[Premiere] Vinikov encarna personagem “borracho” e cambaleante em “Babyloneliness”

O trabalho de adentrar em um personagem e viver suas dores, encantos, defeitos, sensações, amores, medos, transtornos e transformações faz parte do trabalho de um ator.

Muitas vezes também esse discurso ganha o campo de outro universo, o da música. Se lembrarmos da lenda David Bowie – que ontem (14/11) teve seu segundo álbum Space Oddity completando 48 anos – podemos ver como ele incorporou a cada fase uma persona diferente.

Ziggy Stardust, Thin White Duke, Major Tom, Aladdin Sane, Halloween Jack e Pierrot foram personas distintas e com todo um rico universo em volta que ele escolheu para contar suas histórias e epopeias musicais. Fato é que o recurso que vem da literatura, teatro e cinema acaba por cruzar na música através dos mais distintos alter egos do ser humano.

Hoje faremos a PREMIERE de um disco de um músico mineiro, ele que também usa e abusa do recurso das personas. Desta vez o cenário é Belo Horizonte, terra dos bares, da aguardente, e celeiro de ótimas bandas.

Por conta de seu contexto o personagem é boêmio, lírico e às vezes sombrio. A sua relação com a cidade também é um tanto quanto ímpar já que se sente só, tem relacionamentos turbulentos e desemboca noite adentro na agitada vida noturna da capital mineira.

Borracho e cambaleante ele se vê perdido pelo ar hostil da cidade. Seu temperamento parece até bipolar dentro da narrativa do disco. Ele que flutua entre a frieza, a paixão desenfreada, o rancor do Thin White Duke e seu destempero – e descontrole. Auto-crítico feito um virginiano ele chega a ser quase uma caricatura de si mesmo.


Foto 1 - Créditos de Claudão Pilha
Vinikov faz a Premiere de seu primeiro disco solo, Babyloneliness, hoje no Hits Perdidos. – Foto Por: Claudão Pilha

Babyloneliness é o nome da primeira empreitada solo do músico Vinikov (Vinícius de Morais do Espírito Santo,). Ele que tem uma respeitável trajetória no cenário mineiro nos últimos 10 anos. Sendo baixista e compositor no The Dead Lover’s Twisted Heart e mais recentemente integrando o grupo de garage punk, The Dead Pixels.

Discos solos costumam vir normalmente de fases mais maduras de um compositor. Onde acaba trilhando caminhos criativos que geralmente não se adequam muito a proposta de seus projetos. Os primeiros rascunhos deste álbum vieram lá em 2010 quando Vinícius estava a todo vapor ouvindo muito os clássicos de Arnaldo Baptista (Loki e Singing Alone). Na época até chegou a montar uma banda para tocá-las, o Vermouth Hangover.

Com o passar dos anos a ideia foi amadurecendo e o álbum mais confessional e reflexivo foi ganhando forma. A experimentação dos recursos e sonoridades também ganharam novas camadas devido ao trabalho ter sido realizado em seu próprio estúdio, o Minotauro.

VinikovBabyloneliness (15/11/2017)

O primeiro registro solo do compositor foi gravado e produzido por Vinikov e Pedro Fontenelle e mescla canções em português e inglês. As influências citadas pelo músico são artistas do calibre de Velvet Underground, Serge Gainsbourg, Arnaldo Baptista, Arthur H, Tom Waits dentre outros. O que faz com que nossa expectativa se eleve lá em cima antes de ouvir.

Como já citado antes a gravação e produção foram feitas em seu estúdio próprio, Estúdio Minotauro, este localizado no bairro de Santo Antônio em Belo Horizonte (MG).

Algo a se ressaltar dentro da narrativa é sua característica não linear que o músico faz questão de citar: “Cada fragmento, ou canção, é uma peça que funciona isoladamente, porém, por uma afinidade poética e temática das letras, compõem em conjunto numa espécie de  mosaico não linear”



O debut reúne 8 canções e se inicia logo de cara com um olá colérico em “Hi There”. Esta que já começa com uma narrativa de coração partido. Com versos como de uma garota que está apaixonado ter se mudado para Londres e ter passado de propósito seu endereço errado. Tudo já culmina de cara na bebedeira – e uma garrafa de Whiskey se vai.

Seu instrumental remete ao lado burlesco de artistas como Serge Gainsbourg e Arcade Fire. O lado canastrão, irônico e seco tem um pouco da personalidade emprestada de Lou Reed e isso é sentido a cada estrofe da canção que tem um tom teatral.

A jovem guarda, Erasmo Carlos, Arnaldo Baptista, Walter Franco e outros artistas são sentidos na densa e arrependida “Lembra”. Essa que em seu instrumental opta por arranjos mais delicados no piano e guitarras. Os solos setentistas nos lembram artistas como Nick Drake, Jeff Buckley, Elliott Smith e Beatles.

