[Premiere] Em EP dark e eletrônico, Svndress mergulha nas emoções mais profundas

Sensações. A música tem o poder de passar as mais diversas. Através de suas camadas, arranjos e beats, você consegue sentir angústia, raiva, inquietação, nervosismo, revolta, medo, passividade ou euforia através dos seus ritmos e pela maneira que tudo se orquestra.

Em parte matemática, em parte perfeccionista, talvez por sua interpretação ser tão humana – e única – que consiga fazer com que cada novo registro acabe se tornando uma peça única.

Por mais que no estúdio na hora de compor um músico pense de uma forma, na hora do play cada um reage a sua maneira. Dependendo mais da sensibilidade do ouvinte, atenção e imersão que cada um deposita naquele momento. Tanto é que algumas músicas com uma sequência rítmica podem melhorar ou estragar o seu dia.

O primeiro EP do Svndress vem de um momento todo particular. O duo italiano composto pelos irmãos Nicolas e Matt vive no Brasil desde o começo da adolescência, tendo já tocado em diversos projetos musicais como Tropicaos (neo-psychedelia/dream pop). Após o hiato do projeto eles começaram a experimentar mais elementos da música eletrônica que acabaram por culminando no surgimento do duo.


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Svndress. – Foto Por: Daniela Carrasco Navarro

Imersivo, frio, instrumental, experimental, monocromático, gelado, nublado e cheio de elementos que podem te despertar inquietação, conflitos, nervosismo e um túnel de expectativas. Com o cenário da gélida Dublin como plano de fundo, Rainy Days consegue emocionar justamente por seus tons mais acizentados – e rebeldes.

Seus sintetizadores nos remetem a natureza e sua forma mais primitiva. Talvez por isso ele seja tão áspero, cru e experimental. Não pega leve, não alivia e nem tem a intenção disso.

As florestas, ilhas e cliffs da capital irlandesa acabam dando cores e permitindo uma imersão fotográfica. Seus beats ásperos – e selvagens – contrastam com a delicadeza dos elementos que permitem uma viagem conectiva através de seus 18 minutos de duração.

O campo das ideias, da agitação das metrópoles, das mentes não tão claras e do maniqueísmo da sociedade estão ali expostos. O lado mais obscuro da mente e o ponto cego também se faz presente na experiência que poderia servir como trilha sonora para a série fria e calculista, Fargo (2014 – Primeira Temporada). Esta que se passa na gélida e entediante Bemidji (Minesota / EUA).

Svndress – Rainy Days (18/06/2018)

O duo formado pelos irmãos Nick e Matt é natural de Subiaco, região montanhosa e fria de Roma, eles que vieram para o Brasil com 13 e 14 anos e já viveram em diversas cidades.

Atualmente residem em Natal (RN) onde tem apreciado o cenário independente local e festivais como DoSol. O registro é um lançamento Cavaca Records e traz tons acizentados, nublados e chuvosos para o centro do registro.



Assim como o nome já diz, “Dive”,  mergulha no mundo dos sonhos e no campo do distanciamento de uma realidade fria, densa e obscura. Tudo nublado, inquieto, nervoso e inconstante. Seus beats dão uma sensação de sufocamento, abandono, estranhamento e fuga. A progressão nos mostra um cenário distante, enigmático e repleto de dúvidas e ilusões. Feito uma grande bola de neve que insiste em rolar em sua direção.

“Osaka” já aumenta o ritmo do BPM, traz uma sensação de medo, aprisionamento, frigidez e movimento. Um movimento não linear e com potencial de te levar ainda para mais longe. Sua repetição faz parecer que o ouvinte está dentro de um labirinto de emoções densas que resvalam entre os obstáculos de confusão mental e desordem lógica de pensamentos. Tudo magnético, eletrônico, robótico e substancial.

Já “When-Shee” cria toda uma atmosfera mais energética, distante e sombria. Ela é um convite para o distanciamento. Com beats do Drum & Bass ela vem para te deixar ansioso assim como as composições do Underworld. É como se sua visão estivesse turva, no meio da neve entre pinheiros e montanhas e você não soubesse para onde ir – ou sequer onde está pisando.

“Interlude // 雨林” a mais curta do disco serve como introdução e traz os recortes da natureza e seus barulhos. Das águas da chuva, elementos da floresta e ventania. Ela tem a função de imergir ainda mais no plano distante e enclausurado do EP.

A incerteza e inconstância dos nossos tempos ganha ainda mais profundidade em “LA Glass” esta que desce a montanha de sensações e pode fazer com que com isso seu coração dispare.

Feito a ansiedade que assombra toda uma geração, ela te deixa sem fôlego e com vontade de fugir para bem longe. O horizonte parece ganhar os tons da noite e o sol se distancia do cenário frio e ríspido. Entre beats introspectivos e medo.

Distanciamento que volta a transparecer na derradeira canção do registro “Sometimes”. Que mostra como todos de certa forma estamos perdidos mesmo quando temos a certeza de que vamos nos encontrar.

Entre pesadelos, inseguranças e expectativas… surge no horizonte um mar de sonhos e um território nublado de ilusões. Sem pedir permissão para se retirar, os beats se esvaem no horizonte e se encerra o EP.


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O curioso de Rainy Days, primeiro EP do Svndress, é justamente permitir experimentar sua audição de duas maneiras. A primeira através ouvir e adentrar a narrativa, sua pressão, desilusão e viajar entre o cenário frio, selvagem e de inconstância. A segunda é a de se colocar como observador de uma história nebulosa pela busca de encontrar seu lugar dentro do mundo.

