[Premiere] Monza tira o nó na garganta e discute as relações humanas em “Bonsai”

O que é a felicidade? Definitivamente é um conceito relativo. O que é ser feliz para mim não necessariamente é para você e vice-versa. Agora imagine um universo onde o amor e outras relações humanas inibem a possibilidade de momentos de felicidade.

É sob esse conceito utópico que a banda paulistana Monza se inspirou para o álbum sucessor de Hoje Foi um Dia Fantástico (2016), Bonsai que sai hoje em Premiere no Hits Perdidos. Assim como o registro anterior o disco sai pelo selo Freak.

“A ideia é criar um universo onde o amor e outras relações humanas inibem a possibilidade de momentos de felicidade. Não é um olhar pessimista, mas que contempla a angústia como parte do todo. Bonsai é isso. A beleza e o cerceamento. Os percalços, o preço que se paga.”, conta a banda

Pude conhecer a banda da melhor forma possível: no palco. Em um show realizado na Jai Club, um festival da Freak que contou com Monza, Mel Azul e Moblins. Cheguei cedo e pude ver a apresentação da Monza que foi a responsável pela abertura da noite.

Lembro que na época me lembrou um pouco uma mistura de Weezer e Wilco, achei divertido. Nada como a impressão ao vivo antes de ouvir um disco. O primeiro lançamento inclusive chegou a figurar diversas listas de melhores daquele ano.

Em sua formação o conjunto conta com Fábio Leão (Baixo), Felipe Misale (Voz e Guitarra), Francisco Fernandes (Guitarra) e Luca Galego (Bateria). Segundo eles a perceptível evolução sonora, em relação ao primeiro disco, se dá pela entrada do baixista, por ter tido a oportunidade de produzir o próprio disco sem ter pressa; e pela procura por novas referências e texturas.


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Monza lança hoje seu segundo disco, Bonsai. – Foto Por: Carlos Oliveira

MonzaBonsai (21/09/2018)

O disco foi gravado por Fábio Leão, também baixista da Monza, conta com mixagem e masterização assinadas por Guilherme Chiapetta. Como eles frisam, as faixas foram produzidas pela própria banda. Já a capa é obra de Eduardo Sancinetti.

Essa visão niilista sobre as relações humanas é reflexo de experiências pessoais e seus desdobramentos. Mas de fato a perspectiva apresentada no novo registro faz com que ao longo de suas 7 faixas o ouvinte faça uma reflexão sobre a complexidade – e distanciamento – dos relacionamentos em nossos dias.



Bonsai começa logo com “Travessa”, single que na semana passada ganhou um lyric video viajante, assim como a faixa que flutua por um dream pop bastante cativante, me lembrando o disco delicioso do Real Estate, Atlas (2016).

Claro que o álbum ia começar falando sobre os pequenos detalhes que fazem com que a felicidade de fato não seja consumada. As confusões, a névoas, os conflitos, sua passividade e perplexidade. É bom lembrar que no universo do disco não existe “felicidade”. Já o vídeo foi dirigido por Carolina Ruffeil e editado por Enio Vital.



O freio nas expectativas, a auto-sabotagem e se “podar” são parte das raízes deste “Bonsai” retratado ao longo do disco. Tudo é metafórico e da abertura a diversas  interpretações. Requer certa sensibilidade para captar esta frequência.

Na sequência temos “Zero” que mostra como muitas vezes nos anulamos em meio a situações dentro das relações. Como de certa forma temos um medo inicial em mostrar nossas fragilidades, defeitos e como com o passar do tempo tendemos a nos sabotar (para não arruinar tudo).

As pequenas mágoas sendo guardadas dentro de si geralmente resultam em algo nocivo. De certa forma eles discutem na faixa a linha tênue ente individualismo e o egoísmo que uma relação não muito feliz pode nos levar.

“Bem” é uma faixa semi-acústica que pisa no freio e fala sobre o distanciamento – e as realidades paralelas que imaginamos de alguém que algum dia foi algo mas que agora é só mais uma memória no horizonte.

Para mim essa faixa faz um paralelo – em sua sonoridade – entre aquela antiga referência de Wilco que eu notei naquele primeiro show, lá em 2016, e as novas texturas exploradas em Bonsai.

