[Premiere] Com boas doses de bom humor e cointreau, Meu Funeral coloca até satanás para dançar

Punk Rock é liberdade. Sabe contestar mas tem espaço para doses de sarcasmo, irreverência, diversão e celebração. Porque viver em sociedade é isso, tem que se permitir. Seja para não surtar, para não mandar seu trabalho para a casa do **** ou simplesmente para ter uma válvula de escape.

Curiosamente essa imagem surgiu na minha timeline ontem. Uma casa de shows punk / hc da Austrália com valores bem claros. Contra o preconceito e qualquer tipo de assédio e discriminação, coisas muito bacanas.


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Mas preste bem a atenção, a casa por outro lado não permite com que os presentes se divirtam no crowd surfing e muito menos deixa com que o público faça o shoey.

Não sabia o que era shoey e fui perguntar. Pelo que me explicaram aparentemente é o hábito de pegar sua lata de cerveja, colocar no seu tênis e beber. Algo que acho que não ofende ninguém (só é um pouco nojento).

A partir disso vi muitas pessoas de maneira bastante civilizada questionando que se o punk rock é tão de liberdade porque tantas regras. Os argumentos eram válidos, muitos não entendiam porque proibir, se eram elementos presentes na subcultura. Um contraponto que é válido é questionar: mas porque é um hábito, não podemos evoluir? e questionar? Por que temos que concordar com velhos hábitos?

A resposta é complexa e não vale a pena fechar o assunto com uma conclusão. Alguns responderam com canções do NOFX, outros retrucaram com canções do Anti-Flag, e outros por sua vez vieram lembrar de outros causos do público local. Parece que por lá um hábito comum é ficar o show todo ouvindo do bar e só ir para a pista “na voadora” na hora dos hits.

Trago o assunto em pauta pois acredito que o punk rock feito em 2018, dialoga sim com o passado seja com 1977 ou 1990, mas ele foi se transformando em diversas frentes e linhas de pensamentos. Não é mais sobre três acordes, subversão e letras reflexivas. Talvez seja mais sobre tentar sobreviver em meio a tempos hostis e a uma onda crescente de conservadorismo.

Algumas bandas fazem como o Gagged fez em seu mais recente clipe e contestam a voz das timelines do facebook, outras como o Meu Funeral procuram brincar na hora certa mas sem perder a seriedade.


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Meu Funeral lança seu EP de estreia. – Foto Por
Patrícia Lindoso

Nesta sexta-feira (20/04) o power trio carioca, Meu Funeral, está lançando seu EP de estreia, Demo, através do selo Morcego Records. O trio é composto por Lucas Araujo (Ex Rivotrio 2mg) na guitarra, Jan Santoro (Facção Caipira / Jan), no baixo, e Matheus Jorell (Filhos do Totem e ex-Lougo Mouro) na bateria.

A ideia é se divertir, extravasar, provocar, colocar o dedo na ferida mas sem perder a alegria. É propor a discussão sobre temas importantes mas sem ser o tiozinho das comemorações familiares de fim de ano.

As influências são claras e me lembram bastante as demo tapes de punk rock dos anos 90, aquele ar de despretensão mas repletas de energia e de querer conversar sobre os assuntos em evidência. A famosa puxada de orelha mas sem pesar.

Meu Funeral – Demo (20/04/2018)

O registro foi gravado ao vivo no estúdio Quintal. A produção é assinada por Jan Santoro e a própria banda. O engenheiro de som responsável pelo EP foi Renan Carriço que assina a mixagem.



São 7 músicas, 12 minutos, e a maioria passa feito um tiro com média de 1:30 minuto por canção. Papo-reto e as mensagens são bem claras. “Coisa de Satanás” chega com irreverência e criticando o falso bom mocismo e hipocrisia de quem faz “guerra as drogas” mas é viciado em outras drogas socialmente aceitas como álcool, rivotril e viagra. Seu instrumental é quase um cowpunk e traz isso em sua guitarra e percussão.

Quem chega já chutando “os bagos” é “Alimente o Fetiche” que certamente irá agradar a quem gosta da série 7 Inch Of The Month Club do NOFX. Fala sobre banalização da violência, aponta os dedos para hábitos nocivos, recrimina o machismo e fala sobre a alienação.

