Com áurea libertadora Lara Aufranc abre passagem em seu segundo álbum

Arriscar, ousar, errar, transformar e aprender. São etapas que todo artista sofre no processo de criação. Talvez se existisse “fórmula mágica” perderíamos como ouvintes essas pequenas experiências que são imortalizadas naqueles minutos que nos dedicamos ouvindo um disco com atenção.

Sair dessa zona de conforto também é algo que deveríamos valorizar mais. É muito interessante ouvir discos que flertem com uma gama ampla de estilos sem a necessidade de soar forçado. Consigo observar que esta foi a tônica dos lançamentos de 2017 nos discos que até aqui me marcaram. E com certeza Passagem da Lara Aufranc está entre estes que conseguiram flutuar por outros mares.

Além de abraçar estilos como o pop, a mpb, o soul, o jazz, o blues ela incorpora musicalmente elementos de estilos como  baião, samba, o folk e a milonga. É um disco transformador e tem a sensibilidade em ser frágil, forte e global ao mesmo tempo.

Isso se mostra nos temas que toca como a solidão – e a loucura – da cidade, os problemas sociais, o lugar da mulher em nossos tempos, as dificuldades cotidianas, medos, apegos, desencontros e inseguranças. Tudo isso de maneira bastante poética e mostrando versatilidade.


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Lara Aufranc vive momento de amadurecimento e transformação em Passagem. – Foto: José de Holanda

Em 2015 veio o primeiro disco de Lara, que foi assinado como Lara e Os Ultraleves, Em Boa Hora. Um disco interessante que já continha boas surpresas e aventuras, com direito a canção em francês e experimentações de soul e blues.

Desta vez ela assina o projeto com seu nome – e sobrenome – e abraça uma infinidade de estilos e poesias do cotidiano para se expressar. Para captar todo essa nova fase ela recrutou para as gravações uma mega banda formada por Allen Alencar (guitarra, violão de aço, violão de 12 cordas), Daniel Doctors (baixo, contrabaixo e percussões), Kim Jinkings (pianos, teclados, órgãos e sintetizadores), Victor Bluhm (bateria, bateria eletrônica, percussões) e Camilo Zorrilla (bumbo leguero e percussões em “Llena de Água”).

Lara AufrancPassagem (27/10/2017)

O disco foi gravado por Fernando Richbieter, João Antunes e Pedro Vinci no Estúdio YB MUSIC. A mixagem e masterização ficaram sob a responsabilidade de Pedro Vinci. O registro é um lançamento conjunto dos selos Matraca Records e YB Music.



A canção que abre o álbum é um rock encorpado que flerta com sintetizadores. Algo bem psicodélico sessentista que nos lembra os ares de grupos da Pompeia como Tutti Frutti e Os Mutantes.

O groove do funk e o espírito garageiro também está presente nas guitarras inflamadas. Já em sua letra a canção fala sobre se superar, transformar e transgredir. Toda essa combinação faz da faixa um “pop chicletudo” e cheio de elementos, daquelas para ouvir direto da vitrola.

Aproveitando a atmosfera rockeira temos “Sangue Quente” que consegue casar aquela energia cósmica do psicodélico – e blues – com os teclados alá The Doors. A canção exalta o lado humano em admitir o desequilíbrio que temos quando “perdemos a cabeça”. As guitarras inclusive chegam a “derreter” em seus solos.

“Sangue Quente” tem espaço ainda para a experimentação com o auxílio de elementos como o reverb e a desaceleração da canção. A experiência chega a ser transcendental e viaja por outras atmosferas através dos elementos de sua percussão.

“Trovoada” tem um tom diferente, ao mesmo tempo que ela é sombria, ela consegue evocar sentimentos distintos. Em seu ápice ela beira estar em meio a um apocalipse, que na letra até chama de “vendaval”. Temos o momento digno de Björk no disco e sabemos que sempre ela chega para causar.

Assim chegamos a “Ao Luar” que fala sobre o dia-a-dia das dores do cotidiano da cidade. Essas “idas e vindas” que nos mostram essas faces “anônimas” cheias de histórias para contar e muito a nos ensinar. Essa faixa já mostra o flerte entre mpb, funk e o baião, tão plural como o coração de São Paulo.

O tiro incerto do amor ganha um capítulo a parte em “Amor Comum”. Essa dinâmica de acertar, errar e estar disposto a viver ótimas e péssimas experiências. Talvez essa seja a magia deste sentimento tão intenso.

Chegamos a bordo de um trem do metrô a faixa título do disco, “Passagem”. Essa que nos mostra o olhar clínico de Lara ao observar essa rotina desenfreada de uma das maiores magalópoles do mundo. A cidade da “correria”, dos encontros e desencontros e que não dorme.

