Para contornar a insanidade de nossos tempos, Tatá Aeroplano lança o poético “Alma de Gato”

Bucólico. Andarilho. Instigado. Viajante do Tempo e psicodélico por natureza. Esse é o espírito de Tatá Aeroplano e que agora em seu quarto disco solo se aflora feito o desabrochar de uma flor que resiste as rajadas de vento, a tensão de terra da garoa e a dureza do concreto.

O vocalista de bandas como Cérebro Eletrônico, Jumbo Elektro e Zeroum, conta justamente que a mudança do bairro da Santa Cecília para a Vila Romana, e seu estilo de vida, acabaram influenciando na composição do novo trabalho.

Redutos culturais como o Teatro de Bolso do IV Mundo, a Casa Gramo, o Condô Cultural, a Creuza Cultural e a casa de amigos influenciaram seus novos versos que ganharam uma série de parcerias ao longo de suas oito canções.

Inclusive o nome do disco, Alma de Gato, veio para homenagear um dos protagonistas que colore o céu do bairro que aprendeu a amar. Visto que o simpático pássaro é visto com facilidade entre as ruas, vielas e parques da região.


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Tatá Aeroplano Foto Por: Luiz Romero

Álbum Colaborativo

Participações não faltaram em seu disco que sai pelo seu misterioso selo, Voador Discos. Este que foi gravado e produzido no Estúdio Minduca com o auxílio de Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque.

As parcerias não param por aí e ao longo de suas canções temos várias. “Os Novos Baianos Sapateiam na Garoa dos Sex Pistols”, por exemplo, conta com vocais de Malu Maria, que também ajudou a compor a canção.

Daniel Perroni Ratto compôs em parceria com Tatá “Colorir de Carnavais”, que veio direto de um poema, já a canção conta com as participações nos vocais de Malu Maria, Ciça Goes e Julia Valiengo. O registro conta com uma versão de “Vida Inteira”, originalmente composta por João Sobral.

Além disso o músico com Luiz Romero, gravou duas parcerias, “Deixa Voar” e “Baby Baby & A Mulher Rouca”, com vocais do Luiz Romero e da Julia Valiengo. “O Alienista da Vila Romana” foi feita em conjunto com Beto Gramo (Beto Antunes), canção que conta com diversas participações de Lenis Rino, Malu Maria, Luiz Romero, Ciça Goes, Julia Valiengo e dezenas de frases de whatsapp capturadas de vários amigos.

Tatá Aeroplano – Alma de Gato (03/09/2018)

O álbum tem 41 minutos de duração, uma infinidade de inspirações e funciona curiosamente independente de sua ordem. Já que cada canção de fato tem sua própria órbita, suas referências e universos particulares.

É provocador, tem o espírito da vanguarda paulistana, o jeito Júpiter Apple de ser, traz a psicodelia à flor da pele e os devaneios de um andarilho. O mais importante de tudo: o disco reflete os seus tempos. Ou seja, confusos, políticos, abstratos e com uma necessidade iminente por nos encontrarmos. Seja no campo das ideias como espiritualmente.



“Cores no Quarto” começa com a simplicidade de acordes de um violão, traz devaneios mundanos, transformações e reflete sobre o medo do futuro. A poesia recai como a salvação para estes “tempos loucos” que estamos vivendo.

Os delírios e as abstrações sendo responsáveis pela manutenção de sua própria sanidade. Entre dores, amores, espiritualismo, decepções e contestação. Sua musicalidade soa como o resultado do encontro de Iggy Pop e Lou Reed em um boteco.

Com melodias mais otimistas temos “Mil Almas de Gatos” e uma porção de metáforas, Tatá descreve as paisagens e as andanças pelo bairro da Vila Romana. Os belos arranjos deixam toda essa atmosfera flutuante, reverberante e com aquele toque de vanguarda que consagrou tanto David Bowie.

A psicodelia e as referências tropicalistas refletem em “Deixa Voar”. “Leve e de espírito livre” seria uma boa maneira de resumir a balada que é ótima para cantar junto nos shows.

“Vida Inteira” tem acordes tão solares que nos primeiros segundos já te convida para dançar. É como olhar para trás e ver sua vida passar feito o piscar de olhos. Carrega esperança e conduz sua narrativa através das largas “avenidas” que temos que percorrer ao longo da vida.

Poesia que vira música. É esse o espírito de “Colorir de Carnavais” do poema de mesmo nome feito em parceria com Daniel Perroni Ratto. Vejo um pouco de jovem guarda, psicodelia e experimentações em seu instrumental saudosista. Os sintetizadores deixam tudo ainda mais viajante e a ~ balada do amor passageiro ~ fica ainda mais açucarada.

A alma sacana do rock’n’roll vive em “Hoje Eu Não Sou” que soa como uma tarde fumando uns cigarros, ouvindo Rolling Stones, enquanto planeja sua próxima investida. Com aquele espírito dandy e a vontade de ser sufocado pela intensidade de um novo affair.

A primeira canção que me despertou a vontade de ouvir o disco foi justamente ler em seu encarte a curiosa track: “Os Novos Baianos Sapateiam na Garoa dos Sex Pistols”. Segundo o músico “a gente compôs numa noite inspirados nos quadros das respectivas bandas, que ficam no Teatro de Bolso do IV Mundo.”

Mas o curioso fica por parte das metáforas e da transformação em sua musicalidade ao longo de sua estrutura. Começa canastrona feito os punks ingleses e cai no samba-rock/mpb dos Novos Baianos com certa astúcia. A combinação improvável tem toda a graça justamente por seu tom boêmio, perdido na noite e poesia um tanto quanto dadaísta.

Foi só falar em dadaísmo que entramos na barca da loucura em “O Alienista da Vila Romana” que me remete até a esquizofrenia e ironia dos poetas espanhóis do século XX. Tatá até encara ela como uma espécie de “filme falado”.

Tem protesto, trechos abstratos, devaneios, musicalidade indefinida, pluralidade de vozes, ritmo desenfreado….uma confusão que de fato traduz muito sobre o contraste entre a rotina versus a vida noturna da cidade que se recusa a dormir.

Traz para dentro da roda a epifania, os delírios, as drogas, o escapismo, o esgotamento, os conflitos sociais, os desvios de conduta e os gritos inaudíveis em uma multidão que tem tanto para falar – e muitas vezes esquece de parar para ouvir.


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Em seu novo disco, Alma de Gato, o músico paulista Tatá Aeroplano faz o recorte para o bairro da Vila Romana, zona oeste de São Paulo, mas dialoga de tabela com outros redutos e cantos desta metrópole tão plural. Ele chega cheio de histórias para contar e traz um pouco de sua intensidade para contornarmos “nossa insanidade”.

Através de suas andanças e histórias pessoais, ele compartilha, através de poesias e belas metáforas, um pouco sobre o momento que estamos vivendo. Nossos medos, aflições, amores, descobertas e desilusões. Conseguindo traduzir assim o espírito de sobrevivência em meio a tempos difíceis, contestadores e repletos de incertezas.

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