Se você gosta de Masked Intruder, se divertia ao som de Gramofocas e curte o humor dos Zumbis do Espaço, provavelmente elegerá “Meu Funeral” como o hit perdido do EP. E provavelmente seja mesmo porque ela gruda na cabeça feito chiclete.

Uma canção que fala sobre um funeral e punk rock não poderia ser diferente. Essa que poderia claramente ser a temática do famoso enterro de GG ALLIN que pediu para que seu enterro fosse uma festa sem limites (e foi atendido).

Lucas pede para que tragam cerveja artesanal, latão, cointreau, pinga, veta o padre e a missa – e no melhor estilo casca grossa já reforça o bonde de que “vai pro inferno mesmo”. E alerta: Não haverá lugar para a tristeza e lágrimas.

Diz que vai tocar Valesca e Ratos De Porão, para bater cabeça, dançar até o chão, e até os chicleteiros seriam bem vindos. Como diria a famosa canção do Asa de Águia: “Na casa do senhor não existe satanás, xô satanás, xô satanás”. Mas ao contrário dela, ele é muitíssimo bem vindo!

Mas quem acha que música falando de amor é muito démodé eles logo em seguida embalam uma pseudo-balada romântica (de 60 segundos): “Música Romântica de 1 Minuto”. Sobre desilusão e reconhecimento pela paixão. Afinal de contas dor de cotovelo sempre teve espaço no punk rock (Buzzcocks que o diga).

“Lucro Imediato” poderia fácil estar dentro de um disco do DFC, Presto?, Possuído Pelo Cão ou Mukeka di Rato. Por seu tom violento, rápido, grind, sujo e direto. Praticamente não dá para entender o que eles cantam – e tudo bem.

A não tanto tempo atrás lembro de uma indignação do Rodrigo do Dead Fish ao saber que algumas pessoas não sabiam que o viés político das letras do grupo eram de esquerda. Talvez por isso seja necessária uma canção como “Punkcoxinha” nos dias de hoje para passar as coisas bem claras.

De maneira sagaz o tapa na cara vai justamente para conservadores – e fascistas – presentes na cena do rock em geral. A falta de dialogo, compreensão da arte como forma de construção, contestação social e tolerância de diferenças. Ataca radicais religiosos, fundamentalistas, pensamentos retrógados, defensores de justiceiros, a falta de empatia e bate de frente com quem acha que lutar por suas agendas sociais é “mimimi”.

Seu instrumental traz influências do reggae e ska para chamar a atenção justamente para o teor contestador da letra. Agradará a fãs de bandas como All Against Authority, Authority Zero, Less Than Jake e Operation Ivy.

A liberdade do corpo e o combate a homofobia são expressos na voraz “O Cu é Meu (Seu Julgamento Que Se Foda)”. Manda o papo reto e preza pela liberdade individual e não pertencimento ao estado ou a moral dos bons costumes. É ácida e pelo bom humor traz em pauta a contestação sobre o espaço de cada um dentro do sistema.

Ataca preconceituosos e quem aponta os dedos para quem encontra outros caminhos para ser feliz. Afinal de contas o que vale é a pessoa antes de mais nada estar feliz com ela mesma. Em bom português: “Quem é feliz não enche o saco”.


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Se você procura por um EP que divirta pelas letras ao mesmo tempo que contesta a podridão do mundo em que vivemos com certeza o EP, Demo, do Meu Funeral é uma ótima pedida. O som é cru, reto e direto. Sem segredos agradará a quem curtir NOFX, Descendents, Zumbis do Espaço, Muzzarelas, Mukeka di Rato, Gramofocas entre outros.

As letras de Lucas são sagazes e sabem exatamente onde cutucar o público que irá apreciar o EP – e muitas vezes é onde está a virada de jogo. A combinação de rapidez, fugacidade, acordes rápidos e boas sacadas sempre foram as cartas na manga do punk e hardcore.

Dê o play, se questione mas sem pressão. Presenteie aquele seu amigo que ainda está com a mente fechada e precisa de uns bons toques. Na pior das hipóteses ele não captará a mensagem mas irá se questionar. E se isso acontecer: valeu a pena eles terem gravado estas 7 canções.

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