“Thinking Out Loud” do Moons é um dos discos mais belos e intensos de 2018

Não escrevi sobre este disco quando saiu. Não porque não o tinha em mãos mas porque senti que ele tinha que ser amadurecido e a cada audição ele foi como um bom vinho ficando cada vez melhor.

Sua produção, texturas, sensibilidade e atemporalidade que fazem com que ele se destaque entre tantos outros. Não é à toa que o segundo disco do Moons, Thinking Out Loud, ganhou destaque na lista de meio de ano pelo Marcelo Costa, editor do renomado Scream & Yell.

Aliás a analogia que fiz sobre o vinho é ótima para ilustrar o que é o disco. Tanto por sua sensualidade como pela naturalidade com que aborda os pequenos (e intensos) momentos da vida. Mas também por flertar com o noir, a nouvelle vague em sua produção.

Melancólico? Artístico? Flutuante? Intenso? Intimista? Tudo isso e um pouco mais faz parte da obra elaborada com delicadeza e beleza por André Travassos (voz, guitarra, violão e auto harp – Ex-Câmara), Bernardo Bauer (voz e baixo – Pequeno Céu), Digo Leite (voz, gaita, banjo, harmônica e violão), Felipe D’Angelo (voz, teclado, piano e guitarra), Jennifer Souza (voz e guitarra – Transmissor), Tiago Eiras (bateria e percussão – Dibigode) e Victor Magalhães (teclado, piano e synths – Iconili). Além de colaborações do maestro Rodrigo Garcia (Cartoon) nos arranjos de cordas.


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Moons. – Foto: Divulgação

Assim como no elogiado primeiro álbum, Songs of Wood & Fire (2016), o registro foi gravado em parceria com o produtor Leonardo Marques no Estúdio Ilha do Corvo. Só que dessa vez a banda mineira lançou seu disco através do selo independente paulista Balaclava Records.

Moons – Thinking Out Loud (25/05/2018)

Se em Songs of Wood & Fire tínhamos a notável influência de Nick Drake, autor da obra prima Pink Moon (1972) mas que teve sua vida abreviada aos 26, o novo disco também bebe desta fonte mas ao meu ver de uma maneira mais amadurecida e procurando novas texturas, adicionando referências e deixando sua narrativa com ainda mais detalhes.



Como disse anteriormente o disco vai crescendo lentamente feito uma faísca de fogo que ganha contornos e nos permite criar diversas narrativas. Todas profundas e com referências que podem vir de obras de arte, cinema, literatura a seriados como o clássico Twin Peaks (1991).

Sensibilidade é tanta que cada canção isolada poderia compor a trilha de algum filme. Capacidade esta que para mim cabe também nas discografias de artistas como Big Star e Elliott Smith.

“Vik’s Dream” tem o poder de te situar e através de seus acordes e texturas te convida para um passeio sem amarras ou medos. As harmonias e a delicadeza dos instrumentos te deixam relaxado e pronto para encarar o que está por vir. O piano é o fio condutor e sua letra leve provoca e deixa o clima propício para a viagem.

Já “Moons” entra com o coração partido ao meio e oferece amor. Com um folk lo-fi e ambientado em camadas, o lado galanteador entra em cena mostrando suas armas, suas inseguranças, seu refúgio e porto seguro.

“Fire Walks With Me” consegue mesclar o folk de Bob Dylan, o country e o alternativo. O rústico com o moderno cria justamente um “chiado” interessante que mostra como o fogo ardente ganha (ainda) mais faíscas. Daquelas canções que mostram como o flutuar se faz presente em vários momentos do registro.

Chegamos a uma das mais bonitas, confessionais, introspectivas faixas. Ela que por sua vez carrega a característica de trovador. A bela e mística “My Cave” é tão pop e radiofônica que até chega a derreter o botão do player em que ela estiver sendo executada.

Segurando tudo isso basicamente com a vozes e violão, perfeita para ser tocada em shows intimistas como a banda tem feito em casas por aí (basta acompanhar o instagram do Moons).

Fãs de Neil Young, Bob Dylan, Woody Guthrie, Kurt Ville, Joe Strummer, Wilco e Leonard Cohen vão gostar da levada narrativa – e descritiva – de “Hazy” que traz esse tom olho no olho, fogueira e senta que lá vem a história.

A faixa título “Thinking Out Loud” me lembrou de cara um misto de Benjamin Gibbard e Nick Drake pela forma triste e de término que ela carrega. O lamento e desolamento são muito bem explorados pelos elementos e instrumentos que acompanham – e potencializam sua melancolia.

“Moons Reprise” é uma versão mais curta (de “Moons”) e feito um interlúdio cria um elo para o andamento do disco. Permitindo assim ao ouvinte um tempo para que ele reflita ouvindo aqueles dizeres.

“A Dive Into You” tem uma introdução de 40 segundos e é ardente ao descrever os pequenos prazeres de uma relação a dois. Deixando a chama se espalhar – e equalizar – de maneira bastante íntima.

Um dos grandes destaques do disco fica justamente para este miolo final do disco com a linda “In a Silent Mood” onde Jennifer Souza assume os vocais principais e mostra seu talento em uma canção que tem arranjos como os de Mazzy Star – uma das bandas preferidas de Kurt Cobain – e Wilco. Uma canção com um refrão para cantar junto: “Nothing is more mysterious than the look of a woman in a silent mood.”

Mas talvez uma das mais marcantes por sua progressão seja justamente “In Love We Trust” por toda a sua temática de amores, cicatrizes e fantasmas ganhando o centro da composição.

O que deixa ela bonita também é como os vocais de André e Jennifer se alternam de maneira intensa e precisa. Uma das influências do disco é justamente notada aqui, a do vencedor de Grammy, Bon Iver.

O disco se encerra da única maneira possível: com distorções, vibrações e corações esfacelados.


Capa


O segundo álbum do Moons, Thinking Out Loud, é um dos mais belos lançamentos de 2018. Muito disso por sua capacidade em transmitir seus sentimentos, desejos, inseguranças e divagações sobre as pequenas coisas da vida de maneira simples.

Ao mesmo tempo a beleza também vive em seus arranjos sofisticados e harmonias tocantes que trazem uma sensação de nostalgia – e expansão. Com referências no Folk, alternativo, country e no rock, o registro ainda vai dar o que falar nas listas de melhores do ano. Podem anotar e cobrar!

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