Descontentes com a apatia de nossos tempos, Krias de Kafka lança “Deserto Sem Extraterrestres”

O punk rock é mutável, combativo, reflexivo, poético e sem amarras. Isso é o que faz dele tão jovem de espírito, sem papas na língua e tão desafiador.

Pouco mais de 40 anos de seu surgimento aquela chama – e senso de urgência – não se apaga. Não se entrega. Não desiste e continua a ganhar forças em cada garagem, seja ela no subúrbio de São Francisco ou em porões do ABC paulista.

O faça você mesmo nunca foi uma escolha e sim uma necessidade. No cenário independente brasileiro em si se tornou uma cartilha. Porém é muito bom notar que a solidariedade ainda permanece e faz com que sonhos se tornem realidade.

No caso da banda Krias de Kafka o lançamento de seu segundo álbum, Deserto Sem Extraterrestres, só foi possível graças a um projeto de financiamento coletivo no qual conseguiram reunir cerca de 50 amigos para custear o que faltava para que o disco fosse lançado. Em troca eles disponibilizaram kits oficiais – contendo CDs, camisetas e adesivos.

“O planejamento foi na base do desespero. A grana acabou e faltava mixar e masterizar o disco, e não queríamos fazer em outro lugar que não fosse no Mestre Felino…” – conta o vocalista Mateus Novaes.


KRIAS
Krias de Kafka. – Foto Por: Oswaldo Corneti

Formado em 2004 em Santo André (SP) o grupo conta com Mateus Novaes (vocal), Hector Alves (baixo), Lucas Campos (guitarra) e Álvaro Burns (bateria). No fim do ano passado, em dezembro, foi lançado oficialmente seu mais recente trabalho – e sucessor de O Mundo Não Acaba Nunca.

“Diferente do primeiro álbum, as faixas foram gravadas de forma mais orgânica. Queríamos chegar o mais próximo da banda ao vivo, sem apelar para recursos digitais sem sentido”, explicou Novaes, responsável pelas letras.

“Em ‘Deserto’, nós trabalhamos com uma sonoridade diferente. Optamos por uma guitarra a menos para que as músicas soassem mais claras e as palavras, importantes para o grupo, mais diretamente inteligíveis”, completou o vocalista e compositor.

Krias de Kafka – Deserto Sem Extraterrestres (06/12/2017)

O registro foi gravado, mixado e masterizado por Helena Duarte e Danilo Sevali durante o outono/primavera de 2017, no estúdio Mestre Felino em Mogi das Cruzes (SP). O cotidiano e o olhar clínico da poesia marginal são o combustível que alimenta as letras que agem isoladamente feito pequenas crônicas.



O álbum reúne 12 faixas e tem pouco mais de 49 minutos de duração. Além do punk rock é possível notar influências fortes do rock dos anos 90, principalmente do que foi rotulado no período como grunge e noise rock.

Deserto Sem Extraterestres se inicia com a niilista “Falar”. Assim como uma poesia ela pode ser interpretada de diversas formas e isso deixa aberto para o ouvinte entender como a mensagem se adequar ao seu momento. Mas um fato é que o personagem retratado na canção está a beira de um Nervous Breakdown – como diriam os californianos do Black Flag.

Com guitarras que parecem verdadeiras sirenes e um ar de sufocamento no ar, “Rock Inglês” traz um pouco da estafa e descontentamento com sua realidade. Devaneios, paranóias, colapsos e tentativas de fugir desta realidade são parte da angústia retratada na faixa.

“Capítulo Quebrado” critica a rotina capitalista. Esta que faz com que nos tornemos robôs do sistema e esqueçamos de nossos impulsos mais carnais, como por exemplo o ato de “gozar” – no sentido sexual da coisa mesmo. Tudo isso com versos corrosivos e uma ironia inerente.

Musicalmente “Araldite” destoa das outras faixas do registro. Apesar de ter um refrão que corta feito uma navalha e trazer guitarras mais potentes, ela é mais calma e guarda sua fúria para momentos pontuais dentro da canção. É sobre se perder, ser inconsequente e não conseguir encontrar respostas no horizonte.

Através de uma narrativa um tanto quanto esquizofrênica e cheia de metáforas com prostitutas e catarros, “Chuva de Catarro” critica e ironiza o crescimento das ideologias que de certa forma dialogam com o fascismo.

