Between Summers deixa a bad de lado e compõe trilha sonora para as despedidas

Alguns discos conseguem funcionar como verdadeiras máquinas do tempo. Não apenas sonoramente mas permitindo com que criemos mentalmente uma imagem visual de todo um tempo em que não vivemos. O campo do sentimento também é outro fator que registros assim geralmente conseguem condensar.

Álbuns do Basement, Turnover, Guided By Voices, Superchunk, Smashing Pumpkins, Mogwai, Pixies, Catherine Wheel, Built To Spill, Archers Of Loaf, Pavement, Sebadoh, Jawbox, Yo La Tengo, The Afghan Wigs e tantos outros conseguem nos levar para esta energia mística de estar dentro de um sonho eterno.

Muito disso por conta da época em que foram lançados, os empoeirados anos 90. Claro que o Basement e o Turnover são bandas mais atuais, porém elas vão beber direto da fonte.

E qual a mística por trás dessa época em que não tinha Internet (para todo mundo), celular? só se você fosse milionário. Discman? Talvez se você tivesse uma boa condição financeira. Mas como as as bandas faziam para serem ouvidas? As Demo Tapes.

Elas que eram gravadas na cara e na coragem e cabiam poucos sons. Posteriormente era a hora de andar com maletas – feito o Miranda – e tentar vender seu trabalho para as gravadoras. Então como era feito se mal dinheiro para as gravações tinha? Ou eram feitas de maneira caseira ou então a banda escolhia dois sons – sem poder errar – e apostava todas as fichas neles. Essa é a parte chata da nostalgia.

Mas o que foi legal musicalmente? A quebra da indústria. Os chamados “indies” começaram a construir quase que um mercado paralelo as grandes gravadoras, e isso incomodou. Tanto é que elas se viram obrigadas em aceitar a queda de braço e contratar “o que os jovens estavam ouvindo”.

Eles não estavam mais na onda de ouvir glam rock e grupos de hard rock que as gravadoras não paravam de tentar enfiar goela abaixo. De certa forma o sentimento de raiva da classe média, o descontentamento com o sistema, a individualidade e seus problemas emocionais voltavam a ser temas em evidência. As guitarras vinham do punk mas não se limitavam a isso, elas tinham camadas, distorções e muito a dizer.


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É dessa energia cáustica, mar de emoções e muitas texturas que a Between Summers embarcou em sua viagem. Esta que foi revelada em seu lançamento nas plataformas digitais que aconteceu no dia 06/02.

O registro da banda catarinense saiu pelo selo independente Aquagreen Records. Os leitores mais assíduos do Hits Perdidos devem conhecer o selo pois em 2016 resenhamos o compacto da Wolken.

A Between Summers foi formada em 2016 na cidade de Blumenau (SP) e conta em sua formação com Robson Corrêa (Vocal / Guitarra), Antônio Kuchta (Baixo), Nathália Albino (Vocal / Guitarra) e Roberto de Lucena (Bateria).

Suas influências permeiam todo esse universo denso dos anos 90 e eles citam grupos como Tigers Jaw, Pity Sex, Pixies, Smashing Pumpkins, Citizen, Field Mouse, Camp Cope e Basement. Mas definir assim é limitar um mundo de possibilidades artísticas e sensoriais.


Foto Between Summers
A Between Summers lançou no começou de fevereiro seu álbum de estreia. – Foto: Divulgação

Between SummersLeaves (06/02/2018)

A temática do disco gira em torno das despedidas somadas as experiências pessoais dos membros da banda. É um álbum bastante sentimental e suas melodias fazem com que as experiências sejam sentidas à flor da pele. Como se fossem uma extensão do seu umbigo.

Acredito que isso das nossas bads, recaídas e despedidas são de fato parte da vida. Não são daquelas que você guarda em um álbum de fotografias ou posta no facebook para gerar algum tipo de impacto positivo.

Mas (in)felizmente atrás daquele horizonte azul – e de confete – existem pessoas de verdade que sofrem, passam por poucas e boas mas que de certa forma registram isso em discos, livros, poesias, filmes, quadros e cartoons para que saiamos dessa maré ruim.



