome também por conta de como foi o modos operandi para que ele existisse.

Eles venderam de tudo. De CDs, camisetas, pôsteres a até mesmo móveis. Ou seja, suor, dedicação e vontade não faltaram.

A ideia inicial era ser 12 faixas mas conforme o processo foi acontecendo, e para não ficar lapidando muito o que já estavam trabalhando a um bom tempo, eles decidiram finalizar em 11.

“A gente pensou em ‘Banda Vende Tudo’ por causa da ideia de ‘Família Vende Tudo’, aqueles bazares em que as famílias colocam tudo o que têm à venda, se desfazem de todos os bens, deixam tudo pra trás porque estão de mudança para recomeçar a vida em outro lugar. Como a gente não lança disco desde 2012, a ideia é de recomeço da banda mesmo”, frisa Bertoni.

MPB, folk e rock alternativo acabam permeando suas faixas que contam com uma porção de homenagens que vão de Tom , passando por Caetano Veloso, Wilco, Arcade Fire e chegando ao funk (sim, aquele que costumamos chamar de “carioca”).

Divertido em sua essência, não é só de amores e confusões que se faz o disco, tem também boas doses de sarcasmo e um diálogo proveitoso com o registro anterior. Afinal de contas o mundo mudou bastante em 7 anos, das casas de show a forma de posicionamento de uma banda independente perante as redes sociais.

Entrevista: Bazar Pamplona

Para entender todo esse momento conversamos com o vocalista, e guitarrista, Estêvão Bertoni que contou mais sobre este novo momento da banda paulistana.

[Hits Perdidos] Foram 7 anos e toda aquela “cena” da Augusta e o circuito alternativo de SP mudando de forma constante (e até mesmo agressiva). Com muitos artistas sumindo do mapa, uma imensidão de casas fechando…inclusive a forma de consumir música e o engajamento dos mais novos foi se transformando. Como vocês enxergam que tudo isso serviu como inspiração para volta? O que mais a motivo no geral?

Estêvão Bertoni: “Quando a gente começou, por volta de 2006, a única forma de distribuir as músicas que a gente gravava em casa era pelo TramaVirtual, que tinha streaming e download gratuitos. Nossas redes sociais se resumiam a uma página no Orkut e uma conta no Fotolog. Um dos nossos primeiros shows foi na Fun House. Nada disso existe mais. Mudou muita coisa.

Vieram o Spotify e dezenas de outras plataformas de streaming, tem Facebook, Instagram, Twitter. Você tem muito mais canais de divulgação, mas isso não significa que seja fácil. Nem tudo o que você produz de conteúdo na internet chega pra todo mundo que te segue. O algoritmo te limita. E tem milhares de coisas competindo pela atenção do ouvinte.

Ter banda independente continua sendo muito difícil apesar de tudo o que apareceu. Li uma entrevista do Kiko Dinucci em que ele conta que até consegue viver da arte dele, mas com a “corda no pescoço”, sem saber se vai “conseguir pagar o aluguel”. Diz que faz capa de disco, trilha para teatro e cinema pra ajudar na renda.

Em outras vertentes artísticas deve ser a mesma coisa, no teatro, nas artes plásticas. No ano passado, o escritor Lourenço Mutarelli contou numa entrevista que estava falido, vivia de aulas que dava no SESC e que não pagava todas as contas.

No caso do Bazar Pamplona, a gente tem trabalhos paralelos para pagar as contas no fim do mês. Um dos motivos para esse hiato foi que, num determinado momento, essas atividades foram se impondo. E a banda foi andando paralelamente, mas muito mais devagar. A gente nunca parou. Os ensaios diminuíram, os shows viraram anuais.

Até que um dia recebi um e-mail de um produtora alemã querendo usar uma música nossa num filme. O longa (“Axolotl Overkill”) ficou pronto em 2017, venceu um prêmio no Festival Sundance, nos Estados Unidos, e tem uma cena com duas alemãs dirigindo por Berlim ouvindo Bazar Pamplona e cantando a música em português.

Eu tive a chance de ver a estreia do filme no cinema. Depois, descobrimos que a diretora estava um dia em Búzios, de férias, ouviu a banda numa rádio virtual, perguntou para a garçonete o nome e decidiu usar como trilha sonora do filme que iria fazer. Resolvemos gravar um disco novo depois disso. De certa forma, ela só descobriu nossa música porque as coisas mudaram, a banda está no Spotify, web rádios tocam nossos discos.

Quando o filme saiu, Berlim era a terceira cidade no mundo que mais ouvia nossa música nas plataformas, que deixam você acompanhar as estatísticas. Era bizarro. Compram nossa música na Alemanha até hoje pelo iTunes. Tem muita gente descobrindo a banda agora, como se fosse algo novo, o que é engraçado até. Tem um lance de geração.

