[Premiere] Leo Fazio exorciza seus demônios em “Sangue Pisado & A Música do Século XXI”

Sofrer. Sangrar. Jorrar. Lutar. Desfalecer. Ir para as profundezas do inferno de seu subconsciênte em busca da autocompreensão. Leo saiu de sua casa em São Paulo com destino a Juiz de Fora (MG), que fica mais ou menos a 480 KM da capital paulista, para abstrair e ir de encontro com um pedaço de si até então adormecido.

Com a alma ferida, frágil, jovem e encarcerado. Entusiasmado ao mesmo tempo repleto de dúvidas, cobranças e procurando por respostas. É este o espírito do álbum de estreia de Leo Fazio. Pesquisador musical nato, ele não foi atrás das correntes do momento, ele preferiu olhar pelo retrovisor.

Notou Coltrane ali parado na praça, viu pela janelinha da janela Jocy de Oliveira (cantora da década de 50), desceu a esquina e se deparou Milton Nascimento, direto de sua vitrola percebeu algo diferente nas harmonias de Villa-Lobos mas foi na rua e na poesia marginal do Racionais, Roberto Piva, Claudio Willer e Bichelli que encontrou seu compasso. Viu amor por muitas dessas travessas e soube sofrer admirando Cartola e Elis Regina no fim de uma tarde de Outubro.

Mas a vanguarda do Sonic Youth e Mutantes ainda guiam o coração do Molodoy que inventivo e curioso ainda aproveitou algumas horas para admirar uma cavalaria de emoções de Maria Beraldo enquanto adentrava a locomotiva de seu disco. Ainda há espaço para os ares da vanguarda paulistana que sobrevoam sua obra feito um pássaro enclausurado em uma gaiola à procura por liberdade.


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Leo Fazio lança hoje em Premiere no Hits Perdidos seu primeiro disco solo. – Foto Por: Matheus Miranda

Um disco boêmio, intimista e conciliador com as próprias emoções. Para ser apreciado enquanto enrola seu cigarro de corda, aprecia um copo de uísque e lê algum livro de contos. Tem muito sofrimento, raiva, política, coração partido e generosas porções de autodestruição. Destruição esta que não necessariamente deve ser vista como algo ruim afinal de contas muitas vezes é necessário destruir para construir.

Leo se afoga, se permite, desafoga e coloca para fora uma dose cavalar de emoções profundas provenientes de muitas palavras – e verdades – não ditas. De despedidas adiadas, de recomeços inevitáveis. A vida é cheia deles e um coração rebelde ousa tentar ludibriar mas fatalmente acaba tendo que passar por este momento de expurgação.

Toca na depressão de maneira leve, o mal invisível acaba sendo de certa forma um coadjuvante dentro da obra. O desejo por outro lado é o fio condutor que o mantém de pé. Já o cotidiano traz marcas, não apenas pessoais e ideológicas, mas de tempos confusos e de difícil compreensão.

Com 12 faixas Sangue Pisado & A Música do Século XXI é um pouco de tudo isso e muito mais. Mostra também sua dedicação já que compôs, produziu e executou nove instrumentos: voz, violão, clarinete, baixo, erhu (violino chinês), violoncelo, bandolim, cuíca e percussão.

“A ideia principal do disco é explorar a música brasileira de uma forma mais subversiva e em um contexto contemporâneo. Descobrir outros rumos sonoros e uma linguagem poética mais livre e experimental.

De forma peculiar, abordar temas como o amor, o desejo, a perda, a sua própria relação com a depressão e diversas outras crônicas sobre nosso cotidiano. Tomando como a maior influência do disco da musicista curitibana Jocy de Oliveira. Inclusive, gravei uma versão de ‘Sofia Suicidou-se’, música que abre o álbum da artista”, explica Leo Fazio.

Leo Fazio – Sangue Pisado & A Música do Século XXI (09/01/2019)

Durante 3 meses Fazio se refugiou em uma residência artística em Juiz de Fora (MG), mais precisamente no Canil Recs. Onde pôde além de elaborar seu registro, interagir e colaborar com outros projetos musicais. O disco foi produzido por Everton Surerus em parceria com o músico.

“É o primeiro passo concreto, então é o mais importante. Acredito que eu consegui chegar onde eu queria artisticamente e agora estou pronto pra seguir em frente em busca dos novos caminhos que esta experiência me abriu”, conta Leo

A banda de estúdio conta com os músicos Márcio Reis (bateria), Pedro Tavares (baixo), Everton Surerus (baixo e guitarra), Luiz Henrique Andrès (teclado) e Melissa Guedes (locução 1).

