[Premiere] Ansiedade, depressão e conectividade em rede são o norte do novo disco da Catavento

O que a sociedade espera de um jovem em nossos tempos? Quais são as cobranças? O que o aflige? Para onde ele quer ir? O que faz com que ele se sinta deslocado? Quais pressões sociais ele tem que lidar no dia-a-dia? Como é a relação com a cidade, bairro e círculo social? Como ele se comporta tanto offline como online? Como isso repercute em suas relações?

Todas essas perguntas são muito contemporâneas assim como as consequências das “perdas” no meio deste caminho. A sociedade espera muito do jovem e a cada dia mais cedo impõe a ele que encontre seu lugar ao sol.

Isso naturalmente demanda mais esforço, qualificação e sociabilidade para que desta forma consiga traçar planos para que assim tenha a possibilidade de alcançar seus objetivos. O que demanda na maioria das vezes planejamento e tempo.

Por mais que cada vez mais vivamos em um mundo colaborativo, o espírito de selva de pedra e competição acaba se aflorando. O que gera diversos vazios e isolamento. O que muitas vezes pode levar para problemas de saúde como a ansiedade e a depressão. Os então chamados de “maus do século”.

A Catavento de Caxias do Sul (RS) em seu terceiro disco lançado nesta sexta-feira (03) através do selo Honey Bomb Records com apoio da Natura Musical tenta falar sobre todo esse cenário da tal da Ansiedade na Cidade, suas consequências, dilemas e aflições.


Catavento por Rodolfo Cemin 04
Catavento lança seu terceiro disco com o apoio da Natura Musical. – Foto Por: Rodolfo Cemin

Em sua formação a banda conta com Leonardo Lucena (vocal, guitarra e baixo), Leonardo Sandi (vocal, guitarra e teclado aika), Eduardo Panozzo (baixo, guitarra e vocal), Johnny Boaventura (vocal, piano elétrico e teclados), Francisco Maffei (samples, sintetizadores, guitarras e vozes), Lucas Bustince (bateria e percussões) e  Jonas Bustince (percussões e bateria).

Em constante evolução e por procura de novas sonoridades, se ouvimos isoladamente cada um dos discos da banda vemos que eles não se acomodam em seguir uma fórmula. O que para mim é algo bastante positivo e deixa com que o ouvinte sempre tenha a chance de ser surpreendido. A psicodelia une os registros mas neste novo disco sinto que o mergulho no jazz é algo potencializado e ajuda a criar novas texturas.

Não é a toa que eles citam como importantes referências artistas como: Arthur Verocai, Marcos Vale e Ana Mazzoti (Desenvolvimento). Mas a Catavento também sempre se conectou com o que estava acontecendo lá fora, se nos primeiros registros era evidente influências como Tame Impala e Boogarins, agora eles somam com artistas como Beach Fossils, BADBADNOTGOOD e os sensacionais Vulpeck.

“O som e a história dela influenciaram bastante a gente nesse período. Ouvimos também King Krule, BADBADNOTGOOD, Beach Fossils, DIIV. Nossos amigos do Boogarins também nos influenciaram de certa forma, assim como Apanhador Só, Ava Rocha, muito groove americano e neo soul R&B, Erykah Badu e Vulfpeck”, conta Jonas Bustince

Catavento Ansiedade na Cidade (03/08/2018)

O disco foi pré-produzido no estúdio Porão Honey Bomb. Algumas vozes foram gravadas no estúdio Retrola. Já a gravação do instrumental foi realizada no estúdio Audio Porto, em Porto Alegre (RS), sob supervisão de Felipe Magrinelli, engenheiro de som que já trabalhou com Lulu Santos, Os Paralamas do Sucesso, Titãs e Zé Ramalho. A produção é de Francisco Maffei, integrante da banda que também assina a mixagem e masterização.

“Ansiedade na Cidade aborda mais profundamente a dor, é bem menos utópico e escapista. Mais pé no chão, maduro no sentido natural da evolução de todos nós como pessoas e adultos”, conta Jonas sobre a abordagem do disco

O registro também conta com a participação do saxofonista Cléomenes Júnior, da banda Trabalhos Espaciais Manuais – que se você ainda não conhece, precisa conhecer! – faz uma participação especial tocando saxofone e flauta transversal em cinco faixas. Além disso o álbum conta com o adendo do piano elétrico em relação aos trabalhos anteriores.