O negócio é que existem muito mais ferramentas hoje, mas acho que continuamos tendo banda pela diversão que é tocar, fazer discos e shows, independente das dificuldades, que ainda são muitas. Insistimos com a banda por coisas como a história do filme.”

[Hits Perdidos] Quais bandas brasileiras, que chegaram a ter um contato mais próximo, mais lamentam ter acabado e quais novidades mais aguçam a curiosidade de vocês?

Estêvão Bertoni: “São poucas bandas que começaram na mesma época que a gente e que ainda continuam ativas. Uma das que a gente gostava muito, alguns anos atrás, era a Superguidis, do Rio Grande do Sul. A gente ouvia sem parar o disco “Pacotão”, e desconfio que a gente tenha descoberto também no TramaVirtual. Não conhecemos os caras pessoalmente, mas lamentamos que tenham acabado.

Tem muitas bandas legais lançando discos hoje. Gosto muito do Metá Metá, acho a Juçara Marçal uma das melhores cantoras do país, e curto bastante o disco do Kiko Dinucci. Também escuto a Ava Rocha desde que vi um show dela no Sesc Pompeia. Eu não conhecia antes e achei incrível. Também gostei muito do disco da Maria Beraldo. São os artistas que tenho escutado.”

[Hits Perdidos] Aliás pude notar que o som deste disco é bastante maduro, assim como as reflexões e provocações. De certa forma é um diálogo com vocês mais novos aliado a uma crítica ao momento cultural e político que temos vivido?

Estêvão Bertoni: “Tem um diálogo com o disco anterior, sim. A última faixa do Todo Futuro É Fabuloso, que é de 2012, termina com a frase “as músicas não podem parar”. Abrimos o disco de 2019 retomando essa ideia. Um trecho de “Fora de Lugar”, primeira faixa do álbum novo, diz: “eu te falei, jurei que as músicas, elas não vão parar, não vou deixar pra lá”.

A ideia do Banda Vende Tudo, nosso novo disco, é inspirada naqueles bazares de “família vende tudo”, que são organizados quando uma família vai se mudar de casa e recomeçar a vida em outro lugar e decide se desfazer de todas as tralhas. A gente queria deixar para trás parte do que era a banda e começar de novo. Na música que dá nome ao disco tem o verso: “Esta banda está vendendo tudo, então aproveita/Está de mudança pra onde a esperança é imensa”.

Sobre a crítica ao momento cultural e político, tem alguns comentários espalhados pelo disco. Ele começou a ser pensando no fim de 2017, foi gravado em 2018 e terminado antes das eleições de outubro. É pós-impeachment, foi feito sob o governo Temer e acabou antes da era Bolsonaro começar. Como foi um período pesado, essa temática acabou invadindo o disco, mesmo que indiretamente.”

[Hits Perdidos] “Bom Mesmo É Ouvir Os Riffs dos Stones” tem uma levada em seu instrumental de brincar com o samba (e a bossa) com o som das big bands (como a E-Street Band, bandas de Jazz e coisas de New Orleans) e até mesmo Arcade Fire (ao meu ver, claro!). Sua letra ainda é cheia de deboche e com certeza tem uma história interessante por trás. Contem para gente mais sobre a composição e como foi sua construção?

Estêvão Bertoni: “Adoramos Arcade Fire, mas não tínhamos pensado neles nessa música. Legal que você veja assim. “Riff dos Stones” foi a música que mais deu trabalho. Tentamos outros caminhos pra ela antes, e nenhum tinha ficado legal. Em algum momento, achamos que não iria pra frente. A gente queria que o instrumental dialogasse com a história, como acontece em “Construção”, do Chico Buarque, que é monumental, e claro que não chegamos nem perto, mas tínhamos ela como referência. “Domingo no Parque”, do Gilberto Gil, também é uma música com história e com todo o arranjo conversando com a letra.

Tem bastante referência, citações a outros artistas e músicas, tem Dorival Caymmi (“acontece que eu sou baiano”), Tom Zé, tem o Desafinado (na ideia do antimusical como uma ofensa). É sobre um relacionamento que não dá certo, como em “Incompatibilidade de Gênios”, do João Bosco. Coisas que não dão certo rendem muito mais histórias do que as que dão, por isso falamos delas. Não é inspirada em nenhuma história verídica. E também não somos grandes ouvintes de Stones, apesar de gostarmos deles.


Bazar Pamplona por Dani Capuano #2

Eles são pesquisadores natos e amam buscar por novas referências. – Foto Por: Dani Capuano


[Hits Perdidos] Já no campo das influências, li em uma entrevista para o Música Pavê, que são pesquisadores natos (até mesmo usando o termo “Nerds”) e tem uma playlist conjunta no Spotify. Como foi essa “loucura” na hora de iniciar o processo de composição? Ajudou ou atrapalhou?

