Coletânea “AfroIndie” quebra esteriótipos e mostra o poder da resistência

Produzir arte no país é por si só um ato de resistência. E as barreiras para o projeto ser bem sucedido são inúmeras. Em meio as mais diversas dificuldades como o de conseguir recursos para produzir, espaço para ter seu trabalho devidamente divulgado – e visto – existe também a dificuldade em ter sua arte aceita nos mais diversos segmentos e públicos.

Seja ela por identificação, preconceito, alcance, distância, interesse e até mesmo a ignorância. A própria cadeia produtiva limita o alcance de quem não atende a todas as demandas comerciais do showbizz e deixa as oportunidades nas mãos de poucos.

Transportamos tudo isso para a realidade da música independente. À margem das FMs, com muitos menos recursos e batalhando por espaço em pequenas e médias casas de show vemos algumas realidades.

Sejamos sinceros, quem em sua maioria frequenta as mais “cobiçadas” casas de shows no segmento rock alternativo de uma metrópole como São Paulo? Não é difícil notar que a maioria do público é composto por homens, brancos, da classe média e em sua maioria entre 20-40 anos.

Toda essa “eletização” é por muitas vezes silenciosa e pouco comentada entre os frequentadores. O que muitas vezes me deixa um pouco assustado. Claro que existem iniciativas para tentar mudar isso e até mesmo fazer com que a visibilidade do “rolê” seja maior mas ainda sinto que é algo tímido.

Por isso iniciativas como selos feministas, coletâneas como a AfroIndie e iniciativas de coletivos ao redor do país são trabalhos que por mais que só venham a ganhar visibilidade com o tempo: sejam extremamente necessárias.

AfroIndie


Capa AfroIndie - Larissa Rocha
A coletânea Afroindie foi lançada em Junho por artistas de 7 estados brasileiros. – Arte por: Larissa Rocha (Lolly) e Clara Anastácia.

Contendo 10 projetos musicais a iniciativa também reúne artistas visuais como Larissa Rocha e Clara Anastácia que assinam a capa da coletânea. Clara que também em breve deve lançar seu projeto musical homônimo.

Sem regras pré-estabelecidas sobre o conteúdo das canções, o coletivo de músicos e musicistas decidiu montar uma coletânea baseada no repertório que lhes é comum, a representatividade negra.

Lançado em Junho o projeto reúne artistas de 7 estados brasileiros e o que também os conectou foi a troca de ideias através da internet. Como eles mesmos citam a coletânea vai contra os esteriótipos que a sociedade tenta encaixar o negro e apresenta uma gama diversa de estilos.

Vale lembrar que é ainda a primeira edição da coletânea e que novas ideias surgem a cada instante mas uma coisa eles já deixam claro: “O intuito da coletânea é se reafirmar na luta contra o racismo e fortalecer pessoas negras que produzem música.”

“A coletânea é também um meio de colaborarmos um com o trabalho do outro, fortalecer a presença um do outro no espaço de artistas independentes no Brasil e catapultar nossas obras para além do nicho no qual nascemos enquanto artistas”, diz Valciãn Calixto, que trouxe o Axé Punk para a compilação 

Quem Participou?

A primeira edição da coletânea conta com faixas dos artistas: Abreu (Gravataí – RS), Amanda Soares (Curitiba / PR), Vidro/Pele Diego Robert (Goiânia / GO), Jonathan Tadeu (Belo Horizonte / MG), Marcus Vinícius Evaristo (Belo Horizonte / MG), Neiva (Niterói / RJ), Rawph (Curitiba / PR), Santos (Rio de Janeiro / RJ), Theuzitz (Jandira / SP) e Valciãn Calixto (Teresina / PI).

Ouça a Coletânea



Entrevista

Já que o assunto é serio e de extrema relevância: nada como deixar eles contarem mais sobre suas vivências, obstáculos e lutas diárias. Sendo assim, abri o espaço para que de maneira democrática eles tenham lugar de fala.

[Hits Perdidos] Queria que falassem sobre a motivação e a necessidade de uma coletânea como a AfroIndie.