O neo-conservadorismo e sua repressão. Não precisamos nem dizer o quão atual esta canção simboliza todo o momento que temos vivido no país. Com tantas incertezas, medo e perseguições a quem tenta remar contra a corrente.

“Sol” conversa com as canções do Cólera e Inocentes pois de maneira muito delicada encosta em temas como “a vida na cidade e suas dificuldades”. Aquele clima moribundo de se sentir insignificante no meio da manada.

“Sarah” tem como temática a impotência. A inconstância e o medo do que o futuro nos reserva em quanto sociedade. É como estar na frente de um mundo prestes a explodir e se sentir passivo diante de tanta desgraça e destruição.

Já “Nhaca” disserta sobre o mundo paralelo que criamos em nossas mentes para tentar tirar o foco da realidade. Relata sobre o frígido mundo das aparências e sua apatia. De certa forma ainda existe o conforto no amor em meio ao caos.

“Emputecendo” descreve uma rotina autodestrutiva, perigosa e sem estribeiras. O caos da rotina do homem moderno que é obrigado a se adequar ao mundo corporativo e seus resultados. Através dos relatos de vícios e falta de perspectiva por mudanças, a canção opta por deixar seu grito de revolta entalado na garganta.

Já “Tubos” fala sobre o descontrole e escapismos. A interpretação deixa em aberto mas uma das formas de se interpretar seria a recaída para as drogas – e seu poder de destruição em massa. Um pesadelo, literalmente o fim da linha.

Com uma introdução à lá Dead Kennedys temos “Se Não Há Céu” que é niilismo puro e fala sobre as mazelas de ser um homem comum e sem grandes aptidões.

Com escárnio e ironia, a religião é vista como um “caminho para um nada”. Criticando a falta de perspectiva e mobilidade social. Cheia de efeitos ela dialoga com as bandas de noise rock como Sonic Youth e Swans. Em seu trecho final evoca e se sente como um extraterrestre em meio a um apocalipse.

É preciso lembrar que as faixas não tem necessariamente uma relação dentro do álbum e funcionam independentes uma da outra. Feito um disco com 11 singles.

Lembrando disso o registro se encerra com “Susto”, que tem foco em seu instrumental mais experimental e viajado. Largando a crueza do punk rock e lembrando bem mais o rock diverso dos anos 90. Deixando o caminho livre para sua própria reflexão.


CAPA


O segundo álbum da Krias de Kakta é uma viagem niilista através de narrativas que contém indignação com o mundo que vivemos. As faixas em si funcionam como poemas e não necessariamente dialogam. Entretanto, o sentimento de não pertencer a algum lugar, ter medo do futuro, viver na base do escapismo e inconformidade com o atual mundo em que habitamos que de certa forma estabelece o diálogo.

A sonoridade do álbum é crua e acredito que irá agradar a quem prefere um som mais bruto, punk e direto ao ponto. Passeando por estilos como punk rock, grunge e noise rock. Mas o destaque mesmo acredito que fique pelo lado da poesia marginal e a maneira com que enxerga um mundo doente – e prestes a explodir.

Entrevista

[Hits Perdidos] Antes de mais nada gostaria que contassem a origem do nome Krias de Kafka? A literatura é um fio condutor das composições ou o viés político do escritor que os inspira?

Mateus:  “A origem do nome veio da minha paixão pelos escritos do Kafka. Identificação direta com as personagens, num universo sempre claustrofóbico e o cansaço na busca de algum sentido na existência e no mundo.

“Krias” é uma ideia direta de que somos personagens dele, que ele redige nossas vidas. E na atual aparência das coisas quem garante que não?

Claro que a escrita em si me dá algum caminho para escrever as letras da banda, mas nunca me esqueço de um depoimento dele numa carta, se não me engano para o amigo Max Brod, à respeito de quando trabalhava numa seguradora de uma empresa em Praga: ele diz que não se conformava com a fila de trabalhadores mutilados, e que não sabia como eles aguentavam a espera do seguro, antes de destruir a empresa por completo e tomar o que lhes era de direito. Esse lado tem mais a ver com a gente, com certeza.”

[Hits Perdidos] Como foi o planejamento para que a campanha de financiamento coletivo fosse bem sucedida? Que dicas dariam para bandas que também buscam por estes mecanismos para lançar seus discos?

Mateus: “O planejamento foi na base do desespero. A grana acabou e faltava mixar e masterizar o disco, e não queríamos fazer em outro lugar que não fosse no Mestre Felino.