O álbum feito uma folha que cai da árvore no outono passa voando em apenas 27 minutos. São 8 canções que te conectam e te convidam a entrar naquele universo bastante introspectivo e pessoal. Por ironia do destino ele foi lançado justamente no verão.

A nostalgia bate forte em “Try Too” que tem uma linha de baixo que poderia ter saído de um disco dos Descendents, uma guitarra a lá Superchunk e a doçura da combinação dos vocais que lembra o da dupla de vocalistas do Tigers Jaw – composta por Ben Walsh e Brianna Collins. Quem já conferiu a série da Netflix Everything Sucks com certeza sabe que a canção se tivesse sido lançada em 1997 teria espaço tranquilamente na trilha.

A intro de “Trifle Song” me remete mentalmente a “Gigantic” do Pixies e isso já me deixa triggered. A progressão me chama bastante a atenção pelos elementos e carga emocional que ela consegue transmitir através de seus acordes melódicos. É quase que um pedido de ajuda em forma de canção, e talvez por isso ela seja tão bela. Por abrir seu coração e deixar isso partir.

Na sequência vem o primeiro single a ser lançado do disco, “Our Summer”. Este que ganhou um clipe que segundo o baterista, Roberto Lucena, foi inspirado em um vídeo do Turnover.



A temática do abandono e da despedida transparecem em “Our Summer”. Ela que inclusive carrega aquele ar de empoeirado que comentamos antes. Gosto bastante da combinação da bateria que chega de mansinho e da guitarra seca que desde sua introdução já cria uma atmosfera dramática.

Já o clipe vai totalmente na direção oposta, mostra os integrantes se divertindo na praia, jogando jogos e gravando o disco. Me lembrando o lado descontraído de bandas como a Mixtapes.

O lado mais dream pop do disco está justamente em “Microphone Boom”. Nathália Albino assume o protagonismo e se destaca nos vocais em uma faixa que conversa com o ouvinte como se estivesse olhando no espelho. Os arranjos e riffs de guitarra também se destacam e fazem com que ela seja o Hit Perdido do registro.

“Outermost” é tão confessional que você se emociona com a forma que a história é contada. A sensação de vazio – e abandono – é iminente e você só quer estender a mão para dizer que vai ficar tudo bem.

A sexta canção, “Safest Place”, me remete a projetos como o Sebadoh e Jawbreaker pela maneira com que as guitarras são apresentadas, cheias de detalhes, camadas e preocupação em criar toda uma sonoplastia para o relato ganhar ainda mais força. Porém acredito que vá tocar em cheio em fãs de grupos como This World Is A Beautiful Place And I Am No Longer Afraid To Die e Turnover.

Como o próprio nome diz “Shell” tem esse sentimento de se fechar para se proteger. Sentimento esse que faz mal mas que muitas vezes na vida não conseguimos sair de um quarto escuro para procurar ajuda para sanar nossos problemas.

Chegamos assim a uma das minhas favoritas do disco, a imersiva “When You Can’t See Any Light”. Que flechada no peito, amigos! Ela é instrumental e não precisa dizer nada, é como se estivéssemos entrando em um purgatório e todas as paredes começassem a desabar. O disco se encerra de uma forma bela, contemplativa e oferecendo uma imensidão de possibilidades para seu desfecho. Sendo assim a cereja do bolo.


LEAVES


O primeiro álbum dos catarinenses da Between Summers, Leaves, é feito uma colcha de retalhos de histórias íntimas e com uma carga emocional muito densa. Tem espaço para experimentação, passeia pelo dream pop, flerta com o emo e abraça as guitar bands dos anos 90. Vale a pena observar as texturas, trabalho de guitarras e experiência introspectiva que ele oferece. Um bom disco para sair da bad e identificar os motivos do porque recomeçar. Afinal de contas: a vida é repleta de recomeços.

Confira a Entrevista

[Hits Perdidos] Vocês começaram a tocar juntos em 2016, como o som foi se moldando até chegar nessa mistura interessante de dream pop / alternativo com elementos de emo e revival do grunge?

Kuchta: “Desde a formação da Between Summers, já tínhamos a ideia de criar algo baseado em bandas que nos influenciavam. O estilo foi se moldando a partir de uma ideia de guitarras e vocais que idealizávamos partindo de bandas como Pixies e Garbage até bandas atuais como Pity Sex e Tigers Jaw.