As indefinições ganham terreno em “Leve” que trás uma sequência rítmica interessante – e imersiva. A canção fala sobre os fins “confusos” em que não sabemos que rumo aquilo tomou, algo niilista e conflituoso que irá agradar a fãs de Terno Rei e post-rock. Destaque para o trabalho de guitarras, solos e sensação de sufoco que sua harmonia proporciona que combina com o andamento de sua letra. O desgaste sendo consumado.

A melancolia ganha asas em “Japão” que mais uma vez toca no sentimento de nostalgia, distanciamento, aborda o conflito e a incapacidade em lidar com uma situação não resolvida. A balada para ligar o isqueiro e falar: “cara vai ficar tudo bem”.

Feito o olhar no retrovisor chega de mansinho “De Longe” que retoma mais uma vez a nostalgia “interrompida”, seguir em frente mas ter aquele desabafo eternizado dentro de sua garganta. O estar e o não estar ganha uma metáfora bem consistente nesta canção. Auto-sabotagem, o famoso engolir sapos para não ter que aguentar o pior. Já que a indiferença por sua vez é um dos maiores crimes dentro de qualquer tipo de relação.

Diferente das outras faixas, a melodia de “Se Eu Não Voltar” é mais animada. Com groove em seu instrumental e um pouco mais “solar”, por mais que a ressaca e o escapismo estarem presentes em sua letra.

Como Francisco diz em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos: “A parte feliz chega nos 45 do segundo tempo, já com os créditos rolando. O momento feliz é tão efêmero e pontual, que não vale a pena nem ser retratado.”

Pois bem, os créditos descem e Bonsai se encerra.


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Arte Por: Eduardo Sancinetti. 

O segundo álbum da banda paulistana Monza, Bonsai, dialoga sobre um universo particular onde o amor e as outras relações humanas inibem a possibilidade de momentos de felicidade. Por mais angustiante que isso soe, e seja, a perspectiva sobre a “não felicidade” resulta em algo niilista e nos mostra uma outra maneira de enxergar a beleza nas pequenas “derrotas” de relacionamentos que não deram (tão) certo. Sendo no fim o caminho mais importante que o seu destino final.

Tem auto-flagelo, podamento, medos, inseguranças e reflete a efemeridade dos momentos de felicidade. O registro que mostra uma evolução do conjunto flerta com rock alternativo, dream pop e jungle pop. Pode agradar fãs de bandas como Real Estate, Kurt Ville, Wavves, Mac Demarco e Wilco.

Entrevista

[Hits Perdidos] Após dois anos vocês estão lançando o segundo disco. Nele vocês falam sobre “um universo onde o amor e outras relações humanas inibem a possibilidade de momentos de felicidade.” Queria que contassem de onde veio essa ideia tão paradoxal de seu conceito.

Francisco: “É um pouco sobre a forma como experiências doloridas parecem validar as relações. Meio como exemplo: não tem filme água-com-açúcar de amor, sem que exista uma crise sinistra pra se resolver. A parte feliz chega nos 45 do segundo tempo, já com os créditos rolando. O momento feliz é tão efêmero e pontual, que não vale a pena nem ser retratado.

Tem um pouco daquela história do caminho ser mais importante que o destino, mas nesse caso o lance acaba se tornando um pouco cruel. Ao mesmo tempo, ver beleza nisso também é interessante e talvez a única forma de encarar a vivência de um jeito mais leve. É o que a gente tenta fazer, eu acho.”

Felipe: “Eu ainda somaria isso ao poder devastador da auto-sabotagem. Quando tá tudo legal e você acha um problema pra encanar e mudar seu modus operandi sobre um relacionamento, trabalho, amigos etc…É quase uma forma de se desculpar dos erros machucando ainda mais os outros.”

Luca: “Foi daí meio que veio o nome do disco também – Bonsai tem esse lance de ficar podando pra ficar pequeno, não deixar crescer demais e ficar aquela árvore grandona.”

[Hits Perdidos] Na visão de vocês o que percebem que tem mais “angustiado” as relações? Acham que tem alguma relação com a frieza do “estar e não estar” dos nossos tempos?