Tivemos a sacada nessa hora e lançamos a campanha na fanpage da banda, que precisava de 50 apoiadores que acreditassem no trabalho e desembolsassem R$40,00, em troca de cd, camiseta e adesivo. Deu certo. A dica? Façam a campanha focada nos amigos, pra gente deu certo, então pode rolar com qualquer um que se esforce um pouco.”


KRIII

[Hits Perdidos] O disco é bem punk e me lembra bastante as bandas da primeira geração do punk br, de compactos como o SUB. Vocês até dizem que queriam soar bem crus e prontos para as apresentações funcionassem da maneira mais fiel possível ao disco. Quais discos mudaram a vida de vocês?

Mateus: “Ferro na Boneca dos Novos Baianos, The Queen is Dead dos Smiths, Unknown Pleasures do Joy Division, e mais uma porrada, mas esses resumem bem.”

Lucas: “Velvet Underground e Nico, Nevermind e Ok Computer.”

Álvaro: “Daydream Nation!!”

Hector: “Mudou a Vida: Sonic Youth, Fugazi e The Stooges, em especial o Funhouse.”

[Hits Perdidos] A poesia pude ver nas letras é um dos pontos fortes do som de vocês. Vejo um misto de niilismo, indignação, discórdia, sofrimento e contestação como temas do álbum. Quais são as histórias e reflexões por trás das faixas?

Mateus: “Escrevo poemas há bastante tempo, tenho livro de poemas publicado até (autopropaganda!). A minha linha de escrita parte de uma visão bem pessoal das coisas, único tipo de ineditismo possível, logo as histórias por trás das faixas refletem a minha vida, e a nossa acredito, em forma de linguagem.

Não há nenhuma história em especial. O cotidiano tedioso, uma notícia de jornal, memórias, todos esses elementos podem virar versos. A reflexão maior é sobre agora, já. Somos de agora, e não há saudosismo bunda mole que nos arranque daqui!

[Hits Perdidos] Além do punk rock, o que costumam ouvir para buscar elementos para a panela sonora?

Mateus: “Ando ouvindo muito desde o ano passado o disco Espectro do Tantão e os Fita e O Novíssimo Edgar do Edgar, que só tem no Youtube. Discos fundamentais pra mim.”

Lucas: “Trilha sonora de games dos anos 1990 e 1998.”

Álvaro:  “Essa semana: Black Flag, Cymbals Eat Guitars, Color for Shane, Wilco, Fugazi e Warpaint.”

Hector: “Agora essa semana tava ouvindo o disco novo do Krias. Mas no domingo só Tim Maia, Jorge Ben e uns fuzz 70′.”

KRIA
O álbum foi lançado em dezembro do ano passado. – Foto: Divulgação

[Hits Perdidos] A capa tem toda uma história interessante, gostaria que contassem mais detalhes sobre sua concepção e relacionassem de alguma forma com o conceito do disco.

Mateus: “Já tínhamos o nome do disco quando sem querer me deparei com um texto na Superinteressante, que falava de uma publicação inglesa de um livro chamado “A história do rato”.

Nesta matéria tinha alguns trechos do livro e em algumas passagens comecei a achar este animal, tão odiado por todos, bem interessante. Um dos fatos que mais me chamou a atenção é de que o rato é o único animal no mundo capaz de decorar um labirinto passando por ele uma única vez (nossa vida), e de que ele, apesar de todo nosso nojo e repulsa, só aparece nos locais quando se sente seguro e sempre está em busca de alimento, e nada mais (nós, a banda).

Daí veio a sacada de colocarmos um rato na capa, que ninguém sabe se está morto ou dormindo. Mas colocá-lo onde? Num deserto que nosso inconsciente tá acostumado, cheio de areia e tal? Não.

Bebe-se aqui e ali, e que tal no espaço, ou num fundo que a primeira vista pareça o espaço? Isso. Deserto dá uma ideia de lugar “sem” vida. Espaço sideral: Deus não tá lá, e as estrelas que vemos no céu morreram antes do nosso bisavô.

Pode -se dizer que a capa é um vazio enfeitado de uma certa esperança (o rato/nós). Se ele estiver apenas dormindo, claro.”

[Hits Perdidos] Para vocês o que seria um deserto sem extraterrestres?

Krias de Kafka: “Um lugar sem possibilidade de fuga. Sem possibilidade de socorro. Aqui.”

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