“Passagem” foi a canção escolhida para ganhar um clipe que foi dirigido por Freddy Leal e que foi disponibilizado em Setembro. Claro que a faixa entrou no listão de clipes do Hits Perdidos no mês.



“Duas Mulheres” é uma das faixas mais envolventes do disco, essa mistura do samba com locomoção é algo intrinsecamente paulista. Quase uma homenagem ao samba antigo local, dos Demônios da Garoa, com as referências da rotina da cidade.

A canção fala sobre a rotina da mulher que além da jornada de trabalho, cuidar do corpo tem que ao final do dia uma casa para cuidar. Outro tema que a canção cutuca é na insegurança e violência da cidade.

A psicodelia reaparece em “Pelas Escolhas”, o sentimento de luta constante e estar sob a face do julgamento é algo que muitos se identificarão. A tônica da ação x reação. Já “Vem Rodar” fala sobre medo de sair na rua, esta que é uma situação corriqueira que ouvimos relatos todos os dias.

A loucura de São Paulo, a superpopulação e o tráfego intenso são expressados em ” Tem Gente Demais”. Mas a canção que fecha o disco é toda especial e emocionalmente forte. Lara vai até suas raízes argentinas e traz um pouco do folk local para “Llena de Água”, a única em espanhol e cheia de espírito. Um disco que se encerra com um grito do fundo da alma.


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O segundo disco de Lara Aufranc é cheio de personalidade. Vai atrás de suas raízes musicais e pessoais para dar vida a esse período de transformação de sua carreira. Passagem mostra um amadurecimento como compositora e busca falar de temas urgentes como o papel da mulher no atual momento que estamos vivendo, a loucura de uma cidade que não dorme, as dores, as dificuldades e tudo que nos faz acordar cedo para seguir em frente. A riqueza de influências dá o colorido do disco, já que estilos como baião, samba, mpb, soul, blues, rock psicodélico, folk e tango fazem parte do repertório.

[Hits Perdidos] Como descreveria o processo de transformação que te levou a lançar o novo álbum assinando seu próprio nome?

Lara Aufranc: “As transformações acontecem o tempo todo, mas nem sempre a gente percebe. Eu era mais insegura, o palco por exemplo era muito difícil. Nos últimos anos comecei a experimentar cada vez mais – até me libertar dos vestidos e sapatos de salto. Parece uma coisa pequena mas teve um resultado muito grande, uma enorme liberdade de movimento.

Não teve uma mudança consciente, do tipo preciso mudar. Fui amadurecendo aos poucos, deixando de me importar com o que se espera de mim e fazendo cada vez mais o que eu espero de mim mesma. Só faltava o nome.”

[Hits Perdidos]último disco já falava sobre os medos. Quão libertador é para você conseguir tocar em temas ainda mais densos neste disco e como definiria a nova fase?

Lara Aufranc: “Eu acho muito importante abordar temas que não tenham nada a ver com amor. É claro que amor é importante, e muito. Mas existem múltiplas formas de amar, e apenas uma parte é passional. 

O mundo é cheio de outros assuntos, gente que se ajuda, que se oprime, é tão complexo. Eu me interesso pelas contradições. Como ser forte e frágil ao mesmo tempo? Ou como é se sentir sozinho no meio de 12 milhões de pessoas?

Pra mim a liberdade está em observar, sentir, ouvir – e poder falar do que der vontade. Sem contornos.”


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A rotina sem freios da cidade de São Paulo inspirou Lara em seu segundo álbum. – Foto: José de Holanda.

[Hits Perdidos] “Passagem” abraça diversos estilos e isso claro vem de seu background pessoal. O que cresceu ouvindo que acredita que desta vez conseguiu transparecer?

Lara Aufranc: “Quando eu tinha 12 anos passei por um problema de saúde, e o gesto mais amoroso que recebi veio com a música. Meu melhor amigo foi me visitar no hospital e levou umas fitas dos Beatles. A gente conversava muito mas naquele dia ficamos em silêncio, ouvindo. 

Eu não ouvia rádio, nem assistia MTV, sempre tive um lance de pesquisa, de ouvir uma coisas que ninguém conhecia, descobrir os lados B. Foi assim que eu cai no jazz e o no blues – queria entender o que veio antes do rock. Então, quando Lara e os Ultraleves começou, a ideia era seguir nesse caminho. Só depois é que eu percebi que ficar num gênero nãé pra mim, eu preciso de liberdade pra criar. 

Nos ensaios pra gravar o “Passagem” os meninos da banda falavam que não conseguiam entender como seria esse disco porque as músicas eram tão diferentes uma da outra. Eu lembrei do disco branco do Caetano – que tem rock, tango, samba e mpb – e tive a certeza de que estava no caminho certo.”

[Hits Perdidos] A relação com o cotidiano, a vida agitada das grandes cidades e os movimentos sociais dão força ao discurso. Quão sufocante é para você o agito de uma grande metrópole e o que mais te indigna nos tempos que estamos vivendo?

