[Lançamento] Saturno rege e vence no sétimo álbum do The Cigarettes

Na astrologia 2017 é o ano de Saturno. Em outras palavras o que isso significa? Seria algo como o ano do começo de novos ciclos e das revoluções silenciosas.

Saturno é um planeta que “cobra”, mas ele não chega cobrando e quer que você se transforme tudo da noite para o dia. Muito pelo contrário ele te dá tempo mas uma hora te cerca de uma maneira que você é obrigado a encarar sua “nova realidade”.

Por outro lado sabemos como o medo por mudanças apavora o ser humano que tem atração pela estabilidade e rotina. Até por isso muitas vezes é um processo traumático e doloroso. Mas nem sempre o triste não pode ser transformado em feliz.

Na início da década de 90 tivemos aqui no Brasil uma forte leva de guitar bands que influenciadas pelo que vinha se desenhando musicalmente no Reino Unido trouxeram a distorção e o espírito de gravar em qualidade lo-fi para cá.

Mais de 20 anos depois podemos observar o legado ainda com força com grupos como Loomer, Lava Divers e Miêta lançando ótimos discos neste fim de ano. Sempre contra a maré o estilo que traz emoções a flor da pele sempre teve como marca sua intensidade.

Esse misto de intensidade e de focar energia no que realmente nos faz bem é o espírito do sétimo álbum do The Cigarettes. Projeto que é comandado por Marcelo Collares desde 1994 quando o fluminense de Itaperuna mudou-se para a capital para estudar.

Com um momento criativamente propício para o cenário shoegazer com nomes como Second Come e PELVs ganhando destaque sua primeira fita demo (Foolish Things and Blah Blah Blah) foi parar na mão de Rodrigo Lariú, do selo Midsummer Madness.

De lá para cá ele nunca mais parou tendo diversos artistas como Dodô Azevedo e Gustavo Seabra (do PELVs), Wilson e Tito (que na época de Brazil’s Sad Samba integravam a banda) e diversos outros tendo colaborado durante a longa trajetória do projeto. Sendo assim não gostando de rotular o The Cigarettes como uma one-man-band.


CIGARETTES
Na última sexta-feira The Cigarettes lançou seu sétimo álbum de estúdio, Saturno Wins através do selo Pug Records. – Foto: Eugenio Vieira

Na última sexta-feira (10/11) foi lançado o sétimo álbum do The Cigarettes. Este que é tão regido pela energia cósmica e transformadora de Saturno que não poderia ter outro nome: Saturno Wins.

Por mais que para muitos talvez essa insana dor pode ser um fator de destruição, sob uma visão mais otimista seria como: destruir para recriar. E o que um artista sempre precisa para se manter vivo é um pouco disso, não?

Em “Sob o Signo de Saturno”, a ensaísta norte-americana Susan Sontag apresenta um retrato superficial do filósofo judeu alemão Walter Benjamin:

“Era o que os franceses chamam um triste. Na juventude, parecia marcado por uma “profunda tristeza”, escreveu Scholem. Considerava-se um indivíduo melancólico, desdenhando os modernos rótulos psicológicos, e invocava a astrologia tradicional: ‘Nasci sob o signo de Saturno o astro de revolução mais lenta, o planeta dos desvios e das dilações…’.”

Saturno Wins chega com mais um outro detalhe: é o sétimo álbum do projeto. O número 7 também é muito forte dentro de outra ciência, a numerologia.

“O 7 é o número sagrado e mágico que rege os mistérios ocultos, as cerimônias religiosas e também a clarividência. Número místico por excelência, o 7 tem sido considerado como um número de poder por quase todos os cultos e tradições.”

Todos esses elementos culminam na força que o universo evoca sobre este momento. O disco se liberta das dores para encontrar sua felicidade. Por mais que para um ouvido menos prestativo e querendo julgar um livro pela capa ouça as melodias e encontre uma Infinite Sadness esse que inclusive é parte do título do terceiro disco dos Smashing Pumpkins, Mellon Collie and the Infinite Sadness.

The CigarettesSaturno Wins (10/11/2017)

O álbum que passeia pelos acordes melódicos do folk, flerta com obras de artistas como Elliott Smith, Neutral Milk Hotel e Spiritualized. Carrega guitarras cirúrgicas em certos pontos, tem uma energia serena e contemplativa. O trabalho sai pelo selo mineiro Pug Records, com produção de Bruna Buzollo e mixagem de Eduardo Ramos.

O espírito colaborativo que sempre existiu no projeto também aparece neste registro que conta com duas faixas em português. Uma delas composta pela cantautora Laura Wrona, “Comunhão de Bens”.

Não é a primeira vez que isso acontece. Marcelo já havia gravado anteriormente “Mantra da Espera” da compositora. Este presente em The Waste Land (2015).