“As músicas são fruto de pequenas ideias que foram surgindo ao longo de 2017. No início desse ano, nós nos mudamos para o porão, onde ensaiamos, gravamos e convivemos. Esse espaço foi essencial para a evolução de todos nós como músicos e como banda. A pré-produção no início de 2018 foi uma parte crucial pras músicas ficarem fechadinhas. Toda essa vivência de ensaios e das jams do ano passado foram absorvendo coisas que ouvimos”, relata Jonas.



O approach com o jazz já é notado nos primeiros segundos do disco que fazem uma ponte deliciosa entre a matemática do BADBADNOTGOOD e Vulpeak com a psicodelia brasileira. Esse resgate de parte da história da música brasileira com o que está mais evidente na música contemporânea acredito que dá uma liga interessante.

Em sua letra vemos trocadilhos com a timeline das redes sociais, seus barracos, egos inflados, dispersão, pão e circo, ódio, ignorância, afobação, medo por reprovação e falta de sintonia. A ilusão da “moeda social” como aprovação ou fracasso e as coisas da vida offline que realmente importam sendo deixadas a parte.

A internet ganha mais velocidade na seguinte, “Deus Conectado”. A frustração, paranoia e falta de respostas em atividades que contemplam o vazio fazem com que de fato tudo acabe um pouco “perdido”. E por consequência que a timeline de nossas vidas se torne de certa forma “incompleta”.

“Largatear” seria algo como ficar “de boa” e é isso que a “Lagartia”, canção composta por Eduardo Panozzo – e também cantor da faixa – projeta na canção. Assim como o Boogarins em algumas canções, a preocupação maior é ser sensorial e fazer com que o ouvinte se deixe levar. É psicodelia, mas traz o espírito do soul e R&B que deixam a energia leve e o pensamento distante dos pensamentos pesados e auto-sabotagens do dia-a-dia.

Como discorri na introdução, a insegurança e dificuldade de tomar um rumo acabam sendo complicadores para um jovem cidadão que amadurece na cidade e se vê muitas vezes comparado com outro.

Muitas vezes este esquece que por mais que estamos em uma sociedade em que tentam impor uma competição desenfreada a cada noticiário e “status” de rede social: cada um tem seu tempo para amadurecer e se encontrar como ser humano. É por essa linha que “Se Não Vai” tenta nos guiar.

Na sequência temos “Pança Úmida”, o primeiro single e clipe a ser disponibilizado do projeto até aqui. Nossa bolha social, turma, bairro e até mesmo cidade acabam moldando muito nossa visão de mundo e posicionamento em relação a muitas coisas.

Muito disso claro é involuntário. Absorvemos o bom e o ruim, as vezes aprendemos com a receptividade, outrora com o distanciamento e desconfiança, e quando vamos para outros lugares levamos um choque de cultura ao notar que o mundo é muito maior que nossa cômoda e viciada visão de mundo.

“Olhar pra sua sombra e dizer ‘eu te vejo’ pode ser um caminho de resolução interna e individual. Ao mesmo tempo, um caminho pra começar a enxergar o outro por uma nova perspectiva”, comenta Leo Sandi



Não há como negar com a proximidade das eleições que o clima está fervendo e produzir arte por si só é um ato político. No calor do momento e vendo essa distância entre o que o povo espera e o que as elites econômicas querem, vemos um abismo, que infelizmente na maioria das vezes estes “novos representantes”, que irão ser eleitos, muitas vezes não querem preencher.

A canção mostra como até passivamente o “esporro” será sentido e as consequências ficaram expostas como feridas ao longo do tempo. Tudo isso através de uma letra agressiva conduzida de maneira calma. O chicote estrala.

Quem disse que nessa geração não existem amores, idealismo, perspectivas e sonhos erra feio. Alguns muitas vezes tentam até fazer comparações com os anos 60 para referir a este anseio “hippie” de mundo ideal. A maior prova disso é “This is Life/Corre” que tenta falar sobre estas utopias e como seria isso se fosse algo alcançável.