Os vocais foram elementos fundamentais para a construção da nossa identidade musical, sempre foi nossa ideia ter como vocal principal uma voz feminina, mas também mesclando com músicas inteiras cantadas pelo Robson. A concepção instrumental evoluiu do que pensávamos no começo ser mais dream pop para o que nos denominamos agora como indie/alternative, um bom exemplo dessa evolução é “Try Too”, que foi nossa primeira composição/Single e ganhou uma roupagem completamente nova pra gravação do disco Leaves.”

[Hits Perdidos] Vi aqui que a banda conta com o Lucena que também toca no Taunting Glaciers e comanda a Aquagreen Records. Como está sendo para conciliar todos esses projetos ao mesmo tempo? Tem produzido muitas bandas nesse meio tempo também?

Roberto: “O selo nasceu da minha necessidade de criar mais com o tempo ocioso que estava rolando do meu trabalho com o estúdio. Esse trabalho parece que está chegando em um ritmo legal. Desde dezembro do ano passado fechei alguns projetos com bandas locais referentes ou não a esse trabalho com a Aquagreen, já que uni as atividades do extinto Takeout Studio com a Aquagreen Records.

Porém a realidade em Santa Catarina é de muita dificuldade para transformar uma banda dos estilos os quais gostamos e lançar em um trabalho de período integral. Os projetos paralelos são um jeito de conseguir ficar em atividade por mais tempo, embora nem sempre seja fácil conciliar ou agradar todas as partes no que tange as expectativas de cada um dentro de seus respectivos projetos.

Além da Aquagreen Records, estou gravando um novo disco para a Taunting Glaciers (esse ano deve sair), saindo em turnê com a Between Summers e gravando mais um disco com a Floral Green, que deve ser lançado em maio desse ano. É bastante trabalho mas eu não reclamo disso.”

[Hits Perdidos] Vocês tem planos para um show de lançamento e sair do estado para uma turnê?

Robson: “O lançamento do Leaves em 06/02/2018 teve a disponibilização das músicas em streaming e a comercialização dos CDs físicos.

O show de estreia do álbum será no dia 10/03 aqui em Blumenau, junto com as bandas Acidental e Bike, no Cafundó Bar Cultural. Pretendemos fazer uma tour por Santa Catarina de lançamento do álbum, temos datas confirmadas em 10/03 – Blumenau, @Cafundó; 11/03 – Timbó, @572; 08/04 – Blumenau, @Ahoy; 13/04 – Rio do Sul, @Gaya e 15/04 – Lages, @MacacoAstronauta.”


TOUR


[Hits Perdidos] Quais as maiores referências musicais de cada um de vocês?

Robson: “Minhas maiores referências de bandas se dividem em dois pontos, bandas atuais como: Tigers Jaw, Field Mouse, Wild Ones, Basement, Citizen, Adventures, Pianos Become the Teeth e Pity Sex. E bandas antigas como: Pixies, Garbage, Nirvana, Smashing Pumpkins, Dinosaur Jr. e Weezer.”

Roberto: “No fim das contas, independente dos projetos nos quais estou inserido hoje, sempre vejo uma necessidade em mim de trabalhar determinados fatores com uma forte influência de Smashing Pumpkins. Acho que posso dizer que é uma das poucas bandas que eu sou realmente FÃ!

A partir disso, gosto sempre de novas referências. Tem gente que acha isso ruim e acha que influência é sempre falar de coisa velha. Eu gosto desse lado evolutivo da música. Não vou fechar portas para novas coisas simplesmente porque veio alguém antes desses caras fazendo algo parecido. No fim das contas no rock e afins tá todo mundo tocando guitarra, batendo em tambores.”

Nathália: “Gosto muito de jazz a pop, de bossa nova a eletrônico. Mas nasci musicalmente no rock e metal. Hoje os estilos que mais mexem comigo geralmente são os que puxam pro experimental.”