Feito um dia de outono o disco se inicia com “Lurking in the Shadows”, uma melancólica faixa que traz das trevas seu conforto. Com o peito cheio de dor por um hopeless love ele transforma uma canção com um tema de fim de ciclo em algo belo com a mesma força que Daniel Johnston teve para compor “True Love Will Find You In The End”.

A melodia da segunda faixa me lembrou o Hit do eterno vocalista do The Modern Lovers, Jonathan Richman, “Summer Feeling”. A razão do legado que deixaremos para este mundo é o tema central de “Fast Line” que mostra um indivíduo já na casa dos 60 olhando para trás em busca de algo significativo que tenha feito na vida. Feito uma ampulheta o tempo se esvai e o grande conselho é justamente: não deixe para fazer amanhã o que poderia fazer hoje. Saturno se manifesta pela primeira vez e cobra de maneira sorrateira – mas dura.

“The Lights” é uma canção que já tinha saído previamente este ano em um EP de mesmo nome. Este que antecedeu o álbum. Dessa vez Marcelo pega a guitarra pela primeira vez no disco e traz uma atmosfera dark feito as composições de Ian McCulloch.

Essa faixa que critica a correria desenfreada do nosso dia-a-dia – e o falso conforto que ela nos dá. A autocrítica por outro lado vai te matando ao mesmo tempo em forma de doenças psicológicas como a depressão e a ansiedade. “The Lights” põe o foco nessas dores.

Os sintetizadores de “When I See You Again” poderiam até compor a trilha de Stranger Things. A tristeza e a esperança presente nas composições do Big Star transparece nesta faixa. É o hino por resistir a aquele amor que já passou mas ainda dói. A ilusão da luz do fim do túnel.

As guitarras lo-fi voltam a reverberar em “Unseen” com um riff de guitarra catchy e característico que consagrou guitarristas como J Mascis. O trajetória do amor impossível se extende nesta canção porém desta vez ele parece estar tomando coragem para agir. Saturno mais uma vez age para que o tempo não continue passando e cobra por atitudes.

A ficção e o surrealismo, feito um filme de Buñuel traz recortes em “Boudoir”. Em português talvez uma das inspirações para a canção foi o filme Os Amantes do Café Flore (2006) que retrata retrata a relação amorosa e erótica de Simone Beauvoir com o teórico existencialista Jean Paul-Sartre. De certa forma o fim do romance tão lamentado no álbum parece estar próximo.

“queria namorar Simone de Beauvoir
viver como ela e Sartre
num eterno filme noir

não vou te procurar
não vou pensar em você mais não
eu já te esqueci
são só uns versos na mão

quando se diz adeus não há mais o que chorar
quando se diz adeus só o tempo pra curar” – “Boudoir” – The Cigarettes

Claro que esse conflito interno não ia se encerrar tão cedo. “Lonely Sad and Blue” mostra como essa natureza do dizer algo para o universo e sentir o oposto é algo completamente humano – e passível de erro. Essa canção que conta com vocais femininos nos backin vocals me lembrou o recurso bastante utilizado por Jason Pierce no Spiritualized.

A maneira de construir canções do mestre Lou Reed se traduz nos versos e maneira de cantar de Marcelo em “Jewish Tale”. A canção tem mensagem dura por mais otimista que seja: o eterno aprendizado diário de “aprender a viver” e seus percalços.

A bomba relógio da eterna dor explode em “Sunflower” essa que dói do começo ao fim. Quando pensa na musa o dia parece soar mais colorido mas quando cai na dura realidade: a dor soa eterna e o curativo parar ser apenas algo temporário. A necessidade de se desvencilhar dos rastros e sonhos que o levam a refletir sobre esse “amor impossível” parecem ser urgentes para que nosso personagem não se afogue em lágrimas.

Como dito anteriormente o disco se encerra com “Comunhão de Bens” de Laura Wrona. Essa que destoa do resto de Saturno Wins já que tem uma levada MPB. Dentro da ideia e concepção de eterna dor e esperança por dias ao lado de seu amor, a canção se conecta a obra. Uma faixa repleta de “medos” de quem já cansou de pisar em ovos.


capa THE CIGARETTES Saturno Wins


Saturno Wins, sétimo disco da trajetória do The Cigarettes, ao mesmo tempo que traz melancolia tem esperança. Fala sobre a dor de um terrível fim de relacionamento e aquele ciclo eterno de desilusão, tristeza e medo do futuro.

Porém Marcelo Colares consegue transformar tudo isso em belas e otimistas melodias que podem servir como uma boa trilha sonora para a leitura de um romance em um dia nublado e contemplativo. Sem esquecer das guitar bands, o disco flerta com o folk, a mpb e traz traços de grandes compositores do rock alternativo a cada uma de suas 10 faixas. Este que é regido por Saturno e todo seu poder de cobrar lentamente. Então ouça o disco com calma e se atente aos detalhes.

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