Destacaria também o instrumental que ganha velocidade, sax, técnica e texturas a cada parte de sua construção. Faixa bastante contemplativa e umas que mais encoraja o ouvinte a se deixar levar por todo esse sentimento de querer abraçar o mundo a sua volta.

“Alergia Alergia” é uma das mais importantes do disco ao meu ver. Pois contempla a paranoia, depressão, raivas, ansiedade e vontade de se esconder em um buraco e nunca mais sair. A vontade de fugir feito um “doido varrido”, sem direção, objetivo ou destino final. Até por isso é sempre preciso lembrar e conversar com as pessoas para redescobrir que nunca estamos sozinhos, por mais que muitos ao longo da jornada irão te decepcionar.

Viver definitivamente não é uma simples equação e estamos dispostos a falhar, nos decepcionar e não sermos muitas vezes compreendidos. O piano e seus arranjos nos levam direto para os anos 70 e imagino como ouvir essa faixa direto do vinil deixaria a experiência ainda mais singular.

Apesar do romantismo o disco também tem os pés no chão na irônica e debochada “Paraíso do Terceiro Mundo” que lembra mais uma vez que o interesse dos poderosos na maioria das vezes se sobrepõe a nossos sonhos – e que vivemos em um mundo capitalista e sem pudores. Não é a toa que a música do plin plin é satirizada (enquanto novamente o chicote estrala ao fundo). Não é fácil viver em tempos de governo Temer e ter que lidar com os candidatos até aqui oficializados da corrida presidencial.

“Misturamos alguns sons clássicos do cotidiano brasileiro (fim de ano da Globo, música de Ano-Novo e ”Pra Frente Brasil”) em uma nova abordagem, para lembrar que o dinheiro ainda manda no mundo e que a gente se mata aqui embaixo, enquanto alguns poucos dão risada lá em cima”, diz Leo Sandi.

“Leve Agora Mesmo!” fecha o disco enaltecendo e agradecendo ao público que sempre apoiou a banda ao longo de sua existência e também reflete sobre o porque é necessário fazer arte. Que muito mais do que para entreter, é sobre se libertar, sonhar, resistir e reagir.

Gosto muito da estrutura da música de ter várias idas e vindas que fazem com que o ouvinte vá para bem longe e volte. A voz de certa forma em muitas horas atua também como um instrumento. O que envolve ainda mais o ouvinte, agora é ver como esta vai funcionar ao vivo.


CAPA_AnsiedadeNaCidade


O terceiro disco da Catavento se desconecta para se conectar. Se alimenta do interno e do externo, sofre, reage, é empático, tenta ver o mundo além do próprio umbigo sem deixar de ser romântico. Contesta, é político, diz muito sobre essa energia, caos de ideias e caminhada que estamos percorrendo. Sendo ela individual como coletiva. É idealista mas ao mesmo tempo nos lembra que tem vários “uns” que a rede plin plin não quer enxergar, que as oligarquias tem poder mas que só a solidariedade e coletivismo podem realmente transformar.

Fala sobre o complemento do On e Offline, seus ganhos e perdas deste estilo de vida baseado em likes e interações rasas. Toca em temas como a depressão, ansiedade, medos e inseguranças do dia-a-dia sob diferentes perspectivas.

Um grande ponto do disco é a conexão com a nossa rica psicodelia brasileira, o soul, o R&B e o Jazz. As músicas tem várias camadas, passagens e dinâmicas que fazem com que os seus 45 minutos passem voando. Acredito que tem tudo para ser um grande divisor de águas na carreira dos gaúchos e que continue abrindo ainda mais portas.

UPDATE (16/08)

Após a divulgação do álbum em streaming a banda gaúcha disponibilizou um mini-documentário sobre as gravações e o álbum no formato visual e você confere logo abaixo.



O mini documentário foi dirigido por de Diogo Alves de Severo, TV online 1Quarto. A emissora é parceira do selo administrado pelos integrantes do grupo, Honey Bomb Records.

“Diferente das produções curtas do canal, optei por cenas maiores e com menos cortes, procurando deixar o mais orgânico possível e tendo em mente que esse não é um trabalho pro agora, mas pro futuro, pra que a galera sempre lembre de continuar fazendo as coisas com coração e com tesão, por mais que a caminhada não seja fácil, tudo flui, o universo conspira e o momento atual é prova disso”, conta Diogo.