Um fato é a saudade e desilusão vão eclodindo feito uma queda que vai sendo contada de maneira progressiva na canção. É uma história com começo, meio e fim. A “pancada”, desilusão, lamento e solidão.

“Burn” já traz uma levada um pouco mais proto/punk rocker 77 feito uma canção do The Ruts, The Jam ou Clash. A paixão ardente – e proibida – é narrada de maneira forte e errante. Claro que a montanha russa de emoções tem seu looping e seu castelo cede, desta forma ele diz com rancor que vai queimar os planos da amada.

“Lunaparques” é uma faixa que se destaca por alguns fatos. A parte narrativa da faixa é uma adaptação de um poema que está em um livro de autoria de Vinícius, Schzoscópio (2014).

O livro foi lançado pela editora Aletria e saiu em coletânea com  o título de Coleção Vagabundos Iluminados. Trata-se de 6 amigos que tem em comum o gosto pela escrita literária e que compartilharam diversas viagens reais e imaginárias durante a juventude, o fruto dessas experiências culminou em 2 publicações: O primeiro livro “Exemplar Disponível ao Roubo” escrito coletivamente e publicado em 2010 e a coletânea “Vagabundos Iluminados” em que os 6 autores lançam seus próprios trabalhos em uma coletânea de livros.

Mas voltando a “Lunaparques”, ela também ganhou um videoclipe este que foi dirigido pelo cineasta – e músico – Dellani Lima (Madame Rrose Seélavy / TucA). O clipe conta com a participção de Patrícia Rezende, amiga de longa data de Vinikov.



A faixa começa com uma experimentação em que flerta com o tango argentino. Patrícia Resende colabora nos vocais dando ainda mais densidade e força para a canção, estabelecendo assim um diálogo com o músico. A canção ainda usufrui do recurso dos teclados que dão ainda mais contornos imersivos a melancólica noite retratada.

O lado confessional alá Elvis Costello se manifesta na doce e delicada, “Anything from You”. Essa que carrega as dores – e tormentas – do personagem que reluta contra suas fraquezas e desistências. Claro que o bar é o destino final da plataforma.

A literatura ganha corpo mais uma vez em “Objeto”. Que é em si uma adaptação musical de um poema de Paulo Leminski. A convergência entre artes é mesmo uma das técnicas marcantes de seu lado como compositor neste trabalho. Para interpretar, ele tenta passar o sofrimento daqueles versos com riffs mais frios.

Iggy Pop ganha cena em “Can’t Stop Wondering” muito disso pelo tom que ele escolhe para cantar. Em sua sonoridade temos um pouco desta fase post-punk da carreira do eterno Stooge. Esta que foi produzida por outro artista que já falamos no texto, David Bowie.

A sensação de culpa, desequilíbrio e perdição são os caminhos da faixa que faz reflexões pessoais e traz definitivamente o lado sombrio para o disco. O caminhar sozinho pelos becos e ruas em busca de uma “salvação”. Estando à margem da violência e dos conflitos de uma hostil cidade prestes a explodir.

O lado mais folk/blues de Tom Waits transparece em “Caso Perdido”. Ela que mescla também o tom milongueiro, o jazz e a narrativa alá os vocais do sambista Noriel Vilela. A ressaca, os amores e sua trajetória “bandida” – e alcoólatra – das noites de uma metrópole é escancarada. A canção de certa forma resume os percalços e tropeços de um bon vivant que se joga na noite em busca dos prazeres mais sórdidos e intensos.

A influência de Velvet Underground e Buzzcocks é sentida na canção que tem a missão de fechar o disco, “Tell Me So Long”. Estar exausto, desequilibrado e os descompassos dos encontros e desencontros da vida são dissecados na faixa. Uma música sobre tentar levantar a cabeça para colocar os sentidos – e a cabeça – no lugar. As guitarras tristes desconcertantes carregam lapsos de Stiv Bators e Johnny Thunders.


Capa do disco


O primeiro álbum de Vinikov é uma colcha de retalhos de um personagem que vive tudo de maneira bastante intensa e sem medo das dolorosas consequências. O cenário poderia ser Belo Horizonte, Londres ou Nova Iorque na década de 70 que conseguiria expressar: sua insanidade, bebedeiras, conflitos, romances intensos e o (eterno) sentimento de culpa.

A musicalidade de “Babyloneliness” passa por uma gama de estilos interessantes, do proto punk passando pelo folk, psicodelia, blues, jazz e música brasileira. Há espaço para o deboche, para a auto-crítica, o destempero, a tragédia, o marasmo e os medos de viver em uma grande cidade hostil para quem abre seu coração e deixa sangrar.

Show de Lançamento

O show de lançamento do disco Babyloneliness será realizado no noite desta sexta-feira (17) na A’Obra (Rua Rio Grande do Norte, 1168 – Belo Horizonte / MG). Para mais informações consulte o evento.


Foto 3 - Créditos Claudão Pilha
O show de lançamento acontece nesta sexta-feira (17/11) na A’Obra. – Foto Por: Claudão Pilha
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