Kuchta: “Minhas referências musicais no geral abrange desde o punk que foi onde iniciei por influência dos meus irmãos a gostar de música ouvindo bandas como The Clash, Ramones, Dead Kennedys, Garotos Podres passando pelo Metalcore/Post Hardcore até chegar ao momento atual escutando muito Indie rock, pop punk como Tigers Jaw, Pity sex, Pianos Become the Teeth, Petal, La dispute, Citizen, etc.”

[Hits Perdidos] Como enxergam essa onda revival em resgatar elementos de bandas do chamado guitar rock dos anos 90? Quais bandas vocês vem como exemplo de consistência em conseguir adentrar com sucesso esse espírito de nostalgia?

Robson: “Os anos 90 foram anos muito significativos para música Indie/Alternativa, sendo que várias bandas desse segmento surgiram e se tornaram referência até os dias atuais.

Existe um crescimento significante de bandas que se pautam nesse período, uma delas que consegue fazer isso com excelência é o Superheaven (que infelizmente está em hiato), uma banda muito simples mas muito consistente e capaz de transmitir o grunge dos anos 90 em sua essência.

Para nós da Between Summers essa onda Revival é essencial, querendo ou não fazemos parte dela e só temos a ganhar com esse movimento que vem surgindo, que nos permite tocar o som que idealizamos.”

[Hits Perdidos] Algo interessante é a estética do clipe de vocês bem “retrô” que me lembrou o Basement. Inclusive quando pude entrevistar o Andrew, ele me disse que era “uma grande preocupação para eles tentarem emular uma estética de um tempo distante para não soar datado de um ano específico”. Pensando nisso, quais foram as referências para o vídeo de “Our Summer”?

Robson: “Basement com certeza é uma banda que nos influencia, mesmo não tão diretamente ao ponto de termos uma linha de guitarras e vocais parecidos. Eles nos influenciam por ser uma banda que ouvimos constantemente.

O clipe de “Aquasun” foi com certeza um referencial para nós, tendo em vista o que queríamos passar com o nosso, ou seja, algo nostálgico e que nos remetesse a letra da música. Outra banda que serviu de influência para a linguagem do nosso clipe foi o Turnover, que lançou um update sobre a tour UK/EU deles, servindo como mais um referencial para a elaboração do clipe de “Our Summer”.”

Roberto: “Turnover. Descaradamente.”

[Hits Perdidos] Apesar das melodias tristes e o clima soturno, as canções são otimistas e quebram o paradigma de instrumental triste significar música “de bad”. Quais histórias inspiraram as canções e qual o conceito central do disco (se é que tem)?

Nathália: “O disco Leaves fala de experiências, reflexões e relações, de como essas histórias perpassam e permearam a vida dos integrantes da banda. O nome do álbum amarra seu conceito, que é de ambos sentidos: “leaves”, que pode significar tanto “folhas”, remetendo à sensação do outono, quanto “deixar”, no sentido de algo ou alguém que vai embora, o que causa a sensação de abandono.”


TRY


[Hits Perdidos] Imagino que vocês já devam ter ouvido o disco dezenas de vezes. Hoje qual é a faixa que ficaram mais satisfeitos com o resultado e por quê?

Robson: “A minha música preferida do álbum atualmente é “Trifle Song”, em momentos distintos eu tive músicas em que me relacionava mais profundamente como “Try Too” ou “Safest Place”.

Entretanto, “Trifle Song” me satisfaz na disposição dos seus elementos musicais, a entrada dos efeitos, os solos etc. Para mim ela é uma das músicas mais completas do álbum.”

Nathalia: “Gosto bastante de “Microphone Boom” por conta da dinâmica dela, mas acho que a minha preferida sempre foi “When You Can’t See Any Light”, é a que mais conversa comigo, viajo profundamente ouvindo ela.”

Kuchta: “A faixa que me deixa mais satisfeito no álbum é “When You Can’t See Any Light” é uma música que consegue trazer todo sentimento que nos inspirou desde o início a formar a banda.

O resultado final dela, principalmente fechando o álbum, é algo que me traz uma sensação de que tudo até aqui foi feito de forma verdadeira, baseado sempre naquilo que a gente viveu junto nessa caminhada de amizade e companheirismo. E, ao mesmo tempo, por ser instrumental deixa um espaço aberto para que o público forme suas próprias histórias, sentimentos e lembranças escutando a música.”

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