Abreu: “Quebrar os estereótipos é o principal. Por mais que estejamos em plenos 2018, ainda existe e continuará existindo quem associe a imagem da pessoa negra somente a gêneros como o rap, o pagode, o funk…

Jamais esqueço de quando, na minha oitava série, um professor afirmou que eu era do samba pois isso estava em meu sangue, mesmo me vendo sempre vestido com calça rasgada, camisetas de bandas, etc. Hoje, já curtindo um samba, eu desejo que a coletânea chegue aos ouvidos dele.”

Valciãn Calixto: “Recentemente o Kanye se envolveu em uma polêmica ao comentar que 400 anos de escravidão dos negros pareceu opção, como se o negro não soubesse ou tivesse condições de se organizar, resistir, lutar contra o domínio branco e, de repente essa coletânea é tudo isso, uma maneira organizada e profissional de dar vazão à produção musical negra do nicho independente brasileiro. É um passo pequeno, uma fagulha, porém a AfroIndie abre precedentes para que tenhamos mais pés no futuro para passos maiores.”

Theuzitz: “O Brasil passou por um processo de embranquecimento violento durante os últimos dois séculos e fez com que a galera preta não se identificasse como tal e deixasse de se relacionar com os seus e com a sua cultura. Esse lugar de não-pertencimento atingiu boa parte da nossa população e fez o que a gente é hoje, crescendo com outras referências e tendo de lidar com isso, sendo estranho.

O Afroindie pra mim é a conexão de algumas dessas pessoas, produzindo essa nova cultura preta de terceiro mundo que assimilou muita coisa e é independente pra dizer e fazer o que quiser, longe de qualquer idealismo ou drama.”

Larissa Rocha: “Eu sempre curti e me identifiquei mais com música indie do que qualquer outro gênero. Mas nunca me identifiquei tanto com quem produz quanto nesse álbum. Artistas negrxs são estereotipadxs o tempo todo, e se a gente não é do samba/funk/rap, já fazem uma cara estranha, parece que sempre esperam que sejamos uma massa generalizada dentro de movimentos e sem individualidades.”

Rawph: “Acreditamos que a mobilização nos torna mais fortes, e é por isso que formar grupos de suporte acarreta em motivação pessoal. A necessidade de se fazer o Afroindie se deu a um sentimento que nós vivenciamos desde quando produzimos, lançamos e fazemos shows. O sentimento de não pertencimento, mas, não por nossa parte e também por esse estilo de música que não chega no negro e na negra geralmente habitante da periferia.”

Amanda Soares: “Nós vemos que é mais fácil para certas minorias ir às ruas e lutar pelos seus direitos e dar voz as sua diversidade, o movimento negro, no entanto, não está tão unificado, é mais complicado fazer essa movimentação, alguns dos motivos é o processo deembranquecimento e o esquecimento da nossa história e identidade, principalmente aqui no sul!

Existem negros no sul, diferente do que muitos pensam (!!), mas estamos mais distantes tanto do movimento quanto de representatividades (principalmente) e não estamos unidos, mas esse é um cenário que já começou a mudar e ter uma coletânea que contemple nossa diversidade é importante para que ao nos reconhecermos em determinado espaço majoritariamente ocupado por brancos, nos tornemos mais fortes e inspirados a mostrar a cara porque outras pessoas como nós também o fizeram, temos que ocupar e abrir espaços e desmistificar os estereótipos.”

[Hits Perdidos] Outro dia em um artigo de um site norte-americano vi um jornalista comentando “que a baixa popularidade do rock se devia aos melhores artistas do gênero atualmente serem negros ou mulheres, e que este fato faz com que a indústria dê menos espaço para o estilo dentro das paradas de sucesso.”

O que pensam sobre isso? E vocês já sofreram algum tipo de preconceito dentro do showbizz ou algum tipo de rejeição pelo fator “cor de pele”?