Felipe: “Daria pra fazer uma lista infinita, mas arrisco dizer, ao meu ver, que é a falta de tempo, sobretudo a noção de tempo que anda muito fora de sincronia com as relações humanas. Ainda não sei se isso em parte é coisa da internet (pra citar o hoje) que é essa ferramenta de possibilidades do estar e do não estar, principalmente no campo afetivo…Mas claro, esses distanciamentos, sem culpar o mundo, são escolhas, mesmo que muitas vezes não compreendidas ou respeitadas…”

Francisco: “O lance do “estar e não estar” é realmente um esquema que angustia. A gente escreveu “De longe” pensando nisso. A música é uma tentativa de aliviar um pouco dessa barra. A gente se distancia mesmo, fisicamente ou não, por “n” motivos, e às vezes é importante mostrar que ainda está presente. Que ainda existe preocupação, se mostrar disponível…”

Luca: “Total… a gente acaba resolvendo muitas coisas importantes à distância. Se isso é bom por um lado porque ganhamos agilidade, pode ser zoado porque ninguém precisa se ver mais cara a cara, sentir o que o outro quer dizer mesmo. A convivência fica estranha às vezes.”


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O novo álbum foi produzido pela própria banda, – Foto Por: Carlos Oliveira

[Hits Perdidos] Em relação ao primeiro disco consigo notar que vocês adicionaram novas referências e experimentações no instrumental. O que andam ouvindo e para onde sentem que a sonoridade está caminhando?

Felipe: “A maioria das canções do “Hoje foi um dia fantástico” completaram quase 6 anos, eu acho…já as canções do Bonsai começaram a ser esboçadas logo após o lançamento do primeiro disco em 2016.

Muita coisa mudou de lá pra cá. De certa forma, a gente também se atentou mais a questão de equipamentos pra achar texturas mais interessantes e um dos principais fatores da mudança também foi a entrada do Fábio como baixista dando uma possibilidade de escrita maior, né Fábio…”

Francisco: “Em relação à sonoridade, mais do que novas referências, acho que mudamos demais a forma de produzir. Começamos o disco já como quarteto e com vontade de explorar algumas outras possibilidades dos instrumentos. Gravamos por conta própria também, no estúdio do Fábio, o que deu uma liberdade absurda pra tentar, errar, corrigir.

Falando do meu lado, por exemplo, existem camadas de guitarra ali, que dificilmente surgiriam num esquema “hora de estúdio”. Tomou bastante tempo e foi bem trabalhoso, mas a gente gostou bastante de ir por esse caminho.”

Luca: “Com certeza o que temos ouvido hoje mudou de tempos pra cá, mas acho que o que mais influenciou a sonoridade do disco foi o ponto de fazer com mais tempo, com essa mentalidade de experimentar um pouco mais. Mesmo assim sinto que ainda temos um medinho de nos soltar 100% na produção das faixas, mas normal.”

[Hits Perdidos] Em “Zero” ao meu ver é uma canção sobre “egoísmo”, “remorso” e “conflito”. “Bem” e “Japão” já trazem os reflexos da solidão e o distanciamento, “Leve” mostra as inseguranças e incertezas. A ideia era justamente de que cada música soasse como um capítulo da história? Como vocês enxergam o andamento do álbum?

Francisco: “É louco que, no fim das contas, as músicas tenham retratado conflitos diferentes. O ponto de partida delas, eu acredito, talvez tenha sido o mesmo. Acho que a gente acaba escrevendo sobre as coisas que estão ali, na cara, meio que pedindo pra sair. Seria legal dizer que a gente pensou nesses capítulos, mas nem foi o caso. Pelo menos, enquanto obra. Fora dela, sim, acho que são trechos pelos quais a gente passou, em algum momento ou outro.”

Luca: “É, de fato não foi pensado. Foi bem natural, né? O que saiu, saiu e sem dúvida é reflexo do que tem guardado pra falar e sai em forma de letra, de música.”

[Hits Perdidos] Vocês falam que não é um disco pessimista por si só, mas dentro do universo dos relacionamentos me soa como algo pós-moderno, feito o roteiro de um filme de ficção científica. Já viajaram na ideia de fazer um curta metragem para discutir essas “passagens”?

Francisco: “Acho que o filme tem uma relação mais forte com a realidade. Corta umas arestas. Na música a coisa tá lá e esses perrengues todos se encaixam com a experiência de quem escuta de um jeito mais fluido. Quer dizer, eu acho. Se pãns teria medo de entrar na onda do curta (risos).”

Felipe: “Então, nunca tinha enxergado essa possibilidade audiovisual, mas no fim, quase sempre as músicas carregam esse tom dramático de “Que porra eu to fazendo da minha vida?” meio que misturado com ciladas, instituições, rotina e a famigerada ansiedade da vida moderna. Sempre tentando escapar delas pra um fim…”

Luca: “A ideia é bem louca! Mas se pra gente fazer clipe já é foda… imagina um curta, bicho! (risos).”

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