Em faixa-a-faixa, Sereno comenta as referências do EP “Desapegos e Previsões de Morte”

As vezes a música bate feito um sonho distante. Não que ela seja um dream pop em sua essência mas por sua capacidade de introspecção, distanciamento e desapego. A primeira vez que pude ouvir o trabalho do duo carioca Sereno foi através do EP, Adivinhar o Futuro das Estrelas, lançado em 2017.

Lembro que logo associei com os conterrâneos da Gorduratrans por essa reverberação lo-fi, emotiva e cheia de referências não muito comuns dentro do universo particular das guitar bands noventistas.

Fato é que foi algo breve. Voltei a ouvir o registro em num dia nublado no começo do ano e toda aquela introspecção fez sentido para mim na hora feito o EP da Wolken (SC) e bandas que (indiretamente) resgatam referências do emo.

Eles mesmos contam que muitos chegaram a associar a sonoridade da banda a onda “Rock Triste”, talvez por ter saído no começo de 2017 e em 2016 muitos discos do “gênero” terem tido alguma relevância. Mas o fato é que na época eu vi muito mais esse resgate dos “discos de 97” do emo norte-americano do que qualquer outro subproduto midiático do “rolê alternativo BR”.

Esse polo positivo do obscuro garageiro e pelo polo negativo do emo de certa forma fez com que a sonoridade me lembrasse um misto de Sunny Day Real Estate, Jawbreaker e Real Estate. Só que dai eu fui ler mais sobre a banda e descobri que eles vão além deste universo. O que deixou tudo ainda mais interessante.


SERENO
Sereno do Rio de Janeiro (RJ). – Foto Por: Gilmar Damasio

Eles mesmos descrevem seu som de uma maneira intrigante: “Sereno é um duo carioca unido por laços familiares, demos de bandas japonesas dos anos 90 e pedais de fuzz”. Ou seja, você lê isso e só quer saber mais. Abandona o lado analítico e quer entender mais sobre de que fontes eles foram atrás para produzir seu material.

O duo formado por Victor e Vinícius Damazio lançou em maio o seu segundo EP, Desapegos e Previsões de Morte, que mostrou uma entrega ainda maior a todo esse espectro noventista.

Não querendo emolar o grunge – deixando Kurt descansar – mas procurando por sonoridades ao meu ver que dialogam com a estranheza do American Football, Samiam e até mesmo o jeito “desleixado de propósito” em sua estética. Algo comum por parte das bandas de garagem suburbanas estado-unidenses.

Tanto é que eles citam influências de artistas como Dinosaur Jr, My Bloody Valentine, Number Girl e Supercar. O que já mostra que as ambiências e clima garageiro deram tons ainda mais particulares e detalhistas para o novo registro.

Ouça o EP

Desapegos e Previsões de Morte (23/05/2018)



Fato é que nada mais legal de que ter a oportunidade para deixar que os próprios caras comentem faixa-a-faixa sobre o EP que foi lançado através do selo independente Violeta Discos.

“Recordações”

Victor: “Lembro que estava fascinado pelo tema principal de Twin Peaks e de ter nomeado o arquivo do projeto dessa música como “montesgêmeos”. Na mesma época, comprei o Oxygène do Jean-Michel Jarre, figura marcada das baciadas de discos no Rio de Janeiro, e queria imitar os sons de synth pads que ele usa frequentemente.”

Vinícius: “Engraçado que ele nunca assistiu Twin Peaks, mas deve ter ouvido a abertura umas mil vezes de tanto que revi cada temporada e o filme.”

Victor: “Acabou que o resultado ficou algo meio ambient, mas com trocas de acordes o suficiente pra não ser entediante (risos). A ideia do teclado no final, antecipando o início de “Dias”, surgiu bem depois do resto para tentar amarrar as duas faixas juntas.”

“Dias”

Vinícius: “Quando lançamos o primeiro EP, um amigo perguntou se éramos uma banda de rock triste, o que me deixou um pouco apreensivo (risos). Nada contra essas bandas, mas não é bem a nossa onda… Botei na cabeça que começaríamos o novo lançamento de cara com uma música agitada para não deixar dúvidas. É a música mais antiga das cinco.”

Victor: “Tem o solo de guitarra logo no início, o andamento rápido, um riffão no final…”

Vinícius: “Apesar de todos esses elementos bem clássicos de indie rock, a estrutura dessa música me lembra mais uns metal e hardcore oitentista, quando não havia muita preocupação com a sequência ‘verso-ponte-refrão’ e os caras empilhavam mil riffs em sequência. Tipo a “Crossfire” do Death Side ou “At Death’s Door” do Sacrilege. O Dinosaur Jr. também fazia isso, né? “The Lung” é bem assim.”

Victor: “A “Dias” tem todas essas coisas ‘de rock’, mas também a letra mais bonita desse EP pra mim. Seja pela referência ao Jards Macalé ou pelo refrão de coração partido, o Vinícius mandou muito bem. Em algum ponto, tinha inventado um pseudo spoken word pro segundo verso que, em retrospecto, fico feliz que tenha sido vetado (risos).”


