[Premiere] Para o alto e avante! “Libido” coroa os 20 anos dos Autoramas

Falar sobre a importância e relevância dos Autoramas para a música independente nacional é chover no molhado mas é algo extremamente necessário de ser lembrado em uma data tão especial. Formado em 1998, após o término do lendário Little Quail And The Mad Birds, o grupo completou 20 anos de sua fundação recentemente.

Na bagagem a banda conta com: 47 viagens para shows fora do Brasil por 23 países diferentes (só na Europa foram 15 turnês) e apresentações em todos os estados brasileiros. Não bastasse isso a banda hoje está lançando digitalmente seu oitavo álbum de estúdio que ganhará versões físicas em CD, LP e K7.

Conseguindo unir a genialidade de bandas como Rocket From The Crypt e Man Or Astro-Man, a ironia e deboche do punk rock, o lado dançante e futurista de bandas como DEVO e The B-52s, o espírito e reverência a jovem guarda de Erasmo e Roberto Carlos e a leveza da surf music, o grupo soube experimentar ao longo da carreira. Creio que a primeira lembrança que tenho da banda foi assistir ao divertido clipe de “Você Sabe” (Nada Pode Parar Os Autoramas – 2003) na extinta MTV Brasil.

A banda que já passou por uma série de formações conta atualmente com Gabriel Thomaz, Érika Martins, Jairo Fajer e Fabio Lima. Hoje eles apresentam Libido, oitavo full-length da carreira e que foi gravado em três estúdios: Edem Records (Americana / SP), Caffeine Studio (São Paulo / SP) e Fábrica dos Sonhos (São Paulo / SP).

O álbum teve faixas produzidas por Gabriel Thomaz, Bernardo Pacheco e Luis Tissot. O registro foi gravado por Alexandre Zastras, teve mixagem realizada pelo renomado produtor Jim Diamond (The Sonics, White Stripes), e foi masterizado por Billy Comodoro (Estúdio Delfina). O registro vem ao mundo em parceria com os selos Soundflat Records (Alemanha) e Hearts Bleed Blue (HBB).


Autoramas
Autoramas completa 20 anos e lança oitavo disco de estúdio. – Foto Por: Paulo Aguiar

Autoramas – Libido (20/07/2018)

O disco começa pulsante e te chama para a pista de dança com a debochada e rockeira “balada para sofás”, isto mesmo “Sofas, Armchairs and Chairs” brinca com a anatomia dos estofados. Nada mais rockeiro do que isso, não é mesmo? Desde a primeira canção já vemos que este registro está mais “punk” e sujo que os anteriores, algo que já era perceptível para quem pôde assistí-los recentemente.



O garage rock vai de encontro com os famosos efeitos de pedais, dos Autoramas, em “Creepy Echo”. A canção não perde o tom de “azaração” e o clima esquenta na pista entre as trocas de olhares e os riffs ácidos. Moderna e para cima, acredito que tem tudo para cair no gosto do exigente público britânico.

“Stressed Out” foi lançada como single ainda no mês passado e tem um espírito canastrão que bem que poderia retratar quem sabe algum CEO de empresa estressado que bufa pelos quatro cantos e distribui pela noite socos e pontapés. Porém é uma música sobre ter temperamento explosivo e perder o controle logo na primeira faísca.



O videoclipe, lançado no dia 14/06, foi dirigido por Leandro Franco, que costuma produzir animações, traz a temática de brincar com os Fanzines. Estes tão importantes para as bandas de rock, fazendo assim uma homenagem ao D.I.Y.

“A ideia era fazer uma animação em cima da estética (ou falta de) dos fanzines: xerox, recortes, retículas, P&B. O ritmo da animação tem tudo a ver com a batida dançante da música”, afirma Gabriel. “O clipe transmite nossas referencias, nossa cultura, nosso baile, nosso rock”, completa Jairo.

Assinam a direção Vebis Jr, & Leandro Franco, a produção foi realizada por Fillipe Moura. As animações também foram produzidas por Leandro. Uma curiosidade é que os fanzines que aparecem no clipe fazem parte da coleção do Renato Andrade e da Silvia Zahrah Fasioli.

