As vezes na vida fazemos as coisas com tanto apreço e intensidade que o que era para ser apenas um pedaço de uma história acaba virando um livro todo. É mais ou menos assim que nasceu o primeiro álbum da YMA, Par de Olhos.

Lançado no começo do mês, era para ser apenas o segundo EP da artista paulistana que tem formação erudita mas que adora viajar pelas ondas do pop dos anos 80. Madonna, Nina Hagen, Nena, Alphaville e Debbie Harry são alguns nomes que se destacaram daquele tempo e que certa forma me levam para seu universo particular.


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YMA. – Foto Por: Gabriela Schmidt


E se tem algo forte nos anos 80 é justamente a estética. Michael Jackson que o diga. Preocupação que Yasmin Mamedio tem desde os primeiros singles do projeto. São tons de rosa, lilás, óculos, dancinhas ritmadas, casacos e identidade visual bem característica que vai do material gráfico as apresentações. Estética essa que a fez viral na internet.

A fascinação pela década não para por aí. Basta assistir seus videoclipes, o mais recente “Par de Olhos” tem inclusive referências a David Lynch e Ingmar Bergman. Excêntrico, delirante e cinematográfico, é esse o clima da produção audiovisual. A fotografia é inclusive imersiva, um tanto quanto macabra, e lembra um pouco a atmosfera imersiva dos filmes cult.

Também tem um pouco da aura mágica e misteriosa de Twin Peaks, traz o coelho de Donnie Darko para o primeiro plano e faz um revival anos 80 a lá Stranger Things. O curta ainda conta com a participação de Lau (Lau e Eu).



“A canção fala sobre estar em um impasse emocional e tentar resolver tudo isso voltando para dentro de si, usando as ferramentas dos sonhos e dos símbolos para tentar dar respostas a situações mundanas”, diz YMA.

O vídeo foi lançado em primeira mão na tela de cinema do MIS durante o Music Video Festival 2018, o clipe “Par de Olhos” é um m-v-f- commission, parte de uma série de clipes apoiados pelo festival, que também são exibidos nos cinemas Circuito Spcine (salas CCSP e Cine Olido).

“Eu e a YMA sempre que sentamos juntas temos ideias super malucas. Ela projeta sua criatividade e aprimoro executando. ‘Par de Olhos’ foi fruto de várias dessas conversas regadas a referências visuais e muita imaginação”, completa a diretora Gabriele Diola.

Pude conhecer o som da artista ainda no fim de 2017 com o açucarado single “Vampiro”. De cara achei tão sing a long que não poderia deixar passar batido. Ao procurar por mais material não encontrei e só depois de meses vieram mais dois (depois soube que tinha mais coisas de outra fase), dentre eles o tropical – e tão verão – “Summer Lover” (parceria com a catarinense Gab Ferreira).

Durante a festa do Cansei do Mainstream, realizada em março do ano passado, assisti a um show dela pela primeira vez. Mesmo estando em pleno fechamento de verão, com as águas de março chegando, ela adentrou a Casa do Mancha com seu casaco pink cintilante.

A levada karaokê despretensiosa do show deixa tudo ainda mais viajante e alucinante. As guitarras as vezes lentas, e por outras mais aceleradas, deixam o clima ainda mais denso. É pop, é synthpop, é psicodélico, é dançante e dá vontade até de dançar consigo mesmo (olha o Billy Idol aí).



Depois deste show acredito que assisti a mais três apresentações da banda ao longo de 2018, incluindo a participação no Fora da Casinha.

Mamedio além de assumir os vocais ainda toca sintetizador e na banda tem a companhia de Uiu Lopes no baixo, Dreg na guitarra, Leon nos synths e Marco Trintinalha na bateria.

YMA – Par de Olhos (11/01/2019)

Fernando Rischbieter, que também é guitarrista, toca teclados e dirige musicalmente o trabalho ao lado de YMA. O novo registro ainda conta com a participação dos músicos Gustavo Ruiz, Zé Ruivo, Gongom, João Antunes e Elísio Freitas.

O álbum foi mixado por Gustavo Lenza, exceto “Evaporar”, por Fernando Rischbieter. Já a masterização é assinada por Carlos “Cacá” Lima.

