The Baggios une blues, psicodelia, stoner e afrobeat em “Vulcão”

A primeira vez que ouvi o disco de estreia do The Baggios, de 2011, me surpreendi justamente dar uma nova vida ao blues. Trazendo ritmos um tanto quanto calientes – e tropicais – para somar no caldeirão dos sergipanos.

Com o passar do tempo a expectativa foi se solidificando com os álbuns Sina (2013) e o excelente Brutown (2016). O grande prêmio pelos 14 anos de estrada do agora trio, antes duo, foi ser no ano passado contemplado pelo edital da Natura Musical. Vulcão, lançado na sexta-feira (17/10) conta com novas referências e texturas pesquisadas pelo guitarrista, Julio Andrade, nos últimos três anos.

Ele conta que para este processo pesquisou bastante sobre música do norte da África, rock psicodélico da Turquia, música oriental e compositores nordestinos da década de 70.

“O Vulcão atrai e ameaça, há beleza e mistério. Sempre cercado da calmaria da natureza, algo feroz acontece no seu âmago e nem todos podem ver, nem todos têm acesso. É lá onde ferve sua essência, o que não se revela”, reflete Julio.

Para um álbum tão especial e cheio de detalhes místicos – e rítmicos – o power trio composto por Andrade (Guitarra / Vocais), Gabriel Carvalho (Bateria), e agora, Rafael Ramos (piano, órgão e baixo) trouxe uma série de participações especiais do mais alto escalão da música contemporânea.

O registro que conta com 11 faixas, e 45 minutos de duração, tem a participação da aclamada cantora Céu em “Bem-te-vi”. Já em “Deserto”, é perceptível os ritmo do afrobeat e a levada da guitarra baiana de Roberto Barreto, além da cultura do grave e da linguagem dub de Russo Passapusso, do BaianaSystem. Temperos esses que se unem ao baião, ritmo já presente dentro da discografia da banda de São Cristovão (SE).


The-Baggios
The Baggios agora oficialmente é um trio. – Foto Por: Alfredo Portugal

The Baggios – Vulcão (17/10/2018)

O quarto disco do The Baggios foi gravado no estúdio Toca do Bandido, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), com produção assinada por Julio Andrade. As novas frequências e pesquisa por novas texturas são temperos que fazem com que a banda se mantenha relevante dentro de um Brasil com sonoridades cada vez mais plurais.

O baião de outrora ganha o reforço das matrizes africanas, do afrobeat, e as guitarras rockeiras trazem o peso e reforçam o poder de fogo do trio sergipano.



Vulcão se inicia com a mística “Louva-a-Deus”, a energia da natureza, influências da música oriental, percussão tribal e explorando texturas até então não utilizadas na carreira do grupo. O blues, e o stoner, vão ganhando terreno a cada passagem e se fundem aos temperos do caldeirão.

Com swing a psicodélica “Caldeirão das Bruxas” traz linhas criativas de guitarra, tambores, pianos do jazz, ambiências da música cigana, e uma energia que me leva direto para os álbuns do turco, Joe Strummer (The Clash), em seu projeto, de world music, Joe Strummer & The Mescaleros.

O The Baggios se rende a Bahia em “Deserto”, faixa que conta com a participação da trupe de Russo Passapusso – e seu BaianaSystem. É nesse ritmo envolvente que a canção cresce e ganha novos refúgios.

O axé ganha novo corpo com as guitarras bluseiras e os backin vocals que nos guiam direto para a África. O lamento e o desafogar são exaltados na canção que deixa claro o poder da resistência através da música.

“Espada de São Jorge” ou espada-de-ogum (para as religiões africanas) é sagrada. Esta folha sagrada é uma folha gún (excitante, “quente”), sempre presente nos rituais de sasanha e na realização de águas sagradas denominada de abô. Ela é vista como uma arma contra o mau olhado e as energias negativas.

Sendo assim uma canção que homenageia a herbácea africana só poderia trazer ritmos locais, e proteção. A faixa serve como um mantra do “corpo fechado”, e clama pelas boas energias e proteção.

Já “Em Si Menor” da um respiro dentro da cronologia do álbum, traz uma paz de espírito e soa como uma canção pela redenção. Fala sobre amargura, equilíbrio e uma orquestra acompanha os vocais de Julio.

O verso “Joguei minha tristeza no relento / de tantas mil ressacas e apego / nadei nas minhas mágoas sem medo / levei minha cabeça ao conserto” é marcante e resume bem seu sentimento.

O choque do peso com a ancestralidade volta de reluzir em “Vermelho-Rubi” com seu tom desértico e mágico de seu instrumental. Superação, reconstrução, reflexão e acordes latinos ganham abertura a panela que alegra até a amantes da guitarrada portuguesa. Música de encruzilhada, de resistência e de nadar contra a corrente. Mostrando a pluralidade, o choque e o reflexo das grandes navegações na cultura tupiniquim.

“Samsara” é psicodélica por sua essência mas traz também ares da moda de viola, blues e o baião para o centro da roda. Lembrando que Samsara significa “o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos, experimentado pelos seres sencientes.”

Entre outras palavras, a capacidade de ser empático aos problemas e dilemas alheios, algo a cada dia mais raro em nossa sociedade que tem se mostrado individualista e mesquinha. A arte mais uma vez vem para abraçar aqueles que precisam de conforto. Para que assim não se sintam sozinhos no meio da multidão.

As misturas rítmicas chegam novamente forte em “Limaia” que mostra a força da fusão musical que vem se destacado dentro da música brasileira nos últimos anos. Uma faixa para tirar os pés do chão e dar início ao baile. Desintoxica, abençoa e joga a poeira pro alto.

Já “Fera” me lembrou a riqueza do trabalho da Coutto Orchestra, de Aracaju, tanto por seu instrumental e sopros, como por sua paixão em trazer para seus versos amor, paz e dores.

“Bem-Te-Vi” como dito anteriormente, conta com a participação da Céu, e reverbera por um mar psicodélico, sendo de fato um dos grandes destaques do disco justamente por suas melodias, delicadeza e arranjos. É sobre liberdade, expansão dos sentimentos, esperança e resiliência.

É com uma aura astral e trazendo a energia da mata que “Vulcão” chega. Se expande e ganha corpo com referências que vão de Zé Ramalho a Black Sabbath. É com o peso do stoner somado a energia do soul/blues, e percussão africana, que fazem com que o vulcão entre (mais uma vez) em erupção.


Capa


O quarto disco do The Baggios, de São Cristovão (SE), chega não apenas para consolidar a carreira do trio mas para mostrar como a música brasileira vive em constante mutação. Como nossa ancestralidade passeia por uma diversidade de ritmos, frequências e discursos. Por isso carrega elementos do Blues, Stoner, Afrobeat, Soul, Psicodelia, música oriental e folk para dentro do caldeirão. Seu discurso clama por empatia, respeito a diversidade, religiosidade e serve como um alerta para os perigos do futuro.

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