Abreu: “A indústria não está familiarizada com a negritude no rock. Pelo menos não a indústria de hoje. Por mais que eu esteja bem por fora do mundo do rock, creio que seja isso, esse conservadorismo que nasce e se acomoda no meio musical. A indústria não vai querer pôr todo o lance do dinheiro que sempre teve em risco, logo, mantém o que sempre foi comum a ela.”

Theuzitz: “Eu prefiro só responder a primeira pergunta. A baixa popularidade do rock não se deve a nada disso, porque o rock desde o início foi criado por artistas negros que foram apropriados e roubados por artistas brancos pra ser vendido enquanto um produto mais “palatável”, é muito conveniente afirmar isso agora.

Esses dias vi um post da Christiane (jogadora da seleção brasileira) em que ela fala sobre o quanto os torcedores da seleção masculina sempre lembravam delas e da Marta, quando o time dos homens ia mal. Em boa parte dos gêneros populares os melhores e mais inventivos artistas são negros e sempre foram, mas agora que o dinheiro tá começando a ser repartido de maneira justa, essa fala surge. É nojento.

Larissa Rocha: “Eu sou artista visual, fiz a capa. Participo de um coletivo de quadrinhos com um amigo branco, e sempre que elogiam o trabalho que fui eu que fiz, se dirigem a ele e não a mim e quando ele fala que fui eu que fiz, as pessoas ficam surpresas. Ligo isso mais à questão de gênero, mas é fato que no meio de quadrinhos indie pessoas negras aparecem muito pouco.”

Rawph: “Engraçado como o rock dominado por negros, negras e mulheres acaba caindo em popularidade. Já o hiphop, rap e funk que estão dominados por esses artistas estão em alta nos streamings, rádio e tv. Isso não só aqui como lá fora também.

O pior tipo de preconceito é o mais silencioso, até hoje eu nunca senti algo diretamente, mas, é aquela coisa… dentro do consumo de música dessa cena é bem visível uma certa visão diferenciada, muitas vezes indiferentes.”


Amanda Soares
Amanda Sores gravou a faixa “Dança do Sol” para a coletânea. – Foto: Divulgação

[Hits Perdidos] Queria que cada um de vocês falassem sobre os obstáculos e o momento que cada um tem vivido na carreira.

Abreu: “Bom, ao contrário do que foi dito bem atualmente num artigo sobre a coletânea, não sou estreante na música através da AfroIndie. Apesar de não fazer shows pela falta de popularidade e recursos, venho divulgando meu trabalho caseiríssimo desde 2016 no SoundCloud, com dois EPs já gravados e o terceiro em andamento. Também já tive um projeto bem amador chamado BartSad, com um amigo de Minas Gerais. Nosso EP Inomináveis Canções Demo está disponível no YouTube.



Valciãn Calixto: “Eu tenho observado que minha música consegue reverberar com mais força fora do meu estado, circular e repercutir, ser ouvida e compartilhada por sites, jornalistas, pessoas de fora mais do as daqui do Piauí. É um sintoma, mas não sei o nome dessa doença.”

Santos: “O momento que tô vivendo hoje é o de um maior planejamento de futuro. Sempre fui de planejar as coisas a longo prazo, agora tô planejando a longuíssimo, estabelecendo metas pros próximos anos, organizando melhor os lançamentos, etc. E tô também no momento de pré-produção do meu próximo disco, além da organização dos próximos materiais do meu disco recente.

Em relação à questão de pele, o maior obstáculo é o formato, com certeza. O público desse projeto meu é em maioria branco. A maior quantidade de pessoas em envolvidas nos meus discos desde o primeiro foi branca. E por aí vai. Há um obstáculo que é de conhecimento e pesquisa. Nos vão aparecendo apoiadores nesse nicho e a maioria é branca. E nós vamos aceitando, até que percebemos que estamos cercados por mais brancos que pretos.

Vez ou outra pode ocorrer alguma parada que nos deixe numa posição prejudicada e a gente vai perceber que esse é o motivo. Hoje eu vivo um processo de passar a enegrecer a produção desse meu projeto. No projeto de rap, que estou agora produzindo em um coletivo que lançará em breve, somos majoritariamente pretos e pretas mesmo, também é um nicho de público majoritariamente preto, por aí vai.”