Tive a oportunidade em dezembro de visitar os estúdios da YB Music (e também QG da Matraca Records), local onde o disco foi gravado, para ouvir em primeira mão o álbum de estreia da YMA e foi uma experiência à parte. Afinal de contas ouvir direto das caixas do estúdio é milhares de vezes superior ao ouvir o som comprimido em MP3 ou streaming.

Apesar de ter frequentado diversos shows ao longo do ano para mim algumas das 8 faixas do registro, que conta com 26 minutos, eram novidade como o caso de “Evaporar”, “Pequenos Rios” e “Colapso Invisível”. Fato é que durante o processo de gravações o número de faixas aumentou.



De mansinho o álbum se inicia com “Evaporar” que poderia até estar na trilha sonora de Donnie Darko ou (até mesmo) The Breakfast Club. Romântica ao mesmo tempo que dark, ela consegue agradar fãs de Echo & The Bunnymen, Joy Division e Siouxsie & the Banshees. Os acordes dissonantes e a melodia pop por sua vez trazem para perto também fãs de grupos como Melody’s Echo Chamber. A canção ainda conta com riffs de guitarra de um dos convidados, o líder do Cidadão Instigado Fernando Catatau.

“Par de Olhos” desde seus sintetizadores já avisa: é hora de adentrar no campo dos sonhos mais profundos. É sobre estar ou não estar, a insegurança do amanhã e nossa inquietude ao pensar sobre o futuro. Suas guitarras nos levam direto para a discoteca com seu clima derretido, ela flerta com seus vocais e efeitos na voz que carrega inocência – ao mesmo tempo que não se faz vulnerável.

Clássico instantâneo, com refrão grudento, e balada implacável! É esse o swing da batida de “Vampiro” que desde de a primeira vez que você ouve você se questiona se já ouviu isso antes. E com o videoclipe, gravado no sul do país, ela ainda faz mais sentido. Esse tom blasè – e ar de conquista – te deixa querendo “fugir junto.” Música ideal para mandar para a / o crush.

“Vamo fugir junto, que o tempo é curto,
E eu não quero mais morrer,
Eu quero dançar com vocês (ahhh)
Só quero dançar com você, até o dia amanhecer” (“Vampiro”, YMA)



O lado mais dançante dos bailes – e danceterias – dos anos 80 ganha o tablado em “Shake It” que passeia pela ternura, delírios e tem seu auge quando entram as guitarras e batidas de bateria (que lembram até mesmo as baterias eletrônicas da época). A faixa foi composta em parceria com Zé Motta.

Se estamos vivendo em um tempo onde as pessoas estão adorando (re)descobrir mais sobre bandas como ToTo e Blondie, fica como dica conhecer mais sobre as profundezas da década.

“Summer Lover” acabou não entrando no álbum mas quem disse que ficaríamos sem uma balada com “a cara do verão”? É justamente o que a delicinha “Sun and Soul”, canção dream pop que conta com a participação de Lau (da Lau e Eu), nos traz. Aliás que dueto! Esse baixo à la Daft Punk traz todo o groove para que as vozes se destaquem ainda mais.

Caminhando por ritmos como trip hop, e trap, “Colapso Invisível” mostra que o álbum também pode ser musicalmente versátil e moderno. Aquele amor mais inocente, e adolescente, parece ser revivido através de suas sutis metáforas. A sensação de querer mais e sentir tudo de forma intensa.

O lado espacial e confessional transparece na tímida, e doce, balada “Nowhere Here”. É como colocar a roupa de astronauta e viajar pelo universo de nossa inquieta mente. Se você gosta de Spiritualized, a dica é essa faixa.

Quem fecha o disco é justamente “Pequenos Rios”, faixa composta em parceria com César Lacerda. A ilusão, comum da obra de David Lynch, aparece na faixa onde os sintetizadores ganham o protagonismo – lembrando até New Order e Phantogram.

Ela parece entrar na cabeça do ouvinte e narra suas dores, e pequenas aflições. Desta forma se afogando em lágrimas enquanto voltamos para nossa órbita. Afinal, era apenas um sonho.


capa


O álbum de estreia da YMA, Par de Olhos, funde synthpop, rock e pop – e nos convida para viajar juntos com destino aos anos 80. De amores, quereres e dores, o disco em muitas horas parece até o rebobinar de um filme. Não é a toa que sua estética mergulha no universo dos sonhos, passeia pelas pistas de dança e explora melodias cativantes. Definitivamente uma artista para você ficar de olho em 2019!