“Homem-Cliché” já traz um pouco da surf music, rockabilly e new wave para o centro da pista. Fãs de Devo, The B-52s, The Ventures e Man Or Astro-Man vão se deliciar ouvindo a canção e com certeza irão dançar bastante. De certa forma a letra é rebelde. Irônica, ela alfineta o estilo de vida que sociedade tenta empurrar goela abaixo a todo momento. Aquele role model de vida perfeita e seus “tipinhos”.

Como é legal ver os Autoramas mais uma vez se aventurando no punk rock! É o que acontece na áspera “Ding Dong” que me remeteu na hora a vitalidade e potência de bandas como o Molho Negro e Dead Kennedys. Baixo no talo, efeitos alucinantes, letra simples e muita energia sendo dispersa nos amplificadores.

A canção inclusive ganhou um videoclipe em 360° nos últimos dias, este que foi idealizado pelo diretor Felipe Lavignatti. Com pouca luminosidade, o clipe abraça a modernidade para mostrar mais uma vez que eles estão conectados com os dias atuais.



Vocês já ouviram falar de Guitar Wolf? Sabe aquela sujeira raw e visceral? Ela vive em “Non-Practitioner” que de fato faz uma homenagem ao meu ver a todas as bandas de garagem sejam elas gigantes ou pequenas.

Acho que é por isso que a banda consegue conversar com os mais diversos tipos de público. Eu consigo imaginar tranquilamente fãs de Black Flag, Jerry Lee Lewis, The Sonics, The Subways e Minor Threat ouvindo essa canção felizes.

Se o álbum anterior se chamava O Futuro dos Autoramas (2016) neste disco temos uma canção que faz uma ponte com a sonoridade do já clássico álbum Música Crocante (2011). Mas porque citou os dois álbuns? Porque o nome da faixa é “No Futuro”.

Refrão catchy (chorus), trocadilho impossível de não ser feito, riff marcante, bateria na pressão, entre efeitos de pedais magnéticos e o sentimento de ansiedade pairando no ar. Se vivemos em uma geração de jovens sofrendo com ansiedade e depressão, esses questionamentos podem sim bater de várias formas diferentes em um ouvinte um pouco mais hiperativo.

Vejo muito The Cramps em “Eu Não Sei Mas Eu Não Sei (I Know But I Don’t Know)” e uma letra com a mesma temática de “Knowledge” do Operation Ivy em sua introdução. Os vocais de Érika e Gabriel com efeito dão a sensação de que eles estão falando através de uma escuta. É Cramps, é B-52s, é Oblivians, é Jetsons, é futurista e tem poeira espacial.

“Coisa Pra Caramba Pra Fazer” me agrada bastante por ter um aspecto de lado B, algo que gosto muito na banda Future Of The Left. Tem chiados, efeitos, perturba, e até parece música de videogame dos anos 80. Acredito que no vinil ela vai soar ainda mais legal para ouvir suas imperfeições e efeitos robóticos. Tem algo de industrial e pós-punk nela e me chamou a atenção por isso.

Se no disco Teletransporte (2007) temos “Panair do Brasil” e na capa de O Futuro dos Autoramas (2016) temos a temática de aviação forte, a referência é válida no álbum que celebra os 20 anos da banda. Mais tranquila, ela tem acordes leves como Dick Dale, vocais serenos como os da jovem guarda e olha para frente. E fica a pergunta no ar, 20 anos depois, qual será o futuro dos Autoramas?


Libido


O oitavo álbum dos Autoramas celebra os 20 anos da banda com muito dignidade, potência e peso. Reverencia sim diversas fases da banda mas traz punch, personalidade e riffs marcantes. Entre músicas para dançar, músicas para poguear e outras refletir.

Tem espaço para nostalgia, aposta tanto no inglês como no português, afinal a banda tem fãs ao redor do mundo e faz todo o sentido dentro de sua trajetória. Libido é um álbum sagaz, divertido, canastrão, sedutor, áspero, doce, conectado e mostra que a banda ainda tem muito a oferecer. Que venham mais vinte anos!

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