Larissa Rocha: “O maior obstáculo se chama dinheiro. Ser artista aqui é ser desvalorizado o tempo todo, sempre querem que eu trabalhe de graça, às vezes em coisas que nem tenho interesse. O segundo maior obstáculo se chama auto-estima, que de uns tempos pra cá eu tenho superado bastante bem. :)”

Rawph: “Minha música foi toda produzida em casa, estava terminando meu curso de produção musical e meu professor me orientou nos processos geral da música.
Ela veio numa boa hora, eu queria falar com todas minhas amizades que se degradaram graças ao tempo. Eu tenho uma pira muito grande em experimentação de composição e acordes, por ser um grande fan de Sonic Youth e My Bloody Valentine.”

[Hits Perdidos] Notei que a coletânea conta com artistas de diferente estilos, gostaria de saber qual foi o critério para esta primeira edição e se tem a intenção de preparar já outras.

Amanda Soares: “Foi algo que surgiu de forma bastante orgânica, cada um trazia um estilo diferente, com experiências diferentes e de regiões diferentes, levar isso para a coletânea abriu espaço para mostrar que não nos limitamos a um determinado estilo e essa pluralidade mostra uma visão mais abrangente sobre as músicas produzidas por negros ao redor do país.

Somos múltiplos, somos muitos e precisamos ser ouvidos, por conta disso, pretendemos produzir outros volumes e trazer mais diversidade para a coletânea, abraçando um número maior de pessoas.”

Rawph: “Foi tudo muito aberto, concordamos em cada um pôr músicas inéditas mesmo que não houvesse alguma ligação com a temática principal sobre o(a) indivíduo(a) negro(a). A gente marcou uma data pra entrega dos sons, só nessa data conseguimos conferir a produção de cada trabalho e assim nos organizamos com o lançamento de fato.”

Larissa Rocha: “Ouvindo o disco percebi que o critério era unir artistas negrxs que produzem uma variedade gigante de estilos musicais, acho que isso ressalta nossa individualidade.”

Theuzitz: “Nessa primeira edição, os artistas foram se reunindo de maneira bem orgânica. Achamos que o importante era começar e ir aprimorando melhor as arestas com o tempo. A gente vai fazer outras edições sim, vai rolar uma convocação, um esquema de curadoria e organização mais alinhada pra que todo mundo possa ter mais alcance ainda.”

Valciãn Calixto: “A medida que fomos sendo convidados para integrar este projeto, o critério foi lembrar de mais artistas negros para convidar, tínhamos mais pessoas no início, algumas não conseguiram gravar a tempo, mas devem aparecer nas próximas edições com certeza.”


theuzitz
Theuzitz que também participa da coletânea está trabalhando em seu próximo disco. – Foto: Divulgação

[Hits Perdidos] Em relação as temáticas, o tema foi livre? Queria que comentassem sobre as inspirações para cada uma das faixas.

Abreu: “Minha faixa, “Transeuntes”, descreve através – ou não – de metáforas, a rotina de um morador de rua com esquizofrenia. Na letra, descrevo o que ele faz e observa, dentro e fora dos limites de sua mente.

A inspiração para a composição da música não foi nada além da vontade de compor algo que soasse o mais próximo possível do Indie Rock, utilizando apenas um violão clássico; ideia bem anterior ao projeto. Depois vieram a letra e o arranjo de guitarra.”

Valciãn Calixto: “Sim, o tema foi livre. Acreditamos que dessa maneira facilitaria o processo criativo de todos. No caso de ‘Aço/Osso’ tudo soa muito metalinguístico, pois vou falando sobre a dificuldade em encontrar apoio para se produzir música logo nos primeiros versos, tem os samples de artistas locais.

Aproveitei também para fazer um exercício de reflexão sobre o cenário musical independente no Piauí e no Brasil. Quanto a estrutura da música eu busquei me aprofundar ainda mais no desenvolvimento desse sub-gênero ao qual venho tentando dar corpo, o Axé Punk, que propõe a mistura de ritmos negros brasileiros como axé, a swingueira aos elementos do rock, que também é negro.

