[Cobertura] Carbona Fest é noite de resgate das good vibes da adolescência

Após realizar uma mini-turnê ao lado de bandas como Zumbis do Espaço e Magaivers, que passou por São Paulo, interior e Curitiba, tendo a companhia de Fred Castro (Raimundos) nas baquetas, o Carbona voltou energizado para a capital carioca. Ainda mais com a notícia da confirmação da banda como abertura do show do CJ Ramone em São Paulo no dia 17/11.

Na semana passada o Dan Menezes, da banda carioca Venus Café, esteve presente para conferir o Carbona Fest. Ele conta com exclusividade para o Hits Perdidos suas impressões. A partir daqui ele que assume o comando.

Lembra quando a vida era sair de casa sem planejar nada, ir a um show, encontrar amigos, se divertir e voltar pra casa leve? Momentos assim estão cada vez mais raros, tanto pela desgraça no país quanto por questões individuais como idade e responsabilidades. Na última quinta, coube aos veteranos do Carbona nos lembrar que esta alegria ainda existe e não precisa ficar só na memória.

Esta ilha de leveza ocorreu no Rio de Janeiro, pleno epicentro da onda fascista que ameaça nosso país, na Audio Rebel, tradicional casa de resistência independente nesta cidade tão caótica. Lugar ideal para receber um evento que teve como tônica a simplicidade, no melhor sentido da palavra, o de “pureza”: uma respeitada banda com vinte anos de luta no cenário punk nacional recebe amigos no quintal de casa, tendo os projetos paralelos de seus integrantes como shows de abertura. Fácil e gostoso como mascar um chiclete – trocadilho intencional (risos).

O show de abertura deveria caber ao patrón Henrique Badke, frontman do Carbona e organizador do evento, que está lançando mais mais um ótimo álbum solo. No entanto, acabou não acontecendo, pela correria do tempo e os percalços logísticos da hora do rush em uma cidade grande. Uma pena, estava doido para conferir ao vivo, mas o público estava confortável naquela certeza de que os super heróis sempre salvam o mundo no final…

Curiosamente, a salvação do mundo começou com um alienígena: Bjørn Hovland, o outro guitarrista do Carbona, com seu projeto Robotron, autodeclarado “música instrumental intergalática”. Traduzindo para o nosso planeta significa uma surf music de ótima qualidade, exatamente na trilha da maior referência na Via Láctea sobre o tema, o Man…or Astroman?.

Ao vivo, as músicas do EP Gorgonzolah´s Revenge (2018) ganharam vida com o reforço dos tarimbados Pavio e Fernando (RATS, Canastra, entre outros), que lidaram bem com a aventura de uma banda montada em cima da hora e esbanjaram energia.

Ah, o Bjørn é meio norueguês – isso não tem nenhuma relevância neste texto, mas sempre que falam dele, seja escrito ou até mesmo pessoalmente, isto é mencionado. Então cá estou eu alimentando esta estatística =P


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Logo depois, sobem ao palco Melvin & os Inoxidáveis, projeto paralelo do incansável Melvin Ribeiro, que já ultrapassou a marca de mil shows na carreira e fez rolê com praticamente toda banda independente no RJ – daí a piada que corre aqui na cidade: “se você nunca tocou com o Melvin, você não teve banda”. Acompanhado de um supergrupo (Guga Bruno, Marcelão de Sá e Rodrigo Barba), Melvin mostrou o EP autointitulado, um delicioso passeio pelo indie onde ele larga o baixo e vira frontman. É um dos meus álbuns favoritos de 2018.

No meio do show, o amp do guitarrista Guga Bruno (ex-Lasciva Lula e com produtiva carreira solo) dá problema. O que seria um problemão para uma banda normal foi tirado de letra por Melvin, que aproveitou o fato de que era amigo das cem pessoas que lotavam o evento para destilar piadas, contar causos de seu livro sobre a vida na estrada até os mil shows e ainda nos presentear com uma rendição a “Island in The Sun”, do Weezer – nosso herói é superfã deles, já fez show de abertura (ninguém me contou, eu estava lá) e ainda, segundo relatos, é amigo pessoal do vocalista Rivers Cuomo.


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Lá pelas 21 horas o batsinal aparece no teto: Carbona no palco! E o que se viu foi uma banda espertíssima, entrosada e sorrindo o tempo todo. O time de Henrique, Melvin e Bjørn ganha o reforço estelar de Fred Castro, que ofereceu a valiosa experiência de quinze anos nas baquetas dos Raimundos para ganhar em troca algo maior ainda: um sorriso que eu não me lembrava de ver no rosto dele nem com a gigante banda de Brasília. Tocou solto e tocou muito, algo legal de se ver.

Esta alegria dos músicos transbordou para o público. Na frente, uma molecada pulando e cantando cada santa palavra de todas as músicas, uma energia que empolgava mais ainda o vocalista Henrique toda vez que vinha para o meio dessa galera. No fundo, jovens senhores contemporâneos da banda (como eu), exibindo com orgulho suas primeiras rugas na testa ao ficar sorrindo por uma hora ininterrupta com essa viagem ao passado recente. Nos lados do palco, lindas crianças que vão ser o Carbona do futuro.

“43”, “Fliperama”, “Felicidade incondicional”, “Eu Quero Ir Pro Japão”: foi uma chuva de clássicos que marcaram a vida de todo mundo que estava lá. Um ponto alto foi o cover do hino “Sempre Que Eu Fico Feliz Eu Bebo”, do Gramofocas, banda-irmã deles. Teve também o Melvin retomando o microfone para uma bela leitura de “Straight to Endure” do Ramones, momento em que a noite assumiu cara de culto bubblegum, tanto no palco quanto no público.


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Como uma boa aventura em quadrinhos ou um videogame, um grand finale: um rapaz sai da plateia para cantar com eles para cantar “Meu Primeiro All Star”. Trata-se do figuraça Lucas Araújo, da banda Meu Funeral, expoente da nova safra do hardcore carioca. Se você não ouviu ainda o álbum que eles lançaram este ano, é para fechar esta janela, correr pro streaming e ouvir.

Para quem já estava com saudade de uma noite que nem tinha acabado, Henrique e Lucas anunciaram um BONUS ROUND: a vibe estava tão boa que eles acertaram às pressas com a casa e na quinta seguinte (25/10, esta semana) terá show do Carbona, Meu Funeral e Phone Trio, que faz um punk pop que não dá pra acreditar que não é gringo. É, lá estarei eu novamente, mesma hora e bat-local.


Carbona Fest-24
Lucas Araújo (Meu Funeral) faz participação e anuncia show surpresa na semana seguinte. – Foto Por: Dan Menezes

Nunca fui a uma reunião de ex-alunos da minha escola. E nunca iria, até porque odiei essa fase, eu era um punk rocker de cabelo colorido e todo mundo me zoava. Mas num mundo imaginário onde todo mundo fosse parecido comigo, ou pelo menos um mundo onde não tivesse tanto filha da puta, uma reunião de alumni da minha Rock n’ Roll High School seria assim: alegria, amizade, respeito, cerveja, guitarra, baixo e bateria. Três acordes e só.

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