Além de participações especiais de Gustavo Coutinho (piano), Murilo Sá (backing vocals), Pedro Pastoriz (locução 2), Skipp Worm aka Alejandro (Casio DG-1),  Vitor Marsula (sintetizadores) e Matheus Cornely (beat e sintetizadores). O trabalho também contou com Leonardo Chagas, poeta que participou com sussurros na faixa que abre o álbum.



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O jazz, o samba, a vanguarda paulistana e os ritmos africanos ganham espaço logo na primeira parte do disco com a sequência sinestésica que engloba “Uma Palavra e Nada Mais” e “Cobra Coral”.

Esta segunda um dos singles mais profundos do álbum. Contendo altas doses de rancor, sofrência, poesia abstrata e autodestruição permeiam uma das mais dramáticas e potentes canções do registro. Há espaço para experimentação na pós produção, certo capricho que me lembra algo que Arrigo Barnabé faria.



Na sequência vamos com “Sofia Suicidou-se” que ele deu uma repaginada a lá Molodoys com um quê de “bicho do mato”, pegando sua atmosfera mais dark e fazendo algo que Weird Al Yankovic faria. Leo ainda adicionou versos novos com referências ao século XXI e desta forma “atualizando” a faixa para nossos tempos. Onde a depressão é vista por muitos como “mal do século”.

A poesia marginal vai de encontro com o samba em “Porra”. Desbocada, e sem pudores, ela vai descrevendo seu entorno – e a desilusão com seus tempos – a medida que caminha entorno de locais como o Cemitério do Araxá, Avenida Paulista e outras redondezas do centro de São Paulo. O caos instaurado, a confusão de nossos tempos, pensamentos desconexos e sentimento de perda acabam ganhando novos viéses e contornos em suas melodias.

Entre a bossa, o samba e a MPB, Leo nos mostra um ar otimista sobre o amor em “Olha Aqui Pra Mim Meu Bem”. Traz versos da poesia e vai beber nas raízes do samba paulista, de nomes como Adoniran Barbosa.

A noite e suas loucuras ganham terreno em ” Delírio de Lorena (part. Murilo )”, entre andanças, flertes, paranóias, sonhos e universos paralelos que acabam permeando sua cantiga repleta de metáforas e devaneios. Os teclados inclusive dão a sensação de perdição.

“Querida, me Arranhe e etc…” tem aquela energia de Cartola, uma sofrência mas que traz ao mesmo tempo um “aconchego” depois de uma longa maré de azar. Na mesma linha musical temos uma canção cheia de histórias, e ar de suspense, “Crime (part. Pedro Pastoriz)”, que conta uma história um tanto quanto macabra. Esta que nos prende justamente pela tensão.

Já “Um Choro Calado” traz o elemento do arco, confissões e drama em seus versos. Depressão, isolamento, choro, confusão e vazio são narrados em uma balada desesperada que se esvai em um minuto e vinte segundos.

“Balada do Anjo de Barro” mostra o conflito entre a fúria, a perdição e os perigos de se viver intensamente. O medo do fim da linha, o risco iminente do conflito e o desespero por encontrar a cura para a alma. Machucada, carcomida, desiludida e em frangalhos.

Mas para mim o hit perdido do álbum é justamente a solar “Serenata”. Que contrapõe grande parte da obra justamente por abrir sua alma de uma maneira mais leve e otimista. O teclado mais uma vez brilha e a transforma em uma balada pop.

Quem tem a responsabilidade de encerrar o disco é justamente “Do Katendê” que como o próprio diz faz homenagem ao capoeirista Mestre Moa Do Katendê que foi morto a facadas em Salvador (BA), no dia 8 de outubro de 2018, durante o primeiro turno das eleições.

Justamente por ser eleitor do Partido dos Trabalhadores. O que só prova como vivemos em um momento onde a intolerância pela divergência de pensamentos – e ideologias – chegou ao nível da barbarie. Fazio não se aquietou e tratou de prestar seu singelo tributo na canção.

Introspectiva e com sopros conduzindo seu andamento, a canção preza em suas notas – e devaneios – pelo respeito e empatia. Feito um sopro, o álbum se encerra e voltamos ao gélido silêncio.


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Um livro de poesias musicado. Essa poderia ser a interpretação do disco de estreia do Leo Fazio, Sangue Pisado & A Música do Século XXI. Errático, dissonante, confuso, contestador, de coração partido e melancólico. Estes são alguns dos adjetivos cabíveis a esta obra que navega pelo imaginário do compositor paulista. Suas dores, dúvidas, conflitos, medos, amores e depressão ganham terreno, e ritmos como o jazz, o samba, a psicodelia e o espírito da vanguarda paulistana marcam a sua essência. Sangue que escorre, sangue que jorra, vida que segue.

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