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O EP conta com canções sobre amores conquistados, dúvidas sobre o caminho a ser tomado e viagens astrais. – Foto: Divulgação

“Projeções Astrais (Sun Ra)”

Victor: “O diferencial dessa é, com certeza, a parede de guitarras ao longo da música toda. Quase um shoegaze.”

Vinícius: “Baita riff pentelho de se repetir várias vezes, por sinal (risos).”

Victor: “Gosto muito também das partes de baixo e bateria, que foram igualmente divertidas de gravar. O refrão, especialmente, tem muita energia nesses dois.”

Vinícius: “Como o instrumental tinha esse tom viajado, baseei a letra em um sonho antigo que anotei no caderninho. Nele, encontrava uma amiga correndo de patins e, por algum motivo sobrenatural, ela não conseguia ouvir a minha voz. Quando conversamos sobre isso, ela falou que “não foi sonho, foi viagem astral”.”

Victor: “A ideia da segunda voz no fundo veio de uma gravação que fiz do Não Übermensch, projeto do Luca Quitete. Então, tínhamos que chamá-lo para fazer essa parte.”

Vinícius: “A citação ao Sun Ra foi um toque esotérico, parte da tradição sonic youthiana de citar seus ídolos. Não tem personagem melhor para referenciar quando se está falando de projeções astrais, cosmo e outros planos.”

“Ainda Tenho Meus Sonhos Intactos”

Victor: “A influência aqui são aquelas músicas bem típicas do rock japonês com progressões de acordes enormes, mudanças de tom nas passagens de um trecho para o outro e paradinhas dramáticas no meio. “Koi no Uta” do GO!GO!7188 é um ótimo exemplo, mas é só uma de várias.”

Vinícius: “Geralmente, escrevemos e gravamos todo o instrumental para depois tentar uma linha de voz que funcione. As letras vem por último. Mas, antes mesmo de terminarmos todo esse processo, já dava para saber que essa seria a baladinha do disco. Sempre temos uma baladinha na manga.”

Victor: “O refrão deve ter sido a primeira vez que eu tentei arriscar cantar algo bem alto para o meu registro, e acho que acabou dando certo, mesmo que com certa insegurança.”

Vinícius: “Os versos tem um pouco do A teus pés da Ana Cristina Cesar. Ela costurava os poemas de uma maneira fragmentada, às vezes parecida com a estrutura de uma letra de música. Foi uma boa oportunidade para encaixarmos a Júlia Matos, que gravou a estreia do Planetária aqui em casa. Esse é o disco dos amigos, cheio das participações (risos).”

Victor: “A Júlia dividindo as partes comigo ficou com maior cara de dueto. Espero que a gente faça isso de novo no futuro, talvez até algo meio Everyone Asked About You.”

“Poupe sua Liberdade para um Dia de Chuva”

Vinícius: “Havia acabado de ler o Gaseneta Wasteland do Osato Toshiharu e tive a ideia de fazer uma música em homenagem aos três membros do Gaseneta. O livro narra altas históricas trágicas, mas que todo mundo que já teve banda também viveu, então acho que fiquei tocado (risos).”

Victor: “Essa tem tantos canais gravados que serve de declaração para a Receita Federal de todos os equipamentos que conseguimos comprar desde o primeiro EP.”

Vinícius: “Na época, dependemos em grande parte de equipamento emprestado de amigos e gravamos tudo muito rápido para devolver, enquanto dessa vez tivemos mais tempo para experimentar.”

Victor: “Em compensação, a dor de cabeça no processo de mixagem foi em dobro. Foi um alívio quando o som finalmente se encaixou e tudo parecia estar no lugar certo. Daqueles momentos para encostar na cadeira e respirar depois de horas sentado mexendo em faders e efeitos.”

Vinícius: “Apesar de inspirada no Gaseneta, o instrumental tem influência de momentos climáticos de outras bandas japonesas, como o Boris ou o envy.”

Victor: “Tem muita coisa legal rolando no arranjo dessa música. Meu destaque fica para o rhodes que passa a acompanhar a guitarra a partir de 1min3seg, que pode passar despercebido em uma audição desatenta.”

Vinícius: “De início, a parte instrumental suave desencadearia em uma longa jam, mas preferimos chamar a Marcela Güther para gravar um trecho baseado em outro livro, Os lança-chamas da Rachel Kushner. E o resto é ruído (risos).”


Playlist no Spotify

No Brasil o rock alternativo tem muitos adeptos e muita gente talentosa batalhando para mostrar seu trabalho país afora. Muitas que em seu som flertam com diversos estilos mas sempre se mantem barulhento e com muita distorção. Sendo assim, reunimos 158 bandas e artistas do gênero, e claro o duo Sereno está entre elas.

A seleção Especial pode ser encontrada no Spotify do Hits Perdidos (siga o Hits no Spotify!). Confira também o post sobre a história do rock alternativo.


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