Ambas são válidas e servem como ponto de equilíbrio para um registro que destila emoções para gerar um diálogo. Em tempos de tanta insegurança, inconstância, medos, experimentações e a ansiedade por construir seu próprio caminho, o EP mostra empatia através de beats, tensão e sufocamento. Recomendado para fãs de projetos eletrônicos imersivos e experimentais.

Entrevista

[Hits Perdidos] Vocês vieram para o Brasil com 13/14 anos ao meu ver uma idade em que o impacto da mudança é muito forte. Como foi para vocês este momento? Vocês já viveram e tiveram a oportunidade de visitar diversos locais no Brasil, queria saber a visão que tem daqui e como foram estreitando relações com o país.

Svndress: “Foi um período bastante conturbado, aconteceu tudo muito rapidamente e a gente nem teve o tempo de se despedir direito. Tivemos que aprender o idioma muito rápido, já que chegamos no meio do ano letivo, e a adaptação foi muito difícil, sobretudo na escola, tivemos sim a oportunidade de conhecer algumas cidades do Brasil, mas não tantas quantas a gente gostaria.”

[Hits Perdidos] O  Svndress é o primeiro projeto de vocês juntos? Como foi o primeiro contato com a música e qual a trajetória até aqui?

Svndress: “Não, começamos muito cedo com bandas covers, mas saturando muito rapidamente, ainda bem (risos) e passando pra projetos autorais, o mais relevante, talvez seja o Tropicaos, uma banda que tínhamos de neo-psychedelia/dream pop que infelizmente entrou em hiato por diversos fatores.

No Tropicaos tivemos a oportunidade de trabalhar com o Jesse Gander que é o produtor do White Lung e Japandroids (entre outras), e aprendendo muito, vou deixar aqui o link de um dos nossos singles, mixados por ele.”



[Hits Perdidos] A experiência do EP é bem “pesada” e provoca mesmo uma sensação de imersão e incômodo através da intensidade de seus 18 minutos. Como foi o processo e o que estavam sentindo no momento? Esse período de inconstância e incertezas que pairam no ar acabou influenciando?

Svndress: “Acho que na própria pergunta tem muitas das palavras que eu usaria pra responder isso, a imersão, começando por “DIVE”, passando pelo incômodo do beat irrequieto que “When-shee, pela inconstância e incerteza de “LA Glass” e “Sometimes” resumem o conceito de Rainy Days.

Se eu conseguir passar isso pra todo mundo que está ouvindo o Rainy Days, eu me sinto muito satisfeito de ter conseguido contar uma história sem ter colocado uma palavra dentro do EP, o período não apenas influenciou, como é o precursor de tudo isso, eu não quis experimentar dentro desse EP, eu quero contar uma história, quero contar como me senti tantas vezes deslocado, como eu acabei me perdendo.”

[Hits Perdidos] Como vocês enxergam o momento em que a música eletrônica tem vivido nos últimos anos, eu particularmente noto que no mainstream se consolidou já em algum tempo batendo de frente com o rap/hip hop mas sinto que agora no underground bandas de outros estilos vem abraçando o gênero para se aproximar de um público mais jovem. Como vocês observam e o que opinam sobre este momento?

Svndress: “Houve uma abertura muito grande para a mistura da música no geral com os elementos eletrônicos, coisa que acontecia muito raramente há alguns anos atrás, todo mundo só tem a ganhar com isso, eu lembro que era muito raro alguém do meio independente gostar de artistas eletrônicos e vice-versa.

Hoje em dia tem artistas como o Nicolas Jaar, o Four Tet, ou o Floating Points, só pra citar alguns que agregam e fundem os elementos orgânicos dos instrumentos com o eletrônico de uma maneira tão elegante e genial que seria impossível pra qualquer ouvinte assíduo de musica ignorá-los e colocá-los apenas no nicho de “Artista eletrônico”.


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SvndressFoto: Divulgação

[Hits Perdidos] Queria que contassem mais desta conexão com Dublin e todos elementos que isto incorporou ao EP. Além disso depois do lançamento pretendem realizar shows? Como observam a cenário de Natal e região?

Svndress: “O clima sempre nublado da cidade acaba influenciando no mood das pessoas, deixando elas cinzentas e sempre um pouco melancólicas, daí vem o nome Rainy Days, descrevendo o clima e o state of mind que a cidade deixa carimbado na pessoa.

Já realizamos diversos shows com o Svndress, todos eles foram realmente surpreendentes, no bom sentido. Nunca tínhamos tocado ao vivo com um projeto baseado 80% nos elementos eletrônicos, e tá sendo surpreendentemente recompensador, a dinâmica é muito diferente, permite menos erros, já que somos apenas dois, o que nós deixa ainda mais focados pra fazer um live realmente bom.

Por enquanto só tocamos em Natal e adjacências, mas queremos começar a tocar em outros lugares também (alô produtores, é só entrar em contato com a Cavaca, ou com a gente mesmo)

A cena em Natal em meados de 2012/2013/2014 Foi realmente surpreendente. Em Natal tinha muita banda boa, mas depois disso, sinto que houve uma queda significante na quantidade e na qualidade dos projetos, vale a pena ressaltar que Natal tem, pra mim um dos melhores festivais da cena independente do pais, o Festival DoSol. Em Natal havia muitas casas e locais de show, o retrocesso, pra quem ficou fora como eu por mais de dois anos, é visível.”

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