Lara Aufranc: “São Paulo é uma engrenagem cíclica, um eterno retorno de gente, sonhos, ilusões. E a população crescendo em progressão geométrica. Tem tanta gente – e cada um vivendo no mundo do seu celular – que as pessoas acabam invisíveis umas para as outras, isso é muito duro. 

As coisas que mais me incomodam não são se hoje, são problemas estruturais. Falta educação de qualidade, acesso a cultura, direitos e oportunidades para todos. Vivemos numa sociedade extremamente classista, marcada pela escravidão, mas sob um discurso de crescimento econômico e meritocracia.”

[Hits Perdidos] A faixa título “Passagem” ganhou um clipe em p/b com o movimento da cidade e apenas uma pintura azul em seu rosto. Conte um pouco sobre o clipe e o porque do “Azul” estar tão em evidência neste detalhe e na capa do disco. Algum motivo especial ou mensagem que queria transmitir?

Lara Aufranc: “Eu sou muito ligada em artes plásticas, e quando percebi que não precisava usar roupa, sapato e maquiagem de mulher, enxerguei a maquiagem como uma pintura – sem a intenção de embelezar, mas com toda liberdade criativa. Liguei pro Renan, maquiador, e entramos nessa viagem, de criar um elemento gráfico, estético, libertário. 

Eu já tinha usado a maquiagem azul numa sessão se fotos quando encontrei com o Freddy, diretor do clipe, e começamos a pensar nessa personagem – que tinha algo de marciana-futurista e observadora.

Eu prefiro não dizer qual seria a mensagem, porque isso acaba limitando a interpretação das pessoas. Sabe aquilo de “fui numa exposição e não entendi nadaÉ que tem várias maneiras entender, sentir, cada um desenvolve a sua, não tem uma resposta certa.”

[Hits Perdidos] O disco toca por diversas vezes no posicionamento da mulher. Em “Vem Rodar” e “Duas Mulheres”, isso fica explícito. A primeira fala sobre medo de sair na rua que é uma situação corriqueira que ouvimos relatos todos os dias.

Para você o que é ser mulher em 2017 e quais os maiores medos e desafios do dia-a-dia? O que acredita que ainda precisa se transformar em nossa sociedade?

Lara Aufranc: “É melhor ser mulher em 2017 do que era há 20, 30, 50 anos atrás. Muito melhor do que há um século. Mas ainda tem muito trabalho pela frente. Recentemente, um juiz de Guarulhos absolveu o pai de uma menina de 13 anos da acusação de lesão corporal – ele espancou a filha com um fio elétrico porque ela perdeu a virgindade. O juiz considerou que foi um ato corretivo e que o pai dispõe desse direito para educar seus filhos.

Essa é apenas umas das muitas histórias de violência que acontecem no cotidiano das mulheres. Se a PEC 181 for aprovada, o aborto em caso de estupro será proibido. Responsabilizar as mulheres por crimes cometidos contra elas é uma violência sem tamanho. 

Isso sem falar nos salários mais baixos e na pressão social para que a mulher seja tudo ao mesmo tempo: uma excelente mãe, esposa, profissional, que tem o corpo perfeito e é sempre jovem. É muito cruel.”


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“Duas Mulheres” e “Vem Rodar” soam como gritos feministas. – Foto: José de Holanda

[Hits Perdidos] No outro disco temos canções em inglês, português e em francês. Neste segundo você presta uma homenagem a sua família em “Llena de Agua”. Porque a escolha da canção para fechar a obra? E quão sentimental foi gravá-la?

Lara Aufranc: “Gravar músicas em português nesse disco foi uma escolha consciente. Eu cheguei a compor uma música simpática em inglês, com uma pegada Velvet Undergroud, mas optei por não gravá-la desta vez. Eu precisava explorar o meu lado letrista e vinha gostando do retorno do público.

“Llena de Agua” foi a última música a ser gravada, quase uma faixa bônus. Eu já tinha feito ela ao vivo e foi muito forte. Cantando à capela, sem microfone. Gravá-la foi uma espécie de encontro com a ancestralidade, uma lembrança de um outro ritmo, guiado pelo sol. 

Passei boas horas da minha infância com os meus avós argentinos. Minha família era do interior e meu avô só ouvia música folclórica. Essa música me chegou de um jeito viceral e religioso, no sentido de se encontrar com algo mais profundo.”

Show de Lançamento

Na sexta-feira (8/12) às 21 horas no palco do teatro do Sesc Bom Retiro, Lara Aufranc fará o show de lançamento de seu segundo disco.

O espetáculo contará com participações especiais de artistas do calibre de Letrux e Thiago Pethit. Letrux que lançou o explosivo – e ótimo – Letrux em Noite de Climão em Julho. Os ingressos custam de R$ 6 à R$ 20.


SHOW

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