O vídeo mostra os 3 dias em que os integrantes estiveram na capital gaúcha gravando a base instrumental do disco no estúdio Audio Porto, sob supervisão de Felipe Magrinelli.

“Nos preparamos durante seis meses de pré-produção. Isso foi fundamental para que, na hora da gravação, com a banda toda tocando, a execução soasse tão boa quanto os equipamentos que estávamos usando.

Além disso, a pré-produção foi um período de muito ensaio, convivência e dedicação de todos os integrantes, muito trabalho em equipe rolando. Era inevitável e muito emocionante lembrar desse período de incubação quando ouvíamos os melhores takes de cada faixa”, diz Leonardo Lucena

O Álbum Visual

O vídeo conta com a participação de Gabriela Jardim, Pedro Rech, direção geral da Ilha 8C5A, direção de fotografia de Breno Dallas, Saimon C. Fortuna e montagem de Breno Dallas, Saimon C. Fortuna e Dinarte Paz.



Agenda

A banda inicia sua turnê de divulgação do disco já na próxima semana com shows em Caxias do Sul (09) @Teatro do Sesc, Porto Alegre (10) @Agulha, São Paulo (16 e 18) @CCSP e @Jardim Secreto, Piracicaba (18) @Locomotiva Festival, Sorocaba (19) @Asteroid Entretenimento, Rio de Janeiro (23) @Aparrelho e Juiz de Fora (25) @Necessaire.


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Os shows em São Paulo contarão com apresentação no palco do CCSP e na Feira Jardim Secreto. – Foto Por: Rodolfo Cemin

SERVIÇO:

9/8 Caxias do Sul @ Teatro do Sesc – Lançamento oficial Natura Musical
Horário abertura da casa: 19h
Horário shows: 20h
Local: Teatro do Sesc Caxias do Sul
Ingressos: R$20,00 (com CD) | R$10,00 (inteira) | R$5,00 (meia, comerciários, classe artística, professores)
Venda: Só ingressos físicos
Pontos de venda: Sesc Caxias do Sul e no Porão Honey Bomb

10/8 Porto Alegre @ Agulha – Lançamento oficial Natura Musical
Horário abertura da casa: 19h
Horário shows: 22h30min
Local: Rua Conselheiro Camargo, 300 – Bairro São Geraldo – Porto Alegre/RS – Próximo à estação de trensurb São Pedro e das linhas T3 e T8
Ingressos – Venda online: Lote promocional limitado: R$ 10 apenas na internet http://bit.ly/catagulha
Pontos de venda: Primeiro lote – Meia-entrada* / Solidário**: R$ 15 na internet (com opção de boleto bancário e parcelamento) e EM BREVE na Lancheria do Parque (Osvaldo Aranha, 1086 – Bairro Bom Fim) | Na hora – R$20,00

16/8 São Paulo @ CCSP – Lançamento oficial Natura Musical
Horário show: 21h
Local: CCSP – Rua Vergueiro, 1000 / Sala Adoniran Barbosa (622 lugares)
Ingressos – Venda online ou bilheteria: Ingresso Rápido Inteira: R$20 / Meia: R$10
Horário de funcionamento da bilheteria: De terça a sábado, das 13H às 21H30.
Domingos, das 13H às 20H30.

18/8 São Paulo @ Feira Jardim Secreto
Horário abertura da casa: 11h-20h
Horário shows: 15h
Local: Praça Dom Orione (Bixiga)
Entrada franca

18/8 Piracicaba @ Locomotiva Festival
Horário abertura da casa: 12h
Horário shows: 21h20
Local: Espaço Haras
Ingressos – Venda online

19/8 Sorocaba@ Asteroid Entretenimento
Horário abertura da casa: 18h
Horário shows:
Local: Asteroid Entretenimento
Ingressos: R$15,00
Venda online

23/8 Rio de Janeiro@ Aparelho – Lançamento oficial Natura Musical
Horário abertura da casa: 22h
Horário shows: 00h
Local: Praça Tiradentes, 85, Rio de Janeiro
Ingressos: R$20,00

25/8 Juiz de Fora @ Necessaire

Em Breve Mais Informações.

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