Theuzitz: “Vou falar sobre a minha música. Ela foi composta um pouco depois de eu ter terminado de lançar a minha mixtape, Peso das Coisas, e é uma canção que eu sempre gostei, mas não entrou no contexto do novo disco que eu to produzindo. O fato dela não soar “brasileira” acho que calhou bem pro estilo da coletânea, e ajudou um pouco com a pluralidade de gêneros.”

Larissa Rocha: “Como fiz a capa, vou falar sobre a inspiração. Foi criada de acordo com fotos que recebi dxs artistxs, ilustrei e montei de maneira circular. O círculo é simbólico, e representa o ilimitado, que gira e flui. Como várias culturas afro se organizam em grupo e em forma de círculo, também liguei isso ao nome AfroIndie.”

Rawph: “Foi tudo muito aberto, concordamos em cada um pôr músicas inéditas mesmo que não houvesse alguma ligação com a temática principal sobre o(a) indivíduo(a) negro(a). A gente marcou uma data pra entrega dos sons, só nessa data conseguimos conferir a produção de cada trabalho e assim nos organizamos com o lançamento de fato.

Minha música foi toda produzida em casa, estava terminando meu curso de produção musical e meu professor me orientou nos processos geral da música. Ela veio numa boa hora, eu queria falar com todas minhas amizades que se degradaram graças ao tempo. Eu tenho uma pira muito grande em experimentação de composição e acordes, por ser um grande fan de Sonic Youth e My Bloody Valentine.”

[Hits Perdidos] Para vocês qual a maior dificuldade em ser um artista independente em 2018?

Larissa Rocha: “A dificuldade em ser um artista independente é organizar o tempo para conseguir pagar as contas e produzir quanto e como gostaria.”

Theuzitz: “Essa pergunta é uma questão recorrente e eu gostaria de falar o oposto aqui. A maior beleza de ser um artista independente em 2018, é que você é um artista independente em 2018.

A gente tem internet, pode conhecer o mundo, falar exatamente o que a gente quiser, pode gravar em casa, conhecer gente através da arte e as pessoas vão gostar de você pelo que você é. É a responsabilidade de lidar com você mesmo.

Há 30 anos todo mundo se submetia ao que a gravadora mandava e muitos artistas que morreram ou tão por aí perdidos nem tiveram a chance de gravar uma música. Era muito mais mercadoria e hoje é arte.”

Santos: “A maior dificuldade é a necessidade de jogar em todas as posições. Fico bolado com tantos artistas fodas que infelizmente só sabem mesmo cantar ou tocar. Isso já não é o bastante há tempos. E em muitas posições tem pouca gente que vai fazer bem.

A gente fica muitas vezes dependendo de favores, se não temos grana, além da situação ser meio chata o resultado não sai tão bom… Outra dificuldade é rentabilizar o trabalho. Show não dá grana, merch só é comprado de quem hypa, disco não vende, streamings pagam praticamente nada, editais são disputadíssimos e é muito difícil planejar a vida com eles.”

Valciãn Calixto: “Creio que circular com nossos shows pelo país.”

Abreu: “Ao meu ver, é o desinteresse dos ouvintes de música. O pessoal se prende demais ao que é conhecido, famoso. Muitos querem ver bandas ou artistas cover. Isso é bem triste e infelizmente não se limita só a 2018.”


Santos_IlanVale
Santos. – Foto Por: Ilan Vale

[Hits Perdidos] Como veem as atuais políticas de inclusão social? E o momento que a cultura do país tem vivido, o que pensam em relação aos incentivos?

Valciãn Calixto: “Eu acredito que desonerar as empresas para que parte dos impostos seja repassado a Cultura é uma boa, os mecanismos é que precisam ser melhorados, mais claros e menos burocráticos. Isso já acontece em muitos estados, porém ainda não a contento.”