Estêvão Bertoni: “Ouvir muita música ajuda a ter ideias, achar timbres, pensar em andamentos e nos arranjos. Mas, em muitos momentos, a gente se viu perdido, porque as músicas poderiam ir para qualquer lado. No fundo, vai no que a gente acha melhor e nas limitações que a gente tem. Às vezes a gente tentava um timbre que era impossível alcançar.

O nerd é uma brincadeira. A gente às vezes ficava pesquisando. Como esse cara chegou nesse som? E tentava chegar em algo próximo ou satisfatório. É divertido fazer um disco, mas muito trabalhoso. No final a gente já estava dizendo: vai de qualquer jeito mesmo, a gente precisa acabar o disco, pelo amor de Deus.”

Confira a Playlist



[Hits Perdidos] Eu ADOREI a brincadeira com beats do “funk carioca” (me lembrando “Sou Foda”) em “Fim da Linha”. De onde veio isso? Para mim foi muito divertido ver uma canção com influências tão “indies” abraçar por alguns segundos um universo tão oposto.

Estêvão Bertoni: “Fim da Linha” é a história de alguém que está na praça da Sé, ouve um pastor falar no apocalipse (quem já foi a Sé sabe que lá está cheio de pastores pregando nas calçadas) e se dá conta da morte, mas não quer pensar nisso, nega a ideia, se desespera e corre atrás do que pode fazê-lo feliz.
Não sei exatamente de onde surgiu a ideia do funk. A gente queria usar de algum jeito. Depois a gente foi sacando as diferenças entre o funk de São Paulo e do Rio, pra tentar encaixar a batida.
São universos diferentes mesmo. A nossa ideia foi dialogar com outro gênero, fazer uma citação. O disco é cheio de citações. A gente tá vendo o que tá rolando na música, em outros estilos, e tem interesse por um monte de coisa.”

[Hits Perdidos] Amores, sarcasmo, ironias e até mesmo o professor de inglês ganhou uma singela (e debochada) homenagem no disco. Como foi o processo de composição do disco no geral? Porque ouvindo o resultado final parece ter sido algo bastante divertido.

Estêvão Bertoni: “Foi divertido. Algumas coisas a gente reaproveitou do começo da banda. “Capítulo Primeiro” era uma ideia muito antiga e só tinha dois versos. Terminamos ela. “English Teacher”, na versão original, tinha uma citação ao George W. Bush, que era o presidente à época, pra você ver como era velha. Ele deixou de ser presidente em 2009, faz dez anos. A gente regravou porque achava que tinha muito a ver com o que tá rolando com o Trump.

A gente foi colando alguns cacos pra fazer o disco. E foram aparecendo coisas muito novas, como “Cálculo das Diferenças”, “Dias Gordos”, “Banda Vende Tudo” e “Saudade”. O resto tinha aparecido um pouco antes. A gente queria fazer 12 músicas, mas como estávamos atrasados com o disco, fechamos com 11.

Chegamos a começar a ideia da 12ª, mas foi abortada. Se não terminássemos, estaríamos até hoje tentando melhorar isso ou aquilo. Um trabalho sempre pode ficar melhor. Mas precisava acabar.”

[Hits Perdidos] Aliás o lance do “Banda Vende Tudo” achei particularmente genial. Como vocês veem as bandas que realmente usam de todas as táticas, tanto em rede sociais como na competição por “likes na vida real” para captar a atenção? Não acham que muitas vezes elas acabam transparecendo como mais um produto enlatado de mercado?

Estêvão Bertoni: “A gente foi encontrando vários sentidos para o nome do disco depois que ele já existia. A primeira ideia que queríamos passar era o conceito de “família vende tudo” mesmo. Depois, vimos que servia também para a maneira como o disco estava sendo produzido. Levantamos o dinheiro para a mixagem, masterização e prensagem por meio de uma campanha de financiamento coletivo. Vendemos, além dos produtos óbvios, como CDs, camisetas e pôsteres, móveis, desenhos e até pizzas. Então era como se a gente fosse uma loja vendendo tudo para investir num disco.

Tem um terceiro sentido que pode ser uma provocação, essa história de banda que se vende pelo sucesso. Antigamente tinha essa ideia de bandas que assinam com grandes gravadoras e deixam um produtor meter a mão no trabalho para ficar mais vendável e dar mais lucro pras gravadores. Nem sei se alguém ainda pensa assim. Tem banda e artista pequeno que faz tudo pelo sucesso mesmo. Mas a gente acha até legítimo, cada um tem suas prioridades, não importa muito. No mundo ideal, cada artista deveria fazer sua arte verdadeira. Mas as coisas são mais complicadas do que isso.”

Ouça: Bazar Pamplona

Banda Vende Tudo (2019)