Theuzitz
: “É quase ridículo falar isso porque a cada pequena conquista que o movimento negro consegue, uma Mariele morre, um moleque que tá deprimido porque tá saindo da faculdade por falta de dinheiro, ou uma criança que tá sofrendo racismo na escola vai ter de aprender a lidar com isso.

O que a gente tem, tem de agradecer as muitas pessoas que lutaram e lutam por isso e acreditam num futuro melhor arriscando a própria vida e continuam arriscando. Não dá pra esperar que a ajuda venha de quem nunca ligou pra nossa vida.”

Larissa Rocha: “Vejo como tapa-buracos. Coisas que deveriam ser básicas tendo que ser conquistadas, num tempo que a gente se diz tão evoluído. A maioria dos eventos culturais que participo em lugares que realmente precisam desse tipo de coisa são feitos sem nenhuma ajuda ou incentivo do governo, quase tudo é muito polarizado no centro e na zona sul, pelo menos no Rio.”

[Hits Perdidos] Vocês já pensaram em montar um portal como o AFROPUNK brasileiro?

Valciãn Calixto: “Estamos no momento discutindo várias ideias, botando algumas coisas no papel até para conseguirmos impulsionar melhor as próximas edições da coletânea, mas estamos mesmo maturando ainda.”

Theuzitz: “A gente tem algumas ideias sendo desenvolvidas a respeito disso sim.”

Larissa Rocha: “Se rolar eu faço a ID visual (risos).”

Amanda Soares: “Nesse momento várias ideias estão surgindo e estamos discutindo os próximos passos desse movimento, mas queremos expandir suas possibilidades e chegar a outros lugares! É um passo de cada vez. Plantamos uma semente e agora vamos cuidar para que cresça cada vez mais forte.”

[Hits Perdidos] Vocês pensaram em idealizar um festival para celebrar a coletânea?

Larissa Rocha: “Seria maravilhoso!”

Theuzitz: “Sim! É importantíssimo ter esse tipo de relacionamento com o público que também ouviu e se sente representado com o que a gente fala. Com calma, vai acontecer.”

[Hits Perdidos] Quais artistas mais admiram dentro do cenário musical que lutam por maior inclusão.

Abreu: “Sinceramente? Valciãn, Theuzitz, Rawph, Amanda, Diego, Neiva, Tadeu, Santos e Marcus. Esse pessoal que só conheci por causa da AfroIndie me mostrou que a luta tá viva e muito dentro da música, basta o interesse em encontrar e conhecer. Graças a eles também, eu que sempre estive tão de fora desses assuntos e de grandes projetos, agora sou parte da luta e – quase – desse lindo cenário.”

Valciãn Calixto: “Eu admiro principalmente todos os que toparam participar da AfroIndie exatamente porque todos lutam por essa inclusão.”

Santos: “Pra mim artista só promove inclusão social enquanto fora dos palcos. Não faz sentido falar que artista promove inclusão social no momento em que toca num show a R$ 50 o ingresso. Nem mesmo que os eventos grandes em espaços públicos e gratuitos são exemplos de inclusão social. Inclusão social é política pública, artista participa disso se estiver promovendo a política ou apoiando a política.

Tem essa de “toda arte é política” não, não acredito nisso. Sobre atitude, composição, memória, etc, tem gente muito foda que tem trazido muitas boas referências pra galera mais jovem.

Eu acho que o Baco Exu do Blues, o Jeza da Pedra, Linn da Quebrada e a Larissa Luz são bons exemplos de artistas da nova geração que tão fortalecendo a auto-estima de mulheres pretas, homens pretos, bichas pretas. A gente precisa dessa auto-estima.

Não é um fim, é um início. Tem também o trabalho de base, a política, etc, mas não vamos conseguir nada disso se a juventude preta continuar sofrendo com altos índices de suicídio, depressão, etc. Felizmente hoje temos uma infância preta que tá tendo novas referências de beleza e atitude, com estrelas como a Mc Soffia e a Elis.

Larissa Rocha: “Nefetaris Vandal